Nuno Camarneiro – Bran Morrighan https://branmorrighan.com Literatura, Leitura, Música e Quotidiano Mon, 28 Dec 2020 05:54:53 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 https://branmorrighan.com/wp-content/uploads/2020/12/cropped-Preto-32x32.png Nuno Camarneiro – Bran Morrighan https://branmorrighan.com 32 32 Recensão: O Fogo Será a Tua Casa, de Nuno Camarneiro https://branmorrighan.com/2018/06/leituras-joao-morales-o-fogo-sera-tua.html https://branmorrighan.com/2018/06/leituras-joao-morales-o-fogo-sera-tua.html#respond Sun, 10 Jun 2018 12:17:00 +0000

O Fogo Será a Tua Casa

Nuno Camarneiro

Dom Quixote

248 págs

15,90 euros

O fogo das palavras

Nuno Camarneiro é o protagonista do seu mais recente romance, O Fogo Será a Tua Casa. Uma narrativa que navega entre os problemas que afectam o Islão e a redenção pela palavra.

Por João Morales

A ficção é a arte de inventar vidas e destinos, usando como matéria-prima aquilo que de mais parecido os escritores têm ao seu dispor – as vidas e destinos que conhecem ou sonham. No seu mais recente romance Nuno Camarneiro (Prémio Leya 2012, com Debaixo de Algum Céu) coloca-se a si mesmo no centro da acção, imaginando-se cativo de radicais islâmicos, num país do Médio-Oriente, na companhia de outros ocidentais. A narrativa cumpre a dupla função de permitir-lhe presumir reacções e raciocínios nascidos em situação tão extrema, ao mesmo tempo que aborda uma questão pertinente e bem contemporânea: “quando só tens um livro tudo o que lá vem escrito é para ser repetido a levadio a sério”, lemos, logo no início. 

Mas o laboratório de escrita que se revela a circunstância criada pelo autor possibilita ainda outro artifício, talvez a mais enraizada metáfora que trespassa o livro e o coloca acima das circunstâncias objectivas onde tudo se passa. Michel, Agnes, Kerem, Terry, Nuno, optam por contar histórias entre si, curtas narrativas que permitem contextualizar o passado e a personalidade de cada um, mas também alimentar uma dimensão onírica destinada a ultrapassar as reduzidas fronteiras físicas que confinam o grupo. No fundo, as histórias são uma forma de adiar a morte. Simbolicamente, talvez tenham sido sempre isso, mesmo quando pensamos na História da Humanidade e na condição que nos enforma, entre sonhos, mitos, desejos e constrangimentos vários.

O formato dos diálogos, herança da técnica de escrita dos guiões, com as falas mais avançadas nas páginas, prescindindo do travessão mas ganhando com isso alguma velocidade e naturalidade, resulta de forma empática e natural. Quase todo o livro decorre no mesmo cenário. Toda a atenção do leitor se concentra nos relatos tidos à vez, na articulação entre as personagens, manifestada pelas suas falas. A palavra está no centro das atenções e de toda a acção. Mas há algumas reflexões sobre o próprio poder da escrita: “todos estes romances são como quebra-cabeças, em que cada leitor se esforça por ultrapassar os factos para tentar chegar à verdade. À sua única e última verdade”.

Entrevista a Nuno Camarneirohttp://www.branmorrighan.com/2018/06/entrevista-nuno-camarneiro-ate-sermos.html

]]>
https://branmorrighan.com/2018/06/leituras-joao-morales-o-fogo-sera-tua.html/feed 0
Entrevista a Nuno Camarneiro: «Até sermos verificados pela vida, somos bons e maus» https://branmorrighan.com/2018/06/entrevista-nuno-camarneiro-ate-sermos.html https://branmorrighan.com/2018/06/entrevista-nuno-camarneiro-ate-sermos.html#respond Sun, 10 Jun 2018 12:11:00 +0000 Fotografia Edite Queiroz

O pretexto para a conversa com Nuno Camarneiro foi o seu mais recente livro, O Fogo Será a Tua Casa. Uma oportunidade para debater alguns temas contemporâneos e o olhar do autor sobre o seu próprio livro.

Por João Morales 

Neste livro há um conjunto de pessoas, capturadas por terroristas e mantidas em cativeiro. Para combaterem o tempo, decidem contar histórias entre si. Este mecanismo, contar histórias para, de alguma forma, escapar à morte, fez-me recordar Xerazade, a figura de As Mil e Uma Noites, que cria narrativas para adiar a morte.

Sim, tal como nem As Mil e uma Noites no meu livro também estamos a lutar contra o tempo, a combater o tédio através das histórias, Há essa ideia, muito antiga, quase inerente à Humanidade, de usar a ficção para combater a morte, para combater o esquecimento, para lutar contra a nossa mera condição de humanos.

A literatura é um pouco isso, uma forma de morremos um bocadinho menos. 

Em Se Eu Fosse Chão as coisas passam-se num hotel habitado pelos hóspedes e pelos funcionários; em Debaixo de Algum Céu, no interior de um prédio, protagonizado pelos diferentes inquilinos. Agora, tudo se passa neste reduzido cativeiro. Nos teus livros há essa dimensão quase teatral, em que tudo se passa num só cenário…

Sim, e isso terá que ver com a minha própria experiência no teatro, tanto enquanto actor, como enquanto dramaturgo. Eu já escrevi duas peças, e uso os meus livros como um pequeno teatro onde vai acontecer uma história. Agrada-me essa ideia de separar o mundo exterior, o mundo do ruído, o mundo que muitas vezes não entendemos, e criar um espaço narrativo de relações, de pulsões, de medos… uma série de coisas que se vão desenrolar ao longo do livro.

No Debaixo de Algum Céu escreveste: “um dia havemos de inventar quem possa arder por nós e amar, e viver os nossos dias, até nos tornarmos deuses secretos de nós mesmos”. Por um lado, esta alusão ao fogo, que volta a surgir no título do novo livro, por outro, esta questão de termos “deuses que tomem o nosso lugar” ou nós nos tornarmos deuses…

Nós vivemos um bocadinho nesta tensão entre sermos mortais, animais, na verdade, mas animais com ambição de serem deuses. E vamos sempre lutando para o sermos um bocadinho mais. Através da Ciência, da Arte, da Cultura, vamos aumentando as nossas possibilidades e, por vezes, quase nos iludindo de que não somos mortais, de que, na verdade, estamos sujeitos a tanta coisa. Essa dupla condição torna difícil ser humano, mas também o torna interessante. Não queremos morrer, queremos controlar o meio em que estamos… temos os nosso escravos, sobretudo no Ocidente. É bom que não nos esqueçamos, para termos o que temos há muita gente que não tem o mais básico, para poder produzir e nos poder dar isto. Queremos o melhor de dois mundos, ter tudo e não morrer. A ficção também é uma forma de o fazer, criar personagens é um pouco ser deus. 

Quando falas de querermos ascender a Deus, não deixa de ser irónico que um dos episódios mais importantes da Mitologia clássica seja o de Prometeu, quando este rouba o fogo aos deuses.

Há sempre uma certa ideia de castigo, a húbris, de nos arrogarmos a mais do que podemos, de querermos roubar o lugar aos deuses. É um dos motivos mais antigos que nós vamos sempre reciclando, isso vê-se nas narrativas políticas, até no desporto! Uma ambição máxima e o medo que seja castigada.

A dada altura, Agnes, uma religiosa que também foi capturada pelos terroristas, diz-nos: “deixei a Igreja anglicana porque era demasiado abstracta e racional, mais dos homens do que de Deus, e encontrei a fé ortodoxa junto da comunidade grega. Precisava de um Deus concreto e antigo, e foi ali que o encontrei”. Não deixa de ser curioso e irónico que se encontre agora subjugada por extremistas islâmicos. Não poderia haver Deus mais concreto e antigo que o islâmico…

Sim, na verdade, nós assistimos hoje a duas formas de ver a religião. Uma mais secularizada, se assim lhe quisermos chamar, em que o Deus se tornou mais filosófico, abstracto, que não é grande impedimento para que as pessoas deixem de fazer o que quer que seja. Falo principalmente da sociedade ocidental, onde Deus é já uma coisa esfumada… comemos o que queremos, estamos com quem queremos há uma leve sugestão de pecado, de bem e mal. 

Este não é o paradigma em boa parte do mundo islâmico e, mesmo no cristianismo ortodoxo, onde Deus impõe regras sobre como viver. Esta forma de ver a religião – que é antiga mas está ainda hoje connosco – quando mal interpretada pode levar aos actos mais terríveis, como foram feitos por nós, cristãos. Inquisição, Cruzadas, guerras entre Protestantes e Católicos – como vemos hoje entre Xiitas e Sumitas – é tudo muito parecido, só os tempos e os métodos diferem. 

Fotografia Edite Queiroz

É curioso falares nessa questão do mal. A dada altura lemos: “as ideias não crescem fora dos homens, não há uma ideia de genocídio à espera de um genocida, nem há ideias de tortura à espera de verdugos. Por muito que nos custe, os homens são as suas ideias”. Ao ler isto lembrei-me do pensamento do Rosseau e de todas as suas teorias sobre como o homem nasce puro e a sociedade é que o corrompe. Afinal, há gente naturalmente boa e gente má?

Não acredito nessa ideia de que nascemos todos bons, mas também não acredito que nascemos maus. Ou seja, nós nascemos com o potencial para tudo dentro de nós, com as partes boas e as partes más e o potencial para as desenvolver de um ou outro modo. 

Depois, é preciso muita coisa para sermos bons, ou para sermos menos maus. É preciso termos o que necessitamos para viver – onde comer, dormir, segurança… é mais fácil ser bom quando se tem essas coisas todas. Infelizmente, em muitas zonas do globo não há muita gente com isto tudo. E é fácil instrumentalizar as pessoas, esquecermo-nos do que deveríamos ser, procurar o poder, subjugar os outros. Agora, nós não somos maus ou bons por natureza, nós somos potencialmente tudo. É por isso que a Cultura é importante, para puxar o melhor de nós e tentar minimizar o mal que temos.

Estava a ouvir-te quando dizias que nascemos com potencial para o bem e para o mal e, sendo tu um homem de Ciência, da Física, quase me arriscaria a dizer que somos uma espécie de gato de Schrödinger…

Sim, é verdade. O gato estava morto e vivo. Nós, até sermos verificados pela vida, somos bons e maus. É a experiência, as circunstâncias com que lidamos, que vão revelar o que somos, na prática.

Tu usaste o Nuno Camarneiro como personagem desta história. No teu primeiro livro, No meu Peito Não Cabem Pássaros, surgiam um Jorge, um Fernando, um Karl, que se revelaram pessoas que existiram, o Jorge Luis Borges, o Fernando Pessoa, o karl seria Kafka. Quais são as diferenças quando se trabalha sobre figuras que existem, mas que não somos nós, e quando nós estamos a utilizar a nós? Quais os limites, as tentações, os receios?

No jogo literário há sempre uma mistura do que são as personagens, essas entidades que nós vamos buscar muitas vezes ao nosso mundo, à nossa história, com partes realmente nossas. E todas as personagens de um autor têm alguma parte do autor. Umas vezes, partes melhores, outras, partes piores. O desafio é quando, ao fazermos de nós próprios personagens, isso parece mais evidente. Mas é sempre um jogo de sombras, claro que o Nuno do livro não sou eu, é um Nuno ficcionado que tem partes minhas e outras que eu imagino nesta circunstância. Não sou eu, mas o Nuno que me serviu para contar esta história.

Fiquei com uma certa percepção que, dos vários personagens desta história, todos eles tinham coisas por resolver na sua vida, coisas de que se arrependiam, para algumas até procurariam uma certa redenção… o Nuno Camarneiro deste livro pareceu-me o que mais estaria em paz consigo mesmo, com menos contradições e conflitos interiores.

Não será verdade, mas na personagem talvez sim… talvez seja um pouco por protecção, um instinto natural. Além disso, eu ali faço mais de pivot, ou seja, sou o ponto de contacto entre aquelas personagens, sou o narrador. Sou quase mais o confessor que outra coisa. Não quis que a minha personagem fosse demasiado interessante, para que as outras pudessem ter todo o palco.

Creio que a melhor forma terminarmos esta conversa é com uma pergunta que tu próprio fazes no livro: “O que fazer com a violência de que somos vítimas? Resistir-lhe ou aprender com ela? Tornar-me-ia um homem melhor, mais sensato ou mais sensível?”

Essa é uma questão muitíssimo pertinente, o que fazer com a violência a que estamos sujeitos. As pessoas não sabem o que fazer com a violência. No meu caso, descobri a ficção como forma de transformar essas experiências negativas em algo de profícuo, algo que dá vida. E esse é o desafio, em vez de devolvermos a violência como violência – o pior que podemos fazer, não só aos outros mas a nós próprios, porque é um alimentar do ódio que não leva a qualquer tipo de apaziguamento – transformar essas pulsões em literatura, em arte, em algo que nos seja gratificante e que possamos partilhar com os outros. Talvez seja a melhor de forma de lidar com a violência que nos aflige.



Texto O Fogo das Palavras, sobre O Fogo Será a tua Casahttp://www.branmorrighan.com/2018/06/leituras-joao-morales-o-fogo-sera-tua.html

]]>
https://branmorrighan.com/2018/06/entrevista-nuno-camarneiro-ate-sermos.html/feed 0
Opinião: Debaixo de Algum Céu de Nuno Camarneiro https://branmorrighan.com/2013/11/opiniao-debaixo-de-algum-ceu-de-nuno.html https://branmorrighan.com/2013/11/opiniao-debaixo-de-algum-ceu-de-nuno.html#comments Mon, 18 Nov 2013 17:23:00 +0000

Debaixo de Algum Céu

Nuno Camarneiro

Editora: LeYa

Vencedor do Prémio LeYa 2012

Sinopse

“Num prédio encostado à praia, homens, mulheres e crianças –
vizinhos que se cruzam mas se desconhecem – andam à procura do que lhes falta:
um pouco de paz, de música, de calor, de um deus que lhes sirva. Todas as
janelas estão viradas para dentro e até o vento parece soprar em quem lá vive.
Há uma viúva sozinha com um gato, um homem que se esconde a inventar futuros, o
bebé que testa os pais desavindos, o reformado que constrói loucuras na cave,
uma família quase quase normal, um padre com uma doença de fé, o apartamento
vazio cheio dos que o deixaram. O elevador sobe cansado, a menina chora e os
canos estrebucham. É esse o som dos dias, porque não há maneira de o medo se
fazer ouvir.

A semana em que decorre esta história é bruscamente
interrompida por uma tempestade que deixa o prédio sem luz e suspende as vidas
das personagens – como uma bolha no tempo que permite pensar, rever o passado,
perdoar, reagir, ser também mais vizinho. Entre o fim de um ano e o começo de
outro, tudo pode realmente acontecer – e, pelo meio, nasce Cristo e salva-se um
homem.

Embora numa cidade de província, e à beira-mar, este prédio
fica mesmo ao virar da esquina, talvez o habitemos e não o saibamos.

Com imagens de extraordinário fulgor a que o autor nos
habituou com o seu primeiro romance, Debaixo de Algum Céu retrata de forma
límpida e comovente o purgatório que é a vida dos homens e a busca que cada um
empreende pela redenção.”

Contracapa de “Debaixo de Algum Céu

Opinião

Esta opinião não é de agora, pois o agora das últimas
páginas foi já há sete meses – que, em boa verdade, foram só dois mas a
cadência do tempo é diferente para cada um . Dois meses, acertemos, mas
aceitemos que para mim se passaram sete. 
E meio, só para aconchegar a perfeição.

E esta opinião – antes da sua concretização – vem com uma
consideração prévia a ela mesma: li este livro por dois simples – e fúteis,
talvez – motivos. Analisemos então:

1) Há algo poético nas palavras “Debaixo de Algum Céu”;

2) Nuno Camarneiro é Engenheiro Físico (talvez o
entendimento deste ponto não seja substancialmente óbvio, mas refresca o ser de
um estudante de enganharia a prova física de que não é limitado à arte da sua
ciência, ou engenho, se preferirem.).

 (#1 – Impõe-se a
questão: quão ocos serão os motivos que nos guiam?)

(#2 – Acho que matei a poesia da coisa com esta enumeração.)

Ocos poderão ter sido os meus motivos, mas não o que ele
encerra. Um prédio à beira-mar. Plantado talvez fosse o seguimento lógico, mas
não. Apenas um prédio à beira-mar.

E esse prédio podia ser o nosso. Famílias que poderiam ser
as nossas, com personagens que poderíamos ser nós.  Eu, tu, com as particularidades de nós mesmos
e apenas a nós associados, ao mundo que nos envolve, ao som do velho motor do
elevador, do tipo estranho dois pisos abaixo, o gotejar do telhado no vidro, um
nós apreciado numa realidade escrita diferente.

(#3 – Este hábito de deixar as palavras – ou serei eu? –
divagar pela metafísica da treta…)

Diárias vivências são retratadas e oito são os habitantes. O
período é curto e encerra o mar, e o prédio, e o nós daquelas palavras. E,
nesse nós, um homem encontra Deus e outro nele se perde. Uma menina tornada
mulher e uma criança constrói no trágico que descobre, ‘Beatriz’. O stress de
recém maternidade e abandonos numa vida virtual tornada real. Crises de
meia-idade, uma visão romântica da vida que só um velho vivido pode ter. Um
romance de anos que se descobre. Uma perda. Uma vida solitária há anos vivida.
E a vida como um jogo de pontuações acumuladas.

Isto é o que encontramos debaixo do nosso céu, numa cadência
de tempo incerta, talvez não possível (impossível não era o termo certo),
talvez desadequada do tempo físico que encerra. 
Seja como for, neste ou noutro tempo, é um céu curioso.

E o que é curioso, seduz. E o que seduz, merece ser lido.

joanapontoneto

Algumas citações

“Uma história são pessoas num lugar por algum tempo. As
margens da página, como o silêncio, estabelecem limites certos para que um
conto não se confunda com o que não lhe pertence. Pode contar-se uma história
enchendo-se uma caixa vazia ou desenhando-se paredes à volta de gente.”

“No prédio, pessoas em cima umas das outras, divididas por
tijolos e cimento, apartadas em apartamentos, para que não caiam e se baralhem
as vidas de cima com as debaixo. Pessoas arrumadas como histórias em estantes;
só que não é assim, quase nunca é assim.”

“A história é também muito que não vai contado, porque é
fácil contar o que acontece, mas faltam palavras para o resto.”

“A paróquia é pequena mas devota, como são quase todas as
terras onde os homens morrem só de ganhar a vida.”

“Às vezes o padre falava de pecados e ficávamos todos cheios
de tesão com a ideia disso.”

“A ideia de pecado mata mais do que todas as bombas, o dever
e a culpa são morte antes da morte.”

“Mas as ideias, como um cão, às vezes correm por onde querem
e levam-nos atrás porque também nós lhes pertencemos.”

“Assegurar-se de que o mundo novo não funcione pela mesma
razão que o velho não funcionou, porque há homens que não cabem onde os querem
meter.”

“Nenhum mundo pode ser perfeito se não tiver lugar para
homens imperfeitos. No limite, talvez o único sistema possível seja o que parta
de uma humanidade toda imperfeita em todas as coisas, a excentricidade como
premissa.”

“Somos todos uns sentimentais e por isso demoramos no que
nos dói. Temos o choro fácil que dá ou não dá em lágrimas, guardamos as dores
cheias de pormenor enquanto as felicidades ficam por ali, confusas, com algumas
caras, alguns sons, incertas e vagas. Lembramos os sapatos de calçávamos quando
alguém morreu, a hora da notícia, o programa que passava nesse instante e até
as vergonha que pensámos. Folheemos as páginas do riso e pouco encontraremos,
algumas frases, momentos caricatos, elementos de uma paisagem. Pouco e mal
contado, estávamos distraídos, demasiado ocupados na felicidade para lhe
fazermos o retrato.”

“…, temos arcas cheias de mágoas que não esquecemos e que
abrimos a todo o momento para ver se ainda nos doem, e doem sempre.”

“Alguns segundos de uma irmã, um nome terno que há muito
tempo só chama saudades.”

“Para Moço, as religiões seriam perfeitas se pudessem
dispensar os deuses, se os homens se despissem na rua sem precisarem de olhar
para cima, rindo orgulhosos por seres donos da loucura e de palavras raras.”

“Faltam ainda muitos outros na ideia de Moço, mas não tem
pressa, as memórias fazem-se de tempo.”

“Tenho uma fome grande e antiga de qualquer coisa que não se
pode comer nem tocar. Uma ânsia imensa e permanente que me vigia o sono e me
custa entender.”

“A sede é uma pressa que não admite passado, por isso
esperamos água do céu. Um homem sedento não sabe onde tem os pés.”

“Um eco que é o som depois do som, quando já tudo se calou
mas as almas ainda cantam. As almas são de difíceis silêncios.”

“O tempo é uma merda porque corre sem mim mas eu estou
sempre nele, e isso é uma merda.”

“Viver mais vezes connosco, só comigo, sem ter quem me
esperasse, quem me empurasse, sem as vontades estrangeiras do tempo de outra
gente.”

“Demasiado inteligentes para fazerem apenas o que lhes
mandam, suficientemente cínicos para não proporem alternativas.”

“São precisos homens que tragam poemas nos bolsos e músicas
nos lábios, que interrompam a luta para beber chá e cortejar as senhoras, que
fujam das certezas como um louco da realidade. Só homens incertos podem manter
um mundo que se esquiva de qualquer sentido, não é na lógica que superamos os
animais, mas tão-só nas diferentes modalidade de loucura.”

“- Os homens são crianças também, menina, passam a vida à
procura sem saber o que lhes falta. Correm as mulheres olhando para elas e
mexendo-lhes no corpo, depois fartam-se e viram-se para outra. São poucos os
que adivinham que o que lhes falta está metido dentro do que não sabem ver.
Soubessem eles quantas mulheres dormem dentro de cada uma, menina, mas não
sabem.”

“O quinto e último desenho, que Frederico termina agora, são
os barulhos que ouve quando está sozinho. Chorar é preto, pés a andar é azul, a
música de outras pessoas é verde, pancadas na parede é vermelho, gemidos e a
palavra «Beatriz» são amarelo e cor-de-laranja.”

“…, mas não se esqueça de que a política é efémera,
enquanto a lealdade, ou falta dela, nunca se esquecem.”

“Eis a liberdade que tanta falta te faz, tão importante
quando a imaginas e tão triste quando finalmente a consegues.”

“As palavras que não se dizem estão cheias do que não se
mostra.”

“Só o presente é lugar, e fica aqui, no ponto exacto em que
as memórias se sublimam em desejos.”

“Os cães da praia medem os homens pelas sombras que deitam,
e notam que a sombra de um homem só em parte se deve ao seu tamanho.”

“Também eles causam comoção, o velho ateu e a viúva do
protestante, duas heresias de braço dado.”

“Há depois quem viva para os outros, e são os que morrem
melhor, porque a vida que têm não é já sua mas foi espalhada por quem dela se
valeu.”

“Adriano tem inveja daquele homem, porque soube morrer ainda
com vida, antes que tudo se estragasse.”

Comprar: http://www.wook.pt/ficha/debaixo-de-algum-ceu/a/id/14828350/?a_aid=4ff9b52ae36d3

]]>
https://branmorrighan.com/2013/11/opiniao-debaixo-de-algum-ceu-de-nuno.html/feed 1