Leituras 2018 – Bran Morrighan https://branmorrighan.com Literatura, Leitura, Música e Quotidiano Fri, 19 Mar 2021 18:33:33 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9 https://branmorrighan.com/wp-content/uploads/2020/12/cropped-Preto-32x32.png Leituras 2018 – Bran Morrighan https://branmorrighan.com 32 32 Recensão: Krabat – O Moinho do Feiticeiro, de Otfried Preussler https://branmorrighan.com/2018/12/recensao-krabat-o-moinho-do-feiticeiro.html https://branmorrighan.com/2018/12/recensao-krabat-o-moinho-do-feiticeiro.html#respond Mon, 31 Dec 2018 13:28:00 +0000

Krabat – O Moinho do Feiticeiro

Otfried Preussler (tradução de Gabriela Fragoso)

Sextante Editora

256 págs

16,60 euros

por João Morales

«Na véspera de Ano Novo os rapazes foram para a cama mais cedo do que era habitual. O Mestre não tinha aparecido durante todo o dia. Talvez estivesse na Câmara Negra, trancado lá dentro, como tantas vezes fazia… ou talvez tivesse ido dar uma volta no seu trenó puxado por cavalos. Ninguém sentia a sua falta, ninguém falava dele.

Os rapazes tinham-se enfiado nos enxergões, em silêncio, logo depois do jantar. “Boa noite”, disse Krabat, como fazia todas as noites, porque era assim que um aprendiz devia proceder.

Hoje, porém, os companheiros pareceram levar-lhe isso a mal.

– Cala o bico! – assanhou-se Petar, e Lyschko atirou-lhe com um sapato.

 – Ouve lá! – exclamou Krabat, levantando-se de um pulo. 

 – Calminha aí! Ainda se deve poder desejar boa noite, não?

Voou novo sapato que lhe passou a roçar o ombro, o terceiro foi intercetado por Tonda.

– Deixem o miúdo em paz! – ordenou ele. – Esta noite também há-de passar.

Depois, voltou-se para Krabat:

– É melhor que te deites, rapaz, e que fiques quieto.

Krabat obedecu. Deixou que Tonda o tapasse e lhe pusesse a mão na testa.

– Dorme bem, Krabat… e entra bem no novo ano!»

Quando a história começa, quase um ano antes, entre o Ano Novo e o Dia de Reis, Krabat era um orfão de 14 anos, mais um desgraçado a quem estava destinada a esmola e a permanente mendicidade, não fora ir parar a Koselbruch e a uma estranha azenha, na Água Negra. Acaba por engrossar as fileiras dos aprendizes de Magia Negra do moleiro, mas não sem rapidamente entender que o domínio de artes superiores, a certeza das refeições ou a companhia dos restantes aprendizes implicam um preço. Que pode mesmo atingir a vida por valor – a sua e a sua amada.

Krabat – O Moinho do Feiticeiro foi uma boa surpresa do mercado editorial português, em 2018. Escrito pelo alemão Otfried Preussler (1923-2013), publicado originalmente em 1971, tem por cenário a Sorábia, região do Norte da Alemanha, duramente conflitos bélicos na primeira metade do séc. XVIII. 

O ponto de partida mais evidente é o confronto entre o Bem e o Mal, embora no caso deste Mestre algumas referências surjam truncadas, baralhando as coordenadas que alicerçam o imaginário ancestral ocidental. Por exemplo, veja-se a alusão à Páscoa, como sendo a altura do ano em que o Mestre obtém mais poder. Se nos lembrarmos que é na Páscoa que celebramos renascimento de Cristo (e cedo intuímos que os valores do Mestre não serão exactamente os mesmo) aumenta a estranheza. 

Por outro lado, na literatura clássica alemã (ou, pelo menos, em alguns títulos que hoje integram com facilidade essa categoria), esta relação de subserviência, de contrato com o Desconhecido em prol da ganância e o desejo de bem-estar, conta com alguns exemplos muito fortes. Sem sequer falarmos das fábulas (onde alguns episódios criados pelos irmãos Grimmm teriam facilmente cabimento) lembremos apenas Fausto, de Johann Wolfgang von  Goethe (1749-1832), mas também A História Fabulosa de Peter Schlemihl, escrito por Adelbert von Chamisso (1781-1838), narrativa espantosa sobre um homem que abdica da sua sombra sem perceber a importância daquilo que todos temos (livro que, em certa medida, haveria de inspirar O Homem sem Sombra, de António Torrado). 

A narrativa é habitada por inúmeros simbolismos (como bem explica o óptimo prefácio da tradutora, Gabriela Fragoso), explorando com mestria um registo de literatura adequado a um público juvenil, que nem sempre consegue encontrar textos apelativos com este equilíbrio entre uma história dinâmica e repleta de acção e um conjunto de elementos que permitem fazer a ponte para outro tipo de conhecimentos – como a questão da numerologia, as implicações do Sábado ou a dimensão profética dos sonhos. 

Os discípulos do moleiro são doze, o que pode remeter facilmente para os meses do ano, numa construção que se apoa por diversas vezes na passagem e na medição do tempo. Mas não é menos verdade que, num texto onde os ensinamentos e a doutrina são continuamente referidos (há mesmo alusões a um livro, de onde emanará o saber, se correctamente lido e entendido) se possa duvidar da coincidência com o número de convivas que acompanhou Jesus Cristo na Última ceia…

O texto é tão rico e propenso a leituras atentas – ou em diferentes idades, talvez – que até permite descortinar algumas considerações de carácter socio-político, facilmente transponíveis para algumas críticas tão actuais, sobre a forma como o Sistema (e só para este termo seria necessário um outro texto) tem a capacidade de integrar as vozes e críticas e torná-las num apoio insuspeito, num maquiavélico bailado ideológico:

« – Quem pode desabafar uma vez no ano – continuou Krabat –, mais facilmente aceita que o submetam nos restantes meses. E verás que aqui, na Azenha do Koselbruch, isso já é muito.»

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Opinião: O ano sabático, de João Tordo https://branmorrighan.com/2018/11/opiniao-o-ano-sabatico-de-joao-tordo.html https://branmorrighan.com/2018/11/opiniao-o-ano-sabatico-de-joao-tordo.html#respond Sun, 11 Nov 2018 16:48:00 +0000

O ano sabático
João Tordo

Editora: Companhia das Letras

OPINIÃO: Iniciei “tarde” o meu percurso com João Tordo. Só o comecei a ler quando chegou, na altura, à Alfaguara, com o seu romance A Biografia Involuntária dos Amantes. Já era prémio Saramago, já tinha romances suficientes que comprovavam o seu valor, ainda assim nunca o tinha lido. E nem sei explicar porquê. Provavelmente confirmou-se aquela teoria que eu tanto defendo: são os livros que nos escolhem a nós e não o contrário. A verdade é que bastou aquela primeira leitura para ficar de sobreaviso que João Tordo era mais do que um autor premiado, era um autor ímpar. São coisas diferentes. 

Acabei por conhecer o escritor pouco depois e para além de o entrevistar para o blogue, quiseram as circunstâncias que o entrevistasse, pouco tempo depois, para o programa Contentor 13. Conhecê-lo e falar com ele foi um processo que sempre oscilou entre o fascínio e a intriga. Já depois do romance que mencionei, João Tordo publicou a “Trilogia dos lugares sem nome”, da qual fazem parte O Luto de Elias Gro, O Paraíso segundo Lars D. e O Deslumbre de Cecília Fluss.

Já este ano, em 2018, publicou um novo romance, Ensina-me a voar sobre os telhados. Toda esta descrição para vos dizer que nunca voltei atrás. Ou seja, até a’O ano sabático nunca tinha pegado num romance anterior ao último lançado, apesar de já ter pelo menos também As Três Vidas

Ler O ano sabático fez-me voltar a todos os instantes em que convivi com o autor. Mesmo já tendo lido todos os romances que mencionei no parágrafo anterior, O ano sabático surpreendeu-me de uma forma desarmante. Após ter terminado a sua leitura, fui ler a sinopse (eu raramente leio sinopses antes de iniciar os livros – sou estranha, eu sei) e deparei-me com a confirmação de ter parte real, ter parte do próprio autor na obra. De qualquer maneira, penso que seria impossível negá-lo. As semelhanças físicas dos protagonistas nunca poderiam ser mera coincidência. E depois de já ter entrevistado e convivido com João Tordo, também a associação de alguns traços psicológicos tornou-se inevitável. 

Confesso, ainda sinto algum assombro. Mergulhar neste livro foi como mergulhar num universo dentro de outro universo, em que através de um tentamos compreender o outro, e em que cada universo corresponde a uma parte de um indivíduo. A estrutura da narrativa está montada de forma tão inteligente que desde cedo fez prever que nos iríamos sentir numa espécie de labirinto, rodeado por uma teia difícil de romper, mas do qual não quereríamos sair sem nos descobrirmos a nós mesmos primeiro. 

Percebeu também que lhe faltava alguma coisa e que essa falta jamais seria colmatada com uma carreira. Percebeu que sempre lhe faltaria alguma coisa; que era incompleto, insuficiente para si mesmo, e que, na verdade, tinha pavor de procurar essa coisa, uma vez que a procura corresponderia ao pior de todos os horrores.

De vez em quando, abro a gaveta e olho para elas [fotografias], só para me recordar de que, nesta vida, o absurdo reina em absoluto.

Não falo sobre a história porque a sinopse já revela demasiado. No entanto, não vou terminar este texto sem referir a violência e o desolamento sentidos ao longo das páginas. O desespero e a obsessão da procura por uma identidade que se mostra sempre fugidia, sempre presa pelas teias da insegurança. O ano sabático é uma narrativa poderosíssima e reveladora das sombras que habitam os seres humanos.

João Tordo foi compositor e maestro de uma espécie de exorcismo e de catarse, um caminho para a metamorfose. É, sem dúvida, dos romances que impressionam e que nos irão voltar à memória quando menos esperamos, lembrando-nos que as nossas fragilidades e os nossos fantasmas nos podem levar à loucura, mas que também os podemos usar para nos transformarmos, para dar forma a algo novo e admirável. 

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Opinião: Mortina – Uma História de Morrer a Rir, de Barbara Cantini https://branmorrighan.com/2018/11/opiniao-mortina-uma-historia-de-morrer.html https://branmorrighan.com/2018/11/opiniao-mortina-uma-historia-de-morrer.html#respond Thu, 01 Nov 2018 17:48:00 +0000

Mortina – Uma História de Morrer a Rir

Barbara Cantini

Editora: Bertrand

Sinopse: http://www.branmorrighan.com/2018/10/em-outubro-pela-bertrand-mortina-uma.html

OPINIÃO: Existem sempre duas alturas do ano em que algumas pessoas aproveitam para se expressarem como bem querem, dando-se à liberdade de vestir a rigor consoante quem querem incorporar. A verdade é que, infelizmente e muitas vezes, estas alturas acabam por ser das poucas oportunidades que sentem de se manifestarem por inteiro, seja por medo de preconceitos ou represálias. Em época de Halloween, Barbara Cantini traz até nós a história de Mortina, uma menina morta-viva, que nos atinge precisamente no que toca a aceitarmos o próximo tal como ele é. 

Este pequeno livro faz as delícias de miúdos e graúdos. As ilustrações são vivas e a palete de cores contrastante. A pequena narrativa acaba por ser completa a conjugar um assunto sério com humor e comoção. Talvez na vida real o desfecho desta pequena aventura de Mortina não tivesse tido o desfecho que teve – adorei o suspense através da evolução das ilustrações. Muito, muito bom! Ainda assim, acho que é também um dos aspectos que nos conquista neste livro. Haver esperança de que os mais pequenos sejam mais tolerantes e que possam mudar o futuro. O outro aspecto é, claramente, o fascínio em tudo o que rodeia Mortina. A mansão onde vive, o seu pequeno cão, que não sabemos se é um morto-vivo ou se está completamente vivo, a forma como a sua avó reage… Tudo num tom meio assombrado, mas completamente adorável. A história de Mortina merece ser lida e parece que vamos ter mais aventuras suas! É aguardar. Aqui fica uma bela sugestão de prenda de Natal para os mais novos. 

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Opinião: Porque Gostamos de Cães, Comemos Porcos e Vestimos Vacas, de Melanie Joy https://branmorrighan.com/2018/10/opiniao-porque-gostamos-de-caes-comemos.html https://branmorrighan.com/2018/10/opiniao-porque-gostamos-de-caes-comemos.html#respond Sat, 27 Oct 2018 15:56:00 +0000 Melanie Joy

Porque Gostamos de Cães, Comemos Porcos e Vestimos Vacas
Melanie Joy

Editora: Bertrand Editora

OPINIÃO: Existem muitas formas de activismo, mas penso que a maioria concordará comigo que a palavra, escrita e falada, continua a ser uma das formas com maior impacto. Com Porque Gostamos de Cáes, Comemos Porcos e Vestimos Vacas, Melanie Joy reforça esse poder através deste livro cuja leitura deveria ser obrigatória. Fundamentando cada capítulo com referências científicas e ainda com testemunhos reais, a autora abre-nos os olhos para o carnismo, os seus dogmas, lóbis e indústria. Uma coisa vos posso dizer, há doze anos que comecei a deixar de comer carne, mas caso não o tivesse feito nessa altura, depois de ler este livro nunca mais conseguiria voltar a ter o mesmo tipo de alimentação.

Vivemos numa altura em que o acesso à informação está bastante facilitado com a internet. Ainda assim, é curioso apercebermo-nos do fenómeno que é a indústria da carne continuar a ser uma das mais poderosas, quando todo o seu mecanismo envolve uma violência brutal contra os animais. É ainda mais curioso, como é que conseguimos ter animais de estimação, mas depois, se for preciso, vamos a um restaurante e comemos carne.

Neste livro, a autora começa por nos colocar numa situação bastante particular: imaginem que estão então num restaurante e vos é servido a especialidade do chef, um prato de carne. Vocês acham a carne deliciosa e decidem perguntar ao chef qual a receita. E ele diz-vos: começamos com 2,5kg de Golden Retriver, etc etc. Seriam capazes de continuar a comer a carne como se nada fosse? Conseguem imaginar-se a comer carne de cão ou até de gato? Mas então porque é que aceitamos com naturalidade consumir-se carne de porco, de vaca, de galinha, etc? 

Ao longo de duas centenas de páginas a autora despe toda esta apatia e cegueira. Num inquérito numa aula a crianças, Melanie Joy perguntou porque é que comiam porcos e não cães (algo do género). E uma resposta imediata de algumas crianças foi “porque os porcos são sujos e burros”. O que é certo é que à medida que tal se foi esclarecendo, as crianças admitiram que os porcos até eram animais queridos e que não eram assim tão sujos. Sabiam que os porcos até são mais inteligentes que os cães?

Porém, mais uma vez, esta é a imagem mental que se vai criando. Outra experiência desconcertante é imaginarem uma pequena quinta ao lado de um supermercado em que tanto os pais como as crianças estão a interagir com os animais, dando festinhas e sentindo uma enorme apatia por eles, mas depois são capazes de entrar no supermercado e comprar carne desses mesmos animais. A que se deve este desapego, quando claramente o mesmo não acontece no que toca aos nossos animais de estimação? 

E aqui a resposta está, entre muitas outras, na venda que existe nos olhos da população em relação à violência que é perpetuada contra estes animais nos matadouros. A juntar ao facto de não interagirmos com estes animais no dia-a-dia (que ajuda a criar o tal desapego), também não observamos de perto como é que são (mal)tratados até chegarem ao mercado. Algumas descrições são tão repugnantes que mais do que uma vez precisei de pousar o livro.

Quanto mais empáticos somos, quando escolhemos ser testemunhas destas atrocidades, mais difícil se torna seguir a manada no que toca à regra de fundo dos três Nn (Normal, Natural e Necessário) em relação ao consumo de produtos de origem animal. Para não falar que é precisamente este o dogma que permite à indústria da carne continuar a mover milhões enquanto perpétua comportamentos que prejudicam tanto o ambiente como a saúde física e mental dos humanos. 

Quando os próprios trabalhadores dos matadouros admitem que em episódios psicóticos esmagam crânios de porcos até não sobrar nada, quando são até incentivados a descarregar as suas frustrações nos animais… Algo de muito errado se passa. Aliás, tal como é referido no livro, este tipo de interacção violenta constante tem repercussões nos próprios trabalhadores, por vezes irreversíveis.

Não será de estranhar que um dos requisitos para se trabalhar neste tipo de indústria é mesmo não revelar uma grande apatia seja pelo que for… Para não falar que graças a este tipo de comportamentos e à falta de saneamento em alguns destes locais, muita da carne é contaminada. Nos Estados Unidos houve uma altura em que toneladas e toneladas de carne tiveram de ser retiradas dos mercados por estarem contaminadas com fezes (Bactérica E. coli).  

Este é um livro que acaba por ser muito completo no que toca a tudo o que envolve o carnismo. Fala não só do impacto ambiental como da violência com os animais, passando também por toda a psicologia por trás deste fenómeno que é hoje considerado como a normalidade. Como já me estou a alongar muito, dou só mais um exemplo.

Num matadouro, a vaca Emily, talvez por instinto, talvez por ver que os seus companheiros quando entravam não regressavam, conseguiu fugir, com os seus 170kg, saltando o muro e fugindo para a população mais próxima. A população acolheu a vaca Emily, ajudou a despistar a polícia que a procurava a mando do matadouro e cuidou dela, até a entregar a uma associação que a quis comprar depois ao matadouro. Muitas das pessoas que participaram neste processo, nunca mais consumiram carne. 

O que é que isto quer dizer? Quer dizer que precisamos de abrir as portas emocionais e empáticas a todos os animais e não só aos animais de estimação. É preciso consciência de como é que toda esta indústria funciona, das suas consequências ambientais, mas também das suas consequências psicológicas. Nas últimas páginas, Melanie Joy levanta motes para várias discussões em relação a cada um dos capítulos e ainda fornece recursos para começarmos a nossa mudança de comportamento e de hábitos imediatamente. Pode custar começar, mas vai valer a pena. Este é, sem dúvida, um dos meus livros de eleição e que certamente irei oferecer a várias pessoas. 

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Opinião: Ao Sol de Tânger, de Christine Mangan https://branmorrighan.com/2018/10/opiniao-ao-sol-de-tanger-de-christine.html https://branmorrighan.com/2018/10/opiniao-ao-sol-de-tanger-de-christine.html#respond Mon, 22 Oct 2018 09:56:00 +0000

Ao Sol de Tânger

Christine Mangan

Editora: Editorial Presença

Sinopse: A última pessoa que Alice espera ver quando chegou a Tânger, com o seu novo marido, é Lucy Mason. Depois de um acidente em Bennington, as duas jovens – outrora colegas de quarto inseparáveis – não se viam há mais de um ano. Mas ali está Lucy, a tentar reparar as coisas e recuperar a cumplicidade de antigamente. Alice talvez devesse sentir algum alívio por ter ali uma amiga, ela ainda não conseguiu adaptar-se à sua vida em Marrocos; tem medo de se aventurar na confusão das medinas e o calor opressivo apavora-a. Lucy, independente e destemida como sempre, ajuda Alice a sair do apartamento e a explorar o país. Porém, Alice depressa dá por si dominada por um sentimento que já conhece: o controlo constante de Lucy. Para agravar a situação, John, o marido de Alice, desaparece e ela começa a questionar tudo à sua volta: a relação com a sua enigmática amiga, a decisão de se mudar para Tânger e até a sua própria sanidade mental. Uma história afiada como um punhal, numa estreia literária cheia de peripécias, exotismo e charme, escrita com tal mestria, que deixará o leitor arrebatado. 

OPINIÃO: Quando na capa de um livro vem uma citação de um grande romancista a dizer que estamos perante um romance é que como se Donna Tartt, Gillian Flynn e Patricia Highsmith  (outras três grandes escritoras) se juntassem, torna-se quase imperativo lê-lo. No entanto, é também necessário não criar expectativas demasiado elevadas. Juntando estes dois ingredientes, Ao Sol de Tânger mostrou-se uma leitura bastante voraz ao início, estimulante durante praticamente toda a trama, mas merecia uns capítulos finais mais vertiginosos. 

O início é, desde logo, promissor. O Prólogo remete-nos para um hospício em que temos alguém que claramente está com distúrbios psicológicos e que teima em lembrar-se de um determinado nome. Ficamos logo com a sensação de que algo de muito grave se passou e questionamo-nos de imediato sobre o que teria acontecido para se chegar a tal estado. Quando os capítulos do romance realmente começam, durante algum tempo vamos tentando perceber qual das duas óbvias protagonistas seria a do hospício. 

Foi também durante estes capítulos iniciais que, na minha opinião, a Christine Mangan mostrou o seu verdadeiro potencial. Conseguiu criar uma narrativa em que rapidamente se instalou uma intriga psicológica que urgia ser desvendada. Alice e Lucy foram colegas de quarto em Nova Iorque, mas enquanto uma parece ansiosa e feliz por reencontrar a outra, tal sentimento não é recíproco. Pelo menos não de imediato. Tânger é o palco para esse encontro e também para o desvendar de memórias que envolvem amores perdidos, outros por declarar, mas acima de tudo é palco da manifestação das várias facetas do ser humano quando encaram a realidade de forma a ignorarem o que lhes causa dor. A obsessão consegue asfixiar e ser asfixiante, mas também libertadora para o alvo. A mente humana consegue ser assim instável. 

As atmosferas criadas e os ambientes descritos colocam-nos facilmente nas paisagens de Tânger. Por vezes parecia que o calor realmente nos invadia e se colava à pele, tendo sido também os cheiros e a humidade quase perceptíveis fisicamente. Com esta capacidade cinematográfica, a escritora mostrou que sabe como construir uma envolvente realista. No entanto, a meu ver, existe uma altura em que o progresso da história se torna maçador. Como se a autora tivesse desistido de arriscar em algo mais ousado, optando pela previsibilidade. Ainda assim, é um romance interessante e que se lê com facilidade.

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Opinião: Se esta rua falasse, de James Baldwin https://branmorrighan.com/2018/09/opiniao-se-esta-rua-falasse-de-james.html https://branmorrighan.com/2018/09/opiniao-se-esta-rua-falasse-de-james.html#respond Sun, 30 Sep 2018 18:33:00 +0000
Se esta rua falasse

Se esta rua falasse
James Baldwin

Editora: Alfaguara

OPINIÃO: A literatura sempre foi uma arma poderosa. Sempre teve o poder de nos transportar para as suas narrativas, fazendo-nos vestir a pele dos seus protagonistas e viver todas as suas experiências e emoções em primeira mão. No que toca ao género romance, este existe para todos os gostos, mas por norma tenho sempre preferência por dois tipos: o indefinido, em que tanto a estrutura como a história fogem ao parâmetro tradicional, e aqueles elevam a fasquia, mostrando-me realidades que de outra maneira me seriam desconhecidas. O que para mim também é fundamental é que estes dois ramos do romance partilhem uma intensidade que vai para além da história de amor tradicional, arrebatando-nos brutalmente. 

Se esta rua falasse, de James Baldwin, pertence ao segundo ramo de que falei e proporcionou-me uma experiência tão enriquecedora quanto sofrida. Publicado pela primeira vez em 1974, este romance ilustra-nos uma situação peculiar. Um rapaz, Fonny, negro que é falsamente acusado de violação. A narrar-nos a história temos a sua namorada, Tish, também ela negra, que descobre que está grávida enquanto Fonny está na prisão. Entre o presente e o passado, vamos conhecendo melhor a história deste casal, mas acima de tudo vamos tendo uma clara imagem das diferenças de condições e de tratamentos para aqueles que os chamados brancos e para a aqueles que são negros. 

Não que o romance seja um confronto entre ambas as facções. Na minha opinião estamos perante um romance abismal sobre o amor, não deixando de parte a violência e a repressão inerente à situação.O belo de Se esta rua falasse, incide precisamente nessa força avassaladora que é o amor, descrevendo-o na inocência e simplicidade na relação entre Tish e Fonny, mas também descrevendo-o na força motriz necessária para se lutar por aqueles que amamos. Até onde estamos dispostos a ir para provar a inocência de alguém que nos é querido quando sabemos que a probabilidade de também se ficar em perigo é grande? 

Todo este romance é grandioso. Existe uma sensação de vertigem enquanto vivemos o amor, o medo, o sofrimento e o êxtase – tudo isto cabe neste pequeno grande romance – de cada um dos personagens. A sensação de injustiça e a incredulidade de ser relembrada que estas situações ainda hoje em dia são recorrentes só são aplacadas pela mestria de Baldwin ao atirar-nos à cara um romance extremamente humano, brutal e enternecedor. 

Tendo menos de duas centenas de páginas, sinto que poderia falar aqui sobre muito do que li eternamente. Desde a cena no mercado em que tudo realmente começou entre Fonny e o polícia que o prendeu, à primeira visita na prisão, a irmã de Tish, o pai de Fonny, a união da família de Tish em contraste com a divisão na família de Fonny devido a uma cegueira religiosa, as descrições nas águas furtadas entre Fonny e Tish (quase poéticas), a coragem da mãe de Tish, o advogado que só para o final subiu na consideração… E depois aquele final. Ensurdecedor e mortalmente silencioso ao mesmo tempo. Ficará, sem dúvida, marcado como um dos romances do ano publicados em Portugal. 

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Opinião: O Jogador de Xadrez, Adaptação do romance de Stefan Zweig, por David Sala https://branmorrighan.com/2018/09/opiniao-o-jogador-de-xadrez-adaptacao.html https://branmorrighan.com/2018/09/opiniao-o-jogador-de-xadrez-adaptacao.html#respond Sat, 15 Sep 2018 12:49:00 +0000

O Jogador de Xadrez 

de David Sala (adaptado do romance de Stefan Zweig)

Editora: Levoir/Público

Sinopse: Nos tranquilos salões de um paquete em viagem para a Argentina, o campeão do mundo de xadrez defronta numa última partida, a um aristocrata vienense cujo incrível domínio do jogo nasceu do isolamento forçado, durante o domínio nazi. Esta denúncia esmagadora e desesperada da barbárie nazi, foi o último texto escrito por Stefan Zweig antes de se suicidar, a partir do qual David Sala realizou esta adaptação que a revista L’Express classificou como sumptuosa.

OPINIÃO: Quando li Novela de Xadrez, original de Stefan Zweig, o impacto foi tão forte que a história ecoou durante muito tempo na minha cabeça. Na altura escrevi sobre o mesmo neste link, portanto vou-vos poupar à repetição do que achei sobre o livro. Ainda assim, há dois factos que merecem ser relembrados: Novela de Xadrez foi o seu último romance antes de se suicidar, todo o ambiente está envolto numa série de obsessões. Adaptar esta obra a banda desenhada seria tudo menos uma tarefa fácil. Nas mão de David Sala, parece que foram feitos um para o outro. 

Não sou perita em análises de banda desenhada, tal como não sou de romances, portanto à semelhança do que faço com estes últimos, quando escrevo sobre uma banda desenhada exploro apenas a forma e a dimensão que a história toma na minha cabeça quando aliada a expressões gráficas específicas. Uma coisa é lermos um romance e imaginarmos os cenários na nossa cabeça. Outra coisa é termos precisamente todos esses contornos já definidos. Por vezes achamos que qualquer representação gráfica fica aquém da nossa imaginação. Neste caso, David Sala fez um belíssimo formato tanto na opção do traço do desenho, como com as cores que utilizou. 

Conseguir explorar um tempo que já não é o nosso, ao mesmo tempo que se tem a responsabilidade de reproduzir todo o lado emocional, que é caracterizado por um crescendo cada vez mais pesado, do protagonista, foi de mestre. A escolha das perspectivas, os pormenores aumentados, a velocidade que por vezes foi impingida no avanço da história, faz e O Jogador de Xadrez uma belíssima obra de arte. Não posso falar pelo autor original, mas sendo fã da sua escrita, penso que melhor representado seria difícil. 

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Opinião: O Guardião (Predadores da Noite #20), de Sherrilyn Kenyon https://branmorrighan.com/2018/09/opiniao-o-guardiao-predadores-da-noite.html https://branmorrighan.com/2018/09/opiniao-o-guardiao-predadores-da-noite.html#respond Fri, 14 Sep 2018 18:39:00 +0000

O Guardião (Predadores da Noite #20)

Sherrilyn Kenyon

Editora: Edições Saída de Emergência

Sinopse: A Caçadora de Sonhos Lydia tem a mais perigosa das missões: descer até ao reino inferior e encontrar o deus dos sonhos que desapareceu, antes que ele revele os segredos que podem pôr em perigo a sua espécie. Mas ela não esperava ser feita prisioneira pelo guardião mais cruel do reino… O tempo de Seth está a esgotar-se. Se ele não descobrir a entrada para o Olimpo, a sua vida e a do seu povo estará perdida. Seth não consegue vergar o deus que tem prisioneiro, mas quando surge uma salvadora, ele decide tentar uma nova tática. Quando estas duas vontades férreas se encontram, uma delas tem de ceder. Mas Lydia não guarda apenas os portões do Olimpo — ela protege um dos poderes mais obscuros do mundo. Se ela falhar, uma maldição antiga vai voltar a assombrar a Terra e ninguém estará a salvo. Mas o mal é sempre sedutor…

OPINIÃO: Que saudades! Andei relutante para pegar neste O Guardião, porque nos últimos dois livros dos Predadores da Noite senti que o meu envolvimento com os protagonistas e o seu universo tinha arrefecido bastante. Felizmente, quando peguei neste volume e li os primeiros capítulos, rapidamente me apercebi que teria de fazer uma maratona de leitura, parando apenas no fim. Dentro do universo multidimensional criado por Sherrilyn Kenyon, os presentes protagonistas pertencem aos Caçadores de Sonhos e foi como voltar às primeiras duplas que tanto entusiasmaram e me fizeram ficar viciada nas histórias desta autora.

A trama entre Seth e Lydia foi extremamente bem desenhada. O potencial e as limitações de cada um entraram tanto em choque como ao mesmo tempo se complementaram. Houve dilemas morais, emocionais, dúvidas constantes, inseguranças inimagináveis, mas a intensidade das fraquezas de um correspondia à intensidade das forças do outro. Tinha saudades da forma como Sherrilyn Kenyon consegue explorar zonas cinzentas, mas acima de tudo como usa o sofrimento inimaginável para criar um caminho que culmina no renascer da fénix.

Em Seth temos a personificação de um semideus que foi abandonado e maltratado tanto pelos pais (deuses) como pelos pais adoptivos (chacais). Vendido a um dos piores seres do universo quando era ainda uma criança, a sua missão é agradar-lhe sempre que possível para não ter terrivelmente torturado. Parte das suas funções é precisamente torturar outros para obter respostas. É num desses episódios que conhece Lydia, que aparece para defender o prisioneiro. Usando-a como moeda de troca, rapta-a. É neste convívio forçado que vamos conhecendo e desbravando a escuridão que habita em Seth. Lydia, com uma personalidade fortíssima e destemida, mostra-se alguém à altura do desafio. 

Gostei muito do ritmo a que a acção se desenvolveu, incluindo os tempos a que nos foi sendo dada nova informação. A mitologia criada por Sherrilyn Kenyon é tão rica que esta pode-se dar ao luxo de cruzar e intercalar as suas várias componentes. Sendo o vigésimo livro que leio da escritora, não há muito que possa acrescentar em relação a opiniões anteriores, tirando o reforço de que este é um dos melhores dos últimos tempos (isto falando do que está editado em português). E se nunca leram nenhum da autora, lerem este de forma individual não é assim tão mau porque dá para perceber praticamente tudo. Mas um aviso: assim que entrarem neste universo não vão querer largá-lo.

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Opinião: Dragomante, de Filipe Faria e Manuel Morgado https://branmorrighan.com/2018/08/opiniao-dragomante-de-filipe-faria-e.html https://branmorrighan.com/2018/08/opiniao-dragomante-de-filipe-faria-e.html#respond Wed, 29 Aug 2018 10:33:00 +0000

Dragomante

Filipe Faria e Manuel Morgado

Editora: G Floy Portugal

Sinopse: Um Dragomante e um dragão são guerreiro e cão de guerra, aliados e amigos inseparáveis. Mas uma Dragomante pode ser cobiçada por vários dragões, que ela, em certas circunstâncias, pode a todos domar… No reino de Armitaunin, Nereila, uma jovem Dragomante, conclui por fim o seu árduo treino, juntamente com Ékión, o seu Escudeiro, que deverá protegê-la de qualquer perigo.. e de si mesma. Porque os Dragomantes, que defendem a humanidade da ameaça dos dragões, podem representar um perigo maior ainda que estes, se neles for ateado o fogo que lhes arde nas veias: o fogo de dragão. No caso de Nereila – a primeira mulher Dragomante em séculos – as consequências podem ser mais drásticas ainda, quando os pecados do seu pai regressam para a atormentar. E Ékión, o seu Escudeiro, não sabe se está à altura da tarefa – ou mesmo se deseja fazê-lo. E, se o fogo de dragão for ateado em Nereila, Armitaunin e o mundo inteiro poderão arder.

OPINIÃO: Sou nova nisto das bandas desenhadas, mas o que é certo é que lhe estou a tomar o gosto. Com a G Floy não só conheci a série Saga (uma das melhores experiências e da qual já comecei a falar aqui no blogue), como tive acesso ao universo Marvel com o qual só tomava contacto através de séries e filmes, entre outros. Um desses outros é esta estreia de Filipe Faria no universo BD. Ao contrário do que se poderia esperar, não é Manuel Morgado que o acompanha, mas o oposto. O artista Manuel Morgado já tinha as belíssimas ilustrações, faltava o argumento. Por isso mesmo, comecemos pelo início. 

A capa, só por si, chama logo à atenção. Eu sei que até nas BDs existe um pouco o preconceito de que o que é estrangeiro é que é bom, mas Manuel Morgado encosta muitos a um canto com o seu traço e a palete de cores que utiliza para expressar a sua imaginação. Os cenários, que vão de paisagens a cenas bélicas, parecem ganhar uma dimensão multi-dimensional. Sendo um universo populado por dragões, dragomantes (guerreiros que conseguem criar um laço com dragões “domando-os”) e escudeiros, é de louvar o realismo, a emotividade e a agressividade bem conseguidos. Com páginas com esta qualidade, a tarefa hercúlea era agora a de construir um argumento que acompanhasse este sangue na guelra criativo.

Tarefa, talvez injusta, que coube ao escritor português Filipe Faria. A associação ao contexto pareceu-me evidente, quem conhece os universos literários criados pelo escritor português sabe que ele já conta com milhares de páginas em descrições de batalhas, campos de guerra e personagens femininas potencialmente “problemáticas”. Nem sempre achei a narrativa, principalmente os diálogos, extraordinários, mas para a introdução do universo e dos conceitos subjacentes foi suficientemente bom para querermos virar página após página o mais rapidamente possível para desvendarmos a intriga. A dupla portuguesa está de parabéns e, havendo próximos volumes, tem todo o potencial para criar uma série memorável. 

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Recensão: A Noite do Professor Andersen, de Dag Solstad https://branmorrighan.com/2018/08/recensao-noite-do-professor-andersen-de.html https://branmorrighan.com/2018/08/recensao-noite-do-professor-andersen-de.html#respond Mon, 27 Aug 2018 16:50:00 +0000

A Noite do Professor Andersen

Dag Solstad (tradução de João Reis)

Cavalo de Ferro

160 págs

15,49 euros

Por João Morales

Pål Andersen, eminente docente universitário de Literatura. Vive sozinho e assim tenciona passar a Consoada, a madrugada redentora da Humanidade. “A noite de paz. Que se inicia á meia-noite. Não antes da meia-noite, como muitas pessoas na Noruega acreditam, porque essa é uma noite anterior à noite de paz.”

Entre solitários conhaques e outros acepipes, ao espreitar pela janela, Andersen presencia uma cena digna de filme. Um homem estrangula uma mulher. O que fazer? Intervir? Avisar alguém? Denunciar o caso? Ignorar tudo? “O homicídio acontecera. O problema era esse, ele testemunhara um acontecimento irreversível. Não podia avisá-los de algo irreversível”.

Os dias seguintes servem de cenário para o académico tentar perceber o porquê da sua hesitação em denunciar o caso à polícia, entre uma estranha apatia quase filosófica e uma enraizada forma de vida assente em rotinas e algum misantropismo. Dag Solstad (pela primeira vez publicado entre nós com esta edição da Cavalo de Ferro), utiliza este curto, mas decisivo, episódio para nos confrontar com outros temas. Andersen vai a um jantar, com seu grupo de antigos amigos. Durante o repasto, é-nos servida uma nova oposição, entre uma juventude que questionou algo e a comodidade burguesa e bem instalada em que se movem todos os intervenientes. Dois tempos de várias vidas: “Já não tinham a vida à sua frente, já não se encontravam na fase em que podiam juntar a palavra «eu» e a palavra «futuro» na mesma frase, mas podiam olhar para trás e afirmar que eram pessoas bem-sucedidas enquanto médicos, psicólogos, actores principais, professores universitários e funcionários públicos na área da cultura”.

Solstad utiliza esta narrativa para confrontar a veleidade dos nossos dias de espuma com a força perene dos escritos clássicos, opondo a vitalidade, por exemplo, de um texto de Ibsen, enquanto captor de uma ancestral e imutável condição humana, aos reality shows – no centro da conversa durante o jantar, apesar da condição dos presentes. “Nos últimos tempos tenho pensado tanto em literatura e em como o tempo a desgasta, talvez não sejam pensamentos novos, mas, de qualquer maneira, são intensos”, resume o nosso Professor.

Dag Solstad, autor norueguês, nascido em 1941, põe a correr em paralelo (ou talvez mesmo em simultâneo) neste livro originalmente publicado em 1996, duas linhas narrativas.

Por um lado, explorando o declínio da Literatura (“No entanto, não representamos o trabalho de Ibsen, mas a reputação de Ibsen. Somos mais ou menos indiferentes à obra, sim, é verdade, somente cem anos após ter sido escrita (…) O meu estômago contorce-se em protesto ao pensar que não existe uma reputação tão grande que não sobreviva à passagem de cem anos. Desejamos ter obras imortais, mas será que existem, para nós?”.

Por outro, a estranheza de Andersen sobre tudo o que se passou na noite de Natal, o suposto criminoso que ele acaba por conhecer, com quem se cruza num restaurante, que o acompanha a casa e até convida para uma corrida de cavalos. “Estou a sofrer juntamente com o homicida e desejo continuar a sofrer assim? Então e a vítima? Está morta. Vítima de um crime capital, mas morta. O assassino está vivo e assim deve continuar (…) Que raio é isto? Porque é que eu não quero que ele desapareça da minha vida? Porque receio eu que ele desapareça da minha vida?”

A dimensão narrativa ao longo de todo o livro é lenta, regrada, centrada no fluxo de raciocínio do protagonista, ou melhor, nas suas reflexões. Mais que chegar a conclusões, ele coloca a si mesmo interrogações, momentos de hesitação cognitiva, pequenos soluços cerebrais que não desembocam em respostas.

Há um discreto choque entre a grandiosidade de palavras intemporais, fixadas na memória colectiva, e pequenos incidentes condenados a desparecer rapidamente. Para as primeiras, estará reservado um pedestal natural, conquistado pela sua própria capacidade, independentemente da sua aceitação ou compreensão em diferentes gerações e contextos socio-cultuais. Para os segundos, pouco resta, além do degredo do olvido colectivo. Reflexos da nossa real amplitude? Um Andersen algo pessimista sintetiza que “em 2500 anos fora necessário, verdade seja dita, manter esta ilusão de que o ser humano era uma criatura que se deixava estimular e comover por certos retratos da condição humana”.

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