Distopia – Bran Morrighan https://branmorrighan.com Literatura, Leitura, Música e Quotidiano Mon, 28 Dec 2020 04:47:17 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.8.3 https://branmorrighan.com/wp-content/uploads/2020/12/cropped-Preto-32x32.png Distopia – Bran Morrighan https://branmorrighan.com 32 32 Opinião: Delirium, de Lauren Oliver https://branmorrighan.com/2014/10/opiniao-delirium-de-lauren-oliver.html https://branmorrighan.com/2014/10/opiniao-delirium-de-lauren-oliver.html#comments Tue, 28 Oct 2014 14:17:00 +0000

Delirium

Lauren Oliver

Editora: Alfaguara

Sinopse: Houve um tempo em que o amor era a coisa mais importante do mundo. As pessoas eram capazes de ir até ao fim do mundo para o encontrar. Faziam tudo por amor. Até matar.

Finalmente, no século xxii, os cientistas descobrem a cura para o delírio do amor, uma perigosa pandemia que infecta milhões de pessoas todos os anos. E o governo passa a exigir que todos os cidadãos recebam o tratamento ao cumprirem 18 anos.

Lena Holloway não quer sofrer um destino semelhante ao da mãe. É por isso que mal pode esperar que chegue o dia em que será curada da doença que ataca mente e corpo e deixa todos à sua mercê. Poderá, finalmente, viver segura, tranquila, feliz.

Mas, quando faltam apenas noventa e cinco dias para a tão aguardada cirurgia, Lena faz o impensável e sucumbe a uma irreprimível e incontrolável paixão…

Opinião: Sempre que nos vemos perante uma Distopia, ainda antes de começarmos a leitura, as divagações e especulações são sempre muitas. Que futuro (im)possível é que nos será mostrado nas próximas centenas de páginas? Como é que eu reagiria se vivesse num mundo assim? Por norma, são-nos apresentados desastres químicos, económicos, guerras de poder e de supremacia, mas nunca antes tinha lido uma distopia em que a disrupção se devia a um único sentimento – o Amor.

Se o Amor fosse uma doença, aceitarias a cura?

Dizem que é por causa do amor, essa emoção arrebatadora (ou serão apenas processos químicos manipuláveis?), que se fazem os mais belos actos altruístas, mas também os mais destruidores. Alguma vez imaginaram uma vida em que o sangue não vos fervesse, nem as borboletas no estômago vos consumissem em certas e determinadas alturas? Sem o êxtase do desejo sexual e a sua consumação? Sem todos aqueles elos de amizade/família pelos quais seríamos capazes de dar a nossa vida? 

É um mundo assim que Delirium tenta projectar. Um mundo onde o amor deliria nervosa é considerado uma doença, cujo tratamento chega aos 18 anos. Porquê sofrer por amor? Porquê tomar decisões e atitudes baseadas numa exaltação sentimental que nos transcende e por vezes nos embacia o discernimento? Não seria melhor um emparelhamento entre pessoas baseado em interesses e onde a cordialidade e a fria distância respeitosa imperassem? Com ausência de sensações de vertigens, de choro, de desespero,de saudade. Nada dessas coisas “pouco saudáveis”. 

Através de Lena e de Alex, protagonistas de Delirium, assistimos às diferenças entre aqueles que já estão curados, os que ainda não foram curados e aqueles sobre os quais o tratamento nunca funcionou. A evolução da narrativa é algo lenta, mas muito focada nas percepções, nas dúvidas, no questionar sobre o que rodeia Lena. Narrado na primeira pessoa, o enredo revela-se de uma pertinência cáustica no que toca até onde o ser humano seria capaz para tornar uma população eficiente e sem distúrbios emocionais. As descrições desoladoras que são feitas de, por exemplo, casais que caminham na praia com relativa distância, sem sequer um sinal de afecto ou aproximação, são exemplos inflamadores do quanto o amor faz a diferença. 

O que é que é preferível? Uma existência anestesiada, eficiente e sem qualquer altercação ou emoção capaz de nos superarmos a nós mesmos? Ou antes, um existir febril, emocionante, cheio de sorrisos e risos, um sem limite de possibilidades? Talvez algo pelo meio? As respostas encontrarão vocês naquilo que cada uma das passagens vos fizer sentir. 

O ponto forte do livro é isto mesmo, esta evolução da vida de uma adolescente que se vê prestes a ser curada, mas que descobre que talvez tudo aquilo que lhe têm dito, todos os pontos negativos da doença que levou, supostamente, a sua mãe a suicidar-se, não compense tudo o que pode sentir se optar por continuar a sua vida sem a cura, com Alex como elemento motriz da mudança em Lena. A escrita é leve, fluída e simples. O fim, deixou-me um sabor agridoce, esperava algo… diferente, mais intenso. Não sendo um livro que me tenha conquistado por completo, encantou-me o suficiente para querer ler o próximo. 

Deixo-vos, também, uma passagem que me marcou: 

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Opinião: Convergente (Divergente #3) de Veronica Roth https://branmorrighan.com/2014/04/opiniao-convergente-divergente-3-de.html https://branmorrighan.com/2014/04/opiniao-convergente-divergente-3-de.html#comments Wed, 16 Apr 2014 16:21:00 +0000

Convergente (Divergente #3)

Veronica Roth

Editora: Porto Editora

Sinopse: A sociedade de facções em que Tris Prior acreditava está destruída – dilacerada por actos de violência e lutas de poder, e marcada para sempre pela perda e pela traição. Assim, quando lhe é oferecida a oportunidade

de explorar o mundo para além dos limites que conhece, Tris aceita o desafio. Talvez ela e Tobias possam encontrar, do outro lado da barreira, uma vida mais simples, livre de mentiras complicadas, lealdades confusas e memórias dolorosas. Mas a nova realidade de Tris é ainda mais assustadora do que a que deixou para trás. As descobertas recentes revelam-se vazias de sentido, e a angústia que geram altera as vontades daqueles que mais ama. Uma vez mais, Tris tem de lutar para compreender as complexidades da natureza humana ao mesmo tempo que enfrenta escolhas impossíveis de coragem, lealdade, sacrifício e amor. Convergente encerra de forma poderosa a série que cativou milhões de leitores, revelando os segredos do universo Divergente.

Opinião: Passaram-se quase dois anos desde que iniciei a aventura no mundo criado por Veronica Roth. Chegada a altura de ver concretizado o desfecho desta história, foi inevitável não sentir aquele nervoso miudinho de expectativa e temor. De cada vez que se fecha uma trilogia existe algum sofrimento por antecipação, pois sabemos que após a leitura deste volume final não haverá mais nenhum, e são frequentes os momentos de acção em que nos vemos divididos perante a escolha do autor e o desejo inconsciente do leitor. Convergente reflecte o expoente máximo dessa dualidade, desse sentido de dever perante os personagens, mas que nem sempre segue o rumo que poderíamos esperar.

Se em Divergente nos foi apresentado um mundo de facções, cada uma com as suas características em que se tentava conciliar todas para uma convivência comum pacífica, em Insurgente as coisas complicam-se e as acções aí perpetuadas mudaram, para sempre, o rumo de alguns dos personagens principais. Tris e Tobias continuam a ser os protagonistas narrando, cada um a sua perspectiva num estilo de acção continua, mas em que a aproximação com o leitor acaba por se tornar mais íntima. 

Quando a história rompe no exterior das barreiras, a ansiedade chega para ficar. Sendo o ambiente novo, rapidamente tudo se torna familiar – os preconceitos, as sobrancerias, os medos, as mentiras, as traições, mas também o amor (já estabelecido e o redescoberto), a compaixão, o sacrifício. Divergente tem sido uma série que se alimenta de emoções, de batalhas interiores sobre o que está certo e errado, testando os limites éticos constantemente e levando ao extremo a análise de moralidade humana. 

Uma das grandes diferenças deste livro para os anteriores é o ritmo da narrativa. Enquanto os acontecimentos no passado quase que se atropelavam para terem lugar, este tem uma abordagem mais táctica, mais pensada, as conspirações estão sempre prestes a explodir, mas há sempre ali pequenos picos de adrenalina que acabam por voltar a acalmar a acção logo a seguir. É apenas no fim, nesse fim que tanto faz chorar a maioria dos leitores, eu incluída, que as páginas já não se percorrem linha a linha pausadamente, mas quase voam. Eu só me lembro de pensar “Não pode ser, não acredito, a autora não faria isto.” Bem, deixo-vos na dúvida se fez ou não e o quê.

A verdade é que pousado o livro, ao pensarmos um pouco sobre o mesmo, sobre toda a evolução da trilogia, faz todo o sentido que tenha acabado como acabou. Indo mais ao encontro do que tem sido a história ao longos dos séculos e contrariando um pouco o romance previsível de que tudo está bem quando acaba bem, Veronica Roth confronta o leitor com uma realidade perfeitamente possível, mesmo que não nos dias de hoje. Tris e Quatro serão sempre um casal querido, com uma história de amor posta à prova mais vezes do que eles desejariam, mas cujas provas de amor, do verdadeiro amor, nunca faltaram. E enquanto termino esta opinião, um nó se forma na garganta e um ardor me assalta os olhos, pois é impossível não ter flachbacks dos vários momentos marcantes ao longo dos três livros. Para reler mais tarde, sem dúvida. 

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Opinião: O Silo de Hugh Howey https://branmorrighan.com/2014/01/opiniao-o-silo-de-hugh-howey.html https://branmorrighan.com/2014/01/opiniao-o-silo-de-hugh-howey.html#comments Thu, 02 Jan 2014 12:17:00 +0000

O Silo

Hugh Howey

Editora: Editorial Presença

Colecção: Via Láctea #112

Sinopse: Num mundo pós-apocalíptico, encontramos uma comunidade que tenta sobreviver num gigantesco silo subterrâneo com centenas de níveis, onde milhares de pessoas vivem numa sociedade completamente estratificada e rígida, e onde falar do mundo exterior constitui crime. As únicas imagens do que existe lá fora são captadas de forma difusa por câmaras de vigilância que deixam passar um pouco de luz natural para o interior do silo. Contudo há sempre aqueles que se questionam… Esses são enviados para o exterior com a missão de limpar as câmaras. O único problema é que os engenheiros ainda não encontraram maneira de garantir que essas pessoas regressem vivas. Ou, pelo menos, assim se julga…

Opinião: As distopias têm andado na moda graças aos mundos pós-apocalípticos tão extraordinariamente criados e em O Silo temos o privilégio de testemunhar mais uma. Curioso, o percurso de edição desta obra que começou com pequenos capítulos numa small press, passando posteriormente para uma auto publicação na plataforma Kindle, tornando-se um best-seller do New York Times pouco tempo depois. Nesta obra, Hugh Howey presenteia-nos com um mundo submerso numa atmosfera corrosiva, em que o único porto seguro é o silo em que as pessoas se encontram, ou assim parece. No entanto, os segredos encerrados naquelas escadas e naquelas paredes parecem sussurrar cada vez mais alto e a ameaça de uma nova insurreição começa cada vez mais a pairar no ar.

São vários os personagens que vão ganhando protagonismo ao longo da trama. Tudo começa com o mistério da Limpeza, ou seja, com aqueles que por violação das leis são obrigados a deixar o silo sempre com a missão de limpar as lentes que proporcionam a visão do mundo exterior. E, apesar de todos dizerem que não irão limpar nada, afinal estão a ser condenados à morte, o que é certo é que todos, sem falha, acabam por fazer a Limpeza. Isto é, todos até ao dia em que alguém vai mais longe em relação aos segredos do silo e em vez de limpar as lentes, segue caminho, ultrapassa o limite de visão das câmaras do silo, e com isso instala o caos.

Estamos perante uma história cuja realidade não é difícil de imaginar. Interesses políticos, um mundo destruído por armas químicas (ou assim me pareceu), a sobrevivência da espécie através do confinamento, mas também o isolamento para que possam preservar todos os segredos que esse mesmo confinamento implica. Toda a estrutura do silo está organizada de forma a que, para manter o silo a funcionar a 100% sem risco de tragédia, todas as pessoas se mantenham de tal maneira ocupadas que não haja tempo para pensarem em mais nada e muito menos colocarem questões.

Gostei bastante da forma como as expectativas foram sendo geradas, impelindo-me sempre a ler mais uma página, a querer saber como é que todo aquele mistério iria ser desvendado. É certo que não existe um protagonista total e absoluto por quem o leitor se afeiçoe, mas à medida que existe uma pessoa a assumir esse protagonismo, conseguimos sentir uma empatia praticamente automática provocando um sentimento de incentivo e protecção em relação à mesma.

Foi uma leitura relativamente rápida e que deixou semeada a curiosidade. Vou ficar ansiosamente à espera que venha a continuação, pois este fim acabou por deixar ainda mais perguntas por responder. 

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