As Minhas Leituras – Bran Morrighan https://branmorrighan.com Literatura, Leitura, Música e Quotidiano Sat, 06 Sep 2025 12:45:15 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 https://branmorrighan.com/wp-content/uploads/2020/12/cropped-Preto-32x32.png As Minhas Leituras – Bran Morrighan https://branmorrighan.com 32 32 [Opinião] Siddhartha, Hermann Hesse https://branmorrighan.com/2025/09/opiniao-siddhartha-hermann-hesse.html https://branmorrighan.com/2025/09/opiniao-siddhartha-hermann-hesse.html#respond Sat, 06 Sep 2025 12:45:13 +0000 https://branmorrighan.com/?p=25589

Siddhartha
Hermann Hesse

Editora: Pushkin Press

Nunca vos escrevi sobre a livraria Libreria (vamos deixar isso para outro post), mas sempre que lá vou é difícil não comprar um livro novo. É um dos meus espaços seguros em Londres, com a sua própria selecção de livros que vendem, e foi lá que encontrei Siddhartha, nesta belíssima edição gráfica. Talvez devesse ter vergonha de nunca antes ter lido Hermann Hesse, mas a verdade é que esta foi a minha estreia na sua literatura. Não costumava eu defender que cada livro nos escolhe na devida altura? Pois essa teoria não mudou.

Siddhartha é um dos livros mais ancestrais e mais actuais de sempre. A dicotomia entre esse uma narrativa antiga e ainda assim ser algo tão intemporal, na verdade provocou em mim um sentimento de paz: que no fundo, tal como nos é transmitido a certa altura na leitura, todos somos feitos do mesmo e a nossa origem não é mais do que um momento no tempo, a transição de algo que um dia tomou uma forma completamente diferente. A pedra que foi animal, o animal que foi estrela, a estrela que se tornou parte de um humano.

Foi então impossível não ligar esta leitura ao caminho que percorro no yoga. Siddhartha vem como um lembrete gentil de todas as lições que vamos aprendendo ao longo do nosso percurso como yogi. O início de Siddhartha não é evidente. Quando partilhei que iria começar esta leitura, duas pessoas que me são especiais disseram-me que Siddhartha era um dos seus livros preferidos. Que volta e meia voltam à sua leitura. No entanto, o curioso é que ao início não me prendeu muito. Não considero que seja um início lento, mas o desenvolvimento da empatia e da ligação com Siddhartha tomou o seu tempo a desenvolver.

Na verdade, a minha experiência de leitura com este livro, ecoou muito do caminho que às vezes é desenvolver uma ligação com uma outra pessoa, sendo que na verdade é um caminho para nos encontrarmos a nós mesmos. Acho que uma das mensagens com que mais me identifiquei, é que conhecimento é possível transmitir, mas sabedoria não. Sabedoria só nasce da experiência, visceralmente, da tentativa e erro, de nos perdermos e termos a modéstia suficiente para o reconhecermos e procurarmos a verdade em nós mesmos.

O que tem o seu aspecto frustrante: se vemos alguém que parece perdido na sua missão (como tantas vezes Govinda achou que Siddhartha estava), não temos o impulso imediato de tentarmos ensinar, aconselhar, guiar? Vasudeva mostra-nos na verdade outra forma de o fazer. Este personagem mostra-nos o poder de ouvir e de apenas redireccionar quem amamos para que ouçam algo que vai para além da forma física.

Não vou comentar todo o trajecto de Siddhartha, deixo isso para o leitor explorar e ter a liberdade de se identificar com aquilo que lhe servir, e só reconhecer o que não lhe servir. Porém, sou da opinião que abraçar o ciclo e a mensagem completa deste livro requer um poder de auto-reflexão grande. Exige que entremos em contacto com as nossas emoções e que nos permitamos ouvir no silêncio do universo. Só assim evitamos precisar de toda uma vida de apegos e desapegos para percebermos o quão transitório tudo é, sentindo então liberação.

The river laughed. Yes, that was how it was. Everything that was not suffered to the end and finally concluded, recurred, and the same sorrows were undergone.

E é nesse reconhecimento que está a dádiva: encontrar a liberdade de não viver no passado, nem antecipar o futuro, mas simplesmente aceitar que fazemos parte do todo.

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[Opinião] Nocturnes, Kazuo Ishiguro https://branmorrighan.com/2024/04/opiniao-nocturnes-kazuo-ishiguro.html https://branmorrighan.com/2024/04/opiniao-nocturnes-kazuo-ishiguro.html#respond Sat, 06 Apr 2024 12:36:39 +0000 https://branmorrighan.com/?p=25518

Nocturnes
Kazuo Ishiguro

Editora: Faber & Faber

Nocturnes foi a minha estreia a ler o prémio nobel Kazuo Ishiguro. Um risco em duas vertentes: já não lia um livro de contos há bastante tempo (anos) e não sei se um livro de contos é a melhor entrada para conhecer o universo de um Prémio Nobel, mais conhecido pelo seu romance The Remains of the Day. Este foi também o seu primeiro livro de contos, após seis romances publicados. No entanto, numa das minhas viagem no início deste ano, enquanto esperava pelo meu vôo no aeroporto, vi o Nocturnes em destaque e quando reparei que eram contos envolvendo música, Itália e Inglaterra, pensei — “Porque não?”.

Estes cinco contos são caracterizados por apresentarem histórias atípicas, personagens que vivem num tumulto interior, enredos insólitos e uma aura a roçar um pouco o lunático. Talvez devido a essa combinação de elementos tão atípicos, mas ao mesmo tempo tão humanos, embora tenha achado alguns dos contos algo inesperados na sua loucura, também fiquei curiosa sobre que fim é que estes pequenos contos teriam. E se existe um tema comum a todos eles, é uma espécie de desencantamento profundo pela vida e pelo amor, aos mesmo tempo que os personagens tentam resgatar esse encantamento através de atitudes e decisões a roçar o absurdo.

Apesar de cada conto quase merecer ser um romance por si só, a verdade é que este registo breve, onde muito fica no ar, onde tanto é deixado à imaginação do leitor, reflecte na perfeição os encontros casuais que temos nas nossas vidas, as informações parciais e como lidamos com elas, as expectativas que nunca saberemos se se irão concretizar ou não. Temos desde actos de amor desesperado a uma resignação profunda de que as nossas emoções são tão transitórias como uma estadia num hotel ou uma viagem às montanhas.

A música, nas suas mais variadas formas — de serenatas, concertos em piazzas, a vinis em pano de fundo ou apenas um sonho pelo qual se está disposto a desfigurar-se a si mesmo (!!!!) — liga os pontos que ficam no ar. Uma espécie de homenagem a uma arte que tem tanto o poder de nos resgatar quanto de nos enfeitiçar com esperanças e sonhos.

Fica a curiosidade de agora ler um romance do autor. Se recomendo Nocturnes? Diria que acho necessário ter uma ligação com a música para além do ouvinte ocasional e estar aberto a uma viagem que nem sempre fará o maior dos sentidos e que beneficiará da nossa compreensão e quase perdão nos momentos mais absurdos. Ainda assim, uma leitura que desfrutei.

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[Opinião] A Boa Sorte, de Rosa Montero https://branmorrighan.com/2022/10/opiniao-a-boa-sorte-de-rosa-montero.html https://branmorrighan.com/2022/10/opiniao-a-boa-sorte-de-rosa-montero.html#respond Sun, 09 Oct 2022 18:19:27 +0000 https://branmorrighan.com/?p=25407
A Boa Sorte

A Boa Sorte
Rosa Montero

Porto Editora

Porque a beleza ajuda a sarar a dor do mundo. Esta é uma das últimas passagens do livro, e tão bem que o resume. Mais do que sobre beleza e dor, A Boa Sorte é um romance cuja dicotomia, entre o bem e o mal, é a verdadeira protagonista.

Ao conhecermos Pablo, o personagem principal, conhecemos as vísceras da mente humana. É como que se através da sua história nos servíssemos dela para fazer paralelos em que as nossas reacções se assemelham, procurando algum refúgio na solidão dos nossos pensamentos. Para nos ajudar nessa viagem, temos Raluca, uma personagem que simboliza o extraordinário que é manter a alegria de viver após uma vida de trauma, a começar pela sua infância.

Confesso que nem sempre achei o livro ligeiro de se ler. Depois de já ter livro outros livros de Rosa Montero, A Boa Sorte, surgiu-me de início como algo que eu não compreendia bem. Misterioso, sim. Intrigante, sem dúvida. Porém, talvez tenha sido impaciente em querer perceber que trama rodeava Pablo. Se por um lado estava curiosa com aquele homem que a caminho de uma conferência decide sair numa paragem, voltar atrás para um piadeiro completamente escabroso, comprar um apartamento e ali ficar no meio da sujidade… Por outro senti falta de um diálogo interior que nos mostrasse um pouco mais.

Rosa Montero é uma escritora de pormenores e estes saltam à vida. Os personagens que rodeiam Pablo e Raluca são incarnações tão humanas de contrastes entre a avareza e a bondade, a violência surda e a velhice impotente. Há coisas difíceis de aceitar ao longo de A Boa Sorte. Temos descrições de relações familiares falhadas, de amor que deveria ser visceral, inexistente, de maldade patológica e da surpresa da ausência de carinho quando talvez fosse a reacção natural.

Ainda assim, há quem considere este livro uma história de amor. Penso que sim, que talvez o seja. Mais do que isso, penso que é um livro que despe a psique humana, expondo a necessidade que temos de amar e sermos amados, com tudo o que não conseguimos controlar pelo meio. Com mais ou menos suspense pelo meio, é este o percurso que vamos fazendo.

E se há coisa que Rosa Montero conseguiu neste romance foi semear esperança ao longo do mesmo. Nem sempre uma tarefa fácil, quando tudo parece antever um possível fim trágico. No entanto, e talvez por a vida real já poder ser tão trágica, a autora quis-nos deixar de sorriso nos lábios, mostrando um respeito pelo carinho que devemos ter pela vida e pelas segundas e terceiras oportunidades.

Tudo está bem quando acaba bem, e não há melhor consolo que uma boa história de redenção, mesmo que não seja pelo mesmo, mas só como uma tentativa de equilibrar o mal que já paira no mundo e que tantas vezes se aproxima de forma assustadora de nós. A Boa Sorte talvez não fique como uma história memorável, mas sem dúvida ajuda na construção da impressão digital que Rosa Montero deixa nos seus leitores: que o ser humano é imperfeito, complexo, mas ainda assim fascinante.

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[Opinião] A Erva das Noites, de Patrick Modiano https://branmorrighan.com/2022/08/opiniao-a-erva-das-noites-de-patrick-modiano.html https://branmorrighan.com/2022/08/opiniao-a-erva-das-noites-de-patrick-modiano.html#respond Wed, 24 Aug 2022 09:34:28 +0000 https://branmorrighan.com/?p=25384
A Erva das Noites

A Erva das Noites
Patrick Modiano

Porto Editora

Há alguns anos que tenho este livro. Por vezes cheguei a levá-lo em viagens comigo com a intenção de o ler. No entanto, o clichê é verdadeiro e os livros só são lidos quando querem ser lidos. Se forçamos… E ainda não percebi bem se forcei a leitura ou se apenas tive dificuldade em aceitar a personalidade de Jean, o nosso protagonista de A Erva das Noites. Foi a primeira vez que li Patrick Modiano e as referências eram as melhores. Não sei se começar por este pequeno romance em particular foi a melhor escolha, li algures que este livro é melhor compreendido à luz da familiaridade com a sua escrita, mas ainda assim não resisti.

A Erva das Noites, através de apontamentos num caderno preto do protagonista e através dele mesmo, leva-nos a caminhar, literalmente, com Jean por ruas de França, através de um misto entre memórias e estado onírico. Na sua juventude, Jean conheceu um grupo de jovens que habitavam no Hotel Unic, em Montparnasse, e que levavam uma vida de segredos e mistérios, com personalidades um tanto quanto voláteis. Entre esses jovens, encontrava-se Dannie, por quem nunca assume uma paixão, mas a qual se sente pelo deslumbramento e silêncios, por vezes calculados outras vezes ingénuos, descritos na primeira pessoa.

É através da sua relação com Dannie que conhecemos estes outros, os seus comportamentos, e que vamos navegando por uma investigação policial que foi feita aos mesmos ainda durante a sua juventude. Mas os dois grandes pontos centrais nesta walk on memory lane, na minha opinião, são a forma como passados quase cinquenta anos se percepciona o passado e as opções tomadas, e depois a relação com Dannie e o quanto Jean não sabia sobre ela, mas ainda assim transportava consigo um nível de adoração que ainda faz ecos no presente.

Tendo sido a primeira vez que li Patrick Modiano, e dadas algumas expectativas altas, penso que fiquei com a sensação de saber a pouco. Não se trata da qualidade da sua escrita, que realmente tem um tom poético, saudosista, romântico e ao mesmo tempo quase indiferente, como se o distanciamento pudesse ainda magoar, mas sobretudo proteger. Estou convencida que foi a história em si, mais propriamente a relação de Jean com Dannie, que acaba por ser a força motriz do livro. Dito isto, penso que o gosto por esta narrativa será sempre algo muito pessoal. Se a vossa decisão em lê-lo for baseada na qualidade da sua escrita, então sim, vale muito a pena.

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[Opinião] Princípio de Karenina, de Afonso Cruz https://branmorrighan.com/2022/08/opiniao-principio-de-karenina-de-afonso-cruz.html https://branmorrighan.com/2022/08/opiniao-principio-de-karenina-de-afonso-cruz.html#respond Wed, 17 Aug 2022 10:58:25 +0000 https://branmorrighan.com/?p=25374
Princípio de Karenina

Princípio de Karenina
Afonso Cruz

Companhia das Letras

O amor corrige o mundo. Mas será a presença do amor suficiente para corrigir o mundo, ou será necessário uma certa intensidade, uma certa proximidade com o desastre e o desespero, para agir? Princípio de Karenina é o primeiro livro da série Geografias de Afonso Cruz, já publicado em 2018. Há uma série de anos que não escrevo sobre os livros do Afonso. Não que não o leia, porque tenho lido todos, mas porque receio sempre cair nos lugares comuns, de me repetir, de não ter nada de novo para dizer. Li o Princípio de Karenina, pela primeira vez, pouco depois de ter sido publicado. Esta semana, decidi relê-lo.

Acho que nunca me vou cansar de me sentir fascinada com o efeito de reler um livro, constatando que a nossa posição no mundo, o nosso estado de espírito quando lemos um livro, tem um efeito tremendo na forma como o lemos, como o interpretamos. E talvez por Princípio de Karenina evocar precisamente esse sentido de viagem, ao mesmo tempo de imobilização, dei conta de vários efeitos muito subtis que não tinha sentido na primeira leitura.

E o primeiro efeito, e talvez o mais surpreendente para mim, foi a empatia ampliada pelo protagonista. E, talvez, se já leram o livro, vocês vão pensar: como é que é possível? Por tantas razões. Comecemos pelos deimos e phobos, unidades do medo. Apesar do nosso protagonista ter sofrido um condicionamento brutal por parte do pai, estes deimos e phobos não deixam de existir para quem sofre de uma certa ansiedade espacial. A forma como se mede o desconforto e o risco ou a confiança numa determinada acção poderia certamente usar estas medidas.

Enquanto este pai escreve esta carta de amor à sua filha (porque não deixa de ser uma carta de amor), vivemos com ele uma viagem de aproximações e afastamentos, um medo irracional do desconhecido à distância da porta de entrada da casa, que só começa a ser desconstruído quando um agente estrangeiro entra precisamente por aquela mesma porta. Se até então as janelas deviam estar sempre fechadas, há uma janela que se abre e que se torna impossível de fechar. E se por um lado esta janela representa esperança, a mesma não é capaz, com toda a sua luz, de afastar o medo da mudança e o comodismo.

Até ao dia em que contratámos a tua mãe, eu vivia uma rotina amável, a meia-luz, sem sobressaltos, cego às dores alheias. A partir desse instante, a solidez da minha rotina começou a abrir uma brecha por onde entrava luz. A presença dela haveria de perturbar o tédio nosso de cada dia, abrindo uma janela por onde quer que passasse.

Princípio de Karenina é uma ode à fragilidade e à força humana. Dois pesos que se tentam equilibrar de forma constante, mas muitas vezes de forma muito precária. Quem é que termina este livro e não fica a pensar também no Dois Metros e na cegueira (in)consciente? Quantos Dois Metros temos nós nas nossas vidas? Quem é que não fica a pensar na forma cega como às vezes se fica obcecado com um amor para depois, depois de tantos actos potencialmente irreflectidos e irracionais, se aperceber que afinal era algo oco? Também a finitude, a morte, tem um papel importante tanto na nossa coragem como na nossa cobardia.

Mas aliviemos a seriedade deste texto, que já vai longo, e passemos à leveza dos pormenores belíssimos da escrita de Afonso Cruz. É aqui que provavelmente me vou repetir, mas depois de tanto tempo sem o fazer, tenho a certeza que vocês me perdoam. Como já nos foi habituando, também Princípio de Karenina é rico não só em referências literárias (penso que o título fala por si mesmo) como também é encantador na forma como mistura e reinventa conceitos científicos e filosóficos.

Dado que esta obra resulta também de uma viagem do autor ao Vietname e ao Camboja, não será de estranhar a referência à Cochinchina e a forma como o autor entrelaça a forma como usamos a expressão à sua referência espacial. A certa altura do livro, o protagonista tem uma guia turística, a Sun — thank you so much — e eu só me ria a imaginar o próprio autor a interagir com esta pessoa e a trocar aqueles diálogos. E há sempre algo de especial quando sentimos uma experiência real no meio de um romance.

Quando ouvi a palavra Cochinchina, sem me aperceber de que era o amor que eu temia e não o monstro da minha infância, levantei-me e disse gravemente, tal como teria feito o meu pai num a situação idêntica se fosse ameaçado pelo estrangeiro ou pelo amor: fechem as janelas.

No geral, Princípio de Karenina irá tocar cada um de nós nos nossos nervos mais sensíveis. Apesar da minha empatia acrescida pelo protagonista, não posso dizer que seja um personagem fácil de gostar e se talvez nem seja suposto. No entanto, a sua evolução ao longo da estória culmina numa espécie de redenção que atenua as infinitas formas de imperfeição que é a vida humana.

Como esta dissertação já vai mais que longa, deixo uma última referência ao papel da deformidade, da música, de todas as imperfeições que nos acompanham, que nos salvam e nos condenam e como ainda assim está sempre do nosso lado a dúvida sobre se a felicidade é um caminho ou um destino.

É certo que: Existem infinitos lugares para estar errado, apenas um para estar certo, dois e dois tem um resultado correcto e infinitos resultados errados. É assim que funciona a entropia e os copos partidos/inteiros. Existem inúmeras configurações para os cacos de vidros partidos, mas apenas uma para ter o copo original. Todos os quadrados perfeitos, se nos abstrairmos das suas dimensões, são iguais. São as mazelas, as imperfeições, que fazem ‘quadrados’ diferentes, imperfeitos.
Porém, a felicidade não obedece a essas regras. Estar no lugar errado pode ser fonte de felicidade. Matar-me pode ser fonte de felicidade. Não há condições certas para ser feliz. Existem condições propícias para se estar contente, ou momentaneamente feliz, mas não para ser feliz. Todas as disposições de cacos de vidro podem ser modelos de felicidade. Disposições imperfeitas, cada uma à sua maneira, mas felizes, cada uma à sua maneira.

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[Opinião] A Tentação de Sermos Felizes, de Lorenzo Marone https://branmorrighan.com/2022/08/opiniao-a-tentacao-de-sermos-felizes-de-lorenzo-marone.html https://branmorrighan.com/2022/08/opiniao-a-tentacao-de-sermos-felizes-de-lorenzo-marone.html#comments Sun, 14 Aug 2022 10:26:50 +0000 https://branmorrighan.com/?p=25366
A Tentação de Sermos Felizes, de Lorenzo Marone
Porto Editora

A Tentação de Sermos Felizes engana-nos logo pela capa e pelo título. O que é que quero dizer com isto? Quero dizer que, se forem como eu, à primeira vista parece um romance de algibeira e, novamente, se forem como eu, isso pode fazer com que não seja muito atraente à primeira vista. No entanto, este livro foi-me oferecido por uma grande querida amiga minha e isso fez com que pegasse nele mais cedo ou mais tarde. A surpresa boa é que podia ter pegado nele mais cedo!

Este romance é narrado por um idoso, Cesare, de 77 anos que vive agora sozinho num apartamento num prédio habitado por personalidades bastante singulares. A senhora dos gatos, o amigo velhote que já não sai de casa e agora um casal mais jovem cuja relação desperta curiosidade desde o início. Para além disso, tem dois filhos, Sveva e Dante, cujas personalidades são tão distintas e com quem se desleixou durante tanto tempo. A sua rotina diária vê laivos de chama quando interage com Rossana, a sua “enfermeira”. Ao mesmo tempo que o enredo se desenrola no presente, Cesare vai-nos contando sobre três mulheres inacessíveis que ficaram no seu passado.

A Tentação de Sermos Felizes é muito mais do que um romance, é uma dissertação sobre a velhice e a solidão, um relato cru e realista sobre o que as não decisões podem provocar a longo prazo. Também o tema da violência doméstica e do custo do silêncio, mesmo a pedido das vítimas, é brutalmente arrebatador. A homossexualidade dentro da família, os amores não vividos, os filhos a herdarem comportamento dos pais, o preconceito com outras classes sociais e conclusões tiradas antes do tempo, tudo narrado sem falinhas mansas, fazem desta obra e destas personagens uma pequena relíquia.

Lorenzo Marone constrói neste livro uma narrative inteligente, mordaz, sensível e comovente, ao mesmo tempo que nos provoca uma constante reflexão. Enquanto não se vive uma dor na primeira pessoa, não podemos entendê-la. E, no entanto, quantas pessoas usam impropriamente as palavras “como eu te entendo”. Não entendes mesmo a ponta de um corno, meu lindo, era o que devíamos responder-lhes. Sai daqui uma bela recomendação. Quem sabe para o final do vosso Verão. Podem comprar aqui.

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[Opinião] Spark: The Revolutionary New Science of Exercise and the Brain, de John J. Ratey, MD, com Eric Hagerman https://branmorrighan.com/2022/05/opiniao-spark-the-revolutionary-new-science-of-exercise-and-the-brain-de-john-j-ratey-md-com-eric-hagerman.html https://branmorrighan.com/2022/05/opiniao-spark-the-revolutionary-new-science-of-exercise-and-the-brain-de-john-j-ratey-md-com-eric-hagerman.html#respond Sun, 15 May 2022 16:05:55 +0000 https://branmorrighan.com/?p=25268
Spark: The Revolutionary New Science of Exercise and the Brain

Spark: The Revolutionary New Science of Exercise and the Brain

John J. Ratey, MD
Eric Hagerman

Editora: Little, Brown Spark

Desde há uns anos para cá que o meu interesse pela forma como o nosso cérebro funciona tem aumentado exponencialmente. Tudo começou com uma pequena proposta de explorar uns dados de fMRI de pessoas com esquizofrenia, que me deixou com mais perguntas do que respostas. Spark não é sobre esquizofrenia, mas deu-me imensas respostas sobre tantas outras perguntas que já tinha feito, e até algumas em que nunca tinha pensado.

Fazer exercício e praticar desporto é tanto o maior aliado de muitas pessoas como também o grande Adamastor de outras tantas. Já tendo sido atleta de alta competição, lembro-me bastante bem da grande maravilha e adrenalina que era estar em pico de forma. No entanto, três cirurgias depois, também conheço a sensação de só de pensar em fazer exercício e querer ficar ainda mais quieta… Não é fácil começar, mesmo sabendo que a médio-longo prazo vai compensar.

Spark começa com John J. Ratey a contar-nos a história de uma escola americana que não costumava ter grandes resultados académicos até terem começado a abordar a educação física de uma forma diferente. O caso de estudo de Naperville, Illinois, é bem conhecido pelos familiares da área, mas parece-me pouco divulgado pelo mundo. Se correr com regularidade aumenta a capacidade cognitiva e performance escolar, porque é que esta reeducação não está a ser feita pelo mundo inteiro? Mais do que obrigar as crianças a correrem porque sim, porque não educar tanto alunos como professores de que forma é que o exercício físico pode fazer toda a diferente no presente e futuro tanto ao nível dos estudos como de saúde?

O que mais me agrada em Spark é precisamente a forma como está documentado e a sua acessibilidade mesmo para quem possa não ter grandes bases científicas. Começando com este exemplo da escola de Naperville, o autor leva-nos por uma série de capítulos em que aborda o impacto do exercício físico tanto a nível micro como macro. Stress, depressão, doenças neuro-degenerativas, motivação, bem-estar e ansiedade, são apenas alguns dos tópicos referenciados. Mais do que isso, os autores revelam mecanismos e ferramentas para optimizar a prática e os seus benefícios.

E para quem já está a levar as mãos à cabeça, a maior parte dos estudos que destacam os benefícios do exercício físico na saúde física e mental têm como referência caminhadas! E para nos ajudar, referenciam os intervalos do ritmo cardíaco a que devemos chegar e durante quanto tempo. Hoje em dia temos pulseiras e relógios a preços acessíveis que nos permitem rastrear o nosso ritmo cardíaco e a qualidade do sono. Podemos usar essa informação como guia para alterarmos o nosso dia e aumentarmos a nossa qualidade de vida. Não tem tanto a ver com o livro, mas por estas razões recentemente adquiri uma e se quiserem depois posso dar-vos o meu feedback.

Resumindo, a escrita deste livro está no tom certo (li esta versão em inglês, não encontrei tradução em português), a narrativa tem tanto dados científicos como exemplos reais e é impossível chegar ao fim sem pelo menos ficar com o bichinho de nos começarmos a mexer um pouco mais diariamente. Não só porque estarmos fit nos proporciona a oportunidade de nos sentirmos bem e confiantes na nossa pele, como também pelos efeitos a nível de rejuvenescimento e retardamento do envelhecimento a nível celular. Recomendo a leitura!

Outras Leituras

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[Opinião] Anna e o Homem Andorinha, de Gavriel Savit https://branmorrighan.com/2022/04/opiniao-anna-e-o-homem-andorinha-de-gavriel-savit.html https://branmorrighan.com/2022/04/opiniao-anna-e-o-homem-andorinha-de-gavriel-savit.html#respond Sat, 09 Apr 2022 11:54:41 +0000 https://branmorrighan.com/?p=25261
Anna e o Homem Andorinha

Anna e o Homem Andorinha
Gavriel Savit

Editora: Suma de Letras Portugal

Anna e o Homem Andorinha, de Gavriel Savit, foi uma das obras que repesquei enquanto movia os livros para um sítio novo. Lembro-me que quando saiu houve logo imensas opiniões positivas sobre o mesmo, mas entretanto a oportunidade de o ler perdeu-se para agora surgir novamente. Costumo dizer que são os livros que nos escolhem e não o contrário, e talvez influenciada pelos tempos que vivemos, da invasão da Rússia à Ucrânia, senti-me compelida a mergulhar nesta história.

Lida a última página, fiquei cheia de sentimentos mistos. Anna e o Homem Andorinha é passado na Segunda Guerra Mundial, enquanto a Polónia servia de palco de guerra. Entre ursos e leões, alemães e russos, Anna ficou sem o pai e fica praticamente entregue a si mesma até encontrar um completo desconhecido que acaba por cativá-la com uma espécie de fala com uma andorinha. Entre o primeiro momento, ficar sem o pai, e o segundo, encontrar o Homem Andorinha, conhecemos desde logo a capacidade descritiva e intensa da escrita do autor. A nossa protagonista tem apenas sete anos e é impossível ficar indiferente à forma inocente como tenta lidar com os acontecimentos à sua volta.

Com a chegada do Homem Andorinha, uma nova etapa começa. E há algo de profundamente perturbador, mesmo que não evidente, ao longo desta história toda. Anna, sendo filha de um professor, consegue falar várias línguas, tal como o Homem Andorinha. No entanto, para que esta relação funcione é preciso que algo fique claro desde o início — eles têm de se tornar ninguém. Um nome é muito poderoso e dá-lo de graça a alguém pode custar as suas vidas. Ainda para mais se forem judeus.

Enquanto Anna e o Homem Andorinha atravessam o país, às vezes com a sensação de andarem aos círculos, vão encontrando vários intervenientes com os quais muitas vezes têm de negociar certos elementos da sua sobrevivência. Porém, há algo que vai inquietando Anna, o não saber quase nada do Homem Andorinha e os medicamentos que ele toma, religiosamente, três vezes por dia. O percurso de Anna, que se inicia ainda num oceano de inocência e que termina num oceano já desperto para os reais perigos da vida, é descrito pelo autor de forma tão leve como desassossegante.

A evolução intríncada destes dois personagens, com tudo o que lhes vai acontecendo pelo caminho, remete-nos para pensamentos muito pessoais e para momentos de alguma ansiedade. Lembro-me de ler opiniões muito positivas sobre este livro em como a escrita é bela e a inocência retratada. Novamente, talvez por vivermos tempos de guerra, a proeza que o autor conseguiu comigo foi uma sentir uma revolta enorme por tudo aquilo a que os refugiados podem estar sujeitos enquanto fogem de uma guerra na qual perdem o direito da individualidade para se diluírem em qualquer coisa que os salve da brutalidade. E, ainda assim, nada está completamente garantido.

Gavriel Savit tem uma escrita bastante inteligente e até cinematográfica, embora no último quarto da obra me pareça algo perdido no rumo que queria seguir. O livro tem várias transições em termos de momentos na história e aquela última pareceu-me algo apressada. Se por um lado pode ter sido uma opção válida do autor, por outro lado o facto de tantas perguntas ficarem por obter resposta faz com que o final da leitura, na minha opinião, tenha sido algo agridoce. Resumindo, Anna e o Homem Andorinha é uma obra agradável e inquietante que se lê bastante bem num curto espaço de tempo.

Para outras opiniões podem visitar este link: https://branmorrighan.com/etiqueta/as-minhas-leituras

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[Diário de Bordo] Eu e o Livro do (Des)Conforto, de Matt Haig https://branmorrighan.com/2021/09/diario-de-bordo-eu-e-o-livro-do-desconforto-de-matt-haig.html https://branmorrighan.com/2021/09/diario-de-bordo-eu-e-o-livro-do-desconforto-de-matt-haig.html#respond Sat, 25 Sep 2021 18:58:38 +0000 https://branmorrighan.com/?p=25195

Matt Haig tornou-se um autor bestseller com Razões para Viver e O Mundo à Beira de um Ataque de Nervos. Entretanto lançou um romance e mais recentemente a Porto Editora lançou O Livro do Conforto. Este último é um livro dividido em quatro partes, cada uma das partes compostas por textos curtos, poemas, aforismos, citações e reflexões. Decidi criar uma entrada Diário de Bordo em vez de uma entrada de opinião, porque a verdade é que a minha opinião sobre este livro é mesmo muito pessoal.

A Sofia que leu Razões para Viver é uma Sofia um bocadinho diferente desta que agora pegou no Livro do Conforto (os meus dedos teimam em escrever desconforto e depois lá tenho eu de corrigir a tempo…). E digo isto porque a Sofia de hoje, eu mesma, apesar de não ter passado por nenhuma depressão profunda passou pela experiência de ter ataques de pânico de tal forma limitadores que começar a fazer psicoterapia se tornou na melhor decisão de sempre.

Passando agora para a primeira pessoa, acho que a minha dificuldade com este livro tem precisamente a ver com isso, com o facto de na minha experiência pessoal não me identificar com a forma como algumas coisas foram expostas ou abordadas. E porque isto é um dar e receber, quero também relembrar que já antes partilhei aqui parte da minha experiência com Saúde Mental, tópico que é importantíssimo que se fale cada vez mais sem preconceitos.

Também acho crucial fazer este disclaimer – cada experiência é uma experiência e o consolo que funciona para uns não tem de ser o mesmo que funciona para todos os outros. Com isto quero salvaguardar que não desprezo nem desvalorizo a experiência do autor, mas antes que o que ele considera motivacional para mim foi, por vezes, alienador ou redutor. Claro que nem todas as entradas provocaram este efeito. Gostei particularmente das entradas em que Matt Haig foi buscar personagens históricas, filósofos, o imperador Marco Aurélio ou a grandiosa Maya Angelou.

Talvez seja eu a ver uma leveza demasiado grande neste Livro do Conforto para o propósito proposto. Tendo-me já encontrado em situações completamente desconfortáveis, penso ter sentido que não seria a ler este livro que me iria sentir melhor. No entanto, não descarto a hipótese de ser um livro de bolso razoável para volta e meia o consultarmos e nos lembrarmos, então de forma leve, que a vida é mais que o ruído que criamos nas nossas próprias cabeças.

Ou seja, não há nada de errado com o conteúdo deste livro. Talvez seja apenas mais um livro de auto-ajuda, de alguém que realmente já partilhou a sua experiência e de quem sabemos ter legitimidade para expressar o que o ajuda a não estar no escuro. Confesso que talvez a tradução não me ajude a sentir mais empatia. Depois de passar tanto tempo a ler só em inglês, e sabendo as diferenças e o impacto que pode ter na expressão da língua, ler em português não só foi estranho como quase que parece reduzir um bocadinho a importância do conteúdo.

Dito isto, queria partilhar na mesma esta experiência de leitura para que caso um de vocês passe pelo mesmo não se sinta sozinho. Às vezes quando lemos autores bestseller, ainda para mais se gostámos de livros anteriores, existe a pressão de termos de gostar de todos e se dissermos o contrário que vamos parecer esquisitos. Mas hey, se há coisa em que concordo com Matt Haig é que cada um é como cada qual e não lhe tiro mérito nenhum.

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Opinião: Balada para Sophie https://branmorrighan.com/2021/09/opiniao-balada-para-sophie.html https://branmorrighan.com/2021/09/opiniao-balada-para-sophie.html#comments Sat, 11 Sep 2021 20:26:17 +0000 https://branmorrighan.com/?p=25159
Balada para Sophie

Balada para Sophia
Filipe Melo & Juan Cavia

Editora: Companhia das Letras

Opinião: Quem é que decide o que temos ou não direito de fazer? A nós mesmos, ao próximo… Muitas vezes vivemos cada dia como um prolongamento do anterior e em antecipação ao próximo, muitas vezes enfiados nas nossas cabeças, nas nossas ambições, no que achamos urgente atingir, no que achamos que pode ficar para depois. Balada para Sophie é uma espécie de quinta-essência por variadíssimas razões. Muitas delas já foram apontadas noutros textos: Filipe Melo escreveu um argumento sublime, provocando o subconsciente, incandescendo o consciente, tudo envolto numa beleza triste e enternecedora; Juan Cavia na sua arte deu uma vida e um assombro perfeitos a esta dinâmica que flui entre a memória e oblívio.

Honestamente não vou falar sobre os personagens em particular porque já existem vários textos (incluindo a sinopse) que se dobram sobre a análise dos mesmos, e porque o que ainda estou a exorcisar (no bom sentido) é uma sensação de quarto escuro em que nos enfiamos nas nossas lutas interiores e em que a sensação de entitlement e o sentido de obrigação digladiam até nos exaurir, movendo um véu que consegue ser tão ténue.

Confesso, com embaraço, que é a primeira vez que vivo algo composto por Filipe Melo e Juan Cavia. Digo viver em vez de ler porque é uma preciosidade rara encontrar arte e texto conjugados e entrelaçados de forma tão visceral. A experiência tomou de assalto todos os meus sentidos, incluindo os interiores – a dor, a compaixão, a desilusão, o amor, a carência, o arrependimento, a saudade, a esperança e por fim a surpresa, sem ser realmente uma surpresa.

Enquanto estive nos Estados Unidos, antes de a pandemia nos mandar a todos para casa, tive o privilégio de assistir a algumas óperas, incluindo La Traviata (que por alguma razão me veio à cabeça a certa altura). Não sei se vocês já assistiram a alguma ópera, mas para mim é uma experiência incrível. E refiro isto porque quando fechei Balada para Sophie pensei, na minha ignorância sobre a tangibilidade das adaptações, que daria uma das mais belíssimas óperas de sempre. Não um filme, não uma curta, uma ópera com todo o ambiente onírico que esta consegue evocar.

Tendo em conta toda a sua musicalidade e movimento e a composição de Filipe Melo em piano para Balada para Sophie, houve parte de mim que se transportou para uma qualquer sala a projectar a arte gráfica de Juan Cavia animada por figuras de uma performance intensa e hipnotizante. E o fim! O fim deste livro…! A ironia da vida. O universo a manifestar as suas subtilezas mais brutais.

Resumindo e concluindo: sinto que poderia ficar horas a escrever sobre o livro. Sobre os seus pontos de luz e de escuridão, sobre o incrível trabalho gráfico que nos suga e subjuga intensificando as emoções provocadas pela narrativa, sobre a magia que existe à sua volta, incluindo os seus abismos… Existem muitos adjectivos positivos que podem ser atribuídos a Balada para Sophie. No entanto, fundamentalmente considero que este é um livro que coloca a nu o ser humano e a sua complexidade.

Vocês sabem que eu quando gosto mesmo muito de um livro escrevo coisas talvez sem sentido porque ainda sai tudo muito de coração nos dedos. Já passaram duas semanas desde que terminei a leitura de Balada para Sophie, já lhe quis pegar novamente, mas opto por o manter por perto. Não sei se para me recordar, se para me alertar. O que sei é que se junta a A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te e a Nem Todas as Baleias Voam como obras que irei para sempre recomendar.

Dito isto, encontrem Balada para Sophie, comprem/aluguem/o-que-for, percam-se nele. Vale completamente a pena. E, honestamente, vale o dinheiro (comprei o meu, não foi oferecido). Deixo-vos com um vídeo que encontrei de Filipe Melo a tocar o tema que compôs e cujas pautas se encontram no final da obra. Parabéns, Filipe Melo e Juan Cavia, sem dúvida que esta é mais uma obra que vos torna imortais.

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