João Tordo – Bran Morrighan https://branmorrighan.com Literatura, Leitura, Música e Quotidiano Fri, 08 Jan 2021 19:07:50 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://branmorrighan.com/wp-content/uploads/2020/12/cropped-Preto-32x32.png João Tordo – Bran Morrighan https://branmorrighan.com 32 32 Opinião: O ano sabático, de João Tordo https://branmorrighan.com/2018/11/opiniao-o-ano-sabatico-de-joao-tordo.html https://branmorrighan.com/2018/11/opiniao-o-ano-sabatico-de-joao-tordo.html#respond Sun, 11 Nov 2018 16:48:00 +0000

O ano sabático
João Tordo

Editora: Companhia das Letras

OPINIÃO: Iniciei “tarde” o meu percurso com João Tordo. Só o comecei a ler quando chegou, na altura, à Alfaguara, com o seu romance A Biografia Involuntária dos Amantes. Já era prémio Saramago, já tinha romances suficientes que comprovavam o seu valor, ainda assim nunca o tinha lido. E nem sei explicar porquê. Provavelmente confirmou-se aquela teoria que eu tanto defendo: são os livros que nos escolhem a nós e não o contrário. A verdade é que bastou aquela primeira leitura para ficar de sobreaviso que João Tordo era mais do que um autor premiado, era um autor ímpar. São coisas diferentes. 

Acabei por conhecer o escritor pouco depois e para além de o entrevistar para o blogue, quiseram as circunstâncias que o entrevistasse, pouco tempo depois, para o programa Contentor 13. Conhecê-lo e falar com ele foi um processo que sempre oscilou entre o fascínio e a intriga. Já depois do romance que mencionei, João Tordo publicou a “Trilogia dos lugares sem nome”, da qual fazem parte O Luto de Elias Gro, O Paraíso segundo Lars D. e O Deslumbre de Cecília Fluss.

Já este ano, em 2018, publicou um novo romance, Ensina-me a voar sobre os telhados. Toda esta descrição para vos dizer que nunca voltei atrás. Ou seja, até a’O ano sabático nunca tinha pegado num romance anterior ao último lançado, apesar de já ter pelo menos também As Três Vidas

Ler O ano sabático fez-me voltar a todos os instantes em que convivi com o autor. Mesmo já tendo lido todos os romances que mencionei no parágrafo anterior, O ano sabático surpreendeu-me de uma forma desarmante. Após ter terminado a sua leitura, fui ler a sinopse (eu raramente leio sinopses antes de iniciar os livros – sou estranha, eu sei) e deparei-me com a confirmação de ter parte real, ter parte do próprio autor na obra. De qualquer maneira, penso que seria impossível negá-lo. As semelhanças físicas dos protagonistas nunca poderiam ser mera coincidência. E depois de já ter entrevistado e convivido com João Tordo, também a associação de alguns traços psicológicos tornou-se inevitável. 

Confesso, ainda sinto algum assombro. Mergulhar neste livro foi como mergulhar num universo dentro de outro universo, em que através de um tentamos compreender o outro, e em que cada universo corresponde a uma parte de um indivíduo. A estrutura da narrativa está montada de forma tão inteligente que desde cedo fez prever que nos iríamos sentir numa espécie de labirinto, rodeado por uma teia difícil de romper, mas do qual não quereríamos sair sem nos descobrirmos a nós mesmos primeiro. 

Percebeu também que lhe faltava alguma coisa e que essa falta jamais seria colmatada com uma carreira. Percebeu que sempre lhe faltaria alguma coisa; que era incompleto, insuficiente para si mesmo, e que, na verdade, tinha pavor de procurar essa coisa, uma vez que a procura corresponderia ao pior de todos os horrores.

De vez em quando, abro a gaveta e olho para elas [fotografias], só para me recordar de que, nesta vida, o absurdo reina em absoluto.

Não falo sobre a história porque a sinopse já revela demasiado. No entanto, não vou terminar este texto sem referir a violência e o desolamento sentidos ao longo das páginas. O desespero e a obsessão da procura por uma identidade que se mostra sempre fugidia, sempre presa pelas teias da insegurança. O ano sabático é uma narrativa poderosíssima e reveladora das sombras que habitam os seres humanos.

João Tordo foi compositor e maestro de uma espécie de exorcismo e de catarse, um caminho para a metamorfose. É, sem dúvida, dos romances que impressionam e que nos irão voltar à memória quando menos esperamos, lembrando-nos que as nossas fragilidades e os nossos fantasmas nos podem levar à loucura, mas que também os podemos usar para nos transformarmos, para dar forma a algo novo e admirável. 

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Opinião: Ensina-me a Voar Sobre os Telhados, de João Tordo https://branmorrighan.com/2018/05/opiniao-ensina-me-voar-sobre-os.html https://branmorrighan.com/2018/05/opiniao-ensina-me-voar-sobre-os.html#respond Sat, 05 May 2018 21:32:00 +0000

Ensina-me a Voar Sobre os Telhados

João Tordo

Editora: Companhia das Letras

Sinopse: Japão, 1917. Por desonrar o nome da família, o jovem Katsuro é exilado pelo seu próprio pai, um poderoso governador, num ilhéu inóspito. Abandonado, o rapaz irá deparar-se, pela primeira vez, com o terrível segredo da família Tsukuda, enquanto luta para sobreviver à fome, à sede e à culpa. Lisboa, cem anos depois. No Liceu Camões, um dos mais antigos da cidade, um professor de Geografia suicida-se numa sala de aula. O nosso narrador, funcionário do liceu e alcoólico em recuperação, decide inaugurar uma reunião semanal para ajudar os colegas a superar o choque. Numa noite de Inverno, um misterioso desconhecido aparece no encontro. É japonês e chama-se Tsukuda. O seu estranho comportamento desperta no narrador um fascínio doentio. Ambos são perseguidos pelo passado, ambos desejam o impossível. Algures entre o sonho e a mais pura realidade, “Ensina-me a Voar Sobre os Telhados” é um lugar onde um pai e um filho aprendem a amar-se, é um espaço onde se procura aceitar dores antigas e abraçar a fragilidade humana. Um romance que é uma elegia à beleza imperfeita da vida.

OPINIÃO: No Verão de 2017 estive a viver no Japão enquanto investigadora científica convidada na Universidade de Kyushu, em Fukuoka. As pessoas ficam sempre muito espantadas quando digo que não gostei da experiência. Gostei das paisagens, gostei de alguns locais que visitei (como não adorar dar festinhas a veados em pleno parque da cidade ou estar em pequenas ilhas que parecem tiradas de um imaginário mágico e místico?), mas a sensação que se manteve sempre à flor da pele foi a de uma frieza emocional e de alguma loucura repelente. Quando li a sinopse de Ensina-me a Voar Sobre os Telhados senti um misto de emoções. Primeiro, porque tudo o que envolva o Japão e algum tipo de embelezamento romântico me deixa de pé atrás, depois porque tudo aquilo que de alguma maneira nos marca acaba por nos atrair sempre com uma espécie de fascínio retorcido. Foi neste estado de espírito, cauteloso, que avancei para este livro que se veio a tornar numa obsessão. 

Engraçado que é precisamente este o grande tema, digo eu para mim mesma, desta obra – a obsessão. Seja obsessão por um qualquer vício (perdoem-me o pleonasmo), estado de espírito, tema ou pessoa. Cheguei a uma altura da leitura, principalmente no último terço do livro, em que dava por mim a querer que o dia terminasse para que finalmente pudesse retomá-la. Não é dos romances mais fáceis de ler, mas é certamente daqueles em que o desafio se torna numa espécie de concretização, qual amante nas sombras à espera do seu par. São percorridos vários locais e espaços temporais diferentes. Japão, Portugal, presente, passado, gerações que se cruzam de forma inteligente e perspicaz, prendendo o leitor e surpreendendo-o. Muitas vezes tive a sensação de estar a ler histórias dentro de histórias para a seu tempo João Tordo nos dar a cereja no topo do bolo e de alguma maneira pacificar a nossa constante inquietação. 

Sim, este é um livro que nos inquieta, que nos revolve, que nos faz questionar não só a nossa postura na vida e a nossa personalidade como também as nossas crenças. A grande proeza em Ensina-me a Voar Sobre os Telhados é a forma como o escritor português consegue transmitir todos os acontecimentos de forma tão intrigante e eloquente, mesmo quando entramos em terrenos sensíveis. Nesta narrativa, o quotidiano e o corriqueiro contrastam com uma espécie de mitologia de que nos atrai e comove, tendo esta mistura como efeito um certo deslumbramento pela própria melancolia na qual o enredo está fortemente embebido. Tanto o narrador como Tsukuda são, sem dúvida, dois protagonistas de excelência, mas foi Katsuro e Saburo que mais mexeram comigo, talvez pela violência inerente às suas existências que se vê reflectida agora em Tsukuda. Ah! E Ludmila, a querida Ludmila, a personagem feminina que tem um papel singelo, mas que faz toda a diferença, e um dos capítulos mais bonitos do romance. 

João Tordo teve a capacidade de criar inúmeras personagens e de as orquestrar numa trama complexa, porém também sublime. A sua escrita inteligente, aliada à sua capacidade descritiva que nos transporta directamente para os cenários que descreve, mostra-se a nossa grande aliada nesta epopeia pelos escombros emocionais do ser humano. O pontapé de saída é dado por um suicídio que se torna a razão pela qual o nosso narrador se cruza com Tsukuda, mas muito mais é explorado. Aliás, o tema do romance não é de todo inocente e reflecte precisamente uma espécie de vazio que necessita ser conquistado para que uma pessoa possa assim levitar e “voar sobre os telhados”. Uma coisa eu sei, certamente tão cedo não esquecerei algumas das passagens, seja porque visualmente se tornaram tão reais em mim, seja porque emocionalmente houve uma espécie de espelho que por vezes me apanhou desprevenida. Com Ensina-me a Voar Sobre os Telhados, João Tordo acrescenta ainda mais profundidade a uma bibliografia admirável. 

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The Loafing Heroes apresentam o novo disco “The Baron in the Trees” esta sexta-feira no Musicbox https://branmorrighan.com/2016/05/the-loafing-heroes-apresentam-o-novo.html https://branmorrighan.com/2016/05/the-loafing-heroes-apresentam-o-novo.html#respond Thu, 05 May 2016 19:34:00 +0000

Amanhã é o dia em que os The Loafing Heroes apresentam o seu novo disco – The Braon in the Trees – e tenho um gosto especial em divulgar esta data porque, para além de gostar muito deste trabalho, um dos membros da banda é o tão nosso conhecido, aqui no blogue, autor João Tordo. Gosto muito quando existe este cruzamento de universos e espero poder entrevistar a banda brevemente. Deixo-vos com as informações oficiais e com o convite a aparecerem todos amanhã à noite no Musicbox! 


The Loafing Heroes são uma banda com “casa” em Lisboa mas em constante evolução: um encontro internacional de ideias musicais de vários países liderado pelo vocalista e guitarrista Bartholomew Ryan (Irlanda), com Giulia Gallina (Itália) na voz e concertina, João Tordo (Portugal) no contrabaixo, Judith Retzlik (Alemanha) no violino, xilofone e trompete, Jaime McGill (Estados Unidos) no clarinete baixo, e João Abreu (Portugal) na percussão.

O novo disco, uma pérola intitulada The Baron in the Trees, será editado dia 6 de Maio, depois de dois anos a trabalhar num conjunto de doze canções.

Os álbuns anteriores (Crossing the Threshold, Planets, Chula e Unterwegs) são um produto dos anos em Lisboa e Berlim. Os The Loafing Heroes têm um público muito fiel na Irlanda e em Portugal que segue os seus concertos, canções e poesia povoada de viagens com revolucionários, vagabundos e almas perdidas, tecida habilmente entre factos e ficções.

O novo álbum dos Loafing Heroes, The Baron in the Trees, será lançado no dia 6 de Maio no Musicbox, em Lisboa – o melhor e mais elaborado conjunto de canções da banda até hoje, produzido por Tadklimp. A banda, cosmopolita e vagabunda, continua a fundir a música folk com a poesia, world music e pop, interligando violinos, contrabaixo, piano, baixo clarinete e trompete, entre outros instrumentos.

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Citações Aleatórias #42 – João Tordo https://branmorrighan.com/2016/02/citacoes-aleatorias-42.html https://branmorrighan.com/2016/02/citacoes-aleatorias-42.html#respond Sun, 14 Feb 2016 17:50:00 +0000

A dor, por dentro, era tanta que parecia uma orquestra no meu peito. Disse para o ar: vai-te embora, prefiro que desapareças de uma vez por todas ou até que nunca tenhas existido, como é possível que a ausência de alguém seja tão mais pesada do que a sua presença, e como se vive assim sem enlouquecer de vez?

João Tordo, O Paraíso Segundo Lars D.

PS: O LMR faria hoje 40 anos. Tenho evitado o dia todo pensar nisto, refreio o instinto de me debruçar sobre a dor da sua ausência. Enquanto lia esta tarde o último romance do João Tordo, deparei-me com esta citação e retrocedi perto de 11 meses. Vai fazer 11 meses, dia 26. E não há nada que seja capaz de preencher essa ausência.

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Opinião: O luto de Elias Gro, de João Tordo https://branmorrighan.com/2015/05/opiniao-o-luto-de-elias-gro-de-joao.html https://branmorrighan.com/2015/05/opiniao-o-luto-de-elias-gro-de-joao.html#respond Mon, 04 May 2015 22:09:00 +0000

O luto de Elias Gro

João Tordo

Editora: Companhia das Letras (Penguin Random House Portugal)

Sinopse: Numa pequena ilha perdida no Atlântico, um homem procura a solidão e o esquecimento, mas acaba por encontrar muito mais. A ilha alberga criaturas singulares: um padre sonhador, de nome Elias Gro; uma menina de onze anos perita em anatomia; Alma, uma senhora com um coração maior do que a ilha; Norbert, um velho louco que tem por hábito vaguear na noite; e o fantasma de um escritor, cuja casa foi engolida pelo mar. O narrador, lacerado pelo passado, luta com os seus demónios no local que escolheu para se isolar: um farol abandonado, à mercê dos caprichos da natureza – e dos outros habitantes da ilha. Com o vagar com que mudam as estações, o homem vai, passo a passo, emergindo do seu esconderijo, fazendo o seu luto, e descobrindo, numa travessia de alegria e dor, a medida certa do amor. “O Luto de Elias Gro” é o romance mais atmosférico e intimista de João Tordo, um mergulho na alma humana, no que ela tem de mais obscuro e luminoso.

Opinião: Ser-se português implica carregar todo um legado emocional. Se é verdade que o sentimento saudade só tem palavra definida na nossa linguagem, também é verdade que existem pequenas particularidades que parecem ser encontradas só na nossa gente. A literatura portuguesa tem-se mostrado, nos grandes romancistas, recheada de uma profundidade que é raro encontrarmos na literatura estrangeira. Não falo de complexidades ou genialidades, falo antes de uma capacidade em explorar emoções e locais intrincados da mente humana no que toca ao relacionamento do eu consigo mesmo e do eu com os outros. Estreei-me na escrita de João Tordo com Biografia Involuntária dos Amantes e não demorei muito a aperceber-me que estava perante um escritor com essa capacidade. O luto de Elias Gro, embora num registo diferente, confirma esse talento nato, de alguém já amadurecido na escrita e capaz de enfrentar as suas próprias sombras.

“Parece que o lugar onde estamos nunca é suficientemente agradável. Deixa-me ver se acolá se está melhor. E, quando lá chegamos, percebemos afinal que a vida também estava a acontecer onde estávamos. Mas agora já estamos acolá e não podemos regressar, porque a vida também acontece acolá.”

Nesta obra vivemos histórias dentro de histórias. Temos o protagonista, que sendo já característica do autor não sabemos o seu nome, temos a sua vida comum anterior, a vida de Elias Gro na pequena ilha e ainda o retrocedimento nas memórias de um passado importante para Elias. No presente, procuramos o sentido para as acções do nosso narrador, que se procura a si mesmo. Pensa encontrar na solidão a paz que precisa, mas encontra antes uma série de tormentas que rapidamente tenta anestesiar com a bebida. É Cecilia, a filha de Elias, a única pessoa que o vai conseguindo despertar desse torpor e será também ela a causa do seu acordar.

“O que eu procurava era o esquecimento e, de repente, via-te em todo o lado. Minto, pois na verdade sentia-te em todo o lado.”

A narrativa de João Tordo tem tanto de silenciosa, de contacto directo com a alma, como de alarmante. Os compassos de espera, o desapego, a descoberta, a adrenalina e o amor estão muito bem conjugados, mas a componente fulcral é a perda. Aquele sentimento de impotência, de vazio, de desespero associado a uma terrível constatação de que o que foi já mais não será… E aprender a viver com isso. Uns isolam-se, outros perdem-se, outros tentam encontrar-se no meio de ambos. A inocência (que se perde a uma velocidade vertiginosa) de Cecília, marca de forma muita carinhosa esta obra. Alma não tem mãos a medir e Elias será sempre um enigma em muitas coisas. Cabe ao nosso personagem central decifrar o que quer de si e o que pode esperar dos outros.

“O intuito de abandonar estas ideias, de regenerar estes pensamentos (…) revela-se falhado. Quanto mais eu me remetia a mim próprio, julgando, dessa maneira, anular a influência do mundo, mais encontrava as raízes do meu desespero e mais era incapaz de sair dele. (…) Os pensamentos, como diabos à solta num quarto escuro e abafado, conduziam-me uma e outra vez à mesma conclusão, de que o homem transporta consigo o inferno, e que esse inferno não são os outros mas nós mesmos, quando entregues às nossas ideias mais acérrimas, às nossas intransigências mais cruéis, às nossas dúvidas mais corrosivas.”





Três excertos que tanto dizem, que tanto transmitem. E ainda assim são só uma gota no oceano que é O luto de Elias Gro. Estamos perante uma obra literária intensa, sofrida, íntima e, sinceramente, não esperava menos de João Tordo. Este talento exímio em escrever como ninguém sobre as zonas cinzentas do que somos, do que sentimos e de como nos enfrentamos. Uma leitura recomendada à cautela dos corações que já perderam muito, mas que ainda têm uma pequena chama que insiste em arder.

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Citações Aleatórias #19 https://branmorrighan.com/2015/04/citacoes-aleatorias-19.html https://branmorrighan.com/2015/04/citacoes-aleatorias-19.html#respond Mon, 27 Apr 2015 21:41:00 +0000

“Um dia tenho de lhe contar a história do faroleiro. Acho que vai gostar de a ouvir.

Está bem, concordei. Agora tenho de voltar para dentro.

Porquê.

Porque estava a fazer uma coisas.

Coisas?

Sim. Coisas.

Vai pôr o farol a funcionar outra vez?

Eu?

Assim vestido.

Não. Nada disso. Mas tenho de ir.

Repetimos essas frases muitas vezes, não é?

Que frases?

Tenho de ir. Estou com alguma pressa. Tenho coisas para fazer.

Não percebo.

Parece que o lugar onde estamos nunca é suficientemente agradável. Deixa-me lá ver se acolá se está melhor. E, quando lá chegamos, percebemos afinal que a vida também estava a acontecer onde estávamos. Mas agora já estamos acolá e não podemos regressar, porque a vida também acontece acolá.

João Tordo, O luto de Elias Gro

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Citações Aleatórias #18 https://branmorrighan.com/2015/04/citacoes-aleatorias-18.html https://branmorrighan.com/2015/04/citacoes-aleatorias-18.html#comments Sun, 26 Apr 2015 19:42:00 +0000

“O reverso de uma incomensurável perda é a consciência dessa perda. E a consciência chega através da dor. A dor não costuma mentir; nesse sentido, é o que mais importa. Sem ela, passaríamos do sofrimento momentâneo ao esquecimento. No fundo, a dor é paz; um lugar intermédio onde finalmente entendemos que, por mais que se repitam os gestos hábeis de todos os dias, o que aconteceu nunca tornará, e todas as coisas – todas, sem excepção – se irão perder, uma de cada vez, devagarinho, sem que tenhamos tempo de as deter na ida ou de perguntar para onde vão.”

João Tordo, O luto de Elias Gro

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[DESTAQUE] O luto de Elias Gro, novo romance de João Tordo, pela Companhia das Letras https://branmorrighan.com/2015/04/destaque-o-luto-de-elias-gro-novo.html https://branmorrighan.com/2015/04/destaque-o-luto-de-elias-gro-novo.html#respond Tue, 21 Apr 2015 16:00:00 +0000

O LUTO DE ELIAS GRO

João Tordo

Companhia das Letras

323 páginas

PVP 15,90€

Novo romance de João Tordo

O novo trabalho de João Tordo apresenta uma dimensão mais intimista e atmosférica, através do qual o autor mergulha na alma humana, com tudo aquilo que ela traz de mais obscuro, mas também de mais luminoso. 

Um livro sobre esquecimento e redenção.

LIVRO

Numa pequena ilha perdida no Atlântico, um homem procura a solidão e o esquecimento, mas acaba por encontrar muito mais. A ilha alberga criaturas singulares: um padre sonhador, de nome Elias Gro; uma menina de onze anos perita em anatomia; Alma, uma senhora com um coração maior do que a ilha; Norbert, um velho louco que tem por hábito vaguear na noite; e o fantasma de um escritor, cuja casa foi engolida pelo mar. O narrador, lacerado pelo passado, luta com os seus demónios no local que escolheu para se isolar: um farol abandonado, à mercê dos caprichos da natureza – e dos outros habitantes da ilha. Com o vagar com que mudam as estações, o homem vai, passo a passo, emergindo do seu esconderijo, fazendo o seu luto, e descobrindo, numa travessia de alegria e dor, a medida certa do amor. “O Luto de Elias Gro” é o romance mais atmosférico e intimista de João Tordo, um mergulho na alma humana, no que ela tem de mais obscuro e luminoso.

AUTOR

João Tordo nasceu em Lisboa em 1975. Formado em Filosofia pela Universidade Nova de Lisboa, trabalhou como jornalista freelancer em vários jornais. Viveu em Londres e nos Estados Unidos. Em 2001, venceu o Prémio Jovens Criadores na categoria de Literatura e, mais tarde, o Prémio Literário José Saramago 2009 com As Três Vidas (2008), tendo sido finalista, com o mesmo romance, do Prémio Portugal Telecom, em 2011. Com o romance O Bom Inverno, publicado em 2010, foi finalista do Prémio Melhor Livro de Ficção Narrativa da Sociedade Portuguesa de Autores e do Prémio Fernando Namora; a tradução francesa integrou os finalistas da 6.ª edição do Prémio Literário Europeu. Da sua obra publicada constam ainda os romances: O Livro dos Homens sem Luz (2004), Hotel Memória (2007), Anatomia dos Mártires (2011), finalista do Prémio Literário Fernando Namora 2012, e O Ano Sabático (2013) e Biografia Involuntária dos Amantes (2014). Os seus livros estão publicados em sete países, incluindo França, Itália e Brasil.

O Luto de Elias Gro será apresentado por José Tolentino Mendonça, no dia 28 de Abril, às 18h30, na Livraria Ler Devagar, na LX Factory, em Lisboa. 

Entrevista a João Tordo: 

http://www.branmorrighan.com/2014/06/entrevista-joao-tordo-escritor.html

Opinião Biografia Involuntária dos Amantes

http://www.branmorrighan.com/2014/06/opiniao-biografia-involuntaria-dos.html

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Citações Aleatórias #9 https://branmorrighan.com/2014/06/citacoes-aleatorias-9.html https://branmorrighan.com/2014/06/citacoes-aleatorias-9.html#respond Fri, 27 Jun 2014 11:00:00 +0000

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Entrevista a João Tordo, Escritor Português, sobre o livro “Biografia Involuntária dos Amantes” https://branmorrighan.com/2014/06/entrevista-joao-tordo-escritor.html https://branmorrighan.com/2014/06/entrevista-joao-tordo-escritor.html#comments Sat, 21 Jun 2014 14:29:00 +0000 Entrevista a João Tordo

João Tordo tem 38 anos, é lisboeta e conta já com sete romances publicados. Estudou Jornalismo e Escrita Criativa em Londres e Nova Iorque e, em 2009, ganhou o prémio José Saramago com a sua obra As Três Vidas, tendo sido também finalista em vários outros prémios. Recentemente lançou Biografia Involuntária dos Amantes pela Alfaguara. Aproveitando a sua estadia pela Feira do Livro de Lisboa, acabámos por conversar um pouco sobre o seu percurso como escritor e um pouco mais detalhadamente sobre este seu último livro.

Fotografia Sofia Teixeira

Além de escritor, João Tordo também toca contrabaixo na banda The Loafing Heroes, mas descarta rapidamente o seu protagonismo nesta área: «Não sou músico, toco um instrumento, são duas coisas diferentes. Toco numa banda, mas é um hobbie, a minha vida é a escrita.»

Curiosa sobre o início da sua carreira e sobre como começou a sua vida de escritor, João Tordo conta-me que não se lembra bem de quando começou a escrever: «Não me recordo exactamente de como é que comecei a escrever, mas quando dei por mim já o estava a fazer, surgia-me naturalmente e era uma forma de me tentar apropriar da realidade e de tentar perceber o que se passava à minha volta. Passado algum tempo, o escritor acabou por passar por um fenómeno de imitação, quando comecei a ler muito na adolescência e comecei a tentar imitar aqueles escritores que lia.»

Já o percurso de leitura começou com livros mais juvenis evoluindo para leituras mais clássicas, convergindo para o momento em que se tornou escritor: «Comecei com Os Cinco, Os Sete, Sherlock Holmes, Banda Desenha, Ficção Científica e Fantástico – coisas que são mais fáceis quando és adolescente. Entretanto, muito por causa da Feira do Livro, lembro-me de vir cá com o meu padrasto e com a minha mãe e de eles me começarem a comparar livros mais “para adultos”. Acho que o primeiro romance assim mais sério que li foi o Crime e Castigo e gostei mesmo muito. A partir daí pensei – bem, isto é uma coisa diferente de tudo o que tenho lido – e comecei a escrever e a tentar imitar.

Mais tarde, passei por Dostoievski, Kafka, Melville, por outros clássicos russos, por alguma literatura policial americana como a Colecção Vampiro, por Carver, Oster, Don DeLillo, Márquez, entre outros. E comecei a tentar imitar, a ver como é que escreviam. Era um exercício um bocado inglório, eu era um adolescente e não tinha as ferramentas, nem a idade, nem a experiência para escrever como eu gostava de escrever. Então, durante muito tempo não escrevi ficção, mais ou menos entre os 17, 18 anos até aos 23, 24. Dediquei-me a estudar, fui para Inglaterra e depois para os Estados Unidos e fui aprender a fazer outras coisas.

No meu segundo ano, em Londres, é que o apelo da escrita voltou sem eu conseguir explicar porquê. De repente, comecei a recordar que aquilo que eu fazia, até ao final dos meus tempos de adolescente, era aquilo que, de facto, me preenchia. A verdade, é que me sentia um bocado perdido. Apesar de ter escolhido o jornalismo, não foi algo a que me tivesse dedicado de alma e coração, portanto, a certa altura, achei que tinha de encontrar aquilo que ,de facto, eu gostava mesmo de fazer e isso era ficção, eram os livros.

Então recomecei. Dos 25 aos 27 fiz uma série de tentativas falhadas de escrever um primeiro romance, e aos 27 consegui escrever o primeiro romance com o qual me senti satisfeito. Enviei para as editoras e depois o resto foi acontecendo por si.»

Quanto ao seu estilo de escrita, João Tordo diz-nos que é muito difícil de caracterizar e que é a pior pessoa para o fazer: «Ainda  tendo a imitar e a ser influenciado por aquilo que vou lendo. Apesar de ter uma voz própria – estava lixado se ao fim de sete romances ainda não tivesse (risos) – acabo por ter um estilo muito híbrido. Tanto pode resvalar para uma prosa mais narrativa, de fazer a história prosseguir ao virar de página, como para algo mais introspectivo. Não sei como é o meu estilo, ainda não o tenho muito definido. Sou bastante maleável, é consoante o dia! (risos).»

Já quanto ao ritmo e rituais de escrita, condena-se por não conseguir escrever todos os dias como devia: «Como a um corredor de fundo faz bem correr todos os dias, também um escritor deve escrever todos os dias. Eu tenho muita coisa ao mesmo tempo durante o ano todo e acabo por guardar uma certa parte do ano para escrever, normalmente, o Verão. Mas quando escrevo, sou muito metódico e organizado. Normalmente, acordo muito cedo, escrevo sempre à mesma hora, deito-me cedo e sou muito obsessivo com o meu trabalho.»

Após a leitura de Biografia Involuntária dos Amantes, ficou claro que esta é uma leitura muito íntima, que toca o leitor e levanta uma série de questões em relação às obsessões retratadas. Questionado sobre a intenção por trás da obra, João Tordo explicou: «Não sei definir muito bem o livro. Eu acho que há ali uma série de obsessões que estão relacionadas com o facto de nenhuma personagem saber o que quer, de não saber do que é que gosta. Há uma dissociação enorme entre a emoção e a razão. Racionalmente, tentam justificar as suas próprias vidas.

O professor e o Saldaña Paris, durante a primeira parte do livro, nunca se calam, estão sempre nisto e naquilo, nisto e naquilo, em diálogos, hipóteses e conjecturas, mas nenhum deles consegue associar isso a emoções. São pessoas que perderam a capacidade de sentir e de perceber que os sentimentos não são para tu agires, são para tu sentires, e eles correm atrás dos sentimentos. O Saldaña Paris anda atrás daquela mulher, mesmo depois de morta, ele continua a correr atrás dela, mas não é atrás dela, é atrás de um sentimento que ele não poderá recuperar, e que quando o teve não soube aproveitar.

São personagens que como não sabem aquilo que querem, nem daquilo que gostam, que não sabem reconhecer os sentimentos, resta-lhes o drama de qualquer ser humano – a dúvida. Quando não sabes o que queres, hesitas constantemente e isso é um drama que conduz à obsessão e é esta obsessão que é retratada no livro. Todo o romance é uma quimera, é uma procura por uma coisa que já não existe. O que interessa saber o que é que aconteceu à Teresa? Não interessa, não é? Não acontece nada! No entanto, é uma obsessão que existe e está lá,  e essa quimera que o protagonista assume como sua é o que é assustador no livro, porque ele não consegue parar. Isso, é assustador.»

Esta é a primeira obra em que João Tordo assume parte da escrita no feminino através da personagem Teresa, com todos os seus enigmas e mistérios. Quem é afinal Teresa? Em que é que é inspirada? «Teresa é inspirada numa série de pessoas, mas é mais a ideia de uma mulher do que alguém real. Ela tem aquela existência muito fragmentária, nunca sabemos exactamente o o que é que ela pensa, ou como foi a sua vida, só conhecemos aquele período inicial em que decorre aquela adolescência estranha e, ainda assim, é ela o centro das atenções, daquela obsessão que acaba por provocar toda uma série de equívocos e mal entendidos. Acho que Teresa acaba por ter coisas de várias mulheres que fui conhecendo e acaba por ser mais uma mistura de coisas do que uma mulher propriamente dita.»

Um facto curioso, que descobri antes da entrevista, é que existe realmente um poeta chamado Saldaña Paris com quem João Tordo se cruzou a certa altura da sua vida: «Conheci-o no Canadá, em 2012. Fui para lá fazer uma residência, em Montreal, e ele também lá estava a fazer essa mesma residência. Não morávamos juntos, mas assim que nos conhecemos, ficámos logo amigos. Não posso dizer que seja uma amizade muito sólida, porque não nos vemos há muito tempo, mas trocamos mails e correspondência. Ele é muito parecido comigo e achei piada a isso.»

Uma característica da personagem Saldaña Paris é que todos os poemas que escreve acaba por largá-los e abandoná-los pelos mais variados sítios. Como é o verdadeiro Saldaña Paris? «Não é tão grave como o do livro (risos). O do livro está sempre a perder coisas. Acaba por ser uma rejeição. É daquelas personagens com baixíssima auto-estima e que rejeitam tudo o que fazem. Ele rejeita tudo o que faz. Ou então não tem importância nenhuma para ele. Afinal, o que tem importância para ele é algo que já não está cá, enfim, ele é um romântico.»

Vai fazer 10 anos que o autor teve o seu primeiro romance publicado e explica que este último é o princípio de uma mudança, na qual o autor espera conseguir despegar-se mais de si mesmo e das suas emoções para fazer coisas diferentes: «Este livro é o princípio de alguma coisa que ainda não sei bem o que é. Talvez nos próximos livros seja mais evidente do quê. Depois logo se verá. Este romance foi bom para mim, porque me permitiu fazer coisas que nunca tinha feito antes, pensar de maneiras que nunca tinha pensado antes. Permitiu-me perceber que posso não ser só um, que posso ser vários e isso foi bom.

No entanto, ainda estou muito apegado à minha maneira de ser. Talvez nos próximos romances, me consiga despegar mais e fazer coisas ainda mais complicadas, coisas nas quais eu consiga identificar as emoções, mas em que elas não tenham nadaque ver comigo. Acho que, sobretudo neste romance, passo por muitas das inquietações que se vêem retratadas neste livro.»

Será a sua escrita uma forma de exorcizar as suas emoções? João Tordo responde-nos: «Acho que exorcizar é muito difícil, não consegues exorcizar nada só com um livro, precisas de tempo, de anos e de experiência. Mas ajuda muito a identificar essas inquietações e,em última análise, serve para estarmos fora de nós próprios, enquanto lemos o livro. No bom sentido, claro.

Fotografia Sofia Teixeira

Uma das maiores dificuldades dos escritores, em Portugal, é conseguirem fazer da escrita uma ocupação a tempo inteiro. João Tordo não é excepção: «Tenho muitas dificuldades. Tenho de fazer muito trabalho à parte para conseguir poder sobreviver como escritor. Vou dando aulas, vou fazendo traduções, escrevendo crónicas e guiões, o que for aparecendo. A vida de escritor não é como as pessoas pensam, é complicada. Daí, por vezes, não conseguir escrever sempre que quero. Acabo por ter muitas coisas na cabeça.»

Perguntei-lhe o que é que ele acha que se poderia alterar no nosso país para isso mudar: «Não acho que haja muito para alterar. Se eu não vendo livros suficientes para poder subsistir, o problema é um bocado meu. Não posso obrigar as pessoas a comprarem os meus livros e acho que já tenho um número de leitores bastante vasto. Se ao fim de 10 anos gostava de ter mais, claro que sim, mas já tenho um número considerável. Não nos podemos esquecer de que estamos num país pequeno e que ,ainda assim, se vendem e se compram livros em Portugal. Agora, se formos comparar com a Islândia ou a Noruega, onde se lê imenso, se calhar lemos ou vendemos pouco. Estamos num país pequeno e acaba por ser mais difícil. Talvez haja meia dúzia de escritores que conseguem viver só daquilo que escrevem, eu não consigo.»

No que toca à importância dos autores portugueses no nosso mercado literário a visão é optimista: «Acima de tudo, acho que os autores portugueses estão a ter cada vez mais reconhecimento. Nos últimos anos, demos um salto enorme, não só em relação à qualidade dos autores portugueses, comotambém na forma como o público recebe esses autores. A nova geração está a ser muito bem recebida.»

Em relação a projectos futuros, o mistério fica no ar: «Tenho um projecto para o futuro próximo, mas não posso nem quero falar sobre isso, porque não sei exactamente o que é. Estou aqui a matutar, há já várias semanas, para perceber o que vem a seguir, mas ainda não posso dizer nada (risos).»

E uma mensagem para os leitores? «Que continuem a ler, que leiam bons livros e que sejam escrupulosos nas suas escolhas.»

Da minha parte, um muito obrigada ao João Tordo pela disponibilidade e pelos minutos naquela tarde ventosa da Feira do Livro de Lisboa (sim, tivemos sorte, fizemos a entrevista antes da semana do calor!).

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