Jorge Luis Borges – Bran Morrighan https://branmorrighan.com Literatura, Leitura, Música e Quotidiano Mon, 28 Dec 2020 05:53:18 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9 https://branmorrighan.com/wp-content/uploads/2020/12/cropped-Preto-32x32.png Jorge Luis Borges – Bran Morrighan https://branmorrighan.com 32 32 Sugestões de Natal, por João Morales: Nova Antologia Pessoal, de Jorge Luis Borges https://branmorrighan.com/2019/12/sugestoes-de-natal-por-joao-morales_19.html https://branmorrighan.com/2019/12/sugestoes-de-natal-por-joao-morales_19.html#respond Thu, 19 Dec 2019 22:14:00 +0000

Nova Antologia Pessoal

Jorge Luis Borges (traduções de Fernando Pinto de Amaral, José Colaço Barreiros, José Bento e António Alçada Baptista)

Quetzal

312 págs

17,70 euros

Um poema adequado para tempo de balanços.

«Onde estarão os séculos, onde o sonho

Das espadas que os tártaros sonharam

Onde os sólidos muros que aplanaram,

Onde a árvore de Adão e o outro Lenho?

O presente está só. Mas a memória

Constrói o tempo. Sucessão e engano

É a rotina do relógio. O ano

Nunca é menos vão do que a vão história.

Entre a aurora e a noite há um abismo

De agonias, de luzes, de cuidados,

O rosto que se vê nos desgastados

Espelhos da noite já não é o mesmo.

O hoje fugaz é ténue e eterno;

Não esperes outro Céu nem outro Inferno.»

Já tinha avisado que nem todas as sugestões desta extensa lista seriam livros acabadinhos de publicar. No entanto, há apenas dois anos, saiu entre nós uma nova edição (e num formato bastante convidativo) do livro que escolhi para ser a penúltima proposta de oferta em 2019. “Nova Antologia Pessoal”, de Jorge Luis Borges, como disse, reeditado pela Quetzal, no âmbito do excelente trabalho que a editora tem vindo a fazer ao colocar de novo ao nosso dispor as obras deste escritor obrigatório (coloco aqui uma cunha para recordar que ainda falta O Fazedor).

O livro reúne textos de formatos distintos e pode funcionar tão bem para um leitor conhecedor do trabalho do argentino como numa iniciação ao universo peculiar mas carismático que o define. Entre poemas (como o transcrito “O Instante”, “Xadrez”, “As coisas” ou “James Joyce”), prosa dispersa, contos (“A aproximação a Almotasim”, “O Imortal”) e ensaios (“A flor de Coleridge”, “O sonho de Coleridge”).

Pessoalmente, é um dos livros que mais me marcaram em toda a extensa e valiosa obra deste autor argentino, mestre na ironia, no recurso ao Fantástico, exploração da parábola e da simbologia, questionamento das condicionantes imutáveis em que Humanidade se desenvolveu desde sempre, hábil conhecedor da natureza ludibriosa da imaginação e da memória, amplo cartógrafo de certezas intemporais e outras caraterísticas que o talham como um dos mais originais e influentes escritores de sempre.

Gostava também de destacar a importância da reedição destes livros, porque quando a dimensão de um autor assim o justifica (e há vários outros exemplos que poderia dar), os editores devem ter em consideração que a cada 10 / 15 anos temos uma nova geração de leitores, tantas vezes desconhecedora – como é natural – dos maiores sucessos de vendas e de leitura durante a geração que a antecedeu. Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Boris Vian, Jean-Paul Sartre, Ernest Hemingway, Italo Calvino, Philip K. Dick, Jorge de Sena, Ruy Belo, José de Almada Negreiros, Moebius, José Carlos Fernandes, Alberto Manguel, Mário Cesariny de Vasconcelos, e tantos, tantos outros, devem estar sempre disponíveis nas livrarias.

Além de todos os argumentos, este livro traz consigo “O Jardim dos caminhos que se birfurcam”, essa peça de ourivesaria literária, que nos questiona profundamente sobre o acaso e os limites da nossa capacidade de livre arbítrio, ao expor tempos díspares, num mapa de possibilidades que ultrapassa a observação humana: «Ao contrário de Newton e de Schopenhauer, o seu antepassado não acreditava num tempo uniforme e absoluto. Acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Esta trama de tempos que se aproximam, se bifurca, e se cortam, ou que secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades. Nós não existimos na maior parte desses tempos, nalguns deles existe você e eu não; noutros eu e não nós, noutros ainda, existimos os dois. Neste, que um favorável acaso me proporciona, você chegou a minha casa; noutro, você, ao atravessar o jardim, deu comigo morto; e noutro, eu digo estas mesmas palavras, mas sou um erro, um fantasma».

João Morales

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Opinião: O Aleph de Jorge Luis Borges https://branmorrighan.com/2013/02/opiniao-o-aleph-de-jorge-luis-borges.html https://branmorrighan.com/2013/02/opiniao-o-aleph-de-jorge-luis-borges.html#respond Sat, 16 Feb 2013 12:39:00 +0000

O Aleph

Jorge Luis Borges

Editora: Quetzal

Sinopse: Neste conjunto de ficções publicado em 1949 (acrescido de quatro textos na edição de 1952), encontramos os motivos borgesianos recorrentes: o tempo, o infinito, a imortalidade, a identidade, o duplo, a perplexidade metafísica.

Descoberto na cave de um casarão devoluto, o Aleph – que dá título ao último conto e ao livro – é “uma pequena esfera de cor tornesol, de um fulgor quase intolerável”, o ponto no universo a partir do qual se vê a totalidade do universo, em simultâneo e sob todos os ângulos. Borges tê-lo-á definido com a comparação: «o que a eternidade é para o tempo, o Aleph é para o espaço.»

«Começa aqui o meu desespero de escritor.» – afirma o narrador – «Toda a linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartilham; como transmitir aos outros o infinito Aleph (…)?»

Opinião: Quem lê uma vez Jorge Luis Borges, a partir desse momento, reconhecerá para sempre a sua escrita, o seu estilo e a sua forma de expressão. Publicado no fim da Segunda Guerra Mundial, O Aleph, para além de trazer um conto homónimo, traz outro quantos que o autor diz, no epílogo, corresponderem ao género do fantástico.

Borges é o mestre da manipulação da realidade, transformando-a e apresentando-a sob várias formas. Em cada uma delas aborda um novo tema que poderá muitas vezes transcender o leitor. Ele fala do infinito, da imortalidade, dá-nos a conhecer o bizarro e consegue deixar-nos perplexos com a metafísica dos seus problemas. Para complementar tudo isto, e porque é dos meus temas preferidos, o autor consegue tornar a teologia num tema extremamente interessante nos contos que constrói. O que poderia ser chato e aborrecido, Jorge Luis Borges torna fantástico e maravilhoso.

Em relação ao último conto O Aleph, o escritor disse o seguinte sobre o mesmo: “O que a eternidade é para o tempo, o aleph é para o espaço“. Curiosos? Espero bem que estejam pois na minha opinião, que vale o que vale, este é sem dúvida um dos maiores e mais estrondosos escritor do género fantástico. Quem é fã do género não pode não ter Jorge Luis Borges nas suas estantes.

Opinião do Livro de Areia do autor Jorge Luis Borgeshttps://branmorrighan.com/2012/04/opiniao-o-livro-de-areia-de-jorge-luis.html

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Opinião: ‘A Carta Roubada’ de Edgar Allan Poe https://branmorrighan.com/2013/01/opiniao-carta-roubada-de-edgar-allan-poe.html https://branmorrighan.com/2013/01/opiniao-carta-roubada-de-edgar-allan-poe.html#respond Tue, 15 Jan 2013 08:43:00 +0000

A Carta Roubada

Edgar Allan Poe

Editora: Editorial Presença

Colecção: A Biblioteca de Babel #8

Sinopse: As neuroses e a pobreza de Poe foram grandes desgraças, sem dúvida alguma, mas a vida reservou-lhe uma felicidade sem fim: a invenção e a realização de uma obra esplêndida. Poderia acrescentar-se que a desgraça foi o instrumento necessário dessa obra.

Há cerca de setenta anos, sentado no último degrau de uma escada que já não existe, li “The pit and the pendulum”; já me esqueci das vezes que, depois, o li, reli ou pedi que mo lessem; sei que ainda não cheguei à última vez e que voltarei ainda à prisão quadrangular que se vai comprimindo e ao abismo sem fundo.

Jorge Luis Borges

Opinião: Iniciei esta leitura com uma grande curiosidade. De Edgar Allan Poe possuía apenas um livrinho ‘O Corvo e outros poemas‘, com a tradução de Fernando Pessoa, e como tal ainda não tinha experimentado a vertente de prosa (uma vergonha, eu sei, mea culpa). Creio, no entanto, numa primeira análise, que a escrita de Poe poderá não agradar a todos, não obstante de ser fascinante.

A Carta Roubada é um pequeno livro de cinco contos que se lê bem, mas cuja digestão é preciso ser feita com calma. O primeiro conto “A Carta Roubada” é um conto policial que me fez lembrar imenso Sherlock Holmes. O estilo da história é muito semelhante às de Doyle o que na verdade nos faz pensar que é possível que este se possa ter inspirado em Poe.

Os restantes contos fogem completamente ao suposto conceito de normalidade. Cada um mais insólito que o outro, fazem o leitor passar por cenários que o poderão abalar um pouco. Abordando temáticas como o Mesmerismo, a Solidão, a Loucura, entre outros, o Horror inerente a cada história é surpreendente. Ao mesmo tempo que espanta o leitor com a sua imaginação um pouco retorcida, Poe acaba por fascinar quem o lê por essas mesmas razões.

Uma escrita eloquente e um traço de personalidade de escrita definido fazem com que seja fácil de se identificar quando se lê Poe. Gostei particularmente do terceiro e do quinto conto. Em “Manuscrito Encontrado numa Garrafa” confesso que nunca cheguei bem a perceber se na verdade a tripulação do barco estava mesmo viva e o personagem era apenas um espectro ou se era algo diferente. No último “O Poço e o Pêndulo” foi a constante ansiedade e terror que acabaram por marcar a leitura. A lenta descoberta do espaço confinado em que o personagem principal se encontra, tal como todas as suas armadilhas e a forma como é empurrado para a morte vão criando um nó no estômago do leitor mais sensível.

Penso que esta colecção de obras seleccionadas por Jorge Luís Borges é uma boa aposta da Editorial Presença. São volumes pequenos, mas que nos dão a conhecer os géneros e estilos dos variadíssimos autores clássicos. Brevemente lerei outro volume – Contos Russos.

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Opinião: ‘O Livro de Areia’ de Jorge Luis Borges https://branmorrighan.com/2012/04/opiniao-o-livro-de-areia-de-jorge-luis.html https://branmorrighan.com/2012/04/opiniao-o-livro-de-areia-de-jorge-luis.html#respond Sun, 01 Apr 2012 14:16:00 +0000

O Livro de Areia

Jorge Luis Borges

Editora: Quetzal

Sinopse: «Não mostrei a ninguém o meu tesouro. À felicidade de possuí-lo juntou-se o medo de que mo roubassem, e depois o receio de que não fosse verdadeiramente infinito. Essas duas inquietações agravaram a minha já velha misantropia. Sobravam uns amigos; deixei de vê-los. Examinei com uma lupa a lombada já gasta e as capas e rejeitei a possibilidade de algum artifício. Comprovei que as pequenas ilustrações distavam duas mil páginas uma da outra. Fui-as anotando num registo alfabético, que não tardei a encher. Nunca se repetiram. De noite, nos escassos intervalos que me concedia a insónia, sonhava com o livro.»

Opinião: O Livro de Areia de Jorge Luis Borges, é um pequeno livro de contos que primeiro estranha-se e depois entranha-se. Existe um enorme sentimento de transcendência ao longo da leitura. A constante metafísica presente nos contos, leva-nos por vezes a deambular num mar filosófico que parece não ter fim.

Apesar de ter a sua pitada de fantástico, penso que o grande impacto que este livro acaba por ter no leitor é a obrigação de exercitar a mente e estar completamente atento e concentrado na narrativa se não se quiser perder.

Abordando assuntos como o amor, a política, religião e ideais pessoais, são diversas as formas como o autor nos transmite que nada tem um início ou um fim, pelo menos passível de ser identificado, culminando essa mesma demonstração no último conto intitulado de ‘O Livro de Areia’.

Uma leitura que se mostrou ser uma autêntica descoberta e descodificação de labirintos intrínsecos ao pensamento humano e às suas limitações.

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