Leituras 2021 – Bran Morrighan https://branmorrighan.com Literatura, Leitura, Música e Quotidiano Sat, 25 Sep 2021 18:58:39 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9 https://branmorrighan.com/wp-content/uploads/2020/12/cropped-Preto-32x32.png Leituras 2021 – Bran Morrighan https://branmorrighan.com 32 32 [Diário de Bordo] Eu e o Livro do (Des)Conforto, de Matt Haig https://branmorrighan.com/2021/09/diario-de-bordo-eu-e-o-livro-do-desconforto-de-matt-haig.html https://branmorrighan.com/2021/09/diario-de-bordo-eu-e-o-livro-do-desconforto-de-matt-haig.html#respond Sat, 25 Sep 2021 18:58:38 +0000 https://branmorrighan.com/?p=25195

Matt Haig tornou-se um autor bestseller com Razões para Viver e O Mundo à Beira de um Ataque de Nervos. Entretanto lançou um romance e mais recentemente a Porto Editora lançou O Livro do Conforto. Este último é um livro dividido em quatro partes, cada uma das partes compostas por textos curtos, poemas, aforismos, citações e reflexões. Decidi criar uma entrada Diário de Bordo em vez de uma entrada de opinião, porque a verdade é que a minha opinião sobre este livro é mesmo muito pessoal.

A Sofia que leu Razões para Viver é uma Sofia um bocadinho diferente desta que agora pegou no Livro do Conforto (os meus dedos teimam em escrever desconforto e depois lá tenho eu de corrigir a tempo…). E digo isto porque a Sofia de hoje, eu mesma, apesar de não ter passado por nenhuma depressão profunda passou pela experiência de ter ataques de pânico de tal forma limitadores que começar a fazer psicoterapia se tornou na melhor decisão de sempre.

Passando agora para a primeira pessoa, acho que a minha dificuldade com este livro tem precisamente a ver com isso, com o facto de na minha experiência pessoal não me identificar com a forma como algumas coisas foram expostas ou abordadas. E porque isto é um dar e receber, quero também relembrar que já antes partilhei aqui parte da minha experiência com Saúde Mental, tópico que é importantíssimo que se fale cada vez mais sem preconceitos.

Também acho crucial fazer este disclaimer – cada experiência é uma experiência e o consolo que funciona para uns não tem de ser o mesmo que funciona para todos os outros. Com isto quero salvaguardar que não desprezo nem desvalorizo a experiência do autor, mas antes que o que ele considera motivacional para mim foi, por vezes, alienador ou redutor. Claro que nem todas as entradas provocaram este efeito. Gostei particularmente das entradas em que Matt Haig foi buscar personagens históricas, filósofos, o imperador Marco Aurélio ou a grandiosa Maya Angelou.

Talvez seja eu a ver uma leveza demasiado grande neste Livro do Conforto para o propósito proposto. Tendo-me já encontrado em situações completamente desconfortáveis, penso ter sentido que não seria a ler este livro que me iria sentir melhor. No entanto, não descarto a hipótese de ser um livro de bolso razoável para volta e meia o consultarmos e nos lembrarmos, então de forma leve, que a vida é mais que o ruído que criamos nas nossas próprias cabeças.

Ou seja, não há nada de errado com o conteúdo deste livro. Talvez seja apenas mais um livro de auto-ajuda, de alguém que realmente já partilhou a sua experiência e de quem sabemos ter legitimidade para expressar o que o ajuda a não estar no escuro. Confesso que talvez a tradução não me ajude a sentir mais empatia. Depois de passar tanto tempo a ler só em inglês, e sabendo as diferenças e o impacto que pode ter na expressão da língua, ler em português não só foi estranho como quase que parece reduzir um bocadinho a importância do conteúdo.

Dito isto, queria partilhar na mesma esta experiência de leitura para que caso um de vocês passe pelo mesmo não se sinta sozinho. Às vezes quando lemos autores bestseller, ainda para mais se gostámos de livros anteriores, existe a pressão de termos de gostar de todos e se dissermos o contrário que vamos parecer esquisitos. Mas hey, se há coisa em que concordo com Matt Haig é que cada um é como cada qual e não lhe tiro mérito nenhum.

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Opinião: Balada para Sophie https://branmorrighan.com/2021/09/opiniao-balada-para-sophie.html https://branmorrighan.com/2021/09/opiniao-balada-para-sophie.html#comments Sat, 11 Sep 2021 20:26:17 +0000 https://branmorrighan.com/?p=25159
Balada para Sophie

Balada para Sophia
Filipe Melo & Juan Cavia

Editora: Companhia das Letras

Opinião: Quem é que decide o que temos ou não direito de fazer? A nós mesmos, ao próximo… Muitas vezes vivemos cada dia como um prolongamento do anterior e em antecipação ao próximo, muitas vezes enfiados nas nossas cabeças, nas nossas ambições, no que achamos urgente atingir, no que achamos que pode ficar para depois. Balada para Sophie é uma espécie de quinta-essência por variadíssimas razões. Muitas delas já foram apontadas noutros textos: Filipe Melo escreveu um argumento sublime, provocando o subconsciente, incandescendo o consciente, tudo envolto numa beleza triste e enternecedora; Juan Cavia na sua arte deu uma vida e um assombro perfeitos a esta dinâmica que flui entre a memória e oblívio.

Honestamente não vou falar sobre os personagens em particular porque já existem vários textos (incluindo a sinopse) que se dobram sobre a análise dos mesmos, e porque o que ainda estou a exorcisar (no bom sentido) é uma sensação de quarto escuro em que nos enfiamos nas nossas lutas interiores e em que a sensação de entitlement e o sentido de obrigação digladiam até nos exaurir, movendo um véu que consegue ser tão ténue.

Confesso, com embaraço, que é a primeira vez que vivo algo composto por Filipe Melo e Juan Cavia. Digo viver em vez de ler porque é uma preciosidade rara encontrar arte e texto conjugados e entrelaçados de forma tão visceral. A experiência tomou de assalto todos os meus sentidos, incluindo os interiores – a dor, a compaixão, a desilusão, o amor, a carência, o arrependimento, a saudade, a esperança e por fim a surpresa, sem ser realmente uma surpresa.

Enquanto estive nos Estados Unidos, antes de a pandemia nos mandar a todos para casa, tive o privilégio de assistir a algumas óperas, incluindo La Traviata (que por alguma razão me veio à cabeça a certa altura). Não sei se vocês já assistiram a alguma ópera, mas para mim é uma experiência incrível. E refiro isto porque quando fechei Balada para Sophie pensei, na minha ignorância sobre a tangibilidade das adaptações, que daria uma das mais belíssimas óperas de sempre. Não um filme, não uma curta, uma ópera com todo o ambiente onírico que esta consegue evocar.

Tendo em conta toda a sua musicalidade e movimento e a composição de Filipe Melo em piano para Balada para Sophie, houve parte de mim que se transportou para uma qualquer sala a projectar a arte gráfica de Juan Cavia animada por figuras de uma performance intensa e hipnotizante. E o fim! O fim deste livro…! A ironia da vida. O universo a manifestar as suas subtilezas mais brutais.

Resumindo e concluindo: sinto que poderia ficar horas a escrever sobre o livro. Sobre os seus pontos de luz e de escuridão, sobre o incrível trabalho gráfico que nos suga e subjuga intensificando as emoções provocadas pela narrativa, sobre a magia que existe à sua volta, incluindo os seus abismos… Existem muitos adjectivos positivos que podem ser atribuídos a Balada para Sophie. No entanto, fundamentalmente considero que este é um livro que coloca a nu o ser humano e a sua complexidade.

Vocês sabem que eu quando gosto mesmo muito de um livro escrevo coisas talvez sem sentido porque ainda sai tudo muito de coração nos dedos. Já passaram duas semanas desde que terminei a leitura de Balada para Sophie, já lhe quis pegar novamente, mas opto por o manter por perto. Não sei se para me recordar, se para me alertar. O que sei é que se junta a A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te e a Nem Todas as Baleias Voam como obras que irei para sempre recomendar.

Dito isto, encontrem Balada para Sophie, comprem/aluguem/o-que-for, percam-se nele. Vale completamente a pena. E, honestamente, vale o dinheiro (comprei o meu, não foi oferecido). Deixo-vos com um vídeo que encontrei de Filipe Melo a tocar o tema que compôs e cujas pautas se encontram no final da obra. Parabéns, Filipe Melo e Juan Cavia, sem dúvida que esta é mais uma obra que vos torna imortais.

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Opinião: Homegoing, de Yaa Gyasi https://branmorrighan.com/2021/02/opiniao-homegoing-de-yaa-gyasi.html https://branmorrighan.com/2021/02/opiniao-homegoing-de-yaa-gyasi.html#respond Sun, 28 Feb 2021 15:35:08 +0000 https://branmorrighan.com/?p=25031
Homegoing

Homegoing
Yaa Gyasi

“You want to know what weakness is? Weakness is treating someone as though they belong to you. Strength is knowing that everyone belongs to themselves.” 

Comprei Homegoing enquanto ainda estava a viver nos EUA, depois de ver um anúncio sobre o mesmo. Fiquei curiosa, ainda mais porque na altura vivia-se com intensidade o movimento #BLM e a verdade é que não sei assim tanto sobre a Black American History. Sendo Fevereiro o mês da mesma, em conjunto com a Carina Pereira do Story of Sorts, decidimos que era a altura ideal para mergulhar nesta narrativa.

O pequeno pormenor aqui é que não tenho a certeza se existe uma altura ideal para se ser confrontado com uma realidade tão brutal, cujos ecos ainda se mantêm nos dias de hoje. Quantos mais livros neste temática leio, mais me apercebo que pouco ou nada sei sobre esta realidade (por muito que pudesse pensar que sabia) e que ser-se branco é, definitivamente, ainda um privilégio. E digo ainda porque espero, muito honestamente, que um dia deixe de ser.

“No one forgets that they were once captive, even if they are now free.” 

Neste seu romance de estreia, Yaa Gyasi, proveniente do Ghana, levou a cabo uma missão ambiciosa de nos tentar fazer testemunhar dois séculos de gerações que, de uma forma ou de outra, tiveram o seu destino marcado pela escravidão. Tudo começa com uma mãe que, deixando a filha a salvo, foge de um incêndio para outra aldeia. Nessa outra aldeia, casa-se novamente e tem uma segunda filha. São as linhagens destas duas irmãs, que não têm conhecimento uma da outra, que vamos acompanhando ao longo dos vários capítulos e de mais de dois séculos e história. Estas duas irmãs, Esi e Effia, representam também a dualidade entre os Fante e Asante e como as suas guerras internas se entrelaçam e ditam destinos diferentes às duas ramificações.

Enquanto Effia se casa com um general inglês e toda a sua linhagem se mantém no Ghana, Esi tem um destino mais brutal e depois de presa e violentada é deportada para os Estados Unidos da América, onde o resto da sua geração se mantém até aos últimos capítulos. Cada capítulo de Homegoing é uma provocação e ao mesmo tempo um lamento sobre a degradação, insegurança e violência, mais implícitos ou mais explícitos, que mesmo depois de abolida a escravatura ficou impregnada na sociedade culminando numa segregação difícil de combater.

O grande desafio desta leitura é a densidade de diversos elementos aos quais precisamos de prestar atenção. Se por um lado a escrita de Yaa Gyasi é emotiva, visceral e muito visual, por outro lado a agenda a que se propôs – representar as diversas transições históricas do povo afro-americano – faz com que por vezes haja um sentimento de vazio quando cada história termina. Sendo a narrativa centrada na personagem, e sendo que cada capítulo corresponde a uma personagem diferente, existem alturas de Homegoing que se opõem a este sentido de voltar a casa, porque perdemos um pouco o rumo por haver tanta acção suspensa.

Claro que esta técnica pode também ela servir de exercício de liberdade ao leitor para completar o que não ficou dito. Yaa Gyasi, serve-se tanto de uma expressividade feroz como de subtileza para nos inquietar e nos fazer reflectir sobre os constantes dilemas que o seu povo sempre enfrentou. Ninguém esteve a salvo. Nem os que se aliaram com os ingleses, nem aqueles que tentaram combatê-los. Homegoing deixou verdadeiramente uma forte impressão em mim. Houve momentos em que me senti verdadeiramente indisposta a imaginar cada sufoco. Poucos foram os momentos em que sorri. Não consigo imaginar carregar um legado assim.

Concluindo, esta é uma obra que vale a pena ler, apreciar a técnica e o estilo narrativo, ao mesmo tempo que se mete a mão na consciência e se faz o exercício de pensar em como participarmos numa dinâmica que não só não deixe a história repetir-se como ajude a elevar os nossos irmãos não brancos. Deixo uma última nota em relação à forma como a história nos é contada: adorei e fiquei fascinada com os elementos mais tribais e supersticiosos que foram passando de geração em geração. Pareceu-me, no fim de tudo, o elo de ligação constante e o verdadeiro voltar a casa.

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Opinião: A Estranha Ordem das Coisas, de António Damásio https://branmorrighan.com/2021/02/opiniao-a-estranha-ordem-das-coisas-de-antonio-damasio.html https://branmorrighan.com/2021/02/opiniao-a-estranha-ordem-das-coisas-de-antonio-damasio.html#respond Sun, 14 Feb 2021 14:31:01 +0000 https://branmorrighan.com/?p=25007
A Estranha Ordem das Coisas

A Estranha Ordem das Coisas
António Damásio

Temas e Debates

Homeostasia – Processo de regulação pelo qual um organismo consegue a constância do seu equilíbrio (Priberam).

Opinião: Há muito que me interesso pela mente humana, mas nos últimos anos esse interesse tem-se tornado numa pequena obsessão. Sempre me questionei muito do porquê do ser humano agir desta ou daquela maneira quando confrontado com diferentes situações. A luta entre a razão e a emoção tem sido o eixo pelo qual tenho procurado saber mais sobre o funcionamento do cérebro humano. Essa procura iniciou-se através de alguns livros temáticos, mas desde há dois ou três anos que tenho mergulhado mesmo na neurociência, numa mistura de interligar a neurobiologia com a actividade dos neurónios e a repercussão no comportamento humano.

Ainda estou longe de ter o conhecimento que gostaria, mas ler este livro ajudou a que algumas questões pertinentes ficassem um pouco mais claras, chegando à conclusão que existe um’ “a estranha ordem das coisas”. À semelhança da velha expressão – “o que nasceu primeiro? o ovo ou a galinha?” – existem muitas perguntas semelhantes em relação à emergência da cooperação, das diferentes culturas e do papel que as emoções tiveram nestes processos complexos.

António Damásio é professor da cátedra David Dornsife de Neurociência, Psicologia e Filosofia, e diretor do Brain and Creativity Institute na University of Southern California, em Los Angeles. Neurologista e neurocientista, Damásio tem dado contributos fundamentais para a compreensão dos processos cerebrais subjacentes às emoções, aos sentimentos e à consciência (Wook).

António Damásio, autor deste livro, explica-nos que “Os sentimentos são as expressões mentais da homeostasia, e a homeostasia, agindo sob a capa do sentimento, estabelece a ligação funcional entre as primeiras formas de vida e a extraordinária colaboração que se veio a estabelecer entre corpos e sistemas nervosos.” E o que isto significa é que as culturas resultam da expressão dos sentimentos e que esses sentimentos são expressões da tentativa do nosso organismo de manter a homeostasia. Aviso-vos, ler este livro é super fascinante, porém também um pouco de cansativo pela sua densidade e forma.

Não sei se é por o livro ser a tradução do original em inglês, mas a narrativa não é fácil nem para quem está familiarizado com o assunto, muito menos para quem não está. É muito importante perceber logo desde o início que “homeostasia” é todo o processo celular que tenta manter o organismo num equilíbrio em que, no sentido figurado, temos uma harmonia e uma dinâmica que nos mantém saudáveis e com uma sensação de bem-estar. Aliás, é argumentado no livro que, dado que os sentimentos são expressões da homeostasia, devemos ter atenção às mesmas para perceber se estamos com alguns desequilíbrio ou doença. O que, na verdade, faz todo o sentido.

Se tiverem paciência e curiosidade suficientes, acho que a persistência na leitura acaba por ter a sua recompensa. Fazendo um balanço do livro no seu todo, é incrível como António Damásio nos explica como é que a nossa composição genética, os nossos comportamentos e culturas têm origem nos tempos unicelulares resultando da evolução do processo homeostático. E talvez vocês já estejam um bocadinho cansados da palavra homeostasia, mas esse é mesmo o conceito central o livro e vai aparecer muitas vezes.

Antes de terminar, quero só referenciar também uma parte mais curta do livro, mas com que o meu lado engenheira ficou logo em alerta – o papel da inteligência artificial na reprodução/preservação do cérebro humano. Confesso que mesmo trabalhando indirectamente com Inteligência Artificial e Sistemas Inteligentes, o ramo que explora a possibilidade de reproduzir emoções e uma estrutura capaz de mimicar o cérebro humano, não me seduz. E aqui, correndo o risco de ser redutora, espero que António Damásio tenha razão na sua argumentação de que todo este processo que nos distingue dos demais seres vivos, resultante de processos complexos entre diferentes componentes celulares, genéticos e culturais, dificilmente será passível de se ser reproduzido por mão humana.

Resumindo e concluindo, A Estranha Ordem das Coisas é um livro interessante, por vezes um pouco confuso, mas em que partes em que a narrativa fica mais fácil e fluída vale completamente a pena. O nosso poder associativo e racional facilmente cria ligações entre os conceitos mais complexos e dinâmicas mais simples, fazendo com que este processo de compreender melhor a origem e a ordem de emergência dos vários componentes da civilização humana ganhe alguma luz e maior compreensão.

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Opinião: Ascensão da Água, de Samuel Pimenta https://branmorrighan.com/2021/01/opiniao-ascensao-da-agua-de-samuel-pimenta.html https://branmorrighan.com/2021/01/opiniao-ascensao-da-agua-de-samuel-pimenta.html#respond Sat, 16 Jan 2021 19:25:08 +0000 https://branmorrighan.com/?p=24908
Ascensão da Água

Ascensão da Água
Samuel Pimenta

Editora: Labirinto

Opinião: Faz quase 11 anos que descobri o autor português Samuel Pimenta. Quando penso nisto, e quando penso em todo o seu percurso e todos os momentos que nos juntaram, há um pequeno arrepio que me corre pela espinha. O que começou com uma curiosidade em conhecer um jovem autor português, acabou por evoluir e tornar-se numa amizade de muito respeito e admiração. Nunca me vou esquecer da conversa franca que tivemos uma vez no Noo Bai e como me dei conta que estávamos, em tantos sentidos, a crescer ao mesmo tempo. Mas não é sobre a nossa amizade que vos escrevo, mas sobre a sua poesia que tanto admiro.

Na altura já discutíamos a importância da poesia, o seu papel na nossa literatura e como deve existir um exercício de interpretação e imagética íntimo ao leitor. A poesia pode ter origem no escritor, este ser a sua nascente, mas tal qual o rio que desagua numa qualquer paisagem intrépida, cada poema ganha uma nova forma em quem o lê. Ascensão da Água é a entrega perfeita deste exercício.

Mais do que isso, esta obra poética tem o poder de nos enraizar, de nos fazer voltar para dentro, para a nossa origem, ao mesmo tempo que nos obriga a desabrochar e a visionar o nosso caminho a partir de então. Existe uma beleza subtil e tocante neste caminho que começa na escuridão e desagua na luz.

Diante da porta
vislumbro o teu rosto
e a escuridão.


Pedes-me os passos
do labirinto
e a vida do monstro.


Não tenho fio para voltar até ti
.

Em Um rasto de vida, de cura e de amor, podemos ler o texto que Samuel Pimenta leu aquando da cerimónia de entrega do Prémio Literário Cidade de Almada. Não só vale a pena ler o texto, como também temos um vislumbre da natureza mágica da alma dos poemas. Se o Samuel já é um ser, por si mesmo, que nos convida ao deslumbramento (é um ser humano como poucos outros e um escritor dotado de uma capacidade empática extraordinária), ao longo deste conjunto de poemas apercebemo-nos de como o amor (que o autor admite ser a força motriz desta obra), nas suas mais diversas formas, consegue ser o elemento mais transformador que temos ao nosso dispor.

Sei como tocar a escuridão
e a dureza da pedra a impor fronteira
sem corromper a transparência
do meu nome.

A água é luz liquefeita
e tudo o que toca reverbera
.

Há um caminho que se faz através destas páginas que evoca um pouco o voyeurismo. Não só damos a mão ao Samuel desde o primeiro poema, acompanhando o seu percurso, como também somos testemunhos das suas dedicatórias. E cada dedicatória, na minha modesta interpretação, traça um marco neste universo fascinante e rico em emoções – boas e menos boas – que parece rodear o autor. Confesso que para mim a poesia é a única forma de escrita que verdadeiramente consegue, de forma desnuda, expressar o que vai nos assalta a alma.

Outra vantagem da poesia é precisamente poder ser-se livre de métrica e de preconceitos. Já lá vai o tempo em que nos ensinavam que a verdadeira poesia tem de seguir uma determinada dança, uma determinada rima. A poesia de Samuel Pimenta, a meu ver, corre livre como a sua alma e é um gosto enorme partilhar mais este trilho com ele. É um privilégio ter acesso a uma obra que nos permite uma certa purificação, uma certa cura, com uma ligação tão forte à natureza e à nossa ancestralidade. Deixo-vos com um último poema que, para mim, resume tudo tão bem.

Saber das raízes
foi saber do Lar.

Saber das sementes
foi saber da ascensão.

Saber das nascentes
foi saber do desejo.

Mas quando soube da palavra e dos poemas
aprendi a fala das bruxas.
E nunca mais vivi num mundo sem magia.

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Opinião: Apneia, de Tânia Ganho https://branmorrighan.com/2021/01/opiniao-apneia-de-tania-ganho.html https://branmorrighan.com/2021/01/opiniao-apneia-de-tania-ganho.html#comments Sat, 09 Jan 2021 12:06:40 +0000 https://branmorrighan.com/?p=24784
Apneia

Apneia
Tânia Ganho

Editora: Casa das Letras

Sinopse

Opinião: Aaaah! As saudades que eu tinha de ler Tânia Ganho! Alguma vez leram o seu romance Mulher-Casa? Foi essa obra que me introduziu à escritora portuguesa e desde então que volta e meia me perguntava quando teríamos o privilégio de um novo romance. Esse momento chegou em 2020, ainda estava eu a viver nos Estados Unidos, mas assim que aterrei em Portugal, passados poucos dias, o livro chegou-me às mãos. Que momento feliz! Melhor ainda foi ter partilhado esta leitura com uma amiga muito querida. Decidimos mergulhar juntas neste belo e arrepiante Apneia.

Apneia – suspensão da respiração (priberam).

Logo de início o título do livro faz todo o sentido. Tânia Ganho começa a narrativa com a descrição de uma situação que nos deixa logo em alerta para a evolução e potencial violência psicológica da história. Quando a premissa é violenta, o que nos espera na conclusão? O caminho que nos leva de um a outro fez-me lembrar uma caminhada numa floresta com trilhos íngremes, em que volta e meia tememos pela nossa segurança, alternada com parcas e falsas sensações de descanso.

Sendo um livro longo, a mestria de Tânia Ganho pontuou-se na estratégia de optar por capítulos curtos e rápidos, alternando entre espaços temporais, motivando o leitor a manter-se atento. Durante a leitura, existem alguns elementos que se repetem como que para nos relembrar constantemente de padrões que merecem a nossa atenção. Apesar de ser uma história de cariz sério, pesado e violento, a verdade é que após o início agressivo, temos um intervalo emotivo de algumas dezenas de páginas, em que Tânia Ganho vai lançando todas as sementes necessárias para a certa altura se iniciar uma subida vertiginosa, sem forma de voltar atrás, de apneia constante, que nos revolve o estômago e nos desarma.

Sem mais rodeios, Apneia é capaz de ser um dos romances mais necessários na literatura portuguesa devido à forma como expõe um dos maiores problemas da nossa sociedade – abuso doméstico e infantil e o quão frustrante podem ser os processos judiciais associados. E há aqui um ponto muito importante que se relaciona com a noção que temos de violência e abuso. Quando se fala de violência doméstica ou abuso, a grande tendência é associar-se esses conceitos a um sinónimo de agressão física.

A história de Adriana e Edoardo vem mostrar-nos, precisamente, como é que sem haver evidência de violência física podem perpetuar-se abusos psicológicos que destroem qualquer sentido do “eu”, qualquer sentido de autopreservação, havendo uma alienação e um percurso de submissão inconsciente em que se perde poder pessoal.

No seu romance anterior, o Mulher-Casa, a escritora portuguesa já tinha explorado uma relação mãe-filho que muito me impressionou. Não sou mãe, portanto há coisas que só posso imaginar. Em Apneia, é difícil conceber colocar-me nos pés de Adriana enquanto mãe de Edoardo. Os pensamentos irracionais que me passaram pela cabeça à medida que avançava na leitura fizeram-me crer que nunca ninguém, jamais, por mais forte que seja, estará alguma vez preparado para a imprevisibilidade que pode ser ter um parceiro/a com as características psicológicas e de personalidade de Alessandro. Mais, o sentimento de impotência sempre tão latente é desconcertante.

O abuso psicológico constante, o bullying, o gaslighting, e outras técnicas de deturpação de personalidade do próximo, deixam marcas para uma vida. Foi difícil aceitar que, por vezes, psicólogos e psiquiatras testemunhos destas situações decidam lavar as mãos e retirarem-se dos processos por serem litigiosos. Compreendo que haja intimidação por parte de intervenientes envolvidos, mas não lhes cabe eles, perante o juramento que fizeram, denunciar todos os riscos que lhes saltam à vista? Quanto vale a saúde psicológica de uma criança, com todos os riscos que a mesma acarreta para o seu desenvolvimento e formação de personalidade enquanto adulto?

O outro ponto fundamental deste romance, que me enfureceu de início ao fim, é a descrição do processo judicial, tanto de divórcio como de custódia de um filho, que é completamente desumanizador. Tendo a escritora feito um estudo profundo e apurado, com testemunhos de quem passou por situações semelhantes, de como tudo se processa, é revoltante ver um sistema a funcionar tão mal e que é tão enviesado pelos preceitos que se tem do papel do homem e da mulher numa família e na sociedade. É completamente revoltante e aberrante que este tipo de processos se arraste por tanto tempo sem garantir qualquer tipo de segurança aos intervenientes, muito menos às crianças.

“As palavras afiguravam-se-lhe sempre aquém. Insuficiente perante a dor. Como se a dor fosse incompatível com a articulação da linguagem. Com a ordem. A dor era o caos e o caos não obedecia à gramática, a regências, concordâncias, tempos verbais. Tudo era presente; o passado e o futuro transfiguravam-se em presente. Se escrevesse, seria para dizer << Eu sou a minha dor >> e não era verdade, ela era muito mais do que a sua dor, até porque havia uma hierarquia e a sua ficava longe do topo da pirâmide. Existiam dores tão piores, recordava a si mesma, e enumerava-as, para se lembrar de que a sua era suportável. Mas não era compatível com palavras.”

Destaco esta citação porque, honestamente, poderia escrever muito mais, mas nada do que estou a escrever me parece suficiente para fazer jus à palete de emoções que fui sentindo. Um pormenor lírico belíssimo, que ainda não referi aqui, foram as referências literárias e artísticas ao longo da narrativa, reforçando a vulnerabilidade física e mental retratados na pele da personagem de Adriana.

Para terminar, a última parte do livro foi extremamente dolorosa de ler. Se houve dias em que só consegui ler poucas páginas, para o fim já lia madrugada fora, tentando de alguma forma arranjar cenários mentais para salvar uma situação impossível. O fim, em si, a situação com que Tânia Ganho decidiu fechar o livro, é um fim à filme, mas que, a meu ver, tenta dar alguma esperança a Adriana e Edoardo.

Foi dureza, mas valeu a pena. Obrigada, Tânia Ganho, por nos trazeres esta obra e que a mesma possa inspirar e incentivar todas as componentes envolvidas a agirem.

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