Leituras 2017 – Bran Morrighan https://branmorrighan.com Literatura, Leitura, Música e Quotidiano Sun, 10 Jan 2021 09:44:27 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9 https://branmorrighan.com/wp-content/uploads/2020/12/cropped-Preto-32x32.png Leituras 2017 – Bran Morrighan https://branmorrighan.com 32 32 Opinião: Reino de Feras, de Gin Phillips https://branmorrighan.com/2018/01/opiniao-reino-de-feras-de-gin-phillips.html https://branmorrighan.com/2018/01/opiniao-reino-de-feras-de-gin-phillips.html#respond Wed, 10 Jan 2018 17:13:00 +0000

Reino de Feras

Gin Phillips

Editora: Suma de Letras Portugal

Sinopse: Lincoln é um bom menino. Aos quatro anos é curioso, inteligente e bem comportado. Lincoln faz o que sua mãe diz e sabe quais são as  regras. “As regras são diferentes hoje. As regras são que nos escondamos e que não deixemos que o homem com a arma nos encontre.” Quando um dia comum no jardim zoológico se transforma num pesadelo, Joan encontra-se presa com o seu querido filho. Deve reunir todas as suas forças, encontrar coragem oculta e proteger Lincoln a todo custo – mesmo que isso signifique cruzar a linha entre o certo  e o errado; entre a humanidade e o instinto animal. É uma linha que nenhum de nós normalmente sonharia cruzar. Mas, às vezes, as regras são diferentes. Um passeio de emoção magistral e uma exploração da maternidade em si – desde os ternos momentos de graça até ao poder selvagem. Reino de Feras questiona onde se encontra o limite entre o instinto animal para sobreviver e o dever humano para proteger os outros. Até onde vai uma mãe para proteger o seu filho?

OPINIÃO: Reino de Feras é uma das grandes apostas da Suma de Letras para este início de 2018. Um thriller psicológico que expõe a maternidade e os instintos básicos quando queremos proteger quem mais amamos, num ambiente sufocante com uma grande dose de imprevisibilidade no que toca à dimensão da violência. É também a primeira obra de Gin Phillips, que já foi premiada. Tudo reunido, a expectativa para esta leitura era bastante elevada.

Conhecemos então Joan e o seu filho, Lincoln, de quatro anos, no seu passeio habitual, quase à hora de fecho, no jardim zoológico. O pequeno adora super-heróis, é curioso e irrequieto. Sentimos logo um grande laço entre mãe e filho. Quando chega a hora de fecho, Joan e Lincoln começam a dirigir-se a uma das saídas. Logo aqui, pouco depois da narrativa começar, sentimos que algo está prestes a acontecer. A autora introduz o suspense com Joan a pensar que gostava de encontrar mais gente agora que se está a ir embora. É então que avista um cenário aterrador e o seu sentido de sobrevivência entra em alerta. É aqui que começa a grande caça ao homem, neste caso, a fuga ao homem/aos homens. Do ponto de vista dos maus da fita, Gin Phillips explora a maldade vista por uma perspectiva muito curiosa. Nem sempre é preciso passarmos por eventos traumatizantes, às vezes basta estarmos aborrecidos e não termos bons pilares de personalidade.

De uma coisa não tenho dúvida, esta foi uma leitura galopante que conseguiu manter-me em alerta até à última palavra. Ainda assim, não posso dizer que tenha sido dos thrillers mais empolgantes. Existem algumas brechas na história, pouca evolução das personagens secundárias e algumas circunstâncias e acções pouco coerentes. Apesar de ter lido o livro em dois dias, senti que à medida que caminhava para o fim do livro perdia também alguma empatia com o enredo. Joan é constantemente confrontada com o facto de ter de decidir como agir, qual a melhor forma de proteger Lincoln. Ao início ainda tem telemóvel, mas o uso que lhe fez… E depois existe este pequeno pormenor que ainda hoje me lateja na cabeça… Sendo mãe, como é que se reagiria ao vermos um bebé num caixote do lixo? Algumas perguntas, em relação ao destino de algumas personagens, nunca foram respondidas.

O grande ponto forte desta obra, para além do suspense, é mesmo as questões e reflexões que levanta. Se estivéssemos no lugar da protagonista, o que faríamos para proteger o nosso filho? Não sou mãe e, como tal, nunca senti aquela vertigem que as mães dizem sentir quando algo tão precioso nasce. Dizem que a relação entre mãe e filho/a é tão visceral que a progenitora é capaz de tudo para proteger a sua criança. E aqui, para quem não tem filhos, existe um exercício interessante de tentar sentir essas emoções. A minha maior curiosidade prende-se até com a opinião que leitoras que já são mães possam ter sobre esta história. Existe uma intensidade em toda a história que de alguma maneira faz com que esta nos fique na cabeça, mesmo muito tempo depois da leitura terminada. Resumindo, Reino de Feras é um livro que se lê bastante bem, que não se perde nada em ser lido, e sendo o primeiro livro da autora existe todo um potencial para os próximos virem a ser ainda melhores. Os ingredientes estão lá. 

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Opinião: O Sol Também É Uma Estrela, de Nicola Yoon https://branmorrighan.com/2018/01/opiniao-o-sol-tambem-e-uma-estrela-de.html https://branmorrighan.com/2018/01/opiniao-o-sol-tambem-e-uma-estrela-de.html#respond Tue, 09 Jan 2018 10:21:00 +0000

O Sol Também É Uma Estrela
Nicola Yoon

Editora: Editorial Presença

OPINIÃO: O Sol Também É Uma Estrela é um daqueles livros que eu gostava de ter lido em adolescente. Porquê? Porque sei que tem todo o potencial para derreter corações apaixonados que ainda têm inocência e carisma suficiente para acreditarem no amor à primeira vista ou para se deixarem apaixonar de coração aberto rapidamente. Em Tudo, Tudo… E Nós, Nicola Yoon já tinha demonstrado mestria em envolver o leitor com os seus protagonistas, em abordar cenários delicados e transportar-nos para realidade com as quais talvez não sejamos confrontados com muita frequência.

Neste romance, para além de uma história que cruza as vidas dos encantadores Natasha e Daniel, a autora consegue abordar duas diferentes perspectivas sobre as consequências de emigração para os Estados Unidos. Natasha nasceu na Jamaica e toda a sua família está ilegalmente nos Estados Unidos, mesmo o seu irmão tendo já nascido no país. Daniel é asiático, os seus pais são coreanos e tiveram de lutar muito por uma vida digna. Estes pequenos grandes pormenores são pontos-chave em momentos desta obra de Nicola Yoon, que volta a ter o potencial de impressionar e conquistar leitores.

Um dos maiores contrastes que nos faz sentir, logo à partida, uma enorme empatia com Daniel e Natasha, é a forma tão diferente como encaram as suas vidas. São dois extremos que provavelmente encontram um equilíbrio no leitor. Ou seja, se por um lado Natasha tem uma mente super prática, pouco romântica e sempre objectiva, Daniel é um romântico incurável e tem alguma crença no destino para o qual acha estar destinado. Natasha vem abalar isso.

E o que eu achei curioso é que não serão poucas as pessoas que já foram um bocadinho como cada um deles. Foi também por isso que ao início disse que gostava de ter lido este livro há uns anos atrás, antes de a vida abanar com a inocência e a crença que tudo é possível se nos esforçarmos o suficiente, que tanto nos caracteriza enquanto somos jovens. 

Nicola Yoon tem uma escrita que já é uma impressão digital. A alternância entre os protagonistas na primeira pessoa, o aspecto sonhador e ao mesmo tempo duro. Esperanças recheadas de algum sofrimento e expectativas que até ao fim não sabemos bem como vão acabar. A forma como construiu a ponte entre Natasha e Daniel e depois alimentou o romance entre os dois está perfeitamente equilibrada com a envolvente familiar que terá implicações directas na sua relação. Ou seja, este romance é sobre este casal, mas é muito mais do que isso. O enredo é forte e bem contextualizado e caracterizado. Uma boa leitura.

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Opinião: O Gigante Secreto do Avô, de David Litchfield https://branmorrighan.com/2017/12/opiniao-o-gigante-secreto-do-avo-de.html https://branmorrighan.com/2017/12/opiniao-o-gigante-secreto-do-avo-de.html#respond Wed, 13 Dec 2017 00:06:00 +0000

O Gigante Secreto do Avô

David Litchfield

Editora: Booksmile

Sinopse: Quando o avô lhe diz que existe um gigante escondido na sua cidade, que ajuda toda a gente em segredo, o Billy não acredita. Por isso, decide procurá-lo. Mas quando finalmente o vê com os seus próprios olhos, ele fica aterrorizado! ​ O que o Billy não sabe é que aquele enorme e assustador gigante está prestes a ensinar-lhe uma importante lição…​ ​Divertida e ternurenta, esta é uma história GIGANTE sobre a amizade e a aceitação da diferença, que não vai deixar ficar ninguém indiferente.

OPINIÃO: Juro, estou apaixonada pelo David Litchfield e pelas suas histórias tão magicamente ilustradas. Existe aqui um carisma muito específico. Uma arte em tocar nos corações de quem lê, seja o leitor pequeno ou graúdo. Foram poucas as vezes em que encontrei ilustrações que tão bem expressassem e enaltecessem o conjunto de emoções que se fazem sentir ao longo da pequena narrativa. As suas imagens parecem ganhar vida própria. Os quentes misturam-se com os frios, criando uma palete invejável. Mas a história não fica atrás. De forma pura, singela e assertiva, David Litchfiel dá cor e forma à diferença. Por vezes temos medo do desconhecido, muitas vezes até existe um certo preconceito com a diferença. O facto de muitas vezes se julgar ou reagir de cabeça quente, seja por inexperiência, seja pelos “standards” existentes, faz com que percamos muitas vezes boas oportunidades para conhecermos melhor o outro. O Gigante Secreto do Avô é sobre isto tudo e muito mais, e vale completamente a pena ser lido e contemplado. 

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Opinião: O Diabo, o Relojoeiro e a Máquina dos Sacrifícios, de Michael Marshal Smith https://branmorrighan.com/2017/12/opiniao-o-diabo-o-relojoeiro-e-maquina.html https://branmorrighan.com/2017/12/opiniao-o-diabo-o-relojoeiro-e-maquina.html#respond Sun, 10 Dec 2017 14:33:00 +0000

O Diabo, o Relojoeiro e a Máquina dos Sacrifícios

Michael Marshal Smith

Editora: Topseller

Sinopse: Imagine, caro leitor, a oficina de um relojoeiro. Imagine ainda que esta história se passa num mundo banal e que o relojoeiro é, também ele, um homem normal… com um talento extraordinário. Até ao dia em que alguém entra na oficina com o mais invulgar dos pedidos: uma máquina para converter a maldade do mundo em energia. Quem (pergunta-se o leitor) quererá esta bizarra extravagância? Ora, ninguém mais do que o próprio Diabo… Que, como se sabe, tem formas muito persuasivas de obter o que deseja. Passaram-se séculos, e o Diabo e a sua máquina estão a ter problemas. É então que, acidentalmente (embora se suspeite de uma certa influência maligna), a pequena e ingénua Hannah Green é arrastada para uma tenebrosa aventura maquinada pelo Diabo. Preste bem atenção, estimado leitor, pois aqui começará também a sua história, num mundo onde as aparências enganam e as coincidências não existem.

OPINIÃO: Se há uns anos lia toneladas de literatura fantástica, a verdade é que nos últimos três/quatro anos me tem dado para explorar o romance e a não-ficção. Não o romance romântico, mas aqueles mais estranhos, que quase não sei como classificar. Será da idade? Não faço ideia. Do que eu também não fazia ideia é que o bichinho pelo fantástico/ficção científica podia ser encontrado num livro que me chega de surpresa, mas que boa surpresa! O Diabo, o Relojoeiro e a Máquina dos Sacrifícios, de Michael Marshal Smith, editado pela Topseller, ganha logo uma série de pontos pela capa. Eu sei, não devemos julgar um livro pela sua cara porque o interior pode ser sempre uma surpresa, para o bem ou para o mal. Aqui a questão é que estamos perante o “casamento” perfeito. O título, um pouco distante da tradução literal do original, é está muito bem conseguido, a capa aguça o suficiente a curiosidade e a história vai fazendo as delícias de quem lê.

Estamos perante um livro que consegue tocar em várias estéticas literárias e ainda consegue explorar várias texturas, desde cénicas às personalidades dos seus protagonistas. Em cada personagem encontramos características únicas que nos dão diferentes perspectivas sobre as mesmas situações. Nunca tinha lido nada deste autor, mas gostei do ritmo que impôs à narrativa, da forma cénica com que foi descrevendo cada momento e acima de tudo gostei do equilíbrio no confronto entre a perspectiva mais inocente de Hannah com a suposta malevolência do Diabo. 

Os primeiros capítulos foram fundamentais para me prender a esta leitura. O mistério crescente, a tentativa de associar quem era quem até tal nos ser revelado, viram depois em Hannah o momento de revelação. Esta pequena adolescente vive num ambiente familiar delicado, com os pais a separarem-se. É precisamente esse atrito e o facto de o pai se ver algo perdido – o pai é um escritor de séries que não atravessa uma boa fase na sua carreira – que Hannah é “recambiada” para passar algum tempo com o avô. Hannah, que sempre gostou muito dele, aceita de pronto e é aqui que a verdadeira aventura começa. É difícil escolher uma personagem preferido. Consigo dizer que o pentáculo que mais me agradou foi Hannah, o avô, o Diabo, o demónio Vaneclaw e a tia Zoe. Estes dois últimos acabarão por desempenhar papéis bastante cruciais em certos pontos da trama, provocando em nós sentimentos de grande empatia. 

Hannah é a verdadeira aventureira, capaz de fazer tudo pelos pais. O que não estava bem à espera era de vir a ter uma relação especial com o Diabo e até de vir a ter um papel preponderante no desfecho da Máquina dos Sacrifícios. Até lá, terá de viver inúmeras aventuras que servirão para expor medos e fragilidades do ser humano, e também de nos fazer questionar porque é que o mal existe e em que medida é necessário para haver equilíbrio no universo. Este livro, mais do que passarmos um bom tempo a ler, serve para nos levar um pouco ao tempo em que éramos mais inocentes, ao mesmo tempo que nos incita a olharmos para o mundo com um renovado fascínio. Gostei. 

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Opinião: Yoga Slow Living, de Jean-Pierre de Oliveira https://branmorrighan.com/2017/11/opiniao-yoga-slow-living-de-jean-pierre.html https://branmorrighan.com/2017/11/opiniao-yoga-slow-living-de-jean-pierre.html#respond Mon, 27 Nov 2017 11:30:00 +0000

YOGA SLOW LIVING

 Jean-Pierre Oliveira

Editora: Arena

Sinopse: Vivemos numa sociedade exigente. Exige-nos pressa, tempo, atenção. As exigências das nossas vidas socioprofissionais cada vez mais aceleradas sobrepõem-se a nós. E entre tudo o que é preciso ser feito, não temos tempo para nos dedicarmos ao desenvolvimento da nossa consciência e vivemos, inevitavelmente, em permanente desilusão – com a imagem do nosso corpo, com as nossas capacidades físicas e com as nossas capacidades intelectuais. É por isso que precisamos do Yoga. Uma das mensagens centrais da sua filosofia está relacionada com o reconhecimento do sofrimento em que vivemos e a tomada de consciência da caminhada individual que devemos fazer para que nos libertemos dos tormentos que são criados pela mente e perpetuados pela sociedade. Para escapar, precisamos de ser conscientes não só dos nossos pensamentos, mas sobretudo da sua natureza. Tomar consciência é mais do que uma acção, é um estilo de vida. Para mim, é, em suma, Yoga.

OPINIÃO: Yoga Slow Living é um pequeno livro de auto-ajuda, pelo menos na minha opinião. O próprio autor começa o livro a dizer “Não vou falar de Yoga. Se me convidarem para falar de Yoga, é provável que eu não fale de posturas ou sequências complexas e que queira falar de outras coisas. Quando me proponho a falar de Yoga, quero falar sobre mudança interior. Quero falar de transformação pessoal, quero falar de auto-responsabilização.” Se estão à procura de um livro de consulta para aprender um pouco de Yoga, este não é, de todo, o livro ideal, mas se procuram um livro com uma perspectiva transformadora da mente, talvez encontrem aqui uma perspectiva que vos agrade.

Ao longo do livro o autor guia-nos por uma série de etapas que, para Jean-Pierre Oliveira, dependem de atitudes-chave de cada um. A responsabilidade da mudança é de cada um, viver consciente e no agora só depende de cada indivíduo. São várias as sugestões que encontramos, muitas delas, as que têm um maior sentido prático, já apliquei. As propostas para a auto-disciplina, no comportamento e nas emoções, têm como objectivo atingir a paz interior e o bem-estar emocional e físico. O Yoga é aqui o fio condutor espiritual, mental e físico, da mudança.

“O Yogi não é aquele que procura um resultado específico, é aquele que procura viver sem a influência do mesmo, rumo à paz interior. É assim que a vida e transforma.”

Através de afirmações/meditações diárias e de exercícios, o autor propõe um plano semanal que complementa mantras, pensamentos e posições Yoga, para que o leitor se possa ir alinhando, corpo e mente, num crescimento pessoal equilibrado e saudável. Também são introduzidos vários termos associados ao Yoga, fazendo de Yoga Slow Living um livro bastante interessante para se conhecer uma perspectiva sobre o Yoga. Como disse num post anterior, há vários tipos de Yoga e há várias práticas complementares. Aqui fica uma dessas referências. 

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Opinião e Sugestão para Prenda: O Urso e o Piano, de David Litchfield https://branmorrighan.com/2017/11/opiniao-e-sugestao-para-prenda-o-urso-e.html https://branmorrighan.com/2017/11/opiniao-e-sugestao-para-prenda-o-urso-e.html#respond Sat, 18 Nov 2017 13:59:00 +0000

O Urso e o Piano

David Litchfield

Editora: Booksmile

Sinopse: ​Um dia, um ursinho encontra na floresta uma coisa estranha… É grande, parece uma caixa e tem teclas que fazem PLONC! A partir do momento em que descobre que a coisa estranha produz sons magníficos, ele embarca numa viagem que o leva para longe de casa. Num​ ​piscar de olhos, o urso vai parar a uma terra nova e maravilhosa, onde o ar está repleto de belos sons e onde a fama lhe abre os braços. No entanto, apesar do sucesso alcançado, ele sente falta do que deixou para trás…

OPINIÃO: Este é um dos livros mais bonitos que me passaram pelas mãos nos últimos tempos. É verdade que não costumo interagir muito com obras ilustradas, mas O Urso e o Piano, de David Litchfield, chamou-me logo à atenção. Não só pela belíssima capa, mas por toda a envolvente. Fez-me lembrar quando era mais nova e me fascinava por uma qualquer descoberta e as possibilidades que se abriam perante os meus olhos. As ilustrações estão sublimes. Não só nos transmitem o cenário da história como têm a característica de reforçar um estado emocional de empatia profunda. À medida que explorava a história deste pequeno urso, fui-me lembrando de experiências pessoais que envolveram algumas decisões dolorosas. Existe aqui uma mensagem muito importante. Por vezes, surgem oportunidades que nos deslumbram, que perseguimos e que até resultam num excelente sucesso. No entanto, sem a proximidade da nossa família e amigos, toda a euforia parece ter sempre um prazo de validade. A questão aqui que é maravilhosa, é que quem gosta de nós terá sempre os braços abertos para nos receber cheios de orgulho e carinho. É importante podermos explorar, por nós mesmos, o que a vida nos possa ter para oferecer, mas sem nunca esquecer quem nos acarinhou em primeiro lugar. Dito isto, penso que este é um pequeno presente maravilhoso para oferecer não só aos mais pequenos, mas também aos mais graúdos. Tocou-me muito e hei-de querer partilhar esta pequena história e estas belíssimas imagens com os mais pequenos da minha família. 

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Opinião: O Ódio que Semeias, de Angie Thomas https://branmorrighan.com/2017/11/opiniao-o-odio-que-semeias-de-angie.html https://branmorrighan.com/2017/11/opiniao-o-odio-que-semeias-de-angie.html#respond Sun, 12 Nov 2017 11:56:00 +0000

O Ódio que Semeias

Angie Thomas

Editora: Editorial Presença

Sinopse: Starr tem 16 anos e move-se entre dois mundos: o seu bairro periférico e problemático, habitado por negros como ela, e a escola que frequenta numa elegante zona residencial de brancos. O frágil equilíbrio entre estas duas realidades é quebrado quando Starr se torna a única testemunha do disparo fatal de um polícia contra Khalil, o seu melhor amigo. A partir daí, pairam sobre Starr ameaças de morte: tudo o que ela disser acerca do crime que presenciou pode ser usado a seu favor por uns, mas sobretudo como arma por outros. Um poderoso romance juvenil, inspirado pelo movimento Black Lives Matter e pela luta contra a discriminação e a violência.

OPINIÃO: Esperança. Esta é a palavra chave deste pequeno maravilhoso romance. Em O Ódio que Semeias, Angie Thomas tem o poder de não só agarrar o leitor com uma história extremamente cativante, mas principalmente de sensibilizá-lo. Dependendo de quem lê, este livro é uma oportunidade para mostrar uma realidade que tantos, como eu, desconhecemos, ou então serve para espelhar emoções que muitos dos que a vivem sentem, servindo assim para que neste livro encontrem uma voz. Servindo, em parte, como homenagem ao músico 2PAC, que para além de artista era também activista, o título original “The Hate You Give” (THUG) é inspirado precisamente numa das suas canções “THUGLIFE – The Hate U Give Little Infants Fucks Everybody”. E é curioso que hoje em dia, nas redes sociais, se utiliza muito a hashtag #thuglife, mas muito poucas pessoas parecem ter noção do que é que realmente isso significa. Neste livro têm a oportunidade de ter todo um contexto e exemplo do que é realmente viver isso na primeira pessoa. 

Racismo, ódio, medo, abuso policial, tiroteios, morte. Todos estes ingredientes estão expostos de forma brutal através da voz de Starr. Ela é apenas uma adolescente que tenta perceber qual a sua verdadeira voz. Dados os dois mundos nos quais tem que habitar todos os dias, Starr vive em constante sobressalto e dúvida. A Starr do bairro é diferente da Starr da escola que frequenta e acredita que seria desastroso ser a mesma Starr nos dois universos. É de mão dada com ela que conhecemos a realidade que é viver num daqueles bairros problemáticos. É de coração apertado que sentimos com ela a morte do seu amigo. Nós não estamos lá, mas estamos. Angie Thomas, na sua simplicidade magnífica, tem o poder de nos transportar visual e emocionalmente para os cenários que descreve. Conseguimos sentir o pânico da nossa protagonista, conseguimos até, nas nossas cabeças, debater as suas crises existenciais. Este é um livro como poucos, neste sentido. Tira-nos da nossa zona de conforto, das nossas vidas tão pacatas e tão seguras e faz-nos imaginar como seria viver sempre de coração nas mãos. Num minuto estamos a sorrir e a implicar com o irmão mais novo, no outro estamos deitados no chão com tiros a entrarem pelas janelas. 

É de salientar que a trama principal deriva da morte de Khalil, morto a tiro por um agente “branco”, apenas por ser “preto”. A investigação policial que se faz à volta desta morte dramática leva a crer que se vai tentar ilibar, seja de que maneira for, o polícia que o baleou, só com a desculpa, não provada, de que Khalil era um traficante ou que ele achou que Khalil teve um movimento que podia ser ameaçador. Tudo tretas. O impacto que a diferença racial tem na forma de agir de algumas pessoas é aqui exposta de forma crua e dura. No entanto, nem tudo é mau. Nem todos têm esses estigmas e é no lado da luta, no lado do amor, no lado da compaixão que assistimos a uma revolução. Ou várias. Uma que se passa tanto no interior como no exterior de Starr, mas também naqueles que a rodeiam. As vozes começam a erguer-se e a acção toma lugar na luta pela justiça. A coragem que a autora transmite na personagem de Starr é necessária e urgente. E não cabe só a quem vive nesses bairros tomar uma posição, mas também a todos nós. 

O Ódio que Semeias é um romance notável, estimulante e comovente. Acima de tudo urgente e de leitura obrigatória. 

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Opinião: Nada, de Janne Teller https://branmorrighan.com/2017/10/opiniao-nada-de-janne-teller.html https://branmorrighan.com/2017/10/opiniao-nada-de-janne-teller.html#respond Thu, 19 Oct 2017 18:46:00 +0000

Nada

Janne Teller

Editora: Bertrand Editora

Sinopse: Pierre Anthon acha que nada vale a pena, a vida não tem sentido. Desde o momento em que nascemos, começamos a morrer. A vida não vale a pena! O rapaz deixa a sala de aula, sobe a uma ameixieira e lá fica. Os amigos tentam fazer de tudo para o tirar de lá, mas nada resulta. Decidem então pôr em prática um plano: fazer uma «pilha de significado». Cada um deve dar algo que tenha significado para si. Mas depressa se torna óbvio que a pessoa não pode dar aquilo que é mais importante para si, portanto começam a ser os outros a decidir. À medida que as exigências se tornam extremas, os acontecimentos precipitam-se para um final arrasador. Um livro polémico e chocante, que convida à reflexão.

OPINIÃO: A rentrée literária da Bertrand trouxe com ela este pequeno grande, e também algo estranho, livro. Nada, de Janne Teller, traz consigo um historial de polémica, proibição e agora recomendação literária. Basta pesquisar um pouco sobre o mesmo para percebermos que esta obra tem tido tudo menos uma concordância regular e, por isso mesmo, foi proibido na Dinamarca e outros países nórdicos. Hoje em dia, as opiniões dividem-se considerando-a uma obra brutal e chocante, mas também como perturbadora. São 150 páginas que obrigam o leitor a mergulhar numa série de reflexões potencialmente inesperadas. 

Um bom exercício para se prepararem para ler este livro pode ser imaginarem-se com 12 ou 13 anos e confrontarem-se com a convicção, de alguém que vos é próximo, de que NADA tem significado. E nada tem significado porque eventualmente vamos morrer e tudo o que possamos fazer perde significado pela efemeridade que é a vida. Ora, ter este tipo de pensamento e agir em conformidade, que é não agir de todo e passar os dias sentado numa árvore a gritar que nada tem significado, pode provocar algum impacto. E este impacto pode tomar muitas formas, muitas delas imprevisíveis. Como é que vocês reagiriam? Tentariam mostrar a esse/a vosso/a amigo/a que a vida tem significado? Concordariam com ele, mas mesmo assim, para validarem as vossas opções de vida, tentariam contrariá-lo? Com Pierre Anthon, foi isto que aconteceu. Os seus colegas de escola, pelas mais variadas razões, tentam provar que a vida tem significado construindo uma pilha de objectos com significado, que de alguma maneira os tenha marcado e que mostre o valor que a vida tem para cada um deles. 

Pierre não podia estar mais indiferente a esta iniciativa e é através de Agnes, a narradora da nossa história, que vamos assistindo, muitas vezes estupefactos, ao evoluir de uma iniciativa que se torna numa espécie de jogo. Quem é que está disposto a abdicar do que lhe é mais precioso, ou até íntimo, para contribuir para esta pilha? E a parte perturbadora vem, precisamente, nesta parte. Janne Teller teve a mestria de explorar o lado mais negro da crueldade adolescente, ao mesmo tempo que desconstrói o cinismo em que se pode viver desde muito cedo. O livro peca, ou vence, dependendo de cada um, pelo vazio com que se fica. Existe uma espécie de incompletude que parece nascer do horror e da incredulidade que muitas vezes se faz sentir. O desfecho deixa, portanto, um sabor agridoce.

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Opinião: O Comboio Errado, de Jeremy de Quidt https://branmorrighan.com/2017/10/opiniao-o-comboio-errado-de-jeremy-de.html https://branmorrighan.com/2017/10/opiniao-o-comboio-errado-de-jeremy-de.html#respond Tue, 17 Oct 2017 13:59:00 +0000

O Comboio Errado

Jeremy de Quidt

Editora: Topseller Bliss

Sinopse: É tarde. Está escuro. Um rapaz apressa‑se para apanhar o comboio, entrando a bordo um segundo antes da partida. De repente, percebe que está no comboio errado. Fica irritado, compreensivelmente, mas não fica assustado.

Ainda…

O rapaz sai na estação seguinte, mas a plataforma está completamente vazia e não se parece com nenhuma outra estação que ele já tenha visto. Mas o rapaz continua a não estar assustado.

Ainda…

Então, um estranho aproxima‑se… alguém com histórias para contar e ajudar a passar o tempo. Mas estas não são como as velhas histórias. Estas histórias são pesadelos e vêm com um alto preço a pagar.

Ainda não estás assustado?

Mas vais ficar!

OPINIÃO: A TOPSELLER decidiu apostar no género Young Adult e fá-lo através da sua mais recente chancela, TOPSELLER Bliss. O Comboio Errado é um dos primeiros títulos e uma grande aposta. Nota-se o claro direccionamento para um público jovem, mas ainda assim o autor consegue uma narrativa consistente o suficiente para que qualquer adulto tenha, pelo menos, a curiosidade de ir até ao fim. Tudo começa com um pequeno rapaz a entrar num comboio, que para ele é o do costume, sem bateria no telemóvel, mas descansado que o pai o irá buscar à paragem habitual. Quando dá por si, as estações sucedem-se sem que o comboio pare. Porém, o comboio lá pára e ele decide sair do comboio. É aqui que tudo começa – com o rapaz, um idoso e o seu cão. 

Na arte de contar histórias de terror, principalmente para os mais novos, há que conseguir prender, assustar, mas não ser demasiado agressivo ao ponto de provocar um medo demasiado arrebatador. Há tempo para lá se chegar quando se é adulto. Ainda assim, mesmo já eu tendo os meus cheios 29 anos, o autor conseguiu-me surpreender logo com a primeira história. Lembro-me tão bem da sensação: “se continuar a ler este livro provavelmente vou ter pesadelos”. E então parei e prometi a mim mesma que iria ler apenas um por dia, para ser intenso o suficiente para usufruir da leitura, mas não tão intenso que fosse dormir com aquelas vibrações. Ahah, chamem-me mariquinhas, mas pensei mesmo isto. Mais tarde descobri que afinal as histórias não eram assim tão assustadoras (ou então era eu que estava mais sensível naquele dia), mas eram intrigantes, misteriosas e negras o suficiente para já querer ler várias de seguida. 

Todas as histórias são contadas pela perspectiva de crianças ou adolescentes e evocam cheiros, imagens e emoções arrepiantes. Nos interlúdios vamos assistindo às breves interacções entre o nosso rapaz e o velhote, sendo que estava sempre na expectativa de poder acontecer algo logo ali, mas Jeremy de Quidt foi inteligente e perspicaz ao conduzir o desfecho para uma espécie de jogo final. Quando se ouvem cerca de oito histórias, todas elas assustadoras, de seguida, será que dá para escolher sequer uma preferida? E que jogo é este de que o velhote fala? Este é um livro que pode funcionar muito bem na época de Halloween que se aproxima, mas não só. Se querem introduzir o género de terror aos vossos adolescentes mais próximos, este é um excelente começo, colocando a fasquia suficientemente alta para futuras referências. 

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Opinião: Instrumental, de James Rhodes https://branmorrighan.com/2017/09/opiniao-instrumental-de-james-rhodes.html https://branmorrighan.com/2017/09/opiniao-instrumental-de-james-rhodes.html#respond Tue, 26 Sep 2017 10:00:00 +0000

Instrumental

James Rhodes

Editora: Alfaguara

Sinopse: «Abusaram de mim aos seis anos. Internaram-me num hospital psiquiátrico. Fui viciado em drogas e álcool. Tentei suicidar-me cinco vezes. Separaram-me do meu filho. Mas não vou falar disso. Vou falar de música. Porque Bach salvou-me a vida. E eu amo a vida.» James confiava naquele homem simpático. Por que não haveria de confiar? Era seu professor na escola primária. A primeira oferta foi uma caixa de fósforos, um maravilhoso objecto de desejo para um menino de seis anos. Depois seguiram-se outros pequenos presentes, acompanhados de sorrisos, palavras de incentivo, gestos atenciosos. Depois começaram os abusos sexuais, que duraram vários anos, sem que ninguém na escola e na família se apercebesse. Quando terminaram, James afundou-se progressivamente num abismo de relações obsessivas, hospitais psiquiátricos e vícios destrutivos, uma espiral que o afastou do piano, para o qual revelara talento precoce.  Mas foi um adágio de Bach, escutado durante um internamento, que o salvou de anos e anos no fundo do poço. Ao descobrir que também os génios por trás das mais sublimes composições eram homens com existências dramáticas, James encontrou nos pequenos milagres da música o reduto para sobreviver aos seus demónios pessoais. Um encontro inesperado com um desconhecido deu-lhe o impulso que James para reencontrar o seu caminho na música. Hoje é um pianista aclamado em todo o mundo. Instrumental é um testemunho apaixonado e apaixonante, negro e luminoso sobre o poder terapêutico da música e a sua capacidade de transformar as nossas vidas, mas também, e sobretudo, sobre a nossa própria capacidade de reinvenção.

OPINIÃO: Ler este livro foi toda uma experiência. A primeira publicação deste livro foi a 25 de Maio de 2015, e a primeira pergunta que me ocorreu quando pousei o livro foi: como será que tem sido a sua vida até agora? Poderão perguntar-se porque é que um intervalo relativamente pequeno poderia causar tanta comoção, mas quem decidir pegar neste livro e mergulhar nele vai perceber que dois anos é tempo suficiente para uma vida levar uma volta de 180 graus (pernas para o ar) ou mais. E a James Rhodes isso aconteceu, não raras vezes. Este é um livro de coragem, de loucura, de emoções fortes e de alguma agressão também. Ninguém fica impune. Nem James Rhodes, que certamente enfrentou uns quantos demónios para o escrever, nem o leitor, que volta e meia leva com um murro no estômago, quer queira, quer não. 

Há um aviso que o autor faz, e que eu acho que merece ser reforçado: para quem já sofreu de abusos sexuais, teve tendências suicidas ou alguma experiência/internamento em alas psiquiátricas, sem dúvida que se arriscam a que uma série de gatilhos sejam activados, sem preparação, de forma crua e brutal. Uma vez, em conversa com um psiquiatra este disse: “Não importa o que vivemos no passado, os acontecimentos em si. Não podemos voltar atrás e mudar o que se passou, nem o podemos apagar da memória. O que também não podemos fazer é trazer esses acontecimentos e essas memórias constantemente para o presente. Já não interessa o que se viveu, interessa o que se faz com o que se viveu. E ninguém aguenta trazer consigo, constantemente, no presente, todo o peso do que já foi vivido.” Vocês poderão argumentar: “é mais fácil dizer do que fazer”, ou então “qual é a novidade?”. E a novidade aqui pode não ser nenhuma, mas a forma como se olha para si mesmo pode mudar. E esse é o trabalho deste livro. Parece-me que este livro era algo extremamente necessário para James Rhodes de alguma maneira também se perdoar. Porque quem sofre de abusos traz sempre consigo um sentimento de culpa enorme, mesmo que completamente estapafúrdio e injustificado (pelo menos para quem está de fora e tem dois dedos de testa). 

Há passagens que vão ficar marcadas durante muito tempo. Continua-me a parecer incrível, de uma forma aterradora, como é que ninguém desconfia seriamente, nem tenta averiguar, sobre o que se passa com uma criança de cinco ou seis anos que chora porque não quer ir para a aula de ginástica – quando antes adorava – e chega a aparecer com sangue a escorrer pelas pernas. Perdoem-me o grafismo, mas como é que se fecha os olhos a estas coisas? Bem, não me cabe a mim criticar professores e pais, ou outra coisa que o valha, mas que este livro sirva de abre-olhos a quem o ler. O impacto que estas sucessivas violações tiveram na sua vida só têm descrição possível pelas suas próprias palavras. Será sempre de louvar todo o amor que o pianista demonstra pelo seu filho. Esse sentimento tão visceral que lhe provocou tanto medo como admiração. 

O livro está organizado de forma curiosa. Apesar de ser uma obra autobiográfica, cada capítulo tem uma introdução biográfica de compositores e intérpretes que James Rhodes admira. Claro que, como poderia ser previsível, James foca-se tanto na genialidade dos músicos, como na sua instabilidade mental. É engraçado que ao mesmo tempo deste livro estava a ler outro, Carne, de Rosa Montero, em que a protagonista quer fazer uma exposição sobre escritores malditos – escritores que ou se suicidaram ou mataram alguém, portanto, escritores geniais que tiveram algum tipo de perturbação. Não pude deixar quase de sorrir, mesmo que tristemente, por esta coincidência. As introduções de cada capítulo poderiam figurar numa exposição de compositores malditos. Génios em composição e ao piano, um desastre socialmente e pessoalmente. 

Poderia estar aqui eternamente a falar deste livro, mas penso que basta resumir que esta é uma leitura urgente, se bem que com consequências imprevisíveis. Terá um impacto diferente para cada pessoa e até poderá afectar nervos diferentes consoante a profissão. James Rhodes não se fez de rogado a criticar a rigidez que normalmente se associa à música clássica, e os últimos capítulos servem precisamente para marcar posição em relação a isso mesmo. James não vê problema nenhum em ir confortavelmente de sapatilhas para uma performance, ou em falar com o público entre músicas: coisa impensável nas performances clássicas. Termino este texto com uma nota pessoal: um adágio de Bach salvou James Rhodes, comigo, numa fase difícil, lembro-me que foi a clássica Moonlight Sonata de Beethoven. E é verdade o que Rhodes diz, a música salva pessoas. Para quem é mais resistente à música clássica, se calhar também está na hora de lhe dar uma nova oportunidade 🙂 

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