Lídia Jorge – Bran Morrighan https://branmorrighan.com Literatura, Leitura, Música e Quotidiano Tue, 02 Feb 2021 09:06:31 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://branmorrighan.com/wp-content/uploads/2020/12/cropped-Preto-32x32.png Lídia Jorge – Bran Morrighan https://branmorrighan.com 32 32 Recensão: Em Todos os Sentidos, de Lídia Jorge, por João Morales https://branmorrighan.com/2021/02/recensao-em-todos-os-sentidos-de-lidia-jorge-por-joao-morales.html https://branmorrighan.com/2021/02/recensao-em-todos-os-sentidos-de-lidia-jorge-por-joao-morales.html#comments Tue, 02 Feb 2021 09:06:02 +0000 https://branmorrighan.com/?p=24987
Em Todos os Sentidos

Em Todos os Sentidos
Lídia Jorge

Dom Quixote; 261 págs; 14,90 €

Partilhar memórias e pensamentos

A páginas tantas, lemos: «Mas o que sei é que se tem de encontrar uma palavra diferente para compaixão e solidariedade, palavras que supõem de um lado um sujeito salvo e, do outro, um sujeito para salvar. E não é mais assim. A cada dia que passa, o que acontece lá é como se acontecesse aqui, o que acontece aos outros é o mesmo que pode acontecer na nossa rua. A Terra é um só espaço, e todos os países estão unidos pelo mesmo traço de convivência necessária».

Em certa medida, palavras que remetem para o sentimento dominante nestas crónicas de Lídia Jorge, reunidas sob a designação Em Todos os Sentidos (edição da Dom Quixote), título suficientemente malicioso para remeter o leitor a uma múltipla interpretação que alguns dos relatos poderão conter, não se fechando na narrativa por si só, mas igualmente para as portas de entrada no universo que é cada ser humano, os canais de ligação ao mundo real, os nossos cinco polos de recepção sensorial, afinal, a ponte primeira com a realidade que nos circunda.

O título do livro nasce do espaço radiofónico homónimo que o antecedeu, juntando assim quarenta e uma crónicas lidas pela escritora Lídia ao longo de 2019, aos microfones da Antena 2.

Lídia Jorge não se coíbe de traçar algumas críticas, como a denúncia de um egocentrismo contemporâneo, exacerbado por uma utilização doentia e exaustiva das redes sociais; centrando na primeira pessoa o interesse, o valor e a bitola de comparação do próprio. O texto intitula-se “O Tubarão”: «As pessoas viram-se de costas para os quadros, põem-se a jeito, e tiram uma selfie que enviam para os amigos e para a nuvem. Não dizem, eu vi a Mona Lisa, dizem, eu até passei diante da Mona Lisa, e esta é a prova de que estive no Louvre».

Seja como for, tanto nos elogios como nas anotações menos abonatórias, este é um livro que assume a sua dimensão humanista, no sentido em que nos evoca o preceito clássico, tomando o Homem como a medida de todas abordagens, de todas as coisas. E este raciocínio, ao longo dos tempos, derivou em diversas metáforas subsequentes. Se Terêncio afirmava como “nada do que é humano me é estranho”, Jorge Luis Borges discorria como cada homem é todos os homens. Lídia metaforiza com a natureza, escrevendo como faz corresponder «todas as águas, uma só água, milhares de fontes de vida, só uma fonte de vida».

O contundente texto “Black Friday” marca fundo as contrariedades da nossa contemporaneidade, rendidos às opções tecnológicas, ao facilitismo de uma modernidade selectiva que oculta os sacrificados para a manutenção desse patamar de suposta qualidade de vida para uns, em troca da vida e da dignidade de outros. Partindo do dia em que o Ocidente celebra as compras compulsivas nas grandes cadeias comerciais, acaba por nos confrontar com o obscuro montante desses holofotes, «como no interior do Congo onde milhares de crianças aprisionadas, neste momento, estão a escavar rocha com as mãos nuas nas minas de cobalto para que tenhamos o Samsung barato».

A linguagem utilizada é rica e apoia-se na crueza das opiniões traçadas, mas igualmente recorre a uma sapiente galeria de imagens poéticas, cuja clareza também não é deixada ao acaso. São construções buriladas com perícia, criando imagens fortes numa formulação construída a partir de elementos simples e reconhecíveis.

Discorrendo sobre a brutalidade da Natureza, anterior ao nascimento, posterior à morte, de cada protagonista humano desta longa epopeia que é a Vida, no seu sentido mais amplo, reflete: «Mas a Liberdade é uma jovem grávida que caminha às costas de uma velha cínica, e custa a dar à luz. Refiro-me às dores da libertação, que nunca são amenas». A citação é retirada da crónica “A Cidade Traída”, a que pertence igualmente a primeira transcrição deste texto.

A escrita da autora serve-se de uma clareza que lhe permite uma leitura fácil, embora não se deva considerar por isso que o entendimento dos objectivos, das motivações, dos significados implícitos esteja facilitado. Escriba experiente e atenta a diferentes enfoques sobre uma mesma realidade, universal, transversal e resultante de diferentes vasos comunicantes, aproveita a sua crónica “Geografia partilhada” para desmistificar olhares ingénuos, acerca das virtualidades que a escrita, e a leitura, possibilitam e recompensam:

«Digam agora que a ficção não serve para nada. Proclamem melancolicamente que o romance é um objecto de museu, que a sua função terminou, que desse género já não sai coisa que valha a pena. Eu não concordo. Acho precisamente o contrário. Não só o romance espelha realidades que andam escondidas e que de outro modo permanecem invisíveis, como ainda por cima fornece ideias úteis que depois vêm a ser postas em prática. Outras vezes, o que acontece na realidade não teria interpretação possível se antes a ficção não o tivesse imaginado, ou, posteriormente, não viesse a esclarecer», sintetiza a autora, na crónica “Geografia partilhada”.

Em suma, neste conjunto de textos, quando acompanhamos as reflexões da autora, estamos também perante um evidente exemplo de como a arte de contar histórias desenvolvida ao longo de anos e com muitas provas dadas, acaba agora por fornecer o chão onde se plantam estas crónicas, também elas pequenos episódios narrativos, artilhados com camadas de entendimento à medida de cada um e um ritmo contagiante que nos convida a ler até ao fim. 

João Morales

]]>
https://branmorrighan.com/2021/02/recensao-em-todos-os-sentidos-de-lidia-jorge-por-joao-morales.html/feed 1
Festival Literário Escritaria – Programa https://branmorrighan.com/2014/09/festival-literario-escritaria-programa.html https://branmorrighan.com/2014/09/festival-literario-escritaria-programa.html#respond Fri, 19 Sep 2014 15:09:00 +0000

Penafiel transforma-se de 1 a 5 de Outubro na cidade Lídia Jorge, que será homenageada este ano na Escritaria, o maior festival literário em torno de um escritor de língua portuguesa vivo.

Durante 5 dias, Penafiel será uma cidade “contaminada” com arte de rua e arte pública, sem esquecer o teatro, o cinema, as conferências ou as exposições. Uma vez mais e com maior intensidade as pessoas serão levadas a descobrir, num qualquer local improvável, numa esquina, rua ou viela, algo que as remete para o universo da escritora, convidando o transeunte a passear pelas palavra e apropriar-se delas, levando-as consigo.

No sábado dia 4 de Outubro, pelas 21h30 no Museu Municipal de Penafiel, será apresentado pelo Padre Anselmo Borges o novo livro de Lídia Jorge. “O Organista” é um conto sobre a criação do mundo, uma fábula sobre a relação entre Deus e o Homem e o Universo. Uma espécie de cosmogonia.

Pela Escritaria em Penafiel vão passar diversas individualidades, para celebrar a vida e a obra de Lídia Jorge, de onde se destacam alguns nomes como Eunice Munoz, José Fanha, Padre Anselmo Borges, Pilar Del Río , Mónica Baldaque , Mário de Carvalho( Escritor homenageado em 2013), António Carlos Cortez, Inês Pedrosa, Fernando Pinto do Amaral, Carlos Reis, Cucha Carvalheiro, José Carlos Vasconcelos, João Céu e Silva, Karin von Schweder-Schreiner, Luís Ricardo Duarte, Maria Manuel Viana, Patrícia Reis e Pierre Léglise-Costa, Conceição Brandão, nomes que em comum têm uma ligação à vida e obra da escritora.

A Escritaria vai nesta edição estrear um novo modelo de conversa, informal e descomprometido que permitirá conhecer um pouco mais sobre a autora homenageada. Em 2014 apresentamos “Os Sinais Memoráveis – Conversa entre Lídia Jorge e Fernando Alves”.

A Escritaria promete ainda algumas surpresas, a revelar brevemente, relacionadas com todas edições e autores anteriores, com iniciativas que vão permitir continuadamente celebrar e descobrir o festival literário, Escritaria, em Penafiel, todos os dias do ano a marcar o tempo e os espaços da cidade. Lídia Jorge junta-se assim a outros nomes grandes da língua e da literatura portuguesa, que já marcaram a Escritaria, como Urbano Tavares Rodrigues, José Saramago, Agustina Bessa – Luís, Mia Couto, António Lobo Antunes e Mário de Carvalho.

Programa:

DIA 1 DE OUTUBRO  – Quarta-feira

• Roteiros “Escrita em Dia” – Percurso “Escritaria, Vida e Obra 2008-2013″

DIA 2 DE OUTUBRO – Quinta-feira

• Teatro de Rua

• Roteiros “Escrita em Dia” – Percurso “Escritaria, Vida e Obra 2008-2013″

17h30 • Inauguração das Esculturas – Prémio Arte Pública (Praça Escritaria)

21h30 • exibição do filme A COSTA DOS MURMÚRIOS, da autoria de Lídia Jorge, Cinemax Penafiel

DIA 3 DE OUTUBRO – Sexta-feira

• Teatro de Rua

• Roteiros “Escrita em Dia” – Percurso “Escritaria, Vida e Obra 2008-2013″

17h30 • Inauguração de Arte Pública (Contaminação)

18h15 • Descerramento da Frase Escritaria 2014 – Biblioteca Municipal de Penafiel

18h30 • Inauguração da Exposição Viagem pela Escritaria, ao Encontro de Lídia Jorge – Biblioteca Municipal de Penafiel

21h30 • Os Sinais Memoráveis – Conversa entre Lídia Jorge e Fernando Alves – Museu Municipal de Penafiel

DIA 4 DE OUTUBRO – Sábado

• Teatro de Rua

15h30 • Conferência Parte 1 – Museu Municipal de Penafiel

17h30 • Entrega do Prémio Jornalístico “Escritaria 2014” – Museu Municipal de Penafiel

21h30 • Lançamento do Livro “O Organista”, de Lídia Jorge, apresentado por Padre Anselmo Borges – Museu Municipal de Penafiel

DIA5 DE OUTUBRO – Domingo

• Teatro de Rua

15h30 • Conferência Parte 2 – Museu Municipal de Penafiel

17h30 • Lançamento do Livro “Mário de Carvalho – Vida e Obra”, apresentado por Luís Ricardo Duarte

18h30 • Encerramento Escritaria 2014

Não há livro de instruções para salvar a vida. Só a liberdade se aproxima desse imenso livro” 

Lídia Jorge.

]]>
https://branmorrighan.com/2014/09/festival-literario-escritaria-programa.html/feed 0