Javier Marías – Bran Morrighan https://branmorrighan.com Literatura, Leitura, Música e Quotidiano Mon, 28 Dec 2020 06:02:43 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.8.3 https://branmorrighan.com/wp-content/uploads/2020/12/cropped-Preto-32x32.png Javier Marías – Bran Morrighan https://branmorrighan.com 32 32 Opinião: Os Enamoramentos, de Javier Marias https://branmorrighan.com/2016/01/opiniao-os-enamoramentos-de-javier.html https://branmorrighan.com/2016/01/opiniao-os-enamoramentos-de-javier.html#comments Sun, 03 Jan 2016 09:59:00 +0000

Os Enamoramentos

Javier Marías

Editora: Alfaguara

Sinopse: O novo romance de um dos mais importantes e respeitados escritores espanhóis. Com obra publicada em mais de 50 países, e mais de 6 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo e distinguido com o Prémio Literário Europeu 2011. “Os Enamoramentos” foi considerado o melhor romance do ano 2011 (eleito por um painel de 57 críticos literários espanhóis). O autor aborda o mistério em torno de uma morte acidental para reflectir sobre o estado do “enamoramento”, considerado quase universalmente como algo positivo, quase redentor, que tanto justifica as acções nobres e desinteressadas, como as maiores tragédias e catástrofes.

Opinião: Terminei 2015 a ler este livro. Engraçado como por vezes são mesmo as obras que nos escolhem e não o contrário. Lembro-me de o ter recebido, juntamente com a edição especial de Jesus Cristo Bebia Cerveja, de Afonso Cruz, e de pensar que ia ter que o colocar na pilha por ler. Na verdade não me tinha chamado muito à atenção. Depois voltei a pegar nele e abri numa página ao acaso. Juro que não podia ter havido passagem que me prendesse mais. Já ia no final da página (existem parágrafos que ocupam mais do que uma!) quando me obriguei a parar. Foi a minha leitura seguinte. Demorei algum tempo, mas também não o queria ler com pressa. Cada página era virada com tanto fascínio como assombro, num misto de reconhecimento e admiração enquanto nos apercebemos do quão humano é este romance.

Nunca antes tinha lido Javier Marías e a boa notícia é que já tenho ali outro livro dele para ler. Ao longo da leitura fui partilhando uns quantos excertos e muitos foram os leitores que ficaram curiosos. Alguns até já me disseram que já o compraram e que querem que seja a sua próxima leitura. Espero que não se desiludam, acho que acima de tudo este é um livro muito pessoal, muito íntimo. Quando digo isto não é que tenha passado por qualquer uma das experiências que os protagonistas passaram, mas porque o autor consegue pegar em pequenas coisas e elevá-las a reflexões e a constatações demasiado carnais, demasiado humanas. 

Começamos numa esplanada, com Maria, editora de livros, que em tom de rotina observa um casal. Todos os dias o mesmo ritual. Admira-os, pensa em como serão as suas vidas. Um dia tem de viajar e quando volta o casal, que há tempos e tempos aparecia lá todas as manhãs, não vê ninguém. Isso causa-lhe alguma estranheza, ainda mais quando só a vê a ela. Decide meter conversa e aqui começa uma segunda narrativa. Na verdade este livro está cheio de narrativas dentro de narrativas, histórias que se engolem e se fundem, tramas que passam da imaginação ao papel activo ou então que apenas se desmoronam com uma futura lucidez dos acontecimentos.

O que mais se realça por entre estas personagens é a relatividade das emoções consoante o sujeito em causa e perante o dito Enamoramento. A forma como encaramos as paixões, como muitos cegam ou apenas se submetem ao papel de secundários, sabendo que nunca terão o querem daquela relação, mas ainda aceitando as migalhas com a esperança impossível de que se mude de ideias. No fundo a história de Maria é esta. De sozinha durante tanto tempo, acaba por se enamorar de alguém que a usa, sem rodeios, ela com noção e mesmo assim continuando. Afinal, a esperança é a última a morrer, não é? De qualquer maneira, diga eu o que disser, será sempre redutor em relação à solidez com que Javier Marías confronta o leitor com as suas potenciais fragilidades emocionais e o abana perante as mesmas. Para quem gosta de livros mais densos, que exploram mais as motivações do ser humano e as emoções por trás das mesmas, aconselho vivamente.

Podem ler os excertos aqui: http://www.branmorrighan.com/search/label/Javier%20Mar%C3%ADas

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Citações Aleatórias #30 – Javier Marías https://branmorrighan.com/2015/12/citacoes-aleatorias-30-javier-marias.html https://branmorrighan.com/2015/12/citacoes-aleatorias-30-javier-marias.html#respond Sat, 26 Dec 2015 12:50:00 +0000

Eu fiquei solteiro todos estes anos; sim, com histórias muito gratificantes, distraindo-me, à espera. Primeiro à espera de que aparecesse alguém que tivesse um fraco por mim, e por quem eu o tivesse. Depois… Para mim é o único modo de reconhecer esse termo que toda a gente usa com desenvoltura mas que não devia ser tão fácil visto que muitas línguas não o conhecem, só o italiano além da nossa, que eu saiba, e claro que sei poucas… Talvez o alemão, a verdade é que não sei: o enamoramento. O substantivo, o conceito; o adjectivo, o estado, que esse é mais conhecido, pelo menos o francês tem-no e o inglês não, mas esforça-se e aproxima-se… Achamos graça a muitas pessoas, divertem-nos, encantam-nos, inspiram-nos afecto e até nos enternecem, ou agradam-nos, arrebatam-nos, até nos enlouquecem momentaneamente, desfrutamos do seu corpo ou da sua companhia ou de ambas as coisas, como me acontece contigo e aconteceu outras vezes, umas poucas. Algumas até se nos tornam imprescindíveis, a força do costume é imensa e acaba por suprir quase tudo, ou mesmo por o suplantar. Pode suplantar o amor, por exemplo; mas não o enamoramento, convém distinguir entre os dois, embora se confundam não são a mesma coisa… O que é muito estranho é sentir um fraco, uma verdadeira fraqueza por alguém, e que no-la produza, que nos torne fracos. É isso o determinante, que nos impeça de ser objectivos e nos desarme para sempre e que faça que nos rendamos em todos os pleitos (…). Quase ninguém pode responder a esta pergunta que os outros, esses sim, fazem sobre nós, sobre qualquer um de nós: «Porque se terá enamorado dela? Que terá visto nela?»

Javier Marías, Os Enamoramentos

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Citações Aleatórias #29 – Javier Marías https://branmorrighan.com/2015/12/citacoes-aleatorias-29-javier-marias_16.html https://branmorrighan.com/2015/12/citacoes-aleatorias-29-javier-marias_16.html#respond Wed, 16 Dec 2015 10:57:00 +0000

“Quando somos abandonados podemos fantasiar com um regresso, com que se faça luz um dia para quem nos abandonou e volte à nossa almofada, mesmo que saibamos que já nos substituiu e está enredado noutra mulher, noutra história, e que só vai lembrar-se de nós se de repente lhe correr mal a nova, ou se insistirmos e nos tornarmos presentes contra a sua vontade e tentarmos preocupá-lo ou adoçá-lo ou causar-lhe pena ou nos vingarmos, fazer-lhe sentir que nunca se livrará de nós de todo, que não queremos ser uma recordação minguante mas sim uma sombra inamovível que o vai rondar e espiar sempre; e tornar-lhe a vida impossível, e na realidade fazer com que nos odeie.”

Javier Marías, Os Enamoramentos

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Citações Aleatórias #28 – Javier Marías https://branmorrighan.com/2015/12/citacoes-aleatorias-29-javier-marias.html https://branmorrighan.com/2015/12/citacoes-aleatorias-29-javier-marias.html#respond Tue, 15 Dec 2015 08:19:00 +0000

“Aí é que está o erro (…) O erro de julgar que o presente é para sempre, que o que há a cada instante é definitivo, quando todos deveríamos saber que nada o é, enquanto nos restar algum tempo. Trazemos às costas as suficientes reviravoltas e os suficientes circuitos, não apenas da fortuna mas do nosso ânimo. Vamos aprendendo que o que nos pareceu gravíssimo chegará o dia em que será neutro, apenas um facto, apenas um dado. A pessoa sem a qual não podíamos estar e por causa da qual não dormíamos, sem a qual não concebíamos a nossa existência, de cujas palavras e de cuja presença dependíamos dia após dia, chegará um momento em que nem sequer nos ocupará o pensamento, e quando nos ocupar, uma vez por outra, será para um encolher de ombros, e o mais que esse pensamento conseguirá será perguntarmos por um segundo: «Que será feito dela?», sem qualquer preocupação, sem curiosidade sequer.”

Javier Marías, Os Enamoramentos

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Citações Aleatórias #27 – Javier Marías https://branmorrighan.com/2015/12/citacoes-aleatorias-27-javier-marias.html https://branmorrighan.com/2015/12/citacoes-aleatorias-27-javier-marias.html#respond Fri, 11 Dec 2015 12:34:00 +0000

“- Há gente que me diz: «Fica-te com as boas recordações e não com a última, pensa no muito que se amaram, pensa em tantos momentos fantásticos que outros nem sequer conheceram.» É gente bem intencionada, que não consegue entender que todas as recordações estão agora tingidas por este final triste e sangrento. Sempre que me lembro de algo bom, no mesmo instante me aparece a imagem última, a da sua morte gratuita e cruel, tão facilmente evitável, tão parva. Sim, é o que me faz pior: tão sem culpado e tão parva. E as recordações turvam-se e tornam-se más. Na realidade já não me resta nenhuma boa. Todas se me revelam ilusórias. Todas se contaminaram.”

Javier Marías, Os Enamoramentos

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