Gillian Flynn – Bran Morrighan https://branmorrighan.com Literatura, Leitura, Música e Quotidiano Mon, 28 Dec 2020 06:07:15 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9 https://branmorrighan.com/wp-content/uploads/2020/12/cropped-Preto-32x32.png Gillian Flynn – Bran Morrighan https://branmorrighan.com 32 32 Opinião: Objetos Cortantes, de Gillian Flynn https://branmorrighan.com/2015/08/opiniao-objetos-cortantes-de-gillian.html https://branmorrighan.com/2015/08/opiniao-objetos-cortantes-de-gillian.html#comments Tue, 25 Aug 2015 10:43:00 +0000

Objetos Cortantes

Gillian Flynn

Editora: Bertrand

Sinopse: Recém-chegada de um internamento breve num hospital psiquiátrico, Camille Preaker tem um trabalho difícil entre mãos. O jornal onde trabalha envia-a para a cidade onde foi criada com o intuito de fazer a cobertura de um caso de homicídio de duas raparigas. Há anos que Camille mal fala com a mãe, uma mulher neurótica e hipocondríaca, e quase nem conhece a meia-irmã, uma bela rapariga de treze anos que exerce um estranho fascínio sobre a cidade. Agora, começa a identificar-se com as vítimas. As suas pistas não conduzem a lado nenhum e Camille vê-se obrigada a desvendar o quebra-cabeças psicológico do seu passado para chegar ao cerne da história. Acossada pelos seus próprios fantasmas, terá de confrontar o que lhe aconteceu há anos se quiser sobreviver a este regresso a casa.

Opinião: Ler Gillian Flynn tem sido uma aventura e tanto no que toca a viajar pela malevolência que cada ser humano consegue transportar consigo. Parecem não haver limites no quão retorcido alguém consegue ser para prejudicar, magoar, até mesmo matar alguém. Com os livros lidos na ordem inversa da sua publicação original, não será descabido dizer que gostava de ver a autora a voltar ao registo deste mesmo livro. Objetos Cortantes foi a sua primeira obra, sempre narrada na primeira pessoa por uma única protagonista, e saiu-se muito bem. Em Lugares Escuros e Em Parte Incerta assistimos a algo mais compassado, sempre alternando entre protagonistas e espaços temporais, mas neste seu romance de estreia a linha de acção é continua, sempre com Camille na liderança da acção, não prejudicando o mistério que se quer fazer sentir num livro destes. 

São crescendos, tanto a curiosidade como o horror que vamos sentido com o evoluir da história. Não é tanto a forma como as raparigas aparecem mortas, asfixiadas e sem dentes, mas antes o que as suas mortes podes implicar na vida de Camille. E à medida que vamos conhecendo os seus medos, o seu passado, somos confrontados com uma relação completamente disfuncional entre mãe e filha que acaba por ter repercussões tenebrosas e irreversíveis. Gillian Flynn é mestre em explorar obsessões doentias em relações passionais e Objetos Cortantes é afiado e acutilante em vários sentidos. Existe um repúdio constante em relação às várias personalidades que vamos conhecendo. Ninguém escapa à morbidez das suas próprias acções, ao ordinário que é ceder às carências, mesmo quando estas envolvem masoquismo extremo. 

No fundo, acompanhamos três gerações de mulheres danificadas. Camille, a sua mãe e ainda a sua meia-irmã, Amma, que aos treze anos já se droga e tem relações sexuais como gente grande. A narrativa evolui sempre com este trio como pano de fundo. A investigação avança, existe um ou outro suspeito, mas sabemos desde o início que algo de muito errado se passa com as Preaker. As pistas vão sendo deixadas por amizades antigas, por comentários vingativos, mas principalmente por um abrir de olhos de Camille. 

O truque desta obra é, sem dúvida, a escrita e a intensidade e a imagética que são passadas ao leitor. Não são raras as passagens em que o estômago se contorce, em que todos os cenários se tornam tão vividos que parece que somos transportados para lá, que nem voyeurs que não têm bem a certeza se querem estar mesmo a assistir ao que estão a testemunhar. O fim não foi uma surpresa, mas também não acho que isso influencie a opinião desta leitura. Todos os livros têm um fim, mas no caso de Objetos Cortantes este apenas acaba por juntar peças que já se namoravam. É uma obra arrepiante, com níveis de dissociação cruéis, mas que também sabemos ser reais em casos não assim tão raros. É disto que gosto na escrita de Flynn, a capacidade de por à prova o leitor espetando-lhe as mais duras e frias realidades. 

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Opinião: Lugares Escuros, de Gillian Flynn https://branmorrighan.com/2015/08/opiniao-lugares-escuros-de-gillian-flynn.html https://branmorrighan.com/2015/08/opiniao-lugares-escuros-de-gillian-flynn.html#comments Wed, 12 Aug 2015 17:03:00 +0000

Lugares Escuros

Gillian Flynn

Editora: Bertrand

Sinopse: Passados vinte e cinco anos, Ben encontra-se na prisão e Libby vive com o pouco dinheiro de um fundo criado por pessoas caridosas que há muito se esqueceram dela.

O Kill Club da Matança é uma macabra sociedade secreta obcecada por crimes extraordinários. Quando localizam Libby e lhe tentam sacar os pormenores (provas que esperam vir a libertar Ben), Libby engendra um plano para vir a lucrar com a sua história trágica. Por uma determinada maquia, estabelecerá contacto com os intervenientes daquela noite e contará as suas descobertas ao clube… e talvez venha a admitir que afinal o seu testemunho não era assim tão sólido.

À medida que a busca de Libby a leva de clubes de striptease manhosos no Missouri a cidadezinhas turísticas de Oklahoma agora abandonadas, a narrativa vai voltando atrás, à noite de 2 de janeiro de 1985. Os acontecimentos desse dia são recontados aos olhos dos membros condenados da família de Libby, incluindo Ben, um miúdo solitário cuja raiva pelo pai indolente e pela quinta degradada o leva a uma amizade inquietante com a rapariga acabada de chegar à cidade

Peça a peça, a verdade inimaginável começa a vir ao de cima e Libby dá por si no ponto onde começara: a fugir de um assassino.

Opinião: Gillian Flynn já publicou três livros – Objetos Cortantes, Lugares Escuros e Em Parte Incerta. A minha estreia na sua escrita está a dar-se em ordem inversa à das publicações originais, sendo que comecei pelo último e terminei agora o do meio. Se Em Parte Incerta foi extremamente aclamado por todo o mundo, inclusive na sua adaptação cinematográfica, e Objetos Cortantes – que ainda me falta ler – foi quem mandou a escritora para a ribalta, Lugares Escuros parece tomar o tal lugar intermédio. Foi uma leitura fácil, o trabalho editorial de tradução está muito bem feito, mas quando comparado com a adrenalina que Em Parte Incerta provocou, fica muito aquém deste.

Há algo que para mim é claro – Gillian Flynn escreve muito bem e sabe como intercalar os capítulos das suas histórias, oscilando entre narradores e deixando as peças suspensas no ar à espera de pistas para serem encaixadas. Nestes dois livros que li da autora achei notável essa capacidade de ir deixando migalhas a um bom ritmo, dando destaque a um conjunto de personagens e deixando os pormenores que podem fazer a diferença para os mais atentos. É importante não esquecer que Lugares Escuros foi escrito antes de Em Parte Incerta, por isso quando digo que esta leitura foi mais fraca o que a outra talvez se deva às altas expectativas e ao facto de o final não ter tido um impacto tão brutal.

Este livro acaba por pecar por ter uma espécie de passividade ao longo de todo o decorrer da história. A protagonista não é tão entusiasmante como o dia fatídico que se vai revelando, aos intervalos com o tempo presente, através do seu irmão Ben e da sua mãe Patty. Ao início, Libby tem todo um potencial que não vi concretizado, porém a aura de mistério à volta de Ben faz crescer, e mantém, o interesse do leitor. Os crimes foram violentíssimos, o trauma inultrapassável, mas seria Ben realmente capaz de tamanha frieza e brutalidade? Flynn acaba por misturar uns quantos conceitos interessantes: aproveitou o facto do espaço temporal na altura dos homicídios coincidir com uma grande onda de satanismo e ainda pega na altura em que as promessas aos agricultores – de plantarem e plantarem – saíram completamente furadas e várias famílias se viram aflitas. Com uma família falida, um pai ausente/violento, uma mãe sem soluções e quatro filhos em que apenas um deles é homem… Alguma coisa tinha de desmoronar.

Sinceramente, mesmo não achando Lugares Escuros tão bom como Em Parte Incerta, gostei de ler. É sempre um desafio tentar antecipar quem é que serão os verdadeiros culpados e, novamente, a escrita é muito boa. O formato com que apresenta o enredo é aliciante e a trama contém curiosidade suficiente para uma página se seguir à outra compassadamente. Hoje é a antestreia cinematográfica e estou muito curiosa por ver como é que certas cenas foram adaptadas. O fim, para mim, não foi imprevisível, mas fico sempre com aquela curiosidade em saber como é que as outras pessoas terão pensado. Por isso, se leram, tentem deixar aqui a vossa perspectiva sem spoilers! Eheheh. Nas próximas semanas a leitura será Objetos Cortantes! 

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Opinião: Em Parte Incerta de Gillian Flynn https://branmorrighan.com/2014/01/opiniao-em-parte-incerta-de-gillian.html https://branmorrighan.com/2014/01/opiniao-em-parte-incerta-de-gillian.html#comments Mon, 06 Jan 2014 11:35:00 +0000

Em Parte Incerta

Gillian Flynn

Editora: Bertrand

Sinopse: O casamento pode dar cabo de uma pessoa…

Uma manhã de verão no Missouri. Nick e Amy celebram o quinto aniversário de casamento. Enquanto se fazem reservas e embrulham presentes, a bela Amy desaparece. E quando Nick começa a ler o diário da mulher, descobre coisas verdadeiramente inesperadas…

Com a pressão da polícia e dos media, Nick começa a desenrolar um rol de mentiras, falsidades e comportamentos pouco adequados. Mostra-se evasivo, é verdade, e amargo – mas será mesmo um assassino?

Entretanto, todos os casais da cidade se perguntam já se conhecem de facto a pessoa que amam. Nick, apoiado pela gémea Margo, assegura que é inocente. A questão é que, se não foi ele, onde está a sua mulher? E o que estaria dentro daquela caixa de prata escondida atrás do armário de Amy?

Com uma escrita incisiva e a sua habitual perspicácia psicológica, Gillian Flynn dá vida a um thriller rápido e muito negro que confirma o seu estatuto de uma das melhores escritoras do género.

Opinião: Existem leituras que nos passam ao lado, que apesar de nos terem proporcionado bons momentos de leitura, não deixam uma grande marca. Depois, existem também aquelas que nos deixam completamente estonteados, com a sensação que nos pegaram pelos pés e nos deixaram de cabeça para baixo, quais morcegos. Em Parte Incerta foi dessas leituras que num piscar de olhos somos autenticamente abalroados e todas as nossas convicções e emoções são baralhadas e descartadas. 

Gillian Flynn apresenta-nos uma obra que, quando terminamos a sua leitura, é difícil de classificar. Em parte romance, em parte policial, um bocadinho de thriller e imenso drama, cada um destes elementos em doses diferentes ao longo do livro. A capacidade da autora em nos conduzir numa determinada direcção, levando-nos a sentir certas empatias e ódios, para logo a seguir nos trocar as voltas está genial. 

Nick e Amy são duas personagens extremamente humanas e assustadoramente reais. São explorados vários ângulos do ser humano, desde a sua infância à maneira como a atitude parental acaba por ter influência no carácter e personalidade enquanto adulto, a forma como muitas vezes as pessoas adaptam a sua maneira de ser para agradarem, para serem aquela pessoa que os outros gostam mesmo que não seja essa a sua forma genuína e também a degradação das relações quando baseadas numa interacção frágil e cheia de segredos. 

A narrativa é simples e envolvente. Ao início começa de forma lenta, com o cozinhar da trama, a preparação para o grande salto que se dá sensivelmente a meio tornando a leitura compulsiva e deixando o leitor incrédulo. O ponto forte de todo o enredo é sem dúvida a oscilação de emoções sempre muito intensas. A empatia inicial, o ódio final, o desprezo pelo meio. Conjugando isso à familiaridade de certos acontecimentos, a verdade é que a história acaba por ter um forte impacto, por deixar a tal marca irreversível em quem o lê e também muito em que pensar. 

Eleito o Livro do Ano de 2012 pelos leitores da plataforma Goodreads, já com imensos prémios conquistados, inclusive o carimbo de best seller do New York Times, Em Parte Incerta é aquele romance que não deixará ninguém indiferente, seja para o bom ou para o mau. A adaptação cinematográfica está para breve, tendo já o Ben Affleck como Nick. Uma leitura conflituosa, sem dúvida alguma, mas brutal. Aconselho sem restrições, deixando a salvaguarda para um fim que sabe a pouco, mas que dificilmente poderia agradar a todos.

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