Música da Morrighan – Bran Morrighan https://branmorrighan.com Literatura, Leitura, Música e Quotidiano Mon, 25 Jan 2021 16:34:42 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://branmorrighan.com/wp-content/uploads/2020/12/cropped-Preto-32x32.png Música da Morrighan – Bran Morrighan https://branmorrighan.com 32 32 [Os Meus Discos] Uma Palavra Começada por N, de noiserv https://branmorrighan.com/2021/01/os-meus-discos-uma-palavra-comecada-por-n-de-noiserv.html https://branmorrighan.com/2021/01/os-meus-discos-uma-palavra-comecada-por-n-de-noiserv.html#comments Mon, 25 Jan 2021 16:34:40 +0000 https://branmorrighan.com/?p=24931 Uma palavra começada por N

Uma Palavra Começada por N, de noiserv

“Eram 27 metros de salto mas parou, meio picotado neste andar, neutro, sem tempo, por arrasto, sempre rente ao chão.”

Cada vez que noiserv lança um disco sabemos que, mais do que um conjunto de músicas, o que nos chega às mãos é uma autêntica composição artística em que sonoridade, estética e lirismo se conjugam de forma a que o todo não seja a soma das partes, mas antes uma espécie de ser vivo a viver as suas diferentes fases de metamorfose.

Eram dias mortos numa luta de querer ser sempre

Uma palavra começada por N, a meu ver, marca um ponto de destaque no caminho que David Santos tem percorrido na música. Entre o projecto noiserv e You Can’t Win Charlie Brown, o conceptualismo e a engenharia musical têm sido a grande imagem de marca do artista português. Cada disco de noiserv tem-se revelado uma partilha íntima e que de alguma forma se liga a uma manifestação necessária do universo interior e complexo da sua mente. Conhecido como o homem-orquestra, as suas criações evocam fascínio, empatia, alegria, mas também melancolia.

Eram 27 partes de um olhar, aquele que tu nunca vais querer parar

Neste disco, não só temos todas essas componentes como também é fácil sentir uma maior aproximação de um lado talvez ainda mais vulnerável e pessoal do artista português. Depois de em 00:00:00:00 termos voltado a ouvir noiserv em português (que só tinha acontecido numa canção – Palco do Tempo), eis que temos um registo completo na língua de camões. E porque é que destaco este aspecto? Porque, na minha opinião, existe uma maior intensidade emotiva quando noiserv canta em português.

Porque nunca vês o que nunca te dói

O seu timbre associado à sua sonoridade faz com que as frases mais simples sejam sentidas no nosso âmago que nem pedras num charco. Por outro lado, esta combinação também acontece no sentido oposto, fazendo com que declarações mais intensas sejam recebidas de forma mais leve. Esta dualidade entre a luz e as sombras de um espírito inquieto, numa demanda que cada um forma na sua cabeça, é enriquecida pela exploração de diferentes paisagens instrumentais que têm sempre algo em comum – uma espécie de omnipresença e omnisciência estruturalmente rica que une todos os temas.

Mas é o céu que me desfaz, aperta um pouco ao respirar

Honestamente acho que é o melhor disco de noiserv até ao momento. Não digo isto de ânimo leve, dado o significado especial que tem A.V.O, mas acho que é preciso coragem para dar o passo de se mudar não só a língua a que os fãs estão habituados a ouvir, como também a nível visual acho que foi feito um trabalho extraordinário. A colaboração com a Casota Collective na produção dos vídeos de cada uma das músicas do disco resultou muito bem e a imagética explorada reforça este contraste entre leveza e intensidade, desorganização e concentração emocionais. Para além disso, o facto de terem sido lançados com um mês de intervalo até à saída do disco, revelou-se uma estratégia vencedora.

Eu já me remendo por dentro, sem tocar

Acho que a única coisa que ainda me aperta o coração é não ter tido a oportunidade de ver nenhuns dos espectáculos esgotados. Ainda me lembro que quando o disco saiu, ainda eu estava a viver nos Estados Unidos, acordei antes das 7h da manhã e logo depois do yoga liguei o Spotify para finalmente ouvir a obra completa oficialmente cá fora e sorri. Um sorriso que emergiu de uma espécie de luto (que eu sentia devido a circunstâncias da minha vida) que se viu finalmente manifestado numa obra sonora a que me podia agarrar, assim libertando-me. Obrigada, noiserv.

Não estar é perto de ser o que não fui.

Uma brincadeira que fiz com as letras deste disco. O tamanho de cada palavra representa a quantidade de vezes (relativa) que aparece ao longo dos temas. Foram excluídas palavras que só aparecem uma vez e as palavras “por”, “de” e “que”.
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[Os Meus Discos] Vénia, de João Vairinhos https://branmorrighan.com/2021/01/os-meus-discos-venia-de-joao-vairinhos.html https://branmorrighan.com/2021/01/os-meus-discos-venia-de-joao-vairinhos.html#respond Mon, 18 Jan 2021 20:31:33 +0000 https://branmorrighan.com/?p=24860 Vénia

Vénia
João Vairinhos

Com uns meses de atraso, aqui fica a devida menção honrosa a um daqueles que foi, para mim, um os discos do ano. Vénia é o primeiro EP de João Vairinhos, disponível em vinil no seu bandcamp. Diz a sua biografia que “é um baterista que cresceu como músico no circuito punk/hardcore nacional. Atualmente colabora de forma regular com MURAISLÖBORicardo Remédio e Wildnorthe, e de forma mais pontual noutros projectos como os The Youths com Bruno Cardoso (XINOBI), ou Altura (João Brito), com quem gravou um EP colaborativo com o nome The Citadel.

Com um currículo destes, quem não ficará curioso por ouvir o resultado de uma experiência a solo? O single de estreia, Vala Comum, abriu portas para um universo que nos veio mostrar um lado de João Vairinhos ainda inexplorado e que muito se tem apurado desde a sua primeira criação Eternos São os Corvos. A viagem que percorremos com Vénia é uma que é capaz de inspirar os cenários literários e cinematográficos mais intensos, em que todo o ambiente nos parece encaminhar para aquele acontecimento que poderá mudar a vida de todos.

Curioso que, nos temos em que vivemos com a pandemia a morder-nos os calcanhares, a criação deste disco foi uma espécie de premonição. Os seus três temas – Chegaram, Vala Comum e Vénia – encadeiam-se de uma forma orgânica e desafiadora, ao mesmo tempo que contemplativa e de cariz distópico. Com o caos em que vivemos, os hospitais sobrelotados, as mortes a aumentarem, o desespero e a solidão que a tantos assaltam, ouvir estes disco é uma espécie de catarse.

A partir do momento em que os sinos são evocados na faixa “Chegaram”, iniciamos uma marcha que podia ser muito bem pelo universo de Hades, com todas as aventuras e desventuras da selvajaria com que são relatadas as aventuras dos deuses. Mas tal como Hades tem Perséfone, também a criação de João Vairinhos tem um cariz sedutor pelas sombras que evoca e que destrói. Este universo noir conta com as colaborações de Sérgio Prata Almeida na faixa “Vala Comum” e de Ricardo Remédio na faixa homónima “Vénia”, que vieram enriquecer ainda mais a paisagem fascinantemente dantesca.

As sonoridades exploradas estão longe de conter apenas a bateria com a qual estamos habituados a ver o músico português a ser dono e senhor. Fazendo uso de outras maquinarias, o aprendiz tornou-se mestre. Vénia constrói uma realidade na qual nos podemos refugiar e reflectir, na qual nos podemos desconstruir e recriar, estando à mercê de luz e escuridão, rendendo-nos aos demónios interiores que enfrentamos e seguindo em frente. Já dizia Bukowski “what matters most is how well you walk through the fire“. Fica a recomendação: não sei se encontram melhor companhia.

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[DESTAQUE] Noko Woi, banda de Salvador Sobral, lança novo single – Bottomless Pig https://branmorrighan.com/2019/02/destaque-noko-woi-banda-de-salvador.html https://branmorrighan.com/2019/02/destaque-noko-woi-banda-de-salvador.html#respond Mon, 25 Feb 2019 16:07:00 +0000

Para nós, portugueses, o nome Salvador Sobral é já um nome icônico. E não, não é só porque ganhou o Festival da Eurovisão em 2017, apesar de talvez ter sido esse o grande pontapé de saída para se reconhecer outros projectos o músico português. Das suas próprias músicas à colaboração com Júlio Resende (Alexander Search), ficou estabelecido que não foi um golpe de sorte, que Salvador Sobral tem um alma virada para o universo e que a sua criatividade gosta pouco de limites. Não conhecia esta sua banda, mas Noko Woi, com origem em Espanha, é um dos projectos do qual faz parte. 

Neste momento a banda encontra-se a promover uma série de vídeos ao vivo antes de lançarem o próximo disco que se encontra em fase final de produção. Devo confessar que comecei a ouvir a canção sem sequer saber de quem se tratava, mas claro que a voz de Salvador Sobral é única e houve algo li que me fez logo querer saber mais sobre o projecto. E a verdade é que fiquei encantada com a sonoridade da banda. Cada um dos músicos acaba por contribuir com a sua personalidade em cada instrumento e admiro ainda mais o facto de não serem lineares. De não seguirem o formato canção perfeitinho. Há momentos de caos e desordem, mas também de harmonia e de leveza. Entre uma linha de baixo pulsante, sintetizadores prontos a eletrizarem, guitarra e percussão prontos a acompanharem a festa e duas vozes que se complementam perfeitamente, Noko Woi é daquelas bandas perfeitas para se ouvir numa bela tarde primaveril, deitados na relva a contemplar o céu. 

The Indie-pop band, Noko Woi, that has as its main voice Salvador Sobral, winner of Eurovision 2017, returns with renewed energy and new material after a few intense years. Noko Woi’s debut performance came to be at no other than the flagship, most international music festival of Barcelona – SÓNAR 2014 – where, accompanied with some impressive visual content produced especially for each track, they played their self-titled first album, recorded and mixed at Leo’s own studio and mastered at the Red Bull Music Academy studios in London. In July 2018 they meet for several days in a studio to record what will be their second album “Poke the Eye,” which will be released this year including songs featured on their youtube channel. It’s hard to pin-point the band to a single genre, Noko Woi, which means “to listen around” in Warao, a Venezuelan native language, invites you to a journey with multiple, simultaneous destinations at once, and inspires you to “balter”: to dance without particular skill or grace, but with extreme joy. Listen around to find that their sound, doesn’t sound like anything else. They sound like Noko Woi. The band was born in 2014 as a project by the keyboardist / producer Leo Aldrey, performing in various stages of Barcelona such as the Sónar Festival, Sala Apolo, Sala Barts and others.

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[FreshFindings] Descobrindo “I Shaved My Father’s Face” de Patient Hands https://branmorrighan.com/2019/02/freshfindings-descobrindo-i-shaved-my.html https://branmorrighan.com/2019/02/freshfindings-descobrindo-i-shaved-my.html#respond Sat, 23 Feb 2019 20:39:00 +0000

Uma das maiores maravilhas da música é a sua capacidade de nos surpreender e de nos tocar em recantos que palavras e imagens muitas vezes não conseguem. Recentemente descobri Patient Hands, através do seu tema “I Shaved My Father’s Face”, o logo senti a necessidade de saber mais sobre este artista. A primeira vez que ouvi o tema senti uma espécie de peso no peito. Não um peso com conotação necessariamente má, mas intensa, intrigante e desconcertante. Mais tarde tudo fez sentido. A música pode vir de escombros interiores e ainda assim reflectir uma luz que nos deixa menos sozinhos. 

O tema começa em crescendo com uma mistura de sons que pouco nos diz sobre o que está para vir e assim que a sua voz entra em campo é fácil interrogarmo-nos sobre as origens da canção. Se por um lado parece existir uma zona cinzenta muito forte e desconfortável, a entrada da guitarra acústica faz-nos ter esperança num caminho redentor. E quando chegamos por volta do minuto 2:20 já estamos numa viagem que urge consolo e redenção.

A música evoluiu para paisagens ecléticas e cada vez mais compostas. Reflectindo, os quase sete minutos que compõem o tema assemelha-se na verdade a uma viagem repleta de perguntas que procura respostas difíceis de encontrar. Depois de ler mais sobre o artista, todas estas associações fizeram sentido. Ele próprio o diz no prefácio do seu disco Stoic que saiu a 15 de Fevereiro:

Stoic begins in the dark.

I lost myself somewhere inside me. I was a foreigner; a refugee. But I had nowhere to run to, and nowhere to leave. I couldn’t find love for myself, or anyone else. I became physically ill for at least eleven months. I had a brush with cancer, and I was overcome by emptiness. I tried to get back to who I knew myself to be before the illness by walking the Camino de Santiago. I tried to force a change, but found that I couldn’t.

(…)

Stoic, then, is a document of those years of my life. It was a world I visited, and a private conversation I had with myself. The album walks a line between self-satire and sincerity perhaps best captured in “I Shaved My Father’s Face” and “The Poisoner”. It’s full of references and humour that only I am ‘in’ on. In a way, I don’t expect the record to make sense to anyone else. But maybe that’s okay. In the end, Stoic is a love record. It’s about enduring the dark night, and finding the courage to live with an open heart. I hope it speaks to you.

Bem, de certeza que falou comigo ou não estaria eu aqui a escrever sobre o mesmo. Os temas não são todos lineares nem confortáveis, mas desempenham perfeitamente o seu papel. E para além de todo este caminho de luz e escuridão que percorremos com o seu disco, é também de admirar todo o cuidado com a edição que tem disponível no bandcamp. Não sei o que o futuro traz ao Alex, mas é admirável a obra de arte que ele conseguiu construir através de todo o seu sofrimento. Do meu lado, só posso desejar que venha o que vier, que continue a fazer discos de amor, que prevaleça perante toda a escuridão que encontre e que tenha sempre coragem para enfrentar o que tiver de enfrentar. 

Playlist FreshFindings BranMorrighan aqui.

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[FreshFindings] Descobrindo Finals! de Duglo e Albermale https://branmorrighan.com/2019/02/freshfindings-descobrindo-finals-de.html https://branmorrighan.com/2019/02/freshfindings-descobrindo-finals-de.html#respond Fri, 22 Feb 2019 17:07:00 +0000

Sabem aquela sensação de quando ouvimos uma música pela primeira vez e logo aos primeiros segundos temos a certeza que a vamos voltar a ouvir muitas e muitas vezes? Bem-vindos a “Finals!” a última canção do EP Night Tempo de Duglo e Albermale. Apaixonei-me pelo tema logo nos primeiros segundos com as primeiras notas ao piano. Senti uma espécie de arrepio na espinha. Uma intensidade emocional inesperada que foi se foi atenuando e intensificando ao mesmo tempo que outros sons se juntavam. Os samples utilizados remeteram-me para um interior de rasgar o peito numa cadência sublime. Existe sempre uma atmosfera que evoca uma imagética escura, mas bela ao mesmo tempo. Só vim a reparar no artwork mais tarde, mas acho completamente adequado. Estamos nas nuvens e na floresta, estamos claros e confusos ao mesmo tempo. Uma espécie de debate visceral entre a harmonia e inquietude. Confesso, sinto falta de descobrir canções como esta que me fazem sentir tanto com tão pouco. Ouçam e deixem-se levar nesta viagem minimalista, mas arrebatadora.

PS: Criei uma playlist no Spotify para os FreshFindings aqui

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[10 Anos Blog BranMorrighan] A Mixtape https://branmorrighan.com/2018/12/10-anos-blog-branmorrighan-mixtape.html https://branmorrighan.com/2018/12/10-anos-blog-branmorrighan-mixtape.html#respond Wed, 26 Dec 2018 16:17:00 +0000

Esta comemoração dos 10 anos do BranMorrighan é capaz de estar a ser a mais em cima do joelho que alguma vez aconteceu. Consegui acumular deveres profissionais com deveres académicos, encher-me de trabalho até ao tutano e chegar ao ponto de não saber a quantas ando. O tempo passou depressa demais e uma série de ideias e projectos que tinha para este aniversário nunca aconteceram. Ainda assim, porque sou uma sortuda e porque nas alturas certas as pessoas certas têm o condão de aparecer na minha vida, a ideia da Mixtape está a ganhar forma e já tem sítio no bandcamp – https://branmorrighan.bandcamp.com

A minha ideia foi desafiar uma série de artistas que admiro e que me marcaram nos últimos anos a comporem um tema inédito, quem sabe até fora do contexto e das sonoridades que normalmente exploram. O primeiro a ter o seu tema pronto foi o música André Barros, pianista sublime, compositor de outro mundo. O seu tema chama-se Racing Thoughts e tem origem na associação que o André Barros fez entre o meu estilo de vida e o blogue. Quando o ouvi pela primeira vez comecei por sentir logo um arrepio na espinha. Depois foi uma espécie de caminho para a catarse. Senti alegria, tristeza, sorri, chorei, uma autêntica corrida de emoções e pensamentos. Curioso, não acham? O André Barros é alguém cujo trabalho artístico admiro profundamente. A sua versatilidade e a sua sensibilidade dão as mais diversas texturas à sua música e é muito difícil não ficarmos sensibilizados e hipnotizados com as mesmas. 

Este início da Mixtape, com este tema do André Barros, acaba por abrir o mote ao propósito da mesma. Viagens que exploram o nosso interior. Umas vezes mais luminoso, outras vezes mais escuro e pesado. Estou muito contente com os temas que me chegaram até agora e acredito que, de alguma maneira, irão tocar as pessoas certas, no momento certo. Na véspera de ano novo divulgarei mais um tema, o do Slowburner. Se não o conhecem, desafio-vos a pesquisarem-no e a ouvirem-no. Nessa altura divulgarei mais pormenores e novidades.

A capa da mixtape é uma fotografia tirada por mim quando estive em Cambridge, há coisa de duas semanas. Estava a passear dentro de um campus de uma universidade e tornou-se impossível não captar aquela paisagem que coincide tanto com a essa tal mistura de emoções que mencionei há pouco. Espero que gostem. Obrigada por estarem desse lado e por todo o apoio.

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A Beleza das Cinco Tragédias de Tio Rex https://branmorrighan.com/2018/06/a-beleza-das-cinco-tragedias-de-tio-rex.html https://branmorrighan.com/2018/06/a-beleza-das-cinco-tragedias-de-tio-rex.html#respond Tue, 05 Jun 2018 19:47:00 +0000

Não é fácil voltar a um tempo em que o universo de Tio Rex não esteja presente. Desde que conheci o trabalho de Miguel Reis que houve pelo menos dois aspectos que ficaram retidos na minha memória: um primeiro sensorial, em que ouvir Tio Rex se transforma numa espécie de viagem entre a luz e a sombra que habita o nosso interior; e um outro emocional, em que nessa viagem visitamos alegrias e tristezas, monstros, tragédias, mas também amor e partilha.

Em Março, Tio Rex voltou às canções em inglês com mais um EP – “5 Tragedies”. O formato não nos é totalmente desconhecido já que em Outubro de 2014 lançou outro EP – “5 Monstros”. A beleza destes pequenos discos remete precisamente para a simplicidade com que o músico português aborda os escombros que muitas vezes nos habitam. 

Em “5 Tragedies” existe todo um imaginário que acaba por ter uma poderosa imagética. É como se em cada tema fossemos transportados para um pequeno conto do qual somos protagonistas. Cada um destes contos consiste numa narrativa que nos confronta com pequenas tragédias, desde sermos capazes de vender a nossa alma por troca do vazio, à imagem que possam ter de nós (incluindo nós mesmos), passando pelo risco dos vícios e pela morte dos deuses (da música), terminando com uma colaboração belíssima com João Mota (de Um Corpo Estranho) em que o contraste grave de Miguel Reis com o tom mais suave de João Mota, entrelaçando também a língua inglesa com a língua portuguesa, nos remete para um cais marítimo, de pernas pendentes, pensamentos soltos, tudo ao ritmo das palavras de ambos. 

Entre composições sonoras mais fortes e pujantes e outras mais singelas e ressonantes, o percurso por este EP acontece rápido de mais. Foi preciso ouvi-lo várias vezes, deixá-lo em loop no carro, regressar a ele em casa, deixar as suas letras, as suas melodias, ecoarem primeiro nos meus ouvidos, depois no meu peito e por fim minhas emoções para conseguir açambarcar as suas paisagens por inteiro. É lindo e vale mais do que a pena ser ouvido. 

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[DESTAQUE] “Plass” é o novo single de Surma, com vídeo pela Casota Collective https://branmorrighan.com/2017/12/destaque-plass-e-o-novo-single-de-surma.html https://branmorrighan.com/2017/12/destaque-plass-e-o-novo-single-de-surma.html#respond Wed, 06 Dec 2017 11:24:00 +0000

Começam a não haver palavras suficientes para descrever a dimensão artística e humana do trabalho musical de Surma. Depois de “Hemma” ter sido mostrado ao mundo e do seu disco de estreia, “Antwerpen”, ter encantado tudo e todos, eis que temos mais uma peça artística. O novo single de Surma, “Plass”, com vídeo produzido pela nossa já conhecida Casota Collective. Tem sido o casamento perfeito. Esta produtora audiovisual fez parte deste processo desde o início. Produziram o disco da Surma, realizaram os vídeos de “Hemma” e agora “Plass”, contribuindo assim para um crescimento forte, sólido e extremamente impactante de Surma. Som e imagem enamoram-se constantemente numa dança que nos leva a outros universos e paisagens. A nossa pequena pérola portuguesa já fez centenas de datas, mas está longe de parar. Foi confirmada para o Eurosonic, para o SXSW e tem percorrido o país de lés a lés. Todo este processo tem sido de mãos dadas com a querida Omnichord Records, que continua de alma e coração a acreditar e a apoiar nos seus artistas leirienses. Agora maravilhem-se, deixem-se mesmerizar com este vídeo! Segundo a Casota Collective a ideia é “a pele e o corpo como base de texturas e experiências visuais que possam reflectir as paisagens sonoras de Antwerpen”. 

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[Diário de Bordo] Os Anjos Também Cantam https://branmorrighan.com/2017/05/diario-de-bordo-os-anjos-tambem-cantam.html https://branmorrighan.com/2017/05/diario-de-bordo-os-anjos-tambem-cantam.html#respond Sat, 06 May 2017 18:51:00 +0000

Este 2017 está a dar cabo de mim no que diz respeito a trabalho. É trabalho de manhã à noite e se ontem me deitei quando já não conseguia olhar mais para os servidores, hoje acordei de olhos postos nos mesmos e, enquanto espero por mais resultados, estes mais demorados, decidi resgatar um disco ao qual tive acesso já em Janeiro – Os Anjos Também Cantam, de Galo Cant’Às Duas. Eles já estiveram em Lisboa entretanto, mas infelizmente não consegui ainda ir vê-los ao vivo. Uma pena, porque bastaram os primeiros acordes, agora mesmo, de Marcha dos que Voam para me lembrar do porquê de ter andado semanas consecutivas a ouvir este disco. Podem ler tudo sobre o duo e sobre o single de estreia aqui, mas surgiu-me a ânsia de ter aqui um post só para eles. 

Existe algo de muito visceral nas composições do Gonçalo e do Hugo. Se o tema com que lançaram o disco é forte – Marcha dos que Voam – eu chego ao segundo tema – Respira – e fico sem respiração. Não sei. Há algo de muito melancólico naquele início, algo que se me entranha nas veias e na respiração. Uma espécie de sufoco contido. Depois as melodias vão ficando mais compostas, mais complexas, ainda que suavemente, até que parece que me vejo numa corrida desenfreada para expurgar algo. E depois parece que há a necessidade de parar abruptamente e voltar ao estado contemplativo. Só que também este estado é temporário. Chega a uma altura em que o roçar nas cordas é arrepiante, algo entre o belo e o sofrido. Talvez por aqui perceba que os anjos também cantem. Mas vou parar com isto. Não me liguem, há músicas que mexem tanto comigo que por mais que queira montar cenários credíveis não consigo. E podia continuar aqui a deambular e a criar narrativas infinitas, tantas são as possibilidades. Uma coisa é certa, estes rapazes sabem bem como mexer com instrumentos de corda, distorções e como tirar de uma bateria o poder ideal para impulsionar esses sons. O disco conta ainda com Processo Entre Viagens e Partícula, este último o meu segundo tema preferido, quanto mais não seja porque sou louca por temas que têm um baixo claramente demarcado. 

Resumindo: é um disco que fica tanto na memória como no coração e o universo é um lugar sortudo por ter uma espécie de reflexo primevo nestas canções.

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Impossível fazer “Mute” ao novo disco dos You Can’t Win, Charlie Brown – “Marrow” https://branmorrighan.com/2016/09/impossivel-fazer-mute-ao-novo-disco-dos.html https://branmorrighan.com/2016/09/impossivel-fazer-mute-ao-novo-disco-dos.html#respond Thu, 15 Sep 2016 11:23:00 +0000 Fotografia Vera Marmelo

YOU CAN’T WIN, CHARLIE BROWN


“Marrow” chega às lojas dia 7 de Outubro de 2016


Novo trabalho é apresentado ao vivo no dia 13 de Outubro no Lux*

*Oferta de bilhete na compra do disco na Fnac

Recebi um texto todo pomposo a falar do novo disco dos You Can’t Win, Charlie Brown. Se pesquisarem notícias sobre a saída do novo disco, certamente encontrá-lo-ão por aí.  A questão é que esta banda é tão querida para mim que não resisti em falar já eu mesma do disco. Sei que normalmente a imprensa gosta de palavras caras e textos complexos, mas eu sou uma miúda de coração na boca e gosto de pensar que as paixões podem ser transmitidas de forma simples. 

Depois de “Chromatic” e “Diffraction/Refraction”, vem aí a caminho “Marrow” que foi introduzido através do single, e da primeira canção do mesmo, “Above The Wall”. A primeira impressão quando ouvi esta música foi que estava a entrar num universo bastante diferente dos anteriores. A diversidade sonora, já a trazer a nostalgia ao tempo dos jogos de computador antigos, é depois complementada pelo videoclip que confirma esse mesmo conceito. A questão é que no disco, quando a música termina, chega-nos uma Linger On de tonalidade sonora completamente diferente. E à medida que avançamos no disco isto torna-se um fenómeno constante e raro. Raro porque nunca vi músicas com estilos tão diferentes estarem em sequência, mantendo sempre um traço de personalidade tão único e harmonioso.

E depois temos as letras, que juntamente com a parte instrumental, nos levam por várias viagens emocionais. Continuo a ficar fascinada com a capacidade que os You Can’t Win Charlie Brown têm de criar uma simbiose entre a parte lírica e de composição musical, em que uma serve tanto para atenuar a outra, como para lhe dar uma intensidade voraz. Utilizam as tonalidades vocais certas nos momentos certos, e esta é uma sensação crescente, que culmina na última canção, Bones. Ou seja, estamos perante um disco que começa muito descontraído com Above The Wall e Linger On, mas que depois caminha tanto à luz do sol como nos escombros nas emoções. É um disco que vive de luz e sombras, que, numa opinião muito pessoal, nos confronta com vários aspectos da nossa personalidade relacional, seja em relação a nós mesmos (Linger On, por exemplo), à nossa postura na vida (a Pro Procrastinator, por exemplo), à nossa postura em relação a alguém que amamos (Mute, a minha preferida, sempre que começa a tocar o meu coração para por uns segundos para depois querer saltar peito fora, ou Joined by the head).

Quando o disco estiver disponível nas plataformas digitais, vou partilhar convosco cada uma das letras, uma a uma, e assim poderão desfrutar em completude este belo disco. 2016 tem sido um ano muito duro para mim, mas é maravilhoso quando encontramos na arte dos outros algum, neste caso muito, conforto. Lá está, não sou uma crítica, não sei falar sobre detalhes técnicos, mas enquanto ouvinte a mim interessam-me as emoções, o reconhecimento e a ligação que crio com as músicas. E nisto, Marrow, é uma relíquia.

Alinhamento Marrow:

1 – Above The Wall

2 – Linger On

3 – Pro Procrastinator

4 – Mute

5 – If I Know You, Like You Know I Do

6 – In The Light There Is No Sun

7 – Joined By The Head

8 – Frida (La Blonde)

9 – Bones

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