Objectiva – Bran Morrighan https://branmorrighan.com Literatura, Leitura, Música e Quotidiano Sat, 11 Sep 2021 21:59:38 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.3 https://branmorrighan.com/wp-content/uploads/2020/12/cropped-Preto-32x32.png Objectiva – Bran Morrighan https://branmorrighan.com 32 32 Em Junho, pela Objectiva: Feminismo para os 99% – Um manifesto, de Nancy Fraser, Tithi Bhattacharya Cinzia Arruzza https://branmorrighan.com/2019/06/em-junho-pela-objectiva-feminismo-para.html https://branmorrighan.com/2019/06/em-junho-pela-objectiva-feminismo-para.html#respond Wed, 26 Jun 2019 16:29:00 +0000

Feminismo para os 99% – um manifesto

De Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser

Objectiva

ISBN: 978-989-665-824-3

134 pp.

PVP: 11,90 €

Nomeado um dos «Livros mais aguardados de 2019» pela revista Vogue

LIVRO

Habitação a preços incomportáveis, salários no limiar da sobrevivência, saúde privatizada, educação pública negligenciada, horários laborais exigentes, alterações climáticas com consequências catastróficas. A crise que vivemos hoje é transversal a toda a sociedade e os seus efeitos – políticos, sociais e ambientais – têm um impacto brutal e imediato na vida de 99% da população, com particular gravidade para as mulheres.

No entanto, a actual agenda feminista, em vez de difundir medidas verdadeiramente emancipadoras para todas as mulheres, tem preferido concentrar-se na obtenção de maior representatividade das mulheres nos quadros das grandes empresas, reclamando ainda mais poder e vantagem para uma minoria elitista e acomodada. Para resolver uma crise global, não podemos deter-nos nos problemas de apenas 1% da população.

É, por isso, urgente um novo feminismo. Este manifesto tem por objectivo resgatar o verdadeiro propósito das lutas feministas e orientá-las para uma reorganização total da sociedade que beneficie, de facto, a maioria da população.

Porque as mulheres estão na linha da frente dos efeitos devastadores das alterações climáticas, da austeridade, da gentrificação, da exploração laboral, da exaustão de recursos, da financeirização e da privatização das infraestruturas sociais, este é um manifesto em defesa das vidas dos 99%: um manifesto feminista.

Por uma sociedade que coloque as pessoas no topo da sua lista de prioridades, Feminismo para os 99% – um manifesto é uma leitura obrigatória na luta por um mundo melhor e mais justo.

AUTORAS

Cinzia Arruzza foi uma das principais organizadoras da Marcha Internacional das Mulheres nos Estados Unidos. Além de professora de Filosofia na New School for Social Research, é ainda membro do colectivo editorial Viewpoint Magazine.

Tithi Bhattacharya é professora e directora do departamento de Estudos Globais na Universidade de Purdue. Foi, com Cinzia Arruzza, uma das principais organizadoras da Marcha Internacional das Mulheres nos Estados Unidos e faz parte do comité editorial do periódico International Socialist Review.

Nancy Fraser é professor de Filosofia e de Política na New School for Social Research. Umas das maiores apoiantes da Marcha internacional das Mulheres, é dela a expressão «feminismo para os 99%».

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Prémio Nobel da Paz atribuído a Nadia Murad, autora do livro Eu serei a última https://branmorrighan.com/2018/10/premio-nobel-da-paz-atribuido-nadia.html https://branmorrighan.com/2018/10/premio-nobel-da-paz-atribuido-nadia.html#respond Sun, 07 Oct 2018 17:22:00 +0000

O Prémio Nobel da Paz 2018 foi atribuído à activista de direitos humanos Nadia Murad e ao médico congolês Denis Mukwege. Nadia Murad  foi vítima da jihad sexual do Estado Islâmico. Escapou e contra-atacou: converteu-se em defensora dos Direitos Humanos – a primeira pessoa a ser nomeada Embaixadora da Boa Vontade para a Dignidade dos Sobreviventes de Tráfico de Seres Humanos das Nações Unidas e está actualmente a trabalhar para levar o Estado Islâmico ao Tribunal Penal Internacional, por genocídio e crimes contra a Humanidade. É  ainda fundadora do Nadia’s Initiative, um programa dedicado a ajudar os sobreviventes do genocídio e do tráfico humano a curar e a reconstruir as suas comunidades.

A 15 de Agosto de 2014, a vida de Nadia Murad mudou para sempre. As tropas do Estado Islâmico invadiram a sua pequena aldeia, no Norte do Iraque, onde a minoria yazidi levava uma vida tranquila, e perpetraram um massacre. Executaram homens e mulheres, entre eles a mãe e seis dos irmãos de Nadia, e amontoaram os corpos em valas comuns. Nadia, então com 21 anos, foi sequestrada, tal como milhares de jovens e meninas, e vendida como escrava sexual. Os soldados torturaram-na e violaram-na repetidamente, meses a fio, até que, certa noite, como por milagre, conseguiu fugir pelas ruas de Mossul. Quando conseguiu fugir, com a ajuda de uma família muçulmana, descobriu que lhe tinham assassinado os pais, familiares e amigos. Decidiu contar a sua história, denunciando o genocídio planeado e perpetrado pelo EI sobre os yazidis.

Para que ninguém esqueça a sua história e porque quer ser a última a vivê-la, Nadia escreveu Eu Serei a Última (publicado pela Objectiva/ Penguin Random House, 2017).

«Uma narrativa crua e aterradora do genocídio religioso e da vida em cativeiro às mãos do Estado Islâmico feita por uma jovem sobrevivente yazidi. Com pormenores vívidos e emoção tão autêntica quanto dolorosa, a autora relata não só a sua inimaginável tragédia como a de todo um povo, o seu, que o resto do mundo ignora. Uma autobiografia simultaneamente devastadora e inspiradora, que tem um efeito determinante no leitor: o de um apelo urgente à acção.»

Kirkus Reviews

«Nadia Murad faz parte dessa longa e invisível história de mulheres fortes e indomáveis a quem nem sequer a violação, como táctica de guerra, conseguiu vergar, que se mantêm firmes e que estão dispostas a quebrar o odioso silêncio que lhes é imposto e a exigir justiça e liberdade para os seus semelhantes.»

Times («As 100 pessoas mais influentes de 2016»)

«Nadia é mais que uma sobrevivente […] é uma mulher valente, determinada, obstinada e apaixonada, que decidiu contar os piores horrores por que passou, para que outros não tenham de passar pelo mesmo.»

Samantha Power, embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas

«Nadia é um ser humano extraordinário, com um coração e uma alma maravilhosos. Nunca fala de si, fala dos outros. É a sua forma de viver com essa dor.»

Murad Ismael, director executivo da Yazda

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Em Agosto, pela Objectiva: Viver Sem Plástico, de Will McCallum | Um livro para mudar o mundo e acabar com a dependência do plástico https://branmorrighan.com/2018/08/em-agosto-pela-objectiva-viver-sem.html https://branmorrighan.com/2018/08/em-agosto-pela-objectiva-viver-sem.html#respond Tue, 21 Aug 2018 09:04:00 +0000

VIVER SEM PLÁSTICO

Will McCallum

Objectiva

ISBN: 978-989-665-674-4

228 Páginas

PVP c/ IVA: 14,90€

Um guia para mudar o mundo e acabar com a dependência do plástico

#breakfreefromplastic

Este é um apelo à luta: para unirmos forças, em todo o mundo, e acabarmos com a dependência do plástico.

LIVRO

Todos os anos, cerca de 13 toneladas de plástico são largados nos oceanos, matando mais de 1 milhão de aves e 100.000 mamíferos marinhos. Estima-se que em 2050, o peso do plástico que invade os oceanos será superior ao peso do peixe que neles habita. A poluição pelo plástico é o flagelo ambiental da nossa era. Como podemos fazer a diferença? Neste guia claro e esclarecedor, Will McCallum, destacado activista antiplástico, vai ajudá-lo a levar a cabo pequenas mudanças que farão uma enorme diferença.

Eis alguns conselhos práticos:

– Lavar a roupa em sacos próprios para conter as microfibras de plástico, impedindo-as de chegarem aos oceanos (estas são responsáveis em 30% pela poluição por plástico)

– Substituir o champô vulgar por champô em barra

– Evitar as embalagens supermercado

– Fazer festas de aniversário livres de plástico

– Convencer os outros a juntarem-se a si nesta demanda anti-plástico

Viver sem Plástico proporciona-lhe as informações necessárias e as pistas que lhe permitem tomar opções informadas sobre a forma de acabar com o plástico no seu dia-a-dia: em casa, nas suas deslocações diárias, no seu local de trabalho e na sua comunidade. Faculta igualmente factos sobre o problema e as ferramentas de campanha necessárias para o ajudar a convencer outras pessoas, inclusive os amigos, a família, colegas, empresas, para poderem conjugar esforços com vista à criação de um mundo onde a poluição causada pelo plástico seja uma coisa do passado.

AUTOR

Will McCallum tem estado no coração do movimento anti-plásticos nos últimos três anos, enquanto Head of Oceans no Greenpeace do Reino Unido. Reúne regularmente com o governo e empresas para os sensibilizar e lhes pedir ajuda para enfrentar a crise do plástico. Lidera a campanha global do Greenpeace para criar a maior área protegida do mundo no Oceano Antártico. Recentemente passou um mês num barco na Antártida com sua equipa, a investigar se o plástico está a atingir a região mais remota do planeta. É corredor de longa distância e navegador de caiaque, com o qual tem explorado a costa do Reino Unido. Deve o seu amor pela natureza e pela vida ao ar livre aos seus avós e aos documentários de David Attenborough.

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[9 Anos Blog BranMorrighan] Vencedor do Passatempo Objectiva: O Meu Irmão Che, de Juan Martin Guevara (Armelle Vincente) https://branmorrighan.com/2018/01/9-anos-blog-branmorrighan-vencedor-do_5.html https://branmorrighan.com/2018/01/9-anos-blog-branmorrighan-vencedor-do_5.html#respond Sun, 28 Jan 2018 12:39:00 +0000

Viva! Cá estamos para anunciar mais um vencedor, desta vez para O Meu Irmão Che, de Juan Martin Guevara (Armelle Vincente). Este passatempo contou com 632 participações e o vencedor escolhido através do random.org foi:

Carina Isabel Barros, 140

Parabéns Carina! Tens um mail na tua caixa de correio para responderes com os teus dados para que o livro te possa ser entregue. Obrigada a todos mais uma vez e em breve mais passatempos.

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[9 Anos Blog BranMorrighan] Passatempo Objectiva: O Meu Irmão Che, de Juan Martin Guevara (Armelle Vincente) https://branmorrighan.com/2018/01/9-anos-blog-branmorrighan-passatempo_1.html https://branmorrighan.com/2018/01/9-anos-blog-branmorrighan-passatempo_1.html#respond Mon, 01 Jan 2018 11:48:00 +0000

Viva!

Passatempo comemorativo 9 Anos com a parceria da Objectiva! Em sorteio está O Meu Irmão Che, de Juan Martin Guevara (Armelle Vincente)! Para se habilitarem a ganhá-lo basta preencherem correctamente o formulário com as seguintes regras:

– O Passatempo termina às 23h59 do dia 22 de Janeiro

– Só será aceite uma participação por dia

– Só serão aceites participações de Portugal

– Partilhar o link deste post numa rede social não é obrigatório, mas agradece-se a divulgação

Boa Sorte!


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Opinião: Yoga Slow Living, de Jean-Pierre de Oliveira https://branmorrighan.com/2017/11/opiniao-yoga-slow-living-de-jean-pierre.html https://branmorrighan.com/2017/11/opiniao-yoga-slow-living-de-jean-pierre.html#respond Mon, 27 Nov 2017 11:30:00 +0000

YOGA SLOW LIVING

 Jean-Pierre Oliveira

Editora: Arena

Sinopse: Vivemos numa sociedade exigente. Exige-nos pressa, tempo, atenção. As exigências das nossas vidas socioprofissionais cada vez mais aceleradas sobrepõem-se a nós. E entre tudo o que é preciso ser feito, não temos tempo para nos dedicarmos ao desenvolvimento da nossa consciência e vivemos, inevitavelmente, em permanente desilusão – com a imagem do nosso corpo, com as nossas capacidades físicas e com as nossas capacidades intelectuais. É por isso que precisamos do Yoga. Uma das mensagens centrais da sua filosofia está relacionada com o reconhecimento do sofrimento em que vivemos e a tomada de consciência da caminhada individual que devemos fazer para que nos libertemos dos tormentos que são criados pela mente e perpetuados pela sociedade. Para escapar, precisamos de ser conscientes não só dos nossos pensamentos, mas sobretudo da sua natureza. Tomar consciência é mais do que uma acção, é um estilo de vida. Para mim, é, em suma, Yoga.

OPINIÃO: Yoga Slow Living é um pequeno livro de auto-ajuda, pelo menos na minha opinião. O próprio autor começa o livro a dizer “Não vou falar de Yoga. Se me convidarem para falar de Yoga, é provável que eu não fale de posturas ou sequências complexas e que queira falar de outras coisas. Quando me proponho a falar de Yoga, quero falar sobre mudança interior. Quero falar de transformação pessoal, quero falar de auto-responsabilização.” Se estão à procura de um livro de consulta para aprender um pouco de Yoga, este não é, de todo, o livro ideal, mas se procuram um livro com uma perspectiva transformadora da mente, talvez encontrem aqui uma perspectiva que vos agrade.

Ao longo do livro o autor guia-nos por uma série de etapas que, para Jean-Pierre Oliveira, dependem de atitudes-chave de cada um. A responsabilidade da mudança é de cada um, viver consciente e no agora só depende de cada indivíduo. São várias as sugestões que encontramos, muitas delas, as que têm um maior sentido prático, já apliquei. As propostas para a auto-disciplina, no comportamento e nas emoções, têm como objectivo atingir a paz interior e o bem-estar emocional e físico. O Yoga é aqui o fio condutor espiritual, mental e físico, da mudança.

“O Yogi não é aquele que procura um resultado específico, é aquele que procura viver sem a influência do mesmo, rumo à paz interior. É assim que a vida e transforma.”

Através de afirmações/meditações diárias e de exercícios, o autor propõe um plano semanal que complementa mantras, pensamentos e posições Yoga, para que o leitor se possa ir alinhando, corpo e mente, num crescimento pessoal equilibrado e saudável. Também são introduzidos vários termos associados ao Yoga, fazendo de Yoga Slow Living um livro bastante interessante para se conhecer uma perspectiva sobre o Yoga. Como disse num post anterior, há vários tipos de Yoga e há várias práticas complementares. Aqui fica uma dessas referências. 

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Opinião: A Resistência, de Julián Fuks https://branmorrighan.com/2016/11/opiniao-resistencia-de-julian-fuks.html https://branmorrighan.com/2016/11/opiniao-resistencia-de-julian-fuks.html#respond Mon, 28 Nov 2016 19:02:00 +0000

A Resistência

Julián Fuks

Editora: Companhia das Letras

Sinopse: “Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado.”, escreve, logo na primeira linha, Sebastián, narrador deste romance. Como em diversas obras que tematizam a Guerra Suja — o regime de terror inaugurado em 1976 na Argentina —, A resistência envereda pela memória pessoal e nacional.

Sebastién é o filho mais novo, e seu irmão adotado, o primogênito de um casal de psicanalistas argentinos que logo buscarão exílio no Brasil. Os pais conhecem bem as teorias sobre filhos adotados e biológicos (Winnicott, em especial), mas a vida é diferente da bibliografia especializada. Cabe então ao narrador o exame desse passado violento e a reescritura do enredo familiar. O resultado, uma prosa a um só tempo lírica e ensaística, lembra belos filmes platinos como O segredo dos seus olhos.

OPINIÃO: Por algum tempo andei a resistir a esta leitura. Olhava para o livro, ele olhava para mim, mas havia um entendimento qualquer que teimava em não se alinhar. Eu não compreendia muito bem porquê, já que o interesse em lê-lo foi meu. Fui eu que provoquei o nosso encontro para depois nunca chegar realmente a comparecer, até Quinta-feira passada. Terminei-o ontem, mas tivesse havido tempo e tinha-o lido de uma só assentada. A Resistência, de Julián Fuks, é uma obra singular, desprovida de qualquer pretensão, e, talvez por isso mesmo, gigante por si mesma. Consegue, em tão poucas páginas, conter universos emocionais tão diversos, tão sentidos, tão em busca de um qualquer significado, que é impossível ficarmos-lhe indiferente.

Acho que esta leitura vai ser sempre uma experiência muito pessoal. Escrever sobre ela não é fácil, afinal, tal como está escrito a certa altura “cada linha tem um sentido duplo” e essa duplicidade vai ser inerente à experiência e sensibilidade de cada leitor. Cruzei-me com alguns textos sobre o livro e reparei que a impressão com que as várias testemunhas ficaram focavam-se em coisas diferentes, reforçando a opinião que já tinha ao final do livro. Esta história é uma espécie de auto-ficção, em que o escritor cruza acontecimentos reais da sua vida com ficção. O mote é a adopção do irmão do protagonista, mas à medida que avançamos na narrativa, são-nos apresentadas várias preocupações que não só essa.

A forma próxima com que o autor fala com o leitor, fez com que me sentisse a caminhar com ele pelos vários cenários, em bicos dos pés, oscilando na dúvida se devia de facto estar a assistir a episódios tão íntimos, a reflexões tão pessoais. Existe uma partilha tão intensa da dor, do esquecimento, da consciência atormentada pela dúvida, da procura de justificações para as suas acções e para as dos membros da sua família, que quando misturada com os factos históricos da altura, descritos pelo narrador, tudo se torna uma imensa tela cinematográfica que exala uma enorme energia de contenção e exploração pelo desconhecido.

Sei que escrevo meu fracasso. Não sei bem o que escrevo. Vacilo entre um apego incompreensível à realidade – ou aos esparsos despojos de mundo que costumamos chamar de realidade – e uma inexorável disposição fabular, um truque alternativo, a vontade de forjar sentidos que a vida se recusa a dar. Nem com esse duplo artifício alcanço o que pensava desejar. Queria falar do meu irmão, do irmão que emergisse das palavras mesmo que não fosse o irmão real, e, no entanto, resisto a essa proposta a cada página, fujo enquanto posso para a história dos meus pais. Queria tratar do presente, desta perda sensível de contacto, desta distância que surgiu entre nós [irmãos], e em vez disso me alongo nos meandros do passado, de um passado possível onde me distancio e me perco cada vez mais. 

Sei que escrevo meu fracasso. Queria escrever um livro que falasse de adoção, um livro com uma questão central, uma questão permente, ignorada por muitos, negligenciada até em autores capitais, mas o que caberia dizer afinal? Que incerta verdade sobre essas vidas que não conheço, marcadas por um ínfimo abandono inaugural, talvez nem mesmo abandono, talvez mera contingência pessoal, fortuita como outras, arbitrária como outras, semelhantes a que mais?

(…)Com este livro não serei capaz de tirá-lo [ao irmão] do quarto – e como poderia, se para escrevê-lo eu mesmo me encerrei? Agora não sei mais por onde ir. Agora paraliso diante das letras e não sei quais escolher. Agora sim, por um instante, posso sentir: queria que meu irmão estivesse aqui, a pousar sua mão sobre minha nuca, a apertar o meu pescoço com os seus dedos alternados, tão suaves, tão sutis, a indicar a direcção que devo seguir. 

Reconheci-me muito na temperança, na hesitação, e ao mesmo tempo no avanço determinado que Sebastian manteve na convicção de que este livro tinha que ser escrito. Julián Fuks é alguém que merece ser lido, que transporta consigo uma riqueza sublime no que à comunicação com o leitor diz respeito. A humanidade de A Resistência reforça um vínculo necessário e urgente nos romances actuais. Acho que cada vez mais o leitor procura um reconhecimento pessoal, íntimo, nas páginas que lê, ainda mais do que um final feliz ou uma qualquer fantasia dada como improvável na vida real. E é fácil harmonizarmo-nos com Fuks. Recomendo.

PS: A Resistência ganhou o prémio de Livro de Ficção do Ano. no Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira. 

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Opinião: Nem todas as baleias voam, de Afonso Cruz https://branmorrighan.com/2016/11/opiniao-nem-todas-as-baleias-voam-de.html https://branmorrighan.com/2016/11/opiniao-nem-todas-as-baleias-voam-de.html#respond Fri, 18 Nov 2016 09:12:00 +0000
Nem Todas as Baleias Voam

Nem todas as baleias voam
Afonso Cruz

Editora: Companhia das Letras

OPINIÃO: Não sei se existe algum outro autor que me cause uma urgência tão grande de leitura como Afonso Cruz. Não, não lhe chamaria obsessão, mas antes uma necessidade visceral. Há qualquer coisa na escrita de Afonso Cruz que, mesmo variando a temática e o formato (afinal escreve desde livros infantis a enciclopédias, passando pelos romances, em que por vezes não se sabe bem se são para adultos ou crianças, mas que na verdade apenas significa que são para todos), me tocam profundamente. Nem todas as baleias voam, o seu mais recente romance, não é excepção a este toque de midas literário. Aliás, dada a minha recente ligação mais intrínseca à música, raras não foram as vezes em que senti de sobremaneira algumas passagens. 

Esta é uma obra que volta a cruzar uma série de géneros: o romance romântico, o toque de thriller com laivos de espionagem, inevitavelmente o romance histórico e, claro, a poesia. Não é fácil falar sobre um livro de Afonso Cruz porque, após terminada a leitura, parece não haver palavras capazes de fazer jus ao que realmente se sentiu durante a leitura. Para não falar na genialidade com que o cruzamento de histórias e o entrelaçar de personagens é feito. Não só dentro do próprio Nem todas as baleias voam, mas também com outras obras suas. Há nomes que poderão ser mais familiares que outros, mas a sensação que dá, a cada nova história, é que toda a obra de Afonso Cruz não passa de uma grande família da qual ainda conhecemos pouquíssimo, mas que sem sombra de dúvidas queremos conhecer por completo. 

Gostei da forma como Nem todas as baleias voam me fez voltar a ouvir alguns clássicos do jazz, a forma como me fez sorrir, como me levou as lágrimas aos olhos, como me fez antecipar, em plenos sofrimento por um desfecho trágico, como depois senti algum alívio, como pelo meio fiquei completamente assombrada pela teia que se encontrava escondida até então… Podia ficar aqui por muito mais linhas, mas acima de tudo acho que é um livro que deve ser lido. Que deve sair das prateleiras das livrarias e habitar as mesinhas de cabeceira para depois ganhar uma nova vida na nossa imaginação, para que depois sintam o contributo sensível e brutal com que este livro nos presenteia. 

Queria contar-vos sobre a caixinha de sapatos para os doentes terminais. Do quanto nos questionamos o que é que realmente colocaríamos lá. Gostava de vos falar sobre o amor de Erik Gould, inabalável, infinito, tão vivo que toda a sua obra cresce tanto com a intensidade do mesmo como com o sofrimento atroz da ausência. Adorava que conhecessem Dresner e a razão do seu coxear. Oxalá pudéssemos todos ver as emoções tomarem forma e sermos capazes de enfrentar e acarinhar a nossa morte como Tristan. E preparem-se, o Escritor não vai ser nada daquilo que ao início podiam pensar. No fundo, quem me dera que realmente a música resultasse como solução de guerras que só o homem cego teima em perpetuar. Não quero falar-vos mais sobre a vida deste romance, quero que o leiam, quero se transportem para lá, quero que o sintam. Afonso Cruz é, para mim, o mais completo dos escritores portugueses da actualidade. 

Genuinamente, acreditavam poder, com este programa, vencer a Guerra Fria, ao evangelizarem uma juventude de Leste que ouvia música erudita mas tinha pouco contacto com outros géneros musicais, especialmente o jazz.

Este facto parece-me uma das ideias mais fantásticas da Humanidade: pretender conquistar o mundo através da música, em vez de, por exemplo, fazer explodir Hiroxima ou invadir o Iraque. A música tem um enorme poder transformador, quase imediato. É uma das poucas artes, senão a única, capaz de nos fazer mexer o corpo, de nos pôr a dançar, de provocar a catarse ou o êxtase. (…) O programa americano pode ter falhado – o Muro só viria a cair muitos anos depois -, mas a esperança que esteve na sua base, ainda que utópica, não deixa de ser maravilhosa: a possibilidade de uma guerra poder terminar num baile em vez da explosão de bomba de hidrogénio.

Sobrevivi a quatro mil toneladas de bombas atiradas contra Dresden, sobrevivi ao Holocausto, sobrevivi ao capital e aos programas de televisão. Sobrevivi. Ou seja, tenho vindo à tona, como uma baleia. Mas a maldade, de alguma maneira aberrante e perversa, é uma espécie de estrume. E a vida, por mais incompreensível que seja na sua génese e no seu cumprimento, nasce disso, da terra, do barro, da lama, da merda, se me permite a expressão, faz-nos medrar, e eu, envergonhado, contido, penso que é a maldade a terra mais fértil para a bondade e que o contacto com o fel faz nascer a coisa mais doce. Acho que todos mudamos em contacto com o mal. É o motor. Sei que é horrível, mas o que fazer? Todos os dias rezo para que o mal não deixe de aparecer na minha vida, ao mesmo tempo que o abomino. Adonai, afastai de mim todo o mal, Adonai, aproximai de mim todo o mal. Quando deixar de o fazer, de sentir a corrupção, quando não detectar o mal à minha volta, mais vale estar morto.

Se Tristan soubesse verbalizar as suas emoções, seria assim: Estou à espera de que a felicidade comece a crescer como os bebés no útero das mãos e que um dia nasça e chore e queira mamar e nós eduquemos a felicidade e a levemos à escola para que saiba ler as letras das nossas veias e fazer contas de multiplicar com a nossa saliva, estou à espera de um beijo daqueles que são dirigidos somente a uma pessoa, e não daqueles que se dão a pensar em alguém que está longe, estou à espera que o dia chegue ao fim e que não comece outro, porque os dias são uma chatice. Mas Tristan não saberia verbalizar as suas emoções, portanto: 

– Ia comer primeiro.

(…) eram isso os fantasmas, restos das pessoas que amámos, e a nossa casa ficava assim, repleta de assombrações modernas e antigas, densas e subtis. Tínhamos um protocolo com a memória, tínhamos assinado, juntamente com a dádiva da vida, o compromisso de carregar os mortos no nosso corpo, nos móveis da casa, nas paredes e na luz esmaecida dos candeeiros de estanho e de cobre, e cumpríamos esse contrato com um rigor e uma ética absolutamente notáveis, a ponto de, tantas vezes, chorarmos sem qualquer razão aparente.

PS: Este texto só foi possível escrever não por causa do jazz, mas por causa do novo disco do André Barros – In Between.

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Opinião: Flores, de Afonso Cruz https://branmorrighan.com/2016/01/opiniao-flores-de-afonso-cruz.html https://branmorrighan.com/2016/01/opiniao-flores-de-afonso-cruz.html#respond Thu, 14 Jan 2016 21:33:00 +0000
Flores

Flores
Afonso Cruz

Editora: Companhia das Letras

Opinião: Desde que foi publicado, não há tanto tempo assim, que já li este livro duas vezes. Estou capaz de ler uma terceira, mas não ainda, não para já. Não sei bem descrever esta capacidade que Afonso Cruz tem de nos fazer primeiro estranhar e depois entranhar. Houve obras em que a empatia e foco foram automáticos, mas com Flores o processo foi diferente. Após a primeira leitura, senti que tinha gostado, mas que nem sempre tinha compreendo.

Existe um grau de subtileza considerável em alguns diálogos, em algumas reflexões dos personagens, que se não estivermos atentos chegamos ao fim com a sensação que ficou a faltar algo ao livro. Foi assim que me sentir, mas depois pensei que talvez não o tivesse lido em boa altura. Vocês sabem que eu gosto que os livros chamem por mim e quando peguei em Flores, após ter chegado a casa, “obriguei-me” a ler por toda a admiração que tenho pelo Afonso. Não resultou bem. Há umas semanas atrás, arrumava eu uns livros, cruzei o olhar este e senti que estava na altura de o ler, bem lido. E a vida tem destas coisas, uma ironia imensa.

Flores é um livro que vai provocar diferentes sensações a diferentes pessoas com diferentes sensibilidades e diferentes passados/presentes. Existem romances para os quais eu considero que é necessária alguma bagagem para extrair da leitura uma maior identificação com a mesma. Também o estilo de narrativa do escritor apresenta-se diferente do habitual. Está mais fragmentada, a trama central, embora conduzida por um único personagem, bifurca-se entre o protagonista evitar olhar para si mesmo – criando em vez disso alter egos exibicionistas – e o ficar obcecado com a história de um próximo que nem conhece assim há tanto tempo, mas que contribui para que adie o constatar do quanto a sua vida descarrila.

É como se ao encontrar um passado esquecido se redimisse de algo que só mesmo enfrentando as suas fraquezas tal será possível. E depois temos todos aqueles pequenos pormenores e vicissitudes da vida que muitas vezes se desvalorizam ou sobrevalorizam e que a forma como lidamos com ela pode ditar o rumo da nossa vida. Um deslize aqui, uma indecisão ali, o deixar arrastar e assim deixar que a vida tome o seu rumo sem qualquer responsabilidade nele.

Gostei muito da ironia latente ao longo da narrativa. Apesar de serem assuntos sérios ou até retratarem opções moralmente questionáveis, o humor presente fez com que a leitura aligeirasse os ânimos. Fomos conhecendo vários novos personagens ao longo das páginas, todos eles com ideias tão diferentes de quem o Ulme era, mas também todos eles com a sua própria história e percepção do valor das suas vidas. É através destes personagens que Afonso Cruz consegue abranger uma série de segmentos da sociedade, principalmente a música, enviando uma mensagem tão óbvia e verdade, mas que ainda assim acho que passa tão despercebida.

No fundo, estas páginas têm uma grande dose de crítica, pessoal, social, relacional, acima de tudo cultural. E tudo em tão poucas páginas, com frases simples, descomplicadas, mas que reflectem tanto a essência amorosa como o cinismo que cada um consegue carregar consigo e transmitir aos outros.

Terminando num breve parágrafo, acho que este é mais um livro de Afonso Cruz que surpreende ao mostrar uma nova faceta, uma nova abordagem à trama. Certamente não é conciliador com os outros no estilo, mas é isto que é extraordinário no Afonso: todos os seus livros são únicos, por vezes diferentes em estrutura, ritmo e harmonia, mas a impressão digital está lá. Um leitor sabe quando lê Afonso Cruz e sabe também que dificilmente ficará indiferente. Recomendo Flores, claro que sim, e se não gostarem à primeira, experimentem dar-lhe uma segunda oportunidade. Há locais onde vale a pena retornar, tendo passado o devido tempo e adquirido a devida bagagem. 

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Em Setembro, pela Objectiva: Assim foi Auschwitz, de Primo Levi https://branmorrighan.com/2015/09/em-setembro-pela-objectiva-assim-foi.html https://branmorrighan.com/2015/09/em-setembro-pela-objectiva-assim-foi.html#respond Wed, 30 Sep 2015 15:03:00 +0000

Assim foi Auschwitz

Primo Levi, com Leonardo de Benedetti

ISBN 978 989 8775 69 6 

296 Páginas 

PVP c/IVA 16,60€

PRIMO LEVI, um dos mais importantes autores sobre o Holocausto, 

Um conjunto de textos inéditos, escritos imediatamente após o fim da Segunda Guerra Mundial

LIVRO

Em 1945, no rescaldo do fim da Guerra e da libertação dos campos de concentração pelas forças aliadas, o exército soviético pediu a Primo Levi e a Leonardo de Benedetti, seu companheiro de campo, que redigissem uma relação detalhada das condições de vida nos Lager. O resultado foi um dos primeiros relatórios alguma vez realizados sobre os campos de extermínio. Chocante pela objectividade e detalhe, tocante pela precoce e indignada lucidez, é um testemunho extraordinário daquela que viria a ser uma das vozes mais relevantes da antologia de memórias sobre o Holocausto. Assim foi Auschwitz recolhe esse relatório e vários outros textos de Primo Levi – inéditos até hoje – sobre a experiência colectiva do Holocausto, compondo um mosaico de memórias e reflexões críticas de inestimável valor histórico e humano, tão relevantes hoje, 70 anos volvidos sobre o fim da Segunda Guerra, como no tempo em que foram escritos.

AUTOR

Primo Levi nasceu em Turim, em 1919, e suicidou-se nessa cidade em 1987. Licenciado em Química, participou na Resistência, foi preso e internado no campo de concentração de Auschwitz. É com Calvino e Pavese, uma das principais figuras da geração italiana do pós-guerra. Notabilizou-se pela autoria de vários livros sobre a experiência naqueles campos – de que o livro Se isto é um homem é o exemplo mais célebre – assim como por contos e romances. Assim foi Auschwitz, escrito com Leonardo De Benedetti e curado por Fabio levi e Domenico Scarpa, recolhe um conjunto admirável de textos inéditos em Portugal sobre a experiência dos campos de extermínio. «Esta é a experiência da qual saí e que me marcou profundamente; o seu símbolo é a tatuagem que até hoje trago no braço: o meu nome de quando não tinha nome, o número 174517. Marcou-me, mas não me tirou o desejo de viver. Aumentou-o, porque conferiu uma finalidade à minha vida, a de dar testemunho, para que nada semelhante alguma vez volte a acontecer. É esta a finalidade que têm os meus livros.»

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