Ben Monteiro – Bran Morrighan https://branmorrighan.com Literatura, Leitura, Música e Quotidiano Mon, 28 Dec 2020 05:30:02 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 https://branmorrighan.com/wp-content/uploads/2020/12/cropped-Preto-32x32.png Ben Monteiro – Bran Morrighan https://branmorrighan.com 32 32 [Crónica] Depressão, por Ben Monteiro https://branmorrighan.com/2015/12/cronica-depressao-por-ben-monteiro.html https://branmorrighan.com/2015/12/cronica-depressao-por-ben-monteiro.html#respond Fri, 25 Dec 2015 01:19:00 +0000

“Coragem…coragem?

É das palavras que mais tenho escutado no último ano e meio quando o tema é depressão, ou a depressão que atravessei mais em concreto. E digo atravessei sabendo que o pior já passou e meio que em jeito de exercício de fé, sendo que se for totalmente honesto esta é a pior altura do ano para mim. Disse-me o meu psicólogo que a minha depressão era sazonal e que os meses que rondam o final de um ano e princípio de outro são os mais críticos. Bem…coragem!

 Nunca me abstive de falar sobre doença mental, e ocasiões não faltaram. Diz a minha manager que já corremos a imprensa praticamente toda desde que editámos o nosso disco. Sabendo que é algo pelo qual devo estar grato – e estou – muitas vezes foi um fardo difícil de suportar, este de responder dezenas de vezes às mesmas perguntas tentando fazê-lo de forma inventiva, “bem disposta e fresca”, tal como apelidaram a música que fazemos em D’Alva. Felizmente tinha alguém a meu lado durante todo esse percurso, o Alex, que na melhor ou pior das suas capacidades esteve sempre presente e isso, na maioria das vezes, foi suficiente. Conforme o tempo foi passando, a atenção sobre nós foi redobrando e as perguntas iniciais inundaram a imprensa e a internet, e logo começaram a aparecer outro tipo de perguntas mais pessoais, mais profundas. De repente, as pessoas queriam saber mais sobre nós e um dia saiu da minha boca: “…uma coisa interessante é que quando editámos o nosso disco, 2 meses antes, eu fui diagnosticado com uma depressão séria e ansiedade”. A expressão de desconforto na cara de quem nos entrevistava foi notória. Comecei a ser intencional quanto a falar sobre isso e fui notando a mesma coisa a acontecer sistematicamente, mas o interessante foram as conversas que aconteceram em “off”. Facilmente metade das pessoas que nos entrevistaram já tinham lidado pessoal ou indirectamente com alguma forma de doença do foro psicológico, mas tinham receio em falar e louvavam a minha “coragem”. Afirmo sem qualquer ponta de falsa modéstia que falar sobre isto nunca foi um acto de coragem, foi apenas algo natural, e ainda sinto o mesmo.

Mas afinal de contas o que é ter uma depressão provocada por se sofrer de ansiedade que quase nos leva ao suicídio? É mau, muito mau, mas não é o fim do mundo, como 450 milhões de pessoas por todo o mundo vos poderão dizer! Isto se conseguirem vencer o medo associado ao estigma deste tipo de doença. Agora pensem neste número: 450.000.000 de pessoas…

É muita gente, e sem me querer perder por números que não são o meu forte, Portugal, a seguir à Irlanda do Norte, é o país da Europa com mais casos de doença mental, numa doença que é totalmente transversal, que não escolhe etnia, classe social ou ocupação profissional. Falando de profissões, cerca de 22 das 100 pessoas que fazem o vosso circulo mais fechado de pessoas não conseguem manter um emprego de forma normal por conta desta doença. Este é um dos maiores problemas, a dificuldade em manter um emprego, ou suportar uma família, ou de o fazer a muito custo. Eu próprio já fui dos que pensam que ter uma doença deste foro é ser-se fraco, até que me tocou a mim e percebi de forma flagrante a minha própria fragilidade. 

Perante essa verdade maior, não havia como senão dar-me por derrotado. E fi-lo, sem qualquer problema. Afinal de contas eu lutei com todas as forças que tinha e não fui capaz de hold it all togetherNews flash: Ninguém é, e ninguém é suposto fazê-lo!

Somos seres profundamente comunitários, por muito que tudo o que nos rodeia hoje nos leve ao isolamento, passamos muito tempo perdidos em nós mesmos, a ouvir a nossa música, nos nossos phones, olhos vidrados no Instagram a espreitar os momentos “best of” dos outros, perdendo o que está acontecer à nossa frente… Estamos sós no meio de multidões.

 A grande razão pela qual eu não me posso considerar digno do título de corajoso passa por saber o quanto me custa lidar com as minhas próprias incoerências, os meus deslizes, os meus lapsos. E sim, eu até tenho a desculpa de parte dos meus sintomas serem a ansiedade que se revela em pernas que não conseguem estar paradas quanto estou sentado e que abanam qualquer mesa de café ou jantar, o medo de sair da cama, de sair do quarto, de trabalhar, de sair de casa, ou a irritabilidade que me faz perder a paciência em momentos escolhidos a dedo, em que numa frase meia torta e atabalhoada ( de tão rápida que sai ) ou num qualquer post parvo, destruo em segundos o que a esforço tento reconstruir, passando de brilhante e coitadinho a terrível e odiador. O pior de tudo é que só percebemos estes sintomas quando já é tarde, quando o estrago já foi feito. Falo em plural porque é algo que é de quem me rodeia também, são essas pessoas até que mais sofrem com isso. A seguir vem a frustração, o desanimo, o sentimento de total impotência, de incapacidade de controlar sequer o que se diz, sentindo-nos como aquela pessoa trapalhona que por muito que tente derruba sempre qualquer coisa onde quer que vá, e tem o medo do retrocesso, da recaída.

Estou a aprender a lidar com isso, a aceitar-me e a acreditar que a única coisa que posso fazer é tentar ter mais cuidado com os outros, o que passa por ter mais cuidado comigo, mas confesso ser difícil. A minha recuperação foi fulminante no primeiro ano, mas nos últimos seis meses tem sido duro. Há uma dose grande de normalidade que voltou a fazer parte do meu quotidiano, e para quem convive comigo ou me vê de fora está tudo bem, mas no fundo não está e este “Inimigo invisível” como apelido esta doença, apesar de estar em retirada ainda se encontra presente. Quem assiste de fora não imagina que depois de um fim de semana de concerto de casa cheia e sucesso, passo o que me resta de domingo e normalmente a segunda-feira toda a dormir de cansaço não físico mas mental.  

Quando lhe expressei que ao tentar ler tinha de voltar a re-ler a mesma página vezes sem conta, sentindo-me frustrado e cansado imediatamente, a minha psiquiatra disse-me: “ Imagine a sua mente como uma perna partida, quanto mais a tentar usar sem estar totalmente sarada, só se vai magoar e retardar a recuperação. Se você tivesse uma perna partida não andaria enquanto não estivesse recuperado certo? O problema é que a mente não se vê, não se pode colocar gesso na mente, por isso você precisa de ter cuidado, não se sobrecarregar e ser paciente”.  Uma das razões que me faz continuar a fazer música é justamente por ser uma das coisas que faço mais naturalmente e com menos custo a nível mental…estranho não é? Mas não consigo trabalhar ao ritmo de outrora e tenho noção de que sou privilegiado nesse sentido, grande parte das pessoas afectadas por isto estão a estudar e sua ferramenta principal é a mente. 

O Google não é o melhor local para auto-diagnósticos por isso desconfiei quando gorgolei “depression symptoms”, pois de facto batiam certo e se googlarem vai bater certo, mas atenção! Não confundir um estado ou fase depressiva com uma depressão! Todos passamos por fases assim e é algo perfeitamente normal, mas quando esse estado de espírito não muda ou vai embora ao fim de sensivelmente seis meses, então de facto há razões para alarme. Das primeiras que vos vai apetecer fazer é isolarem-se. Lutem contra isso. Estejam com alguém. Não tenham receio de dizer “Eu penso que tenho um problema”. Para quem está de fora e assiste a alguém atravessar por isto, poupem-se de conselhos se pensam que os têm. Se percebem que não têm não há problema, o estar é suficiente. Não vou descrever todos os sintomas porque não sou terapeuta e uma simples pesquisa no google revela os mesmos. Não duvido que vamos ver cada vez mais casos destes a emergir e é uma questão de tempo até ser incontornável este problema. Vamos acelerar o processo por favor, vamos falar…não precisamos gritar, precisamos apenas falar.

Não quero ser visto como coitado, não quero ser visto como corajoso, não quero ser visto como um exemplo a seguir, quero ser visto pelo que sou apenas: alguém que sofre de algo e que verbaliza o que atravessa. Não há heroísmo nisso, não há nada de extraordinário, há apenas uma voz. E se essa voz parece gritante é apenas pelo contrastante silêncio em torno do assunto. Corajoso é quem comigo atravessa este deserto e me segura a mão quando as pernas tremem, quem me abraça quando preciso, quem pacientemente me atura quando critico tudo e todos a duzentos à hora e disparo em todas as direcções, quando a ansiedade me invade e o coração bate inconsolavelmente, quando as palavras se atropelam e gaguejo, esses sim…corajosos.

Poderia dizer muito mais sobre isto, mas fica quem sabe para outra altura. A quem se revê no que digo, desejo coragem.”

Ben Monteiro

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[Playlist da Quinzena] 16 a 31 de Julho – As Escolhas de Ben Monteiro https://branmorrighan.com/2015/07/playlist-da-quinzena-16-31-de-julho-as.html https://branmorrighan.com/2015/07/playlist-da-quinzena-16-31-de-julho-as.html#respond Thu, 16 Jul 2015 09:48:00 +0000 Fotografia Vera Marmelo

Tal como prometido, o mês de Julho, no que toca à Playlist da Quinzena, está destino a destacar as duas caras principais do projecto D’Alva. O primeiro disco #batequebate está a fazer um ano, o caminho trilhado parece já de um tempo muito maior, mas o que é certo é que a vontade do Ben e do Alex em fazerem ainda mais e melhor está sempre bem presente. Para esta segunda quinzena de Julho, eis que ficamos com as escolhas do Ben que para além de membro dos D’Alva tem um projecto a solo chamado Mount Keeper e ainda tem produzido outros músicos, como o mais recente caso de sucesso – Isaura. É já este Sábado que vão estar a tocar no palco Antena 3 do Super Bock Super Rock e se há coisa que tenho constatado com eles é que, seja em formato completo, seja em redux, dão sempre um concertão e a animação e pé de dança são sempre garantidos. Ainda assim volto a espicaçar a vossa curiosidade e pesquisem pelo projecto a solo do Ben que também vale bem a pena.

1 – Kindness – “House”

 É-me impossível ouvir esta canção e não ficar bem disposto. A maneira como o britânico Adam assume a Pop (um pouco como nós em D’Alva) como género respeitável e o prova em disco é fenomenal. Invejo a sua nacionalidade pelo acesso que tem a ferramentas/instrumentos que aqui em Portugal apenas podemos sonhar ter ao nosso alcance, a não ser em troca de uma pequena fortuna, e a maneira como explora as suas canções e produção é uma lição em Pop. Saber que vou partilhar um cartaz com ele este verão é especial. O video que partilho é diferente, mas justamente a explicação ou defesa de tese de Adam sobre Pop, em 6 minutos super didácticos:

2 – Halfnoise – “Helicopter”

 Um disco inesperado por parte de Zack Farro (ex-baterista do grupo Paramore), que pouco ou nada tem a ver com a musica pela qual ficou conhecido. Um disco que sai no final de 2014 gravado na Nova Zelândia que traz uma pop inesperada, com poli-ritmos acústicos versus electrónicos em cima de atmosferas nórdicas, tudo menos o esperado pelo ex pop-punker de Nashville. Este verão voltei a ouvir o disco e assenta perfeitamente.

3 – Mai Kino – “Burn”

 Não sei muito sobre Mai Kino. Sei que é Portuguesa, que se chama Catarina Moreno e que vive no Reino Unido. Sei também que mal ouvi “Burn” fiquei hipnotizado, e sei ainda que teria todo o gosto em poder trabalhar com ela. Mais não sei!

4 – Isaura – “Change it”

 Esta época do ano está marcada para mim por esta artista e esta canção em particular que tive o prazer de produzir. Provavelmente uma canção para escutar no final do dia quando fazemos a retrospectiva do dia e pensamos no que precisamos re-ajustar e “mudar”. Sou amigo e fã, provavelmente mais do que a Isaura é em potência, pois acredito que o que fez neste curto espaço de tempo é apenas uma amostra do que pode fazer se souber direccionar bem o seu percurso.

É mais uma das novas vozes da Pop nacional, e esse foi o selling point para querer conhecer o seu trabalho e colaborar com ela.

5 – Purity Ring – “Push Pull”

 Ultimamente temos (eu e Alex) descoberto uma atracção por musica algures nas franjas do que é a “EDM” hoje em dia, que cada vez se mistura mais com outros géneros como Hip Hop, Trap, Dance Hall, Dubstep, e há coisas muito interessantes a surgir. O duo canadense não é necessariamente “EDM” mas é com certeza “EM”  num misto de Trap Beats, com songwritting tradicional por parte da vocalista Megan James que tem uma voz tão aguda quanto bela, e que resulta em algo verdadeiramente único. Desde que saiu o seu ultimo disco em fevereiro que nunca sai das minhas playlists. Esta é a minha canção favorita em particular. Provavelmente nunca ouviram falar em Kizomba ou Zouk Bass, mas esta música anda lá perto, e é para mim  interessante sempre que existe uma sobreposição de géneros.

6 – Major Lazer – “Get Free”

 2015 parece ser o ano de Diplo. Em tudo o que tem tocado desde Madona, à K-Pop tem sido hit certeiro. Este ano a canção “Lean On” com a nórdica Mø é o hit do verão. Essa canção mal caiu na web agarrou-me, e neste momento agarra toda a gente, e fez-me re-visitar Major Lazer, e esta é uma das minha favoritas de 2012. Não sou o maior fã de Dance Hall mas a mistura do género com a voz da Amber Coffman dos Dirty Projectors é qualquer coisa de outro planeta. Mais uma vez, quando géneros se cruzam com sucesso, a minha atenção é feita refém.

7 – Jack Ü – “Where Are Ü Now”

 Se alguém me disse-se há um ano atrás que eu estaria a partilhar uma música do Diplo, Skrillex e Justin Bieber no meu mural de FB eu não acreditaria, afinal eu venho do post-hardcore e rock mais alternativo, mas a verdade é que estar em D’Alva abriu bastantes fronteiras pessoais até. Penso que a maneira como as pessoas receberam de forma tão aberta a Pop que oferecemos até a mim influenciou, ao ponto de deixar cair todos os preconceitos em relação à música e qualquer noção de guilty pleasure, e simplesmente apreciar e celebrar o que me move e esta canção é um perfeito exemplo. O que mais me atrai é a produção e as texturas sónicas  que esta dupla está a conseguir implementar. Se isto é EDM então sou desavergonhadamente fã.

8 – Kendrick Lamar – “Alright”

 Não passo sem ouvir Hip Hop, e este ano Kendrick Lamar é incontornável e na minha opinião o melhor rapper em anos.

“Alright” saiu como single há um par de semanas, e é uma das faixas mais fortes do disco, o vídeo é não só uma obra de arte cinematográfica, como é um statement importante na altura que os EUA atravessam no que ao debate racial diz respeito. Uma jogada ousada numa altura em que Hip Hop já é “apenas” Pop Culture, e sinónimo de festa, sendo que musicalmente esta música não deixa de ter o bounce necessário para fazer parte de uma party playlist, mas com alguma substância.

9 – Stromae – “Papaoutai”

 Pena que Stromae (aparentemente) tenha contraído malária o que o impediu de mostrar o Portugal o que para mim não há sombra de dúvida: que a música não precisa de língua para comunicar. Este Afro-Belga que a cantar em francês fechou um dos palcos do Coachella este ano, com dezenas de milhares de norte americanos a cantar as suas canções em francês. A receita para eu gostar do seu trabalho é a mesma de sempre: junção de géneros: Musica Africana, Hip Hop, e Música Electrónica, de forma estranhamente bem sucedida. Consigo identificar as influências (quase) todas, mas não consigo identificar nada sequer parecido com o que faz.

10 – Kanye West – “All Day”

Kanye West pode ser controverso mas não deixa de ser genial. Não me compete a mim defender as acções do senhor West, ele é responsável por si mesmo, mas por alguma razão os grandes génios tem “génios”, e parece-me que nos esquecemos disso quando pensamos em West, em todo o caso no que a musica diz respeito é um dos artistas que mais aprecio. É preciso ser-se alguém bastante especial para fechar uma das noites do Glastonbury só em palco num concerto de quase 2 horas de Hip Hop. É um dos discos que mais espero em 2015, e este single de avanço está no iphone e na minha mente “All Day”.

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[DESTAQUE] Mount Keeper, projecto de Ben Monteiro, lança single Story of its own https://branmorrighan.com/2015/01/destaque-mount-keeper-projecto-de-ben.html https://branmorrighan.com/2015/01/destaque-mount-keeper-projecto-de-ben.html#respond Mon, 05 Jan 2015 20:13:00 +0000 https://www.facebook.com/pages/Mount-Keeper/648122971980606

Em exclusivo para a aplicação Tradiio, Ben Monteiro, com o seu novo projecto Mount Keeper, lançou a primeira música – Story of its own. Para aqueles que, como eu, estavam curiosos com o teaser, podem matar a curiosidade aqui: http://tradiio.com/mount-keeper/story-of-its-own

Sabe bem começar um novo ano assim. Eu cá, estou rendida. Gosto muito do trabalho do Ben, seja com D’Alva, com Ana Cláudia, etc., é um músico que tem a uma assinatura muito própria, mesmo em registos diferentes. Achei este tema muito belo, saudosista, urgente e intenso. Fico a aguardar mais novidades, deixando-vos com o preview da música em vídeo e com o lyric video.

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