Música em DX – Bran Morrighan https://branmorrighan.com Literatura, Leitura, Música e Quotidiano Sat, 16 Mar 2024 14:33:23 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://branmorrighan.com/wp-content/uploads/2020/12/cropped-Preto-32x32.png Música em DX – Bran Morrighan https://branmorrighan.com 32 32 [Reportagem MDX] A Estreia Catártica de The Pineapple Thief em Portugal e a Magia Progressiva de um Concerto Memorável https://branmorrighan.com/2024/03/reportagem-mdx-a-estreia-catartica-de-the-pineapple-thief-em-portugal-e-a-magia-progressiva-de-um-concerto-memoravel.html https://branmorrighan.com/2024/03/reportagem-mdx-a-estreia-catartica-de-the-pineapple-thief-em-portugal-e-a-magia-progressiva-de-um-concerto-memoravel.html#comments Sat, 16 Mar 2024 14:33:12 +0000 https://branmorrighan.com/?p=25513

Reportagem original: https://www.musicaemdx.pt/2024/03/05/a-estreia-catartica-de-the-pineapple-thief-em-portugal-e-a-magia-progressiva-de-um-concerto-memoravel/

Faz já quase duas semanas que me desloquei ao Lisboa ao Vivo para ver The Pineapple Thief, banda que conheci há já 16 anos atrás e que nunca tinha oportunidade de ver. Confesso que fiquei espantada com a sala completamente cheia e com fãs tão entusiastas quando na verdade não conheço quase ninguém que também seja fã da banda. Mas a espera valeu completamente a pena e foi um dos melhores concertos a que fui nos últimos tempos! Deixo-vos com o texto que escrevi para a família no Música em DX e com a playlist do concerto! As duas fotografias são do meu telemóvel.

Noite de domingo, noite de clássico no futebol, mas nada disso intimidou quem se deslocou ao Lisboa ao Vivo com casa cheia para homenagear os vencedores da noite – The Pineapple Thief! O espetáculo, com início marcado para as 20h30 e abertura de Randy McStine, prometia uma noite memorável. Às 20h15, ainda se via uma fila extensa à porta, enquanto no interior a sala já fervilhava de entusiasmo, marcando a estreia da banda britânica em solo português. A espera, embora longa, revelou-se insignificante perante a experiência única que se desenrolou, alimentando a esperança de um rápido regresso.

Com a pontualidade britânica, Randy McStine subiu ao palco munido da sua guitarra e loop station, entrelaçando as suas canções e colaborações com mestria, aquecendo a audiência com uma voz potente e vibrante. O seu último disco, Unintentional, foi lançado em Dezembro de 2023 e o artista americano conta já com 12 lançamentos na plataforma bandcamp. A sua simpatia e a sua disponibilidade para interagir com o público e vender o seu próprio merchandising deixou-nos cativados. Terminada a sua bela actuação, era palpável a expectativa crescente para os The Pineapple Thief.

Bruce Soord, vocalista e guitarrista, iniciou o projecto há já 25 anos atrás, tornando a banda numa das referências de rock progressivo internacionais. Acompanhado por Jon Skyes há mais de duas décadas no baixo, a formação actual conta também como membros fixos Steve Kitch nos teclados e Gavin Harrison na bateria, este último reconhecido também pelos Porcupine Tree (banda que tive o prazer de ver no Incrível Almadense em 2008!). Ao vivo, a banda tem-se feito acompanhar de Beren Matthews na guitarra e voz, tendo também contribuído com as mesmas em algumas partes nas gravações do último It Leads to This.

O quinteto sobe ao palco perante um público já efusivo, demonstrando já a sua expectativa.. Mesmo com expectativas elevadas, bastou o primeiro tema, “The Frost”, para rapidamente superá-las. A magia dos discos transformou-se em energia visceral ao vivo. A sinergia entre os músicos criou uma atmosfera libertadora, projetando ao mesmo tempo uma ligação crescente com a plateia que não hesitou em expressar o seu fervor.

O alinhamento da noite levou-nos por uma viagem de emoções fortes. Em canções como “Our Mire”, “Version of the Truth”, ou “Rubicon”, mas também como tema geral do concerto, testemunhámos o talento conquistador da banda, com uma bateria comandante, teclado envolvente, baixo dançante e pulsante, guitarras cavalgantes e a voz liderante de Bruce Soord irrepreensível. A performance da banda, a dança entre os elementos, os momentos mais calmos alternados com momentos explosivos, os solos mais vibrantes de Beren Matthews a complementarem a personalidade da banda, tornou toda a experiência catártica. 

Para além de temas do último disco e de Version of Truth, a banda tocou ainda dois temas de Give it Back (uma colecção de temas anteriores agora regravados também com as contribuições poderosas de Gavin Harrison) e “The Final Thing on My Mind”, do disco The Wilderness, que encerrou o set principal. Este último tema é um dos meus preferidos da banda e foi um privilégio vê-los a construir a narrativa com momentos sublimes e arrebatadores, e com uma carga emocional muito própria. Acredito que por esta altura a banda também já estava completamente rendida ao público português, o que tornou o momento muito genuíno. 

Felizmente a espera para o encore foi curtinha, e a banda voltou com “In Exile” e “Alone at Sea”. Confesso que soube a pouco, mas apenas porque foi uma noite tão bonita. Para quem tem acompanhado a banda, penso que fica a curiosidade dos primeiros tempos ao vivo e a vontade de não ficar muitos mais anos sem os ver novamente. Guardo um respeito e admiração enormes por este projecto, pela sua evolução sonora e lírica, que também reflectem as várias fases de vida e de intimidade, o que permite a quem ouve poder libertar alguns dos seus próprios “Demons”. Resumindo, queremos mais.

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[Diário de Bordo] Escrevendo sobre o Tim Bernardes para o Música em DX https://branmorrighan.com/2024/02/diario-de-bordo-escrevendo-sobre-o-tim-bernardes-para-o-musica-em-dx.html https://branmorrighan.com/2024/02/diario-de-bordo-escrevendo-sobre-o-tim-bernardes-para-o-musica-em-dx.html#respond Wed, 28 Feb 2024 19:35:23 +0000 https://branmorrighan.com/?p=25502 Meus queridos leitores,

Como estão? Tenho andado a ameaçar que volto e depois não acontece, ou acontece muito devagarinho, nos bastidores. No entanto, no início do mês aventurei-me a juntar-me aos nossos amigos no Música em DX para escrever, pela primeira vez em quase cinco anos!, sobre um concerto. Fui verificar e o último texto tinha sido do enorme Olafur Arnolds!

Volta e meia vou a outros concertos, mas não tenho escrito sobre os mesmos. Este ano, a disponibilidade permitindo, conto pelo menos tentar fazê-lo de vez em quando. A família MDX não se importa de me ter de volta e dá-me motivação extra! Afinal tenho estado fora do circuito há algum tempo, mas o gosto pela música, se possível, só cresceu.

Quando vi o anúncio do concerto do Tim Bernardes, ainda nem sequer tinha ouvido o seu último disco Mil Coisas Invisíveis. Na verdade, conheci o Tim já em 2017 com O Terno! Já na altura tinha ficado com aquela sensação de quentinho e de serem uma banda tão querida, que achei que esta era uma excelente oportunidade para ver o Tim novamente, agora a solo.

Enviei a minha disponibilidade ainda antes de ouvir o disco. Tive a sensação que seria uma aposta segura. Para os leitores mais antigos, vocês sabem que eu escolho a dedo sobre o que escrevo. O meu tipo de escrita não dá muita flexibilidade para escrever sobre coisas que não me dizem nada ao coração. Já aconteceu, e consigo escrever sobre a qualidade de algo, mas é tão mais belo quando levitamos não só durante o concerto como durante a escrita.

Escrever novamente para o Música em DX (obrigada mais uma vez, família!) foi como sair de mim mesma durante um par de horas para mergulhar numa dimensão que misturou a minha experiência durante o concerto, o quanto as canções de Tim na verdade me dizem, e o quanto foi catártico no final juntar as duas coisas e ter novamente um texto cá fora.

Quando criei o rascunho deste post, a minha intenção era só copiar aqui o texto da reportagem (como podem ver no final do post), mas entretanto já me estou a esticar! Ainda assim, não quero carregar Publicar sem mencionar que para além de vos agradecer lerem o meu texto, sugiro que ouçam o disco do Tim Bernardes. Eu não estava à espera que me tocasse tanto, que me identificasse tanto com tantas canções e a sua performance ao vivo — um pequeno gigante sozinho num palco que a certa altura parecia não ser suficiente para a sua alma — levou-me às lágrimas mais do que uma vez.

Deixo-vos com o link para o MDX, no final deste post está a playlist do concerto e, com sorte, falamos em breve? Obrigada pelos comentários recentes em posts anteriores. Fico-vos muito grata pelo vosso carinho! Até breve!

Reportagem original em: https://www.musicaemdx.pt/2024/02/03/o-carisma-e-a-humildade-de-tim-bernardes-no-coliseu-dos-recreios/

Estamos em 2017 e eu ouço falar nesta banda brasileira chamada O Terno que iria actuar brevemente no Musicbox. E lá estava eu, e talvez muitos de vós, a conhecer uma banda pela qual foi tão fácil ganhar carinho pela simplicidade, cumplicidade e boa energia. Ao mesmo tempo, Tim Bernardes, um dos membros da banda, lança o seu primeiro disco a solo “Recomeçar”. Avançamos para o presente, 1 de Fevereiro de 2024, e Tim Bernardes enche duas datas no Coliseu de Lisboa para nos brindar novamente com o seu último disco “Mil Coisas Invisíveis”, mas também com temas do disco anterior, algumas de O Terno, canções que escreveu para outros artistas e ainda uma cover de Bob Dylan. 

As luzes baixam, e com uma voz vibrante, com um laivo de timidez, mas ousada, Tim Bernardes abre a noite com o primeiro tema do seu mais recente álbum Nascer, Viver, Morrer. E logo aqui percebemos porque é que Tim Bernardes enche o coliseu de forma tão fácil – os seus discos são belos, mas o poder da sua voz, da sua presença, e do seu sorriso tão genuíno, conquista-nos facilmente. A partir daquele momento, as nossas emoções já não são bem nossas, mas antes um reflexo da narrativa que Tim Bernardes nos traz com as suas canções. 

Esta viagem – com referências a Fernando Pessoa, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa, entre outros – torna-se muito pessoal à medida que vamos de canção em canção, ora ao som de uma das suas guitarras, ora ao som do piano. É impossível não sorrir, ou até não largar uma lágrima aqui e ali, quando Tim Bernardes projecta a sua voz em canções como Realmente Lindo ou Velha Amiga. Quando Tim Bernardes referiu a sua admiração pelo Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, referindo que ele próprio sentia que era ele que estava ali naquelas páginas, há um momento de compreensão silencioso sobre o processo criativo e de onde vem parte da alquimia da escrita das suas canções.

Chega a vez de Melhor do Que Parece, do reportório de O Terno, e a reação do público foi de reconhecimento e carinho pela banda do cantor. Não foi raro ao longo do concerto ouvir ecos e o público a cantar com Tim Bernardes, mas o que me admirou mais, porque obviamente era um público entusiasta e conhecedor, foi o respeito pelo silêncio e pela solenidade da maior parte das canções. A sequência das canções Última Vez e até Esse Ar (uma canção sobre a lua!) trouxe um momento mais solene, apropriado para potenciais corações partidos em recuperação. 

O que mais me fascina no Tim Bernardes, é que ele é muito mais do que um cantor de canções românticas – ele vai ao âmago dos caminhos intrincados do nosso crescimento num mundo em constante mudança, expondo uma vulnerabilidade que todos sentimos e poucos conseguimos expressar. A sua humildade e o seu sorriso radiante, dão esperança a quem tem o privilégio de se sentar e partilhar estes momentos íntimos que é expor os seus pensamentos numa das salas mais emblemáticas de Portugal. Em cada interação entre Tim e o público houve uma troca de carinho muito grande, com o músico brasileiro a expressar a sua gratidão por estar ali, após ter passado também pelo Porto. 

O fim do concerto aproxima-se com o início d’A Balada de Tim Bernardes, uma canção que nos lembra que mesmo no meio de desafios, porque não cantar? Termina com Recomeçar, do seu primeiro disco a solo, fechando uma viagem que foi uma espécie de psicoterapia musical, em que Tim deu voz e som a um espectro de emoções, equilibrando entre o humor e a genuinidade de quem se expõe. Foi uma noite muito bonita e não tenho dúvidas de que Tim Bernardes irá voltar a encher o Coliseu no futuro.

Playlist do concerto:

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[Reportagem MDX] Ólafur Arnalds no Coliseu dos Recreios, o Poder da Genuinidade https://branmorrighan.com/2019/03/reportagem-mdx-olafur-arnalds-no.html https://branmorrighan.com/2019/03/reportagem-mdx-olafur-arnalds-no.html#respond Mon, 18 Mar 2019 08:31:00 +0000

Texto originalmente publicado no Música em DXhttps://www.musicaemdx.pt/2019/03/17/olafur-arnalds-no-coliseu-dos-recreios-o-poder-da-genuinidade/

Ólafur Arnalds é um dos grandes compositores do nosso tempo. Com apenas 32 anos, o produtor islandês tornou-se numa das maiores referências da actualidade e o seu percurso tem sido tudo menos vulgar. Iniciou-se com baterista numa banda de hardcore/metal chamada Fighting Shit e começa a compor por si mesmo quando lhe pediram para compor dois temas para a banda de metal que a sua costumava abrir concertos, Heaven Shall Burn. Com nomes tão sugestivos, a verdade é que o percurso a solo de Ólafur Arnalds invoca tudo menos a agressividade latente nos nomes das bandas pelas quais passou.

Esta história e outras tantas, pudemos ouvir directamente de Ólafur durante o concerto que deu no Coliseu dos Recreios, na passada Quarta-feira dia 13 de Março. Com uma sala muito bem composta e com um público que se adivinhava conhecedor e apaixonado, o concerto começou com alguns minutos de atraso. O silêncio reinou quando as luzes se apagaram e Ólafur entrou em palco para se sentar ao piano. Com o mote de apresentar o seu mais recente disco, re:member, que lançou em Agosto de 2018, a maior parte dos temas tocados pertenceram a esse mesmo disco, mas houve oportunidade de revisitar outros temas, incluindo do belíssimo disco For Now I Am Winter.

E foi precisamente num ambiente que evocava as paisagens gélidas da Islândia que o concerto começou. E aqui começo por destacar um dos elementos mais fundamentais para o sucesso do concerto, que imperou do início ao fim: um belíssimo e magnífico jogo de luzes. A música de Ólafur é, por si mesma, sensível, profunda e catártica, mas existe um acrescendo de intensidade em todos estas dimensões graças à forma como o esquema de luz está montado. Delineado ao pormenor e tendo em conta a sonoridade de cada tema, as luzes tanto transmitiam uma atmosfera mais fria e sonhadora, como nos fazia sentir no meio de um fogo de artifício harmonioso e aconchegante.

A juntar ao músico islandês e às luzes, tínhamos quatro magníficos artistas de cordas e um poderoso percussionista/baterista. Mesmo sendo Ólafur o centro das atenções, a verdade é que ao longo do concerto todo ele deu espaço para os seus músicos crescerem e ganharem protagonismo. Com temas de intricadas texturas electrónicas, com vários sintetizadores à mistura, Ólafur Arnalds acaba por ganhar ao vivo por ter estas componentes orgânicas que ajudam a absorver e a hipnotizar a plateia.

Ainda assim, está-me a faltar descrever um protagonista que acabou por ser o destaque da noite – para o melhor e para o mais…caricato! Os pianos Stratus! Alguma vez viram um piano a tocar, com as teclas a mexer, mas sem nenhuma pessoa a manipulá-las? Pois bem, Ólafur faz-se acompanhar de dois cujo nome devem ao software desenvolvido por ele e pelo seu colega de Kiasmos, Janus Rasmussen. Após um acidente que impossibilitou Ólafur de tocar piano, há um dia que chega a um aeroporto e vê um piano tocar sem qualquer pessoa. Estava ali a sua solução para o seu problema. O que parecia não ter solução foi o facto de os Stratus terem deixado de dar sinais de vida precisamente antes de um tema em que o músico islandês ia precisar deles. Com uma postura notável, o Ólafur foi falando com o público enquanto tentava salvar o resto do concerto, recorrendo muitas vezes a um humor nórdico ao qual as pessoas reagiam com risos e aplausos. Mesmo após uma longa interrupção, finalmente foi possível recuperar os Stratus e o concerto retomou a sua magnitude.

A sensibilidade e a vulnerabilidade são traços fáceis de sentir na música de Ólafur. O que mais me tocou foi o facto de o produtor islandês não só os expor nas suas composições, como também permitir-se expressá-los em si mesmo em vários momentos do concerto. O maior deles todos, talvez, no fim, depois de ficar sozinho em palco. A despedida, depois de uma pausa em que o público fez questão de se ouvir a bom som, fez-se com um tema que compôs dedicado à sua avó, que costumava inventar ter o rádio avariado para que Ólafur fosse ter consigo e ficasse perto de si.

É fácil apaixonarmo-nos por Ólafur Arnalds e as suas composições. Para além da sua genuinidade, existe uma entrega tal, tanto sua como dos músicos que o acompanham, que o arrebatamento não demora. Ainda assim, acho que a sala pecou por um som que não fazia justiça ao que se passava em palco. Sempre que Ólafur se sentava num dos Stratus, o som era demasiado baixo. Com um espectáculo que conta com uma sonoridade tão emocional e com um jogo de luz que nos faz atravessar dimensões, faltou o som ter o nível desejável para que se pudesse considerar uma experiência transcendente.

Remato dizendo que acho que vivemos em tempos muito privilegiados no que toca à composição contemporânea ao piano. Tendo o privilégio de ter visto há pouco tempo Nils Frahm na Aula Magna, nem consigo imaginar como seria ver os dois num mesmo palco a manifestarem a sua genialidade. Quem sabe, num futuro próximo?

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[Reportagem MDX] Riverside no Lisboa ao Vivo, O Renascer em tom de Homenagem https://branmorrighan.com/2018/11/reportagem-mdx-riverside-no-lisboa-ao.html https://branmorrighan.com/2018/11/reportagem-mdx-riverside-no-lisboa-ao.html#respond Tue, 06 Nov 2018 10:00:00 +0000

Link originalhttps://www.musicaemdx.pt/2018/11/06/riverside-no-lisboa-ao-vivo-o-renascer-em-tom-de-homenagem/

Comecei a ouvir Riverside ainda em adolescente. Tinham apenas um disco, Out of Myself, que descobri quase como consequência de outros discos como Damnation, dos Opeth, Train of Thought, dos Dream Theater, ou Natural Disaster, dos Anathema. Digamos que cheguei ao final de 2003 bem armadilhada para os tempos que aí vinham. Destas quatro bandas, apenas ainda tinha visto Dream Theater ao vivo. Sim, é verdade, continuam-me a escapar Opeth e Anathema, mas nunca se sabe o futuro.

Voltando aos Riverside, sempre achei que eram uma banda que passava algo despercebida em Portugal. Porém,  no dia 3 de Novembro, no Lisboa ao Vivo, pude constatar que mesmo que o público não fosse uma multidão (ainda assim a casa estava muito bem composta como se pode ver pelas fotografias), os presentes mostraram uma dedicação e uma paixão dignas de nota. Diria que a grande maioria estava vestida a preceito, com algum tipo de adereço relacionado à banda e, sempre que incentivados, os presentes fizeram-se ouvir mostrando a sua adoração.

O concerto em si mereceu tudo isso e muito mais. Em palco, um quarteto de luxo. Mariusz Duda no centro, liderando com a sua voz, guitarra acústica, e com a sua mestria no baixo, Michał Łapaj nos teclados, sintetizadores e back vocals, qual assombro electrizante, Piotr Kozieradzki na bateria, qual ser vivo galopante e Maciej Meller na guitarra, preenchendo, em tour, um lugar acarinhado, não desiludindo de maneira alguma. Ao longo de todo o concerto estiveram irrepreensíveis e era palpável a energia e cumplicidade partilhada em palco. As composições intricadas de alguns temas fizeram-nos ficar hipnotizados entre os dedos serpenteantes de cada um dos membros da banda, ora no baixo, ora nos teclados, ora na guitarra, ora nos braços imparáveis do baterista.

O reportório foi o sonho de qualquer fã de Riverside, principalmente para os mais nostálgicos, como eu, que gostam de retornar a alguns temas mais antigos. Embora os temas do último disco fossem os mais cantados, a verdade é que sempre que se voltou a Out of Myself, Second Life Syndrome ou até Rapid Eye Movement, havia um grupo mais pequeno que se manifestava veementemente. Foram duas horas intensas, em que tudo esteve no ponto que devia. Do som ao elaborado plano de luzes, não faltaram também projecções evocativas em vídeo. Ao longo dos temas, e dadas algumas letras mais emotivas, foi possível sentir euforia e alegria em palco, mas também desolamento e angústia, qual catarse. Mas não é este um dos maiores poderes da música?

Wasteland, o mote da tour que trouxe os Riverside a Portugal, é um disco que vem no seguimento de um período doloroso, após a partida do antigo guitarrista Piotr Grudziński. Contém temas que expelem desde uma certa agressividade a uma melancolia quase dolorosa, fruto da perda, mas também de quem precisa seguir em frente. Mariusz Duda, mais do que uma vez, reforçou que este disco é uma espécie de recomeço, mas sem nunca esquecer, e em memória, de Piotr. A própria sonoridade de Wasteland acaba por se distinguir dos discos anteriores, sendo que o próprio vocalista admitiu que já não são propriamente a tal banda de metal progressivo, mas o que são é para continuar e partilhar, usando sempre a música como veículo de ligação e de quebra de preconceitos. A noite terminou com uma belíssima homenagem e a promessa de regressarem brevemente. Espero que sim, pois esta foi sem dúvida uma noite memorável.

Alinhamento:

Acid Rain

Vale of Tears

Reality Dream I

Lament

Out of Myself

Second Life Syndrome (first part only)

Left Out

Guardian Angel

Lost (Why Should I Be Frightened By a Hat?)

The Struggle for Survival

Forgotten Land

Loose Heart

Wasteland

Encore:

The Night Before

02 Panic Room

River Down Below

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[Reportagem MDX] My Master The Sun e A Last Day On Earth no Sabotage, A Luz e a Escuridão em Comunhão https://branmorrighan.com/2018/06/reportagem-mdx-my-master-sun-e-last-day.html https://branmorrighan.com/2018/06/reportagem-mdx-my-master-sun-e-last-day.html#respond Tue, 26 Jun 2018 09:59:00 +0000

Reportagem originalmente publicada no MDXhttps://www.musicaemdx.pt/2018/06/25/master-sun-e-last-day-earth-no-sabotage-luz-e-escuridao-em-comunhao/

Na noite da passada Sexta-feira, 22 de Junho, o Sabotage recebeu os My Master The Sun e os A Last Day On Earth, que proporcionaram uma bela noite de concertos, destacando-se pela intensidade e densidade que emanaram em palco. Para mim foi uma primeira vez a dobrar. Costumo dizer que é ao vivo que as bandas mostram a sua verdadeira essência e talento e ambos não desiludiram. Cada projecto, à sua maneira, já que a sonoridade, apesar de se cruzar em alguns aspectos distingue-os em maior número, mostrou que a música portuguesa é muito mais do que se vê à primeira vista e que no campo do metal há quem tenha uma palavra a dizer. Ou várias.

Começando com os My Master The Sun, a palavra é, de facto, um adereço que prima pela intervenção, pela irreverência e pela perturbação da dormência que se possa fazer sentir. As letras não são inocentes e a tenebrosidade com que são evocadas servem o seu propósito, de inquietar, provocar, incitar à acção. Mas ainda antes das palavras vem o instrumental e também esse é poderosíssimo. Não existem limites nem barreiras no que exploram. Das guitarras frenéticas aos laivos psicadélicos, da bateria em compasso de gigante à euforia total, do baixo sublime ao ribombar no peito, tudo se une, complementado pela voz, para nos agarrar pelo âmago e nos obrigar a uma certa purga necessária e urgente. Foi uma bela surpresa que sinalizou My Master The Sun como uma banda a ter debaixo de olho e a acompanhar de perto. Os My Master the Sun são o Ricardo Falé (voz + guitarra), o João Menor (guitarra), o Ricardo Canelas (baixo) e o Nuno Garrido (bateria).

Seguiram-se os A Last Day On Earth, oriundos da hiperactiva e hiper talentosa cidade de Leiria. Já contam com uma década de existência e regressaram recentemente à estrada para fazerem vingar a sua música. Com o Valter Geraldes na voz e guitarra, o Ruben Santos na guitarra, o João Félix no baixo e o Bruno Nunes da bateria, os A Last Day On Earth proporcionaram-nos uma viagem que teve tanto de emotiva como de electrizante. Apesar de se notar um nervosinho miudinho nas primeiras canções, normal e aceitável de quem esteve fora dos palcos durante algum tempo, o quarteto não só deu a volta por cima como terminou de forma explosiva e a mostrar a verdadeira fibra da qual são feitos. Existe um traço melancólico, reforçado pelo ligeiro tom rouco da voz de Valter, que ganha uma força e uma dimensão palpável através de uma componente instrumental de inegável qualidade e irreverência. Tudo conjugado, a personalidade de Last Day on Earth manifesta-se através de um ambiente que varia entre o apocalíptico e a redenção, deixando um rasto de devastação, da boa, pelo caminho.

A falta de uma casa mais composta proporcionou um papel ingrato às bandas. Ambas mereciam uma plateia cheia que lhes retribuísse a energia e a partilha de alma que ali se deu. Em A Last Day on Earth, tal tornou-se ainda mais evidente. Estamos perante uma banda que apela ao movimento, ao mosh, ao deixarmo-nos levar, perdendo-nos entre a mensagem e o sangue quente provocado pelo eco dos instrumentos. Na minha opinião, perdeu quem não esteve presente.

Setlist My Master The Sun:

A Arte da Desobediência

Uno

TV

Os Corvos Levantan Voo

Assassímio

Setlist A Last Day On Earth

Worlds Hunter

Castles Made Of Sand

Storms of Silence

You Know

Staring at the sun

Black sunrain

Fall

Distance

Morte

Fire Song

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[Reportagem MDX] Um TIPO Singular com Novas Ocupações, na Galeria Zé dos Bois https://branmorrighan.com/2018/03/reportagem-mdx-um-tipo-singular-com.html https://branmorrighan.com/2018/03/reportagem-mdx-um-tipo-singular-com.html#respond Tue, 20 Mar 2018 09:26:00 +0000

Reportagem originalmente publicada no Música em DX: 

https://www.musicaemdx.pt/2018/03/19/um-tipo-singular-com-novas-ocupacoes-na-galeria-ze-dos-bois/

Sexta-feira à noite, Bairro Alto, Lisboa. O tempo está frio e a chuva aparece quando lhe apetece. No entanto, quem entrou na sala de concertos da Galeria Zé dos Bois teve o privilégio de ao mesmo tempo entrar numa outra dimensão onde a emoção predominante se fazia sentir quente e familiar. TIPO, o projecto a solo de Salvador Menezes, apresentou o seu disco de estreia, Novas Ocupações, acompanhado dos seus companheiros dos You Can’t Win Charlie Brown. Entre sorrisos e improvisos ficámos a conhecer os dez temas que compõem o disco e ficámos também com a certeza que a capacidade criativa de TIPO é tão singular quanto pessoal.

Munido da sua guitarra de três cordas e dos seus quatro companheiros “de guerra”, TIPO iniciou o concerto com o seu mais recente single, “Confesso”. Não sei se já ouviram o disco, mas Novas Ocupações vale a pena ser apreciado. As sonoridades instrumentais são tão variadas quanto as tonalidades vocais do Salvador e ao vivo testemunhamos isso com uma energia e força muito singular. TIPO decidiu dar o peito às balas e arriscou expor-se, permitindo uma proximidade muito intimista. Não queremos saber se ele realmente imitou ou não as suas referências, pois cada segundo do seu trabalho tem uma personalidade muito própria.

O bom de se tocar numa sala que é grande quanto baste é que se o público tiver várias pessoas amigas dos músicos em palco, o ambiente é logo outro, tornando-se informal e libertando assim possíveis pressões ou nervosismos. Prova disso mesmo foram os vários momentos de partilha de risos e sorrisos nos intervalos das canções e das interacções directas do Salvador com o público – “eu conheço quase toda a gente que está aqui” – identificando cada um que se manifestava.

À parte feito, não posso deixar de referir a complexidade bela e fascinante da execução das composições apresentadas. Os ritmos não são lineares, há muitos pormenores e minúcias a ter em conta, mas os “Charlies” estiveram, como sempre, à altura, ajudando a que a noite se tornasse ainda mais especial. De todos os temas tocados (alinhamento no final do texto), admito que o meu preferido continua a ser “Novos Ofícios”. Devido a alguns imprevistos, a mulher do Salvador não conseguiu estar presente quando esta foi tocada, mas se há coisa para a qual os encores servem é precisamente para rematar e arrebatar quando necessário, por isso este foi o tema escolhido para ser repetido e, assim, devidamente partilhado com quem teve um papel fundamental no mesmo. Não sei se já deram conta, mas um dos ritmos que ouvem durante a canção é um sample do batimento cardíaco da sua filha. Se há músicas com vida, esta certamente transborda também admiração e carinho.  Antes do encore, o concerto terminou com Querela de Vizinhas, que TIPO explica que surgiu de ter ouvido, literalmente, vizinhas a discutir. Ao vivo esta discussão não é reproduzida, mas se forem ouvir o disco o tema começa precisamente com a voz das vizinhas.

Por todos estes pormenores, Novas Ocupações revela-se uma experiência extremamente bem conseguida e cheia de alma. É caso para agradecermos ao aborrecimento do Salvador e ao seu descontentamento com o seu trabalho há três anos atrás, altura em que começou a compor estas canções. A música portuguesa tem conhecido intervenientes muito especiais que têm estado dispostos a sair do convencional e que têm obrigado as pessoas a arriscarem sair da sua zona de conforto musical. No caso de TIPO, o risco vale a pena. Em pouco tempo as canções tornam-se “casa” e ganhamos mais um conforto original do qual nos podemos rodear e, quem sabe, no qual podemos ver-nos reflectidos.

Alinhamento

Confesso

Acção-Reacção

Desfecho

Fim do Dia

Género Desconhecido

Novos Ofícios

Autocomiseração de um Desempregado

Artigo Indefinido

Jugoslávia

Querela de Vizinhas

Texto – Sofia Teixeira | BranMorrighan

Fotografia – João Rebelo

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[Reportagem MDX] The Legendary Tigerman no Lux, o desajustado e a lição de rock’n’roll https://branmorrighan.com/2018/02/reportagem-mdx-legendary-tigerman-no.html https://branmorrighan.com/2018/02/reportagem-mdx-legendary-tigerman-no.html#respond Mon, 26 Feb 2018 08:49:00 +0000 Reportagem originalmente publicada no Música em DXhttps://www.musicaemdx.pt/2018/02/25/legendary-tigerman-no-lux-o-desajustado-e-licao-de-rocknroll/

Na noite de Quinta-feira passada, dia 22 de Fevereiro, o Lux Frágil voltou a ser palco para um dos projectos de maior referência do rock português, The Legendary Tigerman. Em Janeiro saiu o seu último disco, MISFIT, em que pela primeira vez, em estúdio, assumiu o formato banda, juntando-se a Paulo Furtado os músicos João Cabrita e Paulo Segadães. Foi no contexto da apresentação deste disco que o Lux esgotou para uma noite que se viria a mostrar memorável, tanto pela performance da banda como por pequenos momentos mais inusitados que tiveram o lado positivo de mostrar a fibra da qual The Legendary Tigerman é feito. Foi também uma noite que nos mostrou que o rock está longe de estar morto, principalmente enquanto houver um “MISFIT” como Paulo Furtado que dá o peito às balas em palco não deixando margem para dúvidas em relação ao seu talento e entrega, mesmo quando sente que as coisas estão “estranhas”. Mas já lá vamos.

A abrir a noite esteve Sean Riley (sem os seus Slowriders), apresentando algumas das canções que farão parte do seu disco de estreia a solo, a ser editado em Abril, Califórnia. Se há algo que caracteriza bem Afonso Rodrigues é o timbre único da sua voz a e a forma natural com que hipnotiza quem o ouve. Munido apenas de uma guitarra acústica (e de uma eléctrica num tema que compôs naquela semana e que disse ainda não a saber cantar muito bem – na nossa opinião esteve impecável) e da sua voz, Sean Riley levou-nos por paisagens sentidas, provocando a nossa imaginação no que toca aos cenários vividos e sentidos enquanto compunha as músicas. É que boa parte do disco foi sendo composto e gravado em quartos de motéis enquanto viajava, precisamente, com Paulo Furtado. Penso ser unânime que todos ficaram curiosos com o disco que está para vir.

A contrastar com o ritmo calmo e simples de Sean Riley, subiram então ao palco Paulo Furtado, João Cabrita, Paulo Segadães e Filipe Rocha para deixarem bem claro que o rock é um género indomável que ainda habita bem a alma daqueles que o incorporam. Começaram com a poderosa “Black Hole”, seguida de “The Saddest Girl on Earth”, e as descargas de energia não se tardaram a fazer sentir. Sou suspeita, MISFITé, provavelmente, o meu disco preferido deThe Legendary Tigerman, muito devido a uma maior ligação não só com a sonoridade como também com a parte lírica. Existe uma sensação de intimidade e de proximidade com o disco, como se este nos fosse despindo ao longo do mesmo. Ao vivo, todas estas dimensões ganham uma vida física que nos arrebata, muito devido não só à atitude explosiva do próprio Paulo Furtado como à dinâmica que este tem com os músicos que o acompanham. Se emTrue, disco de 2014, João Cabrita e Paulo Segadães já se tinham iniciado no universo de concertos de Tigerman (em que para mim fica a noite memorável em Paredes de Coura, na qual Filipe Costa também participou nos teclados), agora emMISFIT com Filipe Rocha no baixo existe um poder sonoro ainda maior. Com as canções sempre acompanhadas por projecções visuais, a dificuldade por vezes sentida era apenas em qual das vertentes do concerto mergulhar: se fechar os olhos e dançar, se ficar vidrado pelo electrizante Paulo Furtado ou se ficar fascinado pela conjugação palco/projecção.

20180222 - The Legendary Tigerman apresenta MISFIT @ Lux Frágil

O rock’n’roll sempre foi uma arma poderosa para as manifestações de desenquadramento na sociedade. O próprio título do disco não é inocente, Paulo Furtado assume que sempre se sentiu desajustado, o que sempre potenciou ainda mais o seu poder à guitarra/bateria/microfone (como tantas vezes o vimos em formato one-man-band). Quinta-feira, esse desajuste voltou a rugir com a inconformidade. A certa altura, Tigerman diz para o público que não percebe bem o que se está passar, mas que o concerto está a ser “estranho”. Mais tarde volta a intervir dizendo que “de 0 a 10, para mim, está a ser um 3”, pedindo desculpa por isso mesmo. Do que talvez o músico português não tenha noção dessa noite, é que mesmo com todos esses sentimentos da sua parte mostrou que existem poucos como ele. Foi sempre capaz de continuar a dar tudo o que podia. A certa altura compreendi um pouco o porquê de ele sentir aquela estranheza. Não me levem a mal, mas a reacção do público durante o concerto, ou pelo menos do público mais próximo do palco, esteve longe do que já presenciei em outros concertos. Mesmo no “tema bomba” que é sempre “21st century rock’n’roll” a adesão do público, que noutros concertos foi frenética e febril, ali no Lux Frágil foi morna.

20180222 - The Legendary Tigerman apresenta MISFIT @ Lux Frágil

Tendo presenciado a pré-apresentação do disco no Coliseu, em Dezembro, para mim não restam dúvidas que The Legendary Tigerman tem evoluído e passado por algumas metamorfoses que só podem deixar uma pegada lendária nas paredes do rock português. A noite de Quinta-feira terminou com um pequeno encore, em que ouvimos mais um valente “que se foda” em relação ao que corria menos bem, terminando com o já clássico “Sleeping Alone”. Um concerto de The Legendary Tigerman será sempre um concerto digno de se viver sem merdas, merecedor de toda a irreverência e paixão com que se possa corresponder.

Texto – Sofia Teixeira | Blog BranMorrighan

Fotografia – Luis Sousa

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Entrevista a The Legendary Tigerman: o Início de uma Nova Etapa com MISFIT https://branmorrighan.com/2018/02/entrevista-the-legendary-tigerman-o.html https://branmorrighan.com/2018/02/entrevista-the-legendary-tigerman-o.html#respond Tue, 20 Feb 2018 14:23:00 +0000 Entrevista originalmente publicada no Música em DX: https://www.musicaemdx.pt/2018/02/20/entrevista-legendary-tigerman/

É já nesta Quinta-feira, dia 22 de Fevereiro, que The Legendary Tigerman começa a tour portuguesa de “MISFIT”, disco lançado mundialmente em Janeiro pela Sony Music. Com uma carreira a solo que leva quase duas décadas, falámos um pouco com Paulo Furtado sobre este seu mais recente trabalho que acaba por marcar uma nova fase da carreira do Lendário Homem-Tigre.

Misfit é um disco diferente do anterior por várias razões. Do conhecimento público vem o facto de pela primeira vez não teres trabalhado completamente sozinho nele, o que só de si acaba por abarcar novas experiências. Sentes que Misfit marca uma nova etapa de The Legendary Tigerman?

Sim, claramente. É muito relevante para o som do disco e para o projecto o facto de neste momento isto ser mais uma banda do que um one-man-band, e desde o início que pensei em compor para esta formação, e ter isso em conta na escolha das músicas. O facto de MISFIT ser parte de um projecto maior, que também é cinema e fotografia, também o distingue de tudo o que está para trás.

Pela primeira vez em quase vinte anos, The Legendary Tigerman entra então em estúdio para gravar acompanhado (com Paulo Sagadães e João Cabrita). O que é que te motivou a levá-los para estúdio? Desde True que tocam juntos. Essa experiência foi preponderante?

Bem, esta transformação não foi exactamente pensada, foi acontecendo. Primeiro entrou o Sega, e durante algum tempo tocámos com as duas baterias em palco e havia uma mistura do one-man-band com a bateria, e passado uns tempos o Sega estava a tocar o concerto todo, e de repente aquilo fazia sentido. O Cabrita também começou assim, como convidado em algumas canções em concertos especiais, porque ele tinha escrito arranjos para o True, e de repente havia uma linguagem musical nova e fresca, que tinha sido criada ao vivo, e para mim fazia sentido tentar compor para este formato. Foi isso que veio a acontecer no MISFIT.

Misfit, o desajustado. Não é segredo para ninguém, dado que já o disseste publicamente, que este foi um sentimento que te acompanhou ao longo do teu crescimento e até mesmo enquanto adulto. Sentes-te mais perto de ti mesmo neste disco do que nos cinco anteriores?

Sim, sempre senti isso, na realidade, desde muito novo, e de repente também me pacifiquei com esse sentimento, porque é fixe e bom ser desajustado num mundo que nem sempre é o mais correcto e interessante. É bom fazer coisas que nem toda a gente goste, não preciso que muita gente goste de mim, alguns até prefiro que não gostem!

Claro que há um preço a pagar por isso, mas na realidade, não creio que conseguisse fazer as coisas de outra maneira. Mas sempre fui muito honesto em todos os discos que fiz, sinto-me muito próximo de todos, eram exactamente os disco que queria fazer em cada um dos momentos.

Numa altura em que se discute “a morte do rock’n’roll” para outros géneros musicais, tens uma faixa que se chama “Fix of Rock’n’Roll”. É alguma espécie de statement em relação ao assunto ou mera coincidência?

Não é coincidência, claro. Como não é coincidência que o disco seja de alguma forma mais pesado que os anteriores, tive vontade de fazer um disco de rock´n´roll neste momento, e com esta formação. Em todas as décadas se fala da morte do Rock´n´Roll, mas acho que ainda não é desta. Acho que isso nunca irá acontecer, há-de sempre haver um puto a pegar numa guitarra eléctrica e a sentir esse energia, que é muito diferente de tudo o resto.

Para a escrita das letras em que é que vais buscar referências? À tua vida, às tuas experiências ou também tens, por exemplo, alguns autores literários nos quais também te inspiras?

Neste disco quis ser mais influenciado pela estrada e pelo universo que criei para o Fade into Nothing, o filme que criei com o Pedro Maia e a Rita Lino, e que no fundo foi o início de todos este processo. Tentei escrever muito pelo olhar do personagem principal do filme, a quem dou corpo, chamado MISFIT, mas claro que a experiência pessoal e a vivência acabam por estar sempre presentes na escrita das canções. E, no fundo, toda a arte com que contacto me influencia, seja um quadro, um filme, um livro. Acho que há sempre qualquer coisa que te vai abrindo portas e janelas na pessoa que és, e isso acaba por influenciar a tua arte, também.

Como disseste, Misfit foi também um trabalho que, por consequência, acabou por destacar outras paixões tuas: o cinema e a fotografia. Ao mesmo tempo que surgia “Fade Into Nothing”, nascia também a composição de “Misfit”. De que forma é que estas experiências ganharam vida e como é que se reflectem verdadeiramente no disco?

Bem, já respondi a uma parte desta questão, creio, mas de facto forcei-me a escrever por outros olhos, e tentar fazê-lo de uma maneira rápida e intuitiva, e na realidade o grosso do disco foi escrito diariamente entre Los Angeles e Death Valley, durante a rodagem do filme. Há muita coisa cruzada entre o filme e o disco, muitas ideias que muitas vezes são desenvolvidas no diário, ou podem ter uma justificação nas canções. Há muitas pistas para isso no disco e no filme, para quem as queira procurar. Para mim era importante precipitar uma escrita mais rápida e intuitiva, menos reflectida.

Gravar num estúdio em pleno deserto reforça um bocadinho a ideia do Misfit, havendo este isolamento bastante literal. Existe todo este imaginário que acaba por se tornar muito gráfico enquanto ouvimos o disco. O que é que te impulsionou a ir gravar para um estúdio no deserto (para além de, obviamente, o estúdio ser excelente)?

Por um lado, queria muito gravar no Rancho, desde que ouvi as primeiras Desert Sessions, e quando visitei o estúdio a primeira vez senti uma energia muito especial, senti que aquele era um local muito inspirador. Por outro lado, queria muito estar fora da minha zona de conforto e dos instrumentos e sons que conheço bem, e também que precisávamos desse isolamento, como músicos que pela primeira vez estavam a gravar um disco. A escolha dos instrumentos para os arranjos finais ou certas sonoridades das guitarras, por exemplo, foram decisões tomadas lá, com o que estava disponível. Creio que tudo isto era efectivamente necessário para chegarmos à sonoridade de MISFIT. E tendo escrito o disco naquela zona, e sendo o deserto uma influência tão grande neste albúm, fazia todo o sentido.

Passado todo este tempo, que distância emocional, ou até fictícia, consideras haver entre o alterego The Legendary Tigerman e a pessoa Paulo Furtado? Aliás, será que existe sequer, hoje em dia, alguma diferença entre os dois?

Creio que essa diferença se foi acentuando, ao longo dos anos, na realidade. Talvez no início não houvesse tantas diferenças assim entre mim e a persona de palco, talvez estivéssemos os dois sempre ligados e a mil. Hoje em dia crescemos, ambos, mas de maneiras muito diferentes, creio. Permitiu-me a mim viver melhor e fazer mais coisas, creio, e permitiu-me também crescer muito em palco e disco, como Tigerman.

Sentes que com o tempo fica menos difícil expressares-te e dares forma às tuas emoções através da tua música?

De certo modo acho que sim, apesar de eu fazer um grande esforço para não me repetir e tentar reformular o modo como faço música, de disco para disco. Quando chega o momento de fazer um disco ou fazer um concerto, não creio que as coisas sejam verdadeiramente mais fáceis, há uma grande exigência, sempre.

Voltando um pouco atrás no tempo, como é que alguém tímido e com esse sentimento de não pertença ganha coragem de subir ao palco e fazer deste universo – em que acabas sempre por te expor – a sua vida?

Não te sei explicar exactamente como isso aconteceu. Acho que no fundo fui recebendo mais do que perdia, no sentido que foi um modo de poder continuar a desenquadrar-me, ainda que inserido na sociedade, e consegui exprimir coisas que provavelmente não conseguiria exprimir de outro modo. E a energia que sentes ao fazer um concerto de Rock´n´roll, é algo extraordinário. Quando tudo corre bem num concerto, quando consegues ligar-te ao público e que ele se ligue a ti, naquele momento perfeito de partilha e comunhão, isso é das coisas mais bonitas que pode acontecer, para mim. Não acontece sempre, mas é uma coisa que procuro sempre, e creio que estar em palco é algo de muito, muito especial, à qual me fui afeiçoando cada vez mais e ganhando cada vez mais respeito.

Tendo sido o desenho o teu primeiro talento natural, de que forma é que este se foi mantendo presente na tua vida?

Curiosamente, hoje em dia só desenho nas férias. É a única coisa que realmente me acalma e relaxa. Desenho plantas. Talvez um dia volte a desenhar e pintar outras coisas.

Sentes que o cinema e a fotografia se vão tornar uma parte mais constante da tua vida profissional no futuro?

Sinto que já são, mas muita vezes opto por deixar isso numa segunda linha, ou passa um pouco mais despercebido do grande público.

Para além do cinema e da fotografia, recentemente também produziste aquele que será o disco a solo de Sean Riley, que vai abrir os teus concertos na tour de Misfit portuguesa. Já no ano passado também tinhas assumido a produção de “Lucifer”, disco dos The Poppers. Qual é o maior contraste entre ser músico e produtor?

No fundo continuas a ser músico, enquanto produtor. A grande diferença é que tens um olhar externo em relação às canções, consegues ter um olhar mais crítico e vislumbrar caminhos de produção mais facilmente, porque não são as tuas canções, são canções de outras pessoas, são escritas passando por processos emocionais que muitas vezes influenciam o modo como são tocadas e arranjadas. Como produtor, tenho distância em relação a isso, e consigo perceber mais facilmente o que a canção ou o disco precisam. Por mais próximo que esteja, é um olhar de fora. No cinema é a mesma coisa, quem está atrás da câmara (com todas as exceções, porque não acredito em regras e há sempre mil modos de fazer as coisas) não deve estar a montar um filme, porque há uma memória e uma ideia do dia de rodagem, por exemplo. Imagina que houve uma cena super difícil de filmar, mas que no final consegues. Alguém que não saiba disso terá um olhar muito mais pragmático em relação a ela. Voltando à música, esse olhar mais distanciado também ajuda a reconhecer as mais valias de cada um também, bem como das canções, e tentar ao máximo ajudar a maximizar tudo isso. No fundo, todas as experiências que vais tendo te vão fazendo crescer como músico e produtor.

Tendo uma estética muito própria, como é que te consegues abstrair dela quando trabalhas no papel de produtor com outros artistas?

Bem, nunca me abstraio totalmente da minha estética, creio. Qualquer autor que tenha uma assinatura e visão não pode abstrair da sua estética, e acho que isso também é claro na cabeça de quem me procura. No fundo o que acontece é que coloco a minha experiência e essa estética ao serviço de outras pessoas e de outras visões. Mas antes de qualquer trabalho desse género, ou mesmo quando faço bandas sonoras de cinema ou teatro, e faço muitas e muitas vezes, e bastante diferentes do que as pessoas esperam do ponto de vista sonoro, tento explicar tudo isto ao máximo, e perceber se faz realmente sentido trabalharmos juntos. Às vezes, pura e simplesmente, não faz. E é importante perceber isso antes.

Enquanto artista tens uma relação muito especial com França. A tour de Misfit começou precisamente por lá e as pessoas adoram-te. Como é que surge esse arrebatamento com França?

Não sei, surgiu de uma maneira natural, creio, sempre houve gente que se interessou por aquilo que faço, por lá. E creio que é um país que sempre gostou de Blues e Rock´n´Roll.

Quinta-feira começa a tour por Portugal no Lux. Nos teus concertos a temperatura costuma subir muito rapidamente. O que é que te dá mais prazer durante um concerto em relação a ti em palco e à reacção do público?

Quando num pequenino momento, parece que somos um só. É um sentimento incrível.

Agenda concertos Portugal

22 de Fevereiro – Lux Frágil – Lisboa

2 de Março – Porto – Hard Club

9 de Março – Arcos de Valdevez – Sons de Vez

10 de Março – Aveiro – Teatro Aveirense

15 de Março – Évora – Teatro Municipal Garcia de Resende

16 de Março – Castelo Branco – Teatro Avenida

17 de Março – Alcobaça – Cine-Teatro de Alcobaça João D’Oliva Monteiro

23 de Março – Tondela – ACERT

24 de Março – Braga – Theatro Circo

29 de Março – Coimbra – TAGV

Fotografia – Rita Lino | The Legendary Tigerman

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[Reportagem MDX] Linda Martini no Lux Frágil, dos diamantes que se querem em bruto https://branmorrighan.com/2018/02/reportagem-mdx-linda-martini-no-lux.html https://branmorrighan.com/2018/02/reportagem-mdx-linda-martini-no-lux.html#respond Sat, 17 Feb 2018 20:45:00 +0000 Post Original no Música em DX: https://www.musicaemdx.pt/2018/02/17/linda-martini-no-lux-fragil-dos-diamantes-que-se-querem-em-bruto/

Quinze anos, cinco discos, um EP que vale ouro e outras canções soltas pelo meio fazem dos Linda Martini um nome incontornável da música portuguesa. Começaram no circuito punk/hardcore e admitem, em entrevistas, que tiveram sorte desde o início. Com sorte ou sem ela uma coisa é certa: mérito é coisa que não lhes falta. Prova disso mesmo foi o concerto de Quinta-feira passada (dia 15 de Fevereiro), a primeira de duas datas esgotadas no Lux Frágil, para apresentação de Linda Martini, disco homónimo. O público era tão ecléctico em idades como tem vindo a ser a sonoridade dos Linda Martini ao longo da última década e meia.

20180215 - Concerto - Linda Martini Apresentação Novo Disco @ Lux Frágil

Dos mais jovens aos mais velhos não faltaram pulmões, nem energia, numa noite que prova que uma banda destas só ganha em manter-se, na sua essência, em estado bruto. Isto é, o polimento é pontual a cada disco, a cada concerto, a cada momento através de guitarras vibrantes com distorções ao alto, um baixo que a cada disco está cada vez mais proeminente e uma bateria sem limites. Assistimos assim a um diamante (a banda) que assume a forma que cada um sente ser a sua, tornando-o único.

Em quinze anos muito deve ter mudado na vida de cada um, mas a determinação em fazerem o que gostam e como gostam, independentemente das expectativas que o público possa ter, faz com que quando estabelecem uma ligação emocional recíproca com o público esta seja altamente visceral. O olhar em palco, esse, é já um pouco diferente de há uns anos atrás. Existe uma espécie de comoção quase fraternal em relação aos membros mais jovens do público, o que é perfeitamente normal quando boa parte dele ainda estava para/a nascer quando começaram a fazer música.

20180215 - Concerto - Linda Martini Apresentação Novo Disco @ Lux Frágil

Tive a oportunidade de ficar nas linhas da frente do concerto e com isso estar mais próxima tanto da banda, da sua linguagem corporal, como do público, que rapidamente se organizou para juntar os que tinham o sangue a ferver e que destemidamente fizeram os círculos de mosh que sentiam que as músicas pediam. Não há tanto tempo assim era eu e os meus amigos que estávamos ali no meio e é impossível não largar um sorriso gigante de quem percebe que esta banda, que se admira há mais de uma década, continua a ter o mesmo efeito nas novas gerações. Na altura do Turbo Lento, há quase cinco anos atrás, escrevi: «Penso que os Linda Martini têm esta capacidade inata, e ao mesmo tempo assustadora, de resgatar nos seus ouvintes as partes mais recônditas de si mesmos. Vasculham-nos a alma, agitam-na por dentro e levam-nos a gritar em plenos pulmões todas as coisas reprimidas numa expressão conjunta sem igual.» Desde então, gravaram Sirumba e agora o disco homónimo. Antes tinham gravado Olhos de Mongol, Marsupial e Casa Ocupada. Cada disco com uma reacção diferente, mas o extraordinário é terem mantido exactamente aquela tal capacidade inata de criar uma energia que só à banda e aos seus fãs pertence.

Linda Martini foi então o mote para este concerto e foi com admiração e respeito que constatei que muitos fãs, principalmente dos mais jovens, já sabiam boa parte das letras e fizeram coro com a banda. Os sorrisos partilhados em palco mostravam essa mesma surpresa, mas também um grande orgulho, reforçado e destacado por Hélio Morais, no extremo direito do palco, quando disse “este lado está claramente a ganhar a esse”. E estava. Algo que mudou passadas algumas músicas quando já toda a frente do palco se mexia ao sabor dos empurrões saudáveis de um concerto rock e do crowdsurfing. Pedro Geraldes avisou e cumpriu “se me agarrarem eu vou!”, e ele foi. Havendo até espaço para um abraço a um fã em pleno “vôo”.

20180215 - Concerto - Linda Martini Apresentação Novo Disco @ Lux Frágil

Os temas deste último disco são fortes, crus e ao mesmo tempo sensíveis, atravessando espectros sonoros que tanto carregam nas distorções (p.e. “Quase Se Faz Uma Canção”) como pegam num tom mais dançante (p.e. “É Só Uma Canção”). A emoção é a de libertação, a catarse através da música em que as letras e a voz de André Henriques tomam um papel mais preponderante e muito bem-vindo. Pela reacção do público, “Boca de Sal” e “Gravidade”, os singles lançados, mostraram que já se tornaram temas de referência. Foi uma noite muito bonita em que também houve tempo para as aclamadas “Belarmino Vs.”, “Lição de Vôo Nº1” (que a banda já não tocava há algum tempo, mas que é sempre arrepiante), “As Putas Dançam Slow” (tema que pouco tocam ao vivo, mas que será sempre dos meus preferidos), “Amor Combate”, “Putos Bons” e a incontornável “Cem Metros Sereia”.

Os Linda Martini são aquela banda que, tenham noção disso ou não, tocam no âmago de muitos e têm marcado todas as gerações que os ouvem. Resta-me esperar que venham mais quinze anos recheados de boa música e que nunca percam esta essência que os caracteriza que é serem eles mesmos naquilo que fazem, sem merdas.

20180215 - Concerto - Linda Martini Apresentação Novo Disco @ Lux Frágil

Alinhamento:

Semi Tédio dos Prazeres

Caretano

Boca de Sal

Panteão

Belarmino Vs.

Quase Se Fez Uma Casa

Febril (Tanto Mar)

É Só Uma Canção

Lição de Vôo Nº 1

Domingo Desportivo

Cor de Osso

Unicórnio de Sta. Engrácia

Gravidade

Se Me Agiganto

As Putas Dançam Slows

Amor Combate

Putos Bons

Cem Metros Sereia

Texto: Sofia Teixeira | BranMorrighan

Fotografias: Luís Sousa

PS Extra BranMorrighan: Não fosse ter começado a acompanhar as bandas da Omnichord Records e os Linda Martini seriam a banda portuguesa que mais vi ao vivo. Entraram no meu imaginário (e na minha realidade) há mais de uma década através de uma pessoa muito especial. Foram das primeiras bandas, senão a primeira, com a qual me identifiquei. Como só a vida tem esse condão, a evolução dos seus trabalhos coincidiu grandemente com o meu crescimento em vários contextos e os seus primeiros discos foram autênticas bandas sonoras para alturas tanto de êxtase como outras mais difíceis, umas mais que outras. É-me, por isso, sempre difícil escrever sobre os Linda Martini, parece que nunca vou fazer jus ao quanto já me acompanharam, mesmo sem alguma vez terem noção disso. Linda Martini, este novo disco homónimo, na sua identidade única traz também um pouco do passado, mas realçando o presente agora numa visão mais madura. E tem sido incrível crescer tendo-os a fazer música. O meu obrigada. 

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Entrevista aos Fugly, Uma Incursão a Millennial Shit https://branmorrighan.com/2018/02/entrevista-aos-fugly-uma-incursao.html https://branmorrighan.com/2018/02/entrevista-aos-fugly-uma-incursao.html#respond Thu, 08 Feb 2018 16:21:00 +0000 Fotografia André Coelho

Originalmente feita e publicada no MDX: https://www.musicaemdx.pt/2018/02/07/entrevista-aos-fugly-uma-incursao-millennial-shit/

É já nos dias 9 e de 10 de Fevereiro, no Maus Hábitos (Porto) e no Damas (Lisboa), que os Fugly começam a tour de apresentação do seu disco de estreia “Millennial Shit”. Estivemos à conversa com eles para sabermos mais sobre do que realmente fala este disco, mas também de como tudo começou e quais as suas expectativas para a tour internacional que começa já dia 13 de Março e que contará com Diários de Bordo da tour aqui no BranMorrighan. As letras das músicas de Millennial Shit também podem ser encontradas no Queres é (a) Letra! 

Antes de mais, muitos parabéns por este disco delicioso! Dado que já passaram alguns dias desde que saiu, qual o vosso sentimento em relação ao mesmo e que tal tem sido a reacção ao “Millennial Shit”?

Antes de mais, muito obrigado! Em relação à receptividade do álbum, tem sido porreira, muita malta que nunca vimos na vida a dizer que gostaram muito! Estamos ansiosos por começar a tocar de novo, afinal já estamos há 8 meses de ressaca!

O título do disco é sugestivo e susceptível a várias interpretações. Quem são estes Millennials a que vocês se referem e de que merdas estamos aqui a falar? Emocionais ou é a geração que só de si é mais frágil do que parece?

Um disco é todo uma crítica à nossa geração, do sofá, debaixo da asa dos pais, com a vida pré-definida pelo sistema sócio-económico, dependente das redes sociais. Por outro lado dá valor ao que já conseguimos alcançar no que toca a várias questões sociais e até ambientais. Mas infelizmente o sentimento é de que isto é só movido por apenas algumas pessoas e não por um colectivo que é a nossa geração, que por mais informação que tenha disponível, não procura tentar fazer algo por isso.

Pedro, sendo tu o líder declarado da banda, as músicas foram compostas só por ti ou pelos quatro?

O líder Pedro (risos) diz que parte delas, sim. Mas houve um esforço mais colectivo em criar este álbum.

Toda a sonoridade do disco remete para uma espécie de libertação, mas também de abismo passional, entre potenciais enamoramentos e uns copos. Este disco é uma espécie de purga, declaração de paixão ou de arrependimento? Ou tudo junto?

É um “cocktail” de emoções muito elaborado. Depende de cada pessoa como é óbvio. Mas há muita gente que vive esta coisa do “ah e tal eu estou bem” e depois chega a casa e chora a ver o Rei Leão. Os copos já se sabe que levam uma pessoa a agir de uma maneira mais desinibida, de repente a tua vida que há cinco minutos era uma merda, agora é fantástica. Ou às vezes o contrário.

É um disco autobiográfico?

Claro que há uma parte autobiográfica nas letras, temos que ter base um pouco nas nossas próprias experiências, mas também sentimos que é aquilo que vemos em vários amigos nossos que se perdem em saídas à noite e às vezes isso faz-lhes bem, outras vezes acaba por piorar a coisa.

Consideram o punk um dos vossos grandes alicerces? Quais são as maiores influências instrumentais e vocais?

A música punk sempre teve algo a ver connosco. A simplicidade, a sonoridade crua, sempre nos disseram muita coisa. Que não precisas de ser virtuoso a tocar, desde que tenhas o espírito dentro de ti, consegues criar algo fantástico. Juntando isto a uma voz de rebelião, contra todo um sistema que tira o poder às pessoas mantendo-as na ignorância.

Agora em relação a Fugly existem claramente influências desses ideais, se calhar não somos mesmo “true”, mas temos imenso respeito por todo o movimento. Já todos fomos a concertos na Casa Viva e andámos de skate. Em termos de influências musicais propriamente ditas, é difícil escolher porque ouvimos hoje em dia tantos géneros de música que não sabemos bem dizer o que é que nos influenciou. Podemos dizer que Clash, Ramones, Buzzcocks, Dead Kennedys são influências, bem como Beatles, Pink Floyd, Zeppelin, Nirvana, Queens of The Stone Age, Radiohead e até bandas recentes como Oh Sees, Ty Segall, Fidlar, etc etc. Mas lá está, o que tentamos mais é não ser uma dessas bandas específicas, sermos a nossa própria identidade tendo estas bandas como inspiração. O que podemos dizer que não é nada fácil !

O que é que é mais importante para vocês enquanto banda? Ou seja, o que é que vocês gostavam que quem vos ouvisse sentisse?

Que a malta apareça para nos ver, que a música lhes diga alguma coisa e que lhes inspire a tentar fazer algo por si próprias e pelos outros e não dependa sempre doutros factores familiares, sociais, etc.

Take You Home Tonight é uma das canções que vocês tocam desde sempre, mas não entrou no vosso EP passado. Por norma estas canções perdem-se na memória de quem testemunhou o início da banda, mas vocês decidiram agora colocá-la no disco. Vão continuar a tocá-la para sempre? (que é grande malha, isso sem dúvida!)

Sim, temos todo o gosto em tocá-la daí termos incluído neste álbum. Agora se vai ser uma daquelas para sempre, não fazemos a mínima ideia.

Pedro, deixa-me fazer aqui um interlúdio só para que as pessoas saibam um pouco mais sobre ti. Quem está por dentro do circuito musical conhece-te (também) por fazeres som a algumas bandas como Throes + The Shine ou First Breath After Coma. Neste salto para o palco, achas que agora te vão passar a ver de maneira diferente?

Opa sei lá, não sou o único técnico de som do mundo que também tem uma banda. Acho que a história não é nova. Tem mais piada a malta achar que os técnicos de som não têm sensibilidade musical, ou não entendem nada de música, lá porque andam sempre com ferramentas no cinto e t-shirt preta. Já assisti a casos espectaculares de técnicos a ensinarem os músicos como tocar e a deixá-los ficar mal. Acho que não é um “upgrade” ou um salto na carreira, é só algo que adoro fazer: estar envolvido no meio musical, sendo como técnico, como músico, como roadie, acaba por ser a mesma coisa.

Como é que surge Fugly? Sempre quiseste ter uma banda que vingasse? O facto de acompanhares bandas com sucesso crescente, como é o caso daquelas duas, deu-te o empurrão que precisavas?

Sim, sempre quis ter uma banda, algo que eu pudesse ter para expressar aquilo que sinto, podia ter sido qualquer outra arte, mas música era o mais acessível para mim. Claro que estando envolvido com bandas emergentes, me ajudou. Diria que Lazy Faithful foi a banda que me fez ganhar mais vontade de procurar um projecto. Já os conhecia desde a minha adolescência e quando o Rafa e o Gil entraram na banda, fiquei apaixonado por eles. E quando comecei a trabalhar como técnico deles cada vez mais esse “bichinho” de estar a tocar me incomodou mais. Os Throes + The Shine e os FBAC já estavam noutro campeonato e deram-me a entender mais como funciona a industria da música e perceber como exportar as bandas para o resto da Europa, que é algo que ambiciono também há muito tempo.

Os teus companheiros de banda têm, também eles, outra banda. Sei que ao início havia um pouco o receio de vos considerarem quase um projecto paralelo, mas a mim parece-me que Fugly tem já uma identidade e personalidade muito próprios. Também sentes isso?

Os meus companheiros de banda têm imensos projectos paralelos. Mas se estás a falar de Lazy Faithful, percebo o que dizes. Houve essa preocupação, dado que no início três quartos da banda eram eles mas nunca foi algo que condicionasse o futuro do projecto. E eventualmente aconteceu o Tommy sair, o Gil estar a meio gás e o Nuno entrar. Musicalmente claro que há algumas coisas que vêm do passado com Lazy Faithful, principalmente ali na secção rítmica (risos), mas é algo compreensível. Como também convivemos num meio completamente diferente deles, começámos a procurar a nossa própria identidade.

Brevemente vão fazer uma tour lindíssima pela Europa, juntamente com a banda leiriense Whales, com dezenas de datas. Sei que tu já andaste em tours destas a fazer som, mas agora vais enquanto músico de palco. Quais as maiores diferenças que achas que vais sentir?

Ser menos responsável (risos). Como técnico sou mais rígido, mais sério e competente. Como músico sou um palhaço muitas das vezes. Mas não estou completamente ilibado das minhas funções técnicas. Vou sempre ter aquela vontade de questionar se aquele microfone ficou bem posicionado ou se a DI está ligada.

Na banda há quem nunca tenha andado em tour. Têm falado sobre isso? Sobre expectativas?

Acima de tudo , que seja para nos divertirmos. Já sabemos que o dinheiro não vai ser muito, que vão haver concertos bons e maus, mas vamos dar o nosso melhor e no fim ter histórias para contar.

Não deve ser fácil andar na estrada tanto tempo, ainda para mais com outra banda. Existe o perigo de se fartarem uns dos outros ou já têm técnicas para evitar que isso aconteça? (ehehe)

Opa nós já todos andámos a porrada na vida, não seria a primeira vez (risos). Mas agora a sério, acho que nos vamos dar todos bem, vai passar mesmo rápido, nem vamos ter tempo para nos chatearmos.

Dia 9 começam a apresentar o vosso disco no Maus Hábitos e dia 10 vêm a Lisboa ao Damas. Já deram concertos em ambas as cidades. Sendo o Porto a vossa cidade mãe, os concertos acabam por ser mais eufóricos ou a capital também vos tem recebido com igual paixão?

Já tivemos o prazer de tocar com casa cheia no Porto e em Lisboa. Foram concertos memoráveis sem dúvida. Acho que tocando em casa , ficamos sempre mais contentes, porque não nos podemos deixar de dar valor às nossas origens. Vão lá estar amigos nossos e família quase de certeza e não podemos esquecer quem nos apoiou desde sempre. A malta de Lisboa também é muito porreira, já tivemos reações muito surpreendentes por pessoal de lx !

Já vos disse que acho que vocês são do caraças ao vivo? Onde é que vão buscar toda aquela energia e estilo?

Opa isso deixa-nos muito contentes ! O estilo é questionável, acho que temos ideias muito dispares no que toca a isso. Mas energia é algo que gostamos de soltar. Dentro de cada um de nós está um puto hiperactivo com muito açúcar nos cereais, perto de explodir, e é esse o sentimento que queremos dar a toda a gente.

Bem, resta-me desejar-vos o melhor possível e que o punk nunca morra!

Obrigado e ROCK SEMPRE.

Millennial Shit Tour 2018

9 de Fevereiro – Maus Hábitos, Porto

10 de Fevereiro – Damas, Lisboa

16 de Fevereiro – Quina das Beatas, Portalegre

17 de Fevereiro – SHE, Évora

22 de Fevereiro – Tabacaria Teatrão, Coimbra

23 de Fevereiro – Clap Your Hands and Say Fest, Leiria

24 de Fevereiro – Boreal Festival de Inverno, Vila Real

2 de Março – El Corzo, Santiago de Compostela

3 de Março – Porta Onze, Monção

9 de Março – Sé Lá Vie, Braga

10 de Março – Café Avenida, Fafe

13 de Março – Madrid (Espanha)

14 de Março – Bilbao (Espanha)

15 de Março – Capbreton (França)

16 de Março – Toulouse (França)

17 de Março – Limoges (França)

18 de Março – TBA

20 de Março – Eindhoven (Holanda)

21 de Março – Antuerpia (Bélgica)

22 de Março – Available (Alemanha/Holanda/Bélgica)

23 de Março – Leipzig (Alemanha)

24 de Março – Hannover (Alemanha)

25 de Março – Available (Alemanha)

27 de Março – Poznan (Polónia)

28 de Março – Cracovia (Polónia)

29 de Março – Bolonha (Itália)

30 de Março – Napoles (Itália)

31 de Março – Roma (Itália)

1 de Abril – Perpignan (França)

3 de Abril –  Available (Espanha)

4 de Abril – Oviedo (Espanha)

5 de Abril – Lugo (Espanha)

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