Kalandraka – Bran Morrighan https://branmorrighan.com Literatura, Leitura, Música e Quotidiano Mon, 28 Dec 2020 05:53:19 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 https://branmorrighan.com/wp-content/uploads/2020/12/cropped-Preto-32x32.png Kalandraka – Bran Morrighan https://branmorrighan.com 32 32 Sugestões de Natal, por João Morales: Estamos Todos na Sarjeta, de Maurice Sendak https://branmorrighan.com/2019/12/sugestoes-de-natal-por-joao-morales_5.html https://branmorrighan.com/2019/12/sugestoes-de-natal-por-joao-morales_5.html#respond Thu, 05 Dec 2019 21:24:00 +0000

Estamos Todos na Sarjeta

Maurice Sendak (tradução de Carla Maia de Almeida)

Kalandraka

56 págs

17 euros

Catalogar este livro como sendo para crianças, é limitar de forma impensável a absurda a evidente amplitude do trabalho de Maurice Sendak, cuja dureza destas extraordinárias ilustrações o confirma como um dos mais inventivos criadores de monstros… mesmo quando eles se assemelham aos humanos. Aproveitemos ainda para louvar o trabalho da Kalandraka que, após o sucesso do mediático Onde se Escondem os Monstros, prosseguiu em Portugal a publicação de trabalhos deste artista norte-americano, sempre a desafiar a linha ténue entre a ilustração para crianças e adultos, o que nos permite, muitas vezes, a obliteração dessa linha.

O livro parte de duas narrativas tradicionais, as chamadas Rimas de Berço – “In the Dumps” e “Jack and Guy” – contando a história de uma criança sem-abrigo, levada por ratazanas gigantes e que se defronta com uma dupla – João e Rui – onde ecoam memórias da dupla que assedia Pinóquio, a raposa e o gato matreiros. O ambiente conseguido por Sendak evoca uma genealogia que agrega William Blake, Shaun Tan, Will Eisner mas também Bordalo Pinheiro ou Quentin Blake, o ilustrador que trabalhou em dupla com Roald Dahl.

Maurice Bernard Sendak (1928 – 2012) nasceu em Brooklin, filho de judeus polacos. Viu muitos dos seus familiares serem devorados pelo Holocausto, durante a Segunda Guerra Mundial, o que haveria de ajudar a definir a sua personalidade e a sua arte para sempre.

Há um lado severo nas descrições das criaturas, mas que parece coexistir com uma condenação, uma apreciação dúbia digna de um quadro de Hieronymus Bosch, entre a denúncia e a exaltação. “Recuso-me a mentir às crianças”, lançava ele na sua última entrevista, publicada no The Guardian, em 2011.

O dinheiro, a solidariedade, a intrínseca maldade humana, o desespero, as grandes opções da Humanidade que ditaram uma moral colectiva que desvaloriza a dimensão humana para relevar uma sobrevivência cega e feroz, de tudo isto é feito este livro perturbador, tão actual como os temas que sobrevoa (foi lançado inicialmente em 1993). Na já referida entrevista confessava: “Sou totalmente louco, eu sei disso. Não digo isto para parecer um espertalhão, mas sei que essa é a essência do que torna o meu trabalho bom. E sei que o meu trabalho é bom. Nem toda a gente gosta, tudo bem. Não o faço para todos. Ou para ninguém. Faço porque não posso deixar de fazê-lo. “

João Morales

]]>
https://branmorrighan.com/2019/12/sugestoes-de-natal-por-joao-morales_5.html/feed 0