Opinião Blog Morrighan – Bran Morrighan https://branmorrighan.com Literatura, Leitura, Música e Quotidiano Mon, 28 Dec 2020 05:44:26 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 https://branmorrighan.com/wp-content/uploads/2020/12/cropped-Preto-32x32.png Opinião Blog Morrighan – Bran Morrighan https://branmorrighan.com 32 32 A Beleza das Cinco Tragédias de Tio Rex https://branmorrighan.com/2018/06/a-beleza-das-cinco-tragedias-de-tio-rex.html https://branmorrighan.com/2018/06/a-beleza-das-cinco-tragedias-de-tio-rex.html#respond Tue, 05 Jun 2018 19:47:00 +0000

Não é fácil voltar a um tempo em que o universo de Tio Rex não esteja presente. Desde que conheci o trabalho de Miguel Reis que houve pelo menos dois aspectos que ficaram retidos na minha memória: um primeiro sensorial, em que ouvir Tio Rex se transforma numa espécie de viagem entre a luz e a sombra que habita o nosso interior; e um outro emocional, em que nessa viagem visitamos alegrias e tristezas, monstros, tragédias, mas também amor e partilha.

Em Março, Tio Rex voltou às canções em inglês com mais um EP – “5 Tragedies”. O formato não nos é totalmente desconhecido já que em Outubro de 2014 lançou outro EP – “5 Monstros”. A beleza destes pequenos discos remete precisamente para a simplicidade com que o músico português aborda os escombros que muitas vezes nos habitam. 

Em “5 Tragedies” existe todo um imaginário que acaba por ter uma poderosa imagética. É como se em cada tema fossemos transportados para um pequeno conto do qual somos protagonistas. Cada um destes contos consiste numa narrativa que nos confronta com pequenas tragédias, desde sermos capazes de vender a nossa alma por troca do vazio, à imagem que possam ter de nós (incluindo nós mesmos), passando pelo risco dos vícios e pela morte dos deuses (da música), terminando com uma colaboração belíssima com João Mota (de Um Corpo Estranho) em que o contraste grave de Miguel Reis com o tom mais suave de João Mota, entrelaçando também a língua inglesa com a língua portuguesa, nos remete para um cais marítimo, de pernas pendentes, pensamentos soltos, tudo ao ritmo das palavras de ambos. 

Entre composições sonoras mais fortes e pujantes e outras mais singelas e ressonantes, o percurso por este EP acontece rápido de mais. Foi preciso ouvi-lo várias vezes, deixá-lo em loop no carro, regressar a ele em casa, deixar as suas letras, as suas melodias, ecoarem primeiro nos meus ouvidos, depois no meu peito e por fim minhas emoções para conseguir açambarcar as suas paisagens por inteiro. É lindo e vale mais do que a pena ser ouvido. 

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00​:​00​:​00​:​00, by noiserv https://branmorrighan.com/2016/11/00000000-by-noiserv.html https://branmorrighan.com/2016/11/00000000-by-noiserv.html#respond Thu, 17 Nov 2016 13:40:00 +0000

um, dois, TRÊS!, e assim começa o novo disco do noiserv. Mais de dez anos de música talvez não fizessem prever o conteúdo de 00:00:00:00, mas, honestamente, conhecendo o artista e a sua sensibilidade, a surpresa só chega pelo facto de o disco, apenas em piano, manter tanto da personalidade “noiserv” que os trabalhos anteriores nos transmitiram. Dizemos adeus a uma orquestra infinita para saudar uma quantidade de teclas que também nos parece não ter fim, mas que fala ao nosso âmago. É um disco que me parece muito pessoal, que vai tacteando, começando com uma espécie de alegria inocente e expectante, em TRÊS e SETE. Depois vem SEIS, que a mim me parece marcar uma transição para um estado de espírito mais cauteloso, iniciando em QUINZE uma espécie de reflexão – Eu não quero ver melhor/Só não quero ver pior – continuando em ONZE o mesmo espírito mais soturno. Existe algo de muito especial na música de noiserv que, não sendo triste nem depressiva, nos faz expiar uma espécie de dor. Seja em relação ao desconhecido, ao que não conseguimos controlar e desejávamos, não sei. Hoje de manhã coloquei os headphones, aproveitei o sol maravilhoso que se faz sentir aqui na minha terra, e fui caminhar para perto do rio com este 00:00:00:00 a tocar. E pus-me a pensar nisto mesmo, no quanto esta sobreposição de pianos, na oscilação alegre e melancólica das harmonias, nos atinge em diversos patamares emocionais. E é muito bonito quando a música tem esse poder, essa capacidade de amenizar, ao mesmo tempo que provoca, esse contacto com o que trazemos ao peito. Às vezes são sorrisos, outras vezes são dúvidas, mas a inquietação está sempre lá. E chega VINTE E TRÊS – Olhar para trás sem medo de morrer/Não perder o que quero lembrar / Deixar cair para onde vais / Coisas simples e reais – com o regresso da voz grave do David, para reforçar essa mesma ideia. Foi uma boa surpresa este disco ser cantado em português. Acho que todo o contexto o pedia e quem segue o trabalho de noiserv, conhecendo o tema Palco do Tempo, tinha a curiosidade de voltar a ver o artista português a cantar na sua língua materna. Em QUATORZE as águas agitam-se um pouco e terminamos com DEZOITO, que no fundo, para mim, resume musicalmente e liricamente todas as emoções que se sentem ao longo do disco.

00:00:00:00 é um disco que, a meu ver, ganha vida própria  no seu todo – estética visual, no artwork da capa, estética musical, na exploração emocional dos pianos, estética cinematográfica, no trabalho desenvolvido através dos vídeos lançados agora. Honestamente, mas é a minha maneira de sentir a música, talvez todo este texto fosse dispensável, afinal cada um sente as coisas à sua maneira e o que para mim pode ser transparente, para outro pode ser opaco e vice-versa. Resumindo, acho que está aqui um belo trabalho, acho que o homem-orquestra ainda agora começou a trilhar o seu caminho pelos pianos e só me resta esperar pela oportunidade de o ver ao vivo para testemunhar algumas destas canções a ganharem vida à sua volta. 

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SAHU, by nial https://branmorrighan.com/2016/11/sahu-by-nial.html https://branmorrighan.com/2016/11/sahu-by-nial.html#respond Tue, 15 Nov 2016 18:56:00 +0000 Artwork João Pedro Fonseca

De tempos a tempos surgem discos de origens algo inexplicáveis. Pelo menos para quem ouve, e para quem possa não fazer ideia de quem está por trás da teia de sons que nos invadem assim que colocamos a primeira música a tocar. SAHU é um disco que vem das profundezas do universo. Existe uma sensibilidade e uma brutalidade nas texturas que se cruzam em cada tema, que dali só pode surgir matéria, qual big bang. No bandcamp, o autor das músicas diz que este trabalho é fruto da inspiração que proveio de uma viagem à Índia. Se fecharmos os olhos, mesmo que nunca tenhamos visto uma fotografia do país não é difícil começar a desenhar contornos paisagísticos. Nota-se um forte vínculo à sonoridade associada ao local, mas há muito mais entrelaçado. Tenho de admitir, a cada música, cada vez que o piano entra em cena, principalmente quando é engolido por tecidos mais densos, há algo em mim que se arrepia, que mergulha profundamente num espaço sensorial etéreo, puro e ao mesmo tempo em estado bruto. O uso minimalista de samples e a forte componente electrónica – diversa, umas vezes pueril, outras dissonante – transformam-se nos aliados perfeitos para uma viagem que vai para lá da observação através da audição, tornando-se uma experiência completa, física, a roçar a transcendência, pois o corpo teima em responder ao estímulos, também ele viajando. Não sei quando vou ter a oportunidade de ver nial ao vivo, mas confesso que é a minha maior curiosidade neste momento. 

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Impossível fazer “Mute” ao novo disco dos You Can’t Win, Charlie Brown – “Marrow” https://branmorrighan.com/2016/09/impossivel-fazer-mute-ao-novo-disco-dos.html https://branmorrighan.com/2016/09/impossivel-fazer-mute-ao-novo-disco-dos.html#respond Thu, 15 Sep 2016 11:23:00 +0000 Fotografia Vera Marmelo

YOU CAN’T WIN, CHARLIE BROWN


“Marrow” chega às lojas dia 7 de Outubro de 2016


Novo trabalho é apresentado ao vivo no dia 13 de Outubro no Lux*

*Oferta de bilhete na compra do disco na Fnac

Recebi um texto todo pomposo a falar do novo disco dos You Can’t Win, Charlie Brown. Se pesquisarem notícias sobre a saída do novo disco, certamente encontrá-lo-ão por aí.  A questão é que esta banda é tão querida para mim que não resisti em falar já eu mesma do disco. Sei que normalmente a imprensa gosta de palavras caras e textos complexos, mas eu sou uma miúda de coração na boca e gosto de pensar que as paixões podem ser transmitidas de forma simples. 

Depois de “Chromatic” e “Diffraction/Refraction”, vem aí a caminho “Marrow” que foi introduzido através do single, e da primeira canção do mesmo, “Above The Wall”. A primeira impressão quando ouvi esta música foi que estava a entrar num universo bastante diferente dos anteriores. A diversidade sonora, já a trazer a nostalgia ao tempo dos jogos de computador antigos, é depois complementada pelo videoclip que confirma esse mesmo conceito. A questão é que no disco, quando a música termina, chega-nos uma Linger On de tonalidade sonora completamente diferente. E à medida que avançamos no disco isto torna-se um fenómeno constante e raro. Raro porque nunca vi músicas com estilos tão diferentes estarem em sequência, mantendo sempre um traço de personalidade tão único e harmonioso.

E depois temos as letras, que juntamente com a parte instrumental, nos levam por várias viagens emocionais. Continuo a ficar fascinada com a capacidade que os You Can’t Win Charlie Brown têm de criar uma simbiose entre a parte lírica e de composição musical, em que uma serve tanto para atenuar a outra, como para lhe dar uma intensidade voraz. Utilizam as tonalidades vocais certas nos momentos certos, e esta é uma sensação crescente, que culmina na última canção, Bones. Ou seja, estamos perante um disco que começa muito descontraído com Above The Wall e Linger On, mas que depois caminha tanto à luz do sol como nos escombros nas emoções. É um disco que vive de luz e sombras, que, numa opinião muito pessoal, nos confronta com vários aspectos da nossa personalidade relacional, seja em relação a nós mesmos (Linger On, por exemplo), à nossa postura na vida (a Pro Procrastinator, por exemplo), à nossa postura em relação a alguém que amamos (Mute, a minha preferida, sempre que começa a tocar o meu coração para por uns segundos para depois querer saltar peito fora, ou Joined by the head).

Quando o disco estiver disponível nas plataformas digitais, vou partilhar convosco cada uma das letras, uma a uma, e assim poderão desfrutar em completude este belo disco. 2016 tem sido um ano muito duro para mim, mas é maravilhoso quando encontramos na arte dos outros algum, neste caso muito, conforto. Lá está, não sou uma crítica, não sei falar sobre detalhes técnicos, mas enquanto ouvinte a mim interessam-me as emoções, o reconhecimento e a ligação que crio com as músicas. E nisto, Marrow, é uma relíquia.

Alinhamento Marrow:

1 – Above The Wall

2 – Linger On

3 – Pro Procrastinator

4 – Mute

5 – If I Know You, Like You Know I Do

6 – In The Light There Is No Sun

7 – Joined By The Head

8 – Frida (La Blonde)

9 – Bones

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[Diário de Bordo] The Man Who Knew Infinity https://branmorrighan.com/2016/08/diario-de-bordo-man-who-knew-infinity.html https://branmorrighan.com/2016/08/diario-de-bordo-man-who-knew-infinity.html#respond Fri, 26 Aug 2016 18:11:00 +0000

Raramente tenho tempo para ver filmes. Ou melhor, verdade seja dita, raramente tenho disponibilidade mental para me sentar durante duas horas, quieta e sem fazer mais nada, a ver um filme. Chamem-lhe hiperactividade ou estupidez, mas são raros os momentos em que encontro alguma paz de espírito para o poder fazer. Inesperadamente, ontem acabei por ver este – The Man Who Knew Infinity. Foi um impulso. Vi que era Biografia/Drama, o que normalmente só vejo em casos especiais porque para drama já temos muitas vezes a vida real, mas ainda assim avancei com o mesmo. Srinivasa Aiyangar Ramanujan é o protagonista, um matemático oriundo da Índia que fez descobertas importantíssimas para o mundo em que vivemos hoje. Aliás, um dos seus manuscritos encontrados post mortem está a ser usado para estudos sobre os buracos negros. E daí talvez tenha sido essa a razão pela qual acabei por ver este filme. Talvez por ser sobre um matemático. Talvez por ser sobre a luta de quebrar fronteiras e mostrar que o conhecimento pode vir de qualquer lugar e que deve ser respeitado. Talvez por ser sobre tudo ter um preço, às vezes demasiado elevado. Ou então foi apenas porque sim. 

Não é que seja um filme genial, afinal acaba por cair em imensos lugares comuns da maior parte das biografias dramáticas, mas acho que a sequência narrativa está muito cativante. Gostava de ter sabido mais sobre o próprio matemático em si, em vez de ao de leve ir tocando na sua história pessoal. O filme desenrola-se mais sob a perspectiva do contraste entre culturas e a não aceitação, até que por fim, pelo meio de eventos dramáticos, se vêem obrigados a reconhecer a genialidade de Ramanujan, mas talvez tarde demais. Os planos de imagem e o trabalho fotográfico estão muito bem captados, de tal forma que a emoção é uma constante e até eu, que sou assim meio pedra, deitei umas boas lágrimas. Há ali qualquer coisa na caracterização de Ramanujan que me tocou profundamente. E não tem a ver com o facto de ter deixado a mulher na Índia, e com isso sofrer pela sua ausência, nem tem bem a ver com o facto de não ser aceite logo pela comunidade científica britânica. Penso que a ligação pode estar na dificuldade que ele mostra em expressar de onde é que a maior parte das suas ideias vêm, na vontade louca de ver o seu trabalho concluído e reconhecido, o detestar desenvolver aquelas longas provas matemáticas. Ahahah. Sim, normalmente deixo as provas matemáticas para o meu orientador enquanto eu me dedico à aplicação prática das nossas ideias. 

Acho que qualquer investigador científico de qualquer área se pode de alguma maneira ligar a esta narrativa. Ou não. E apenas o filme teve sorte em apanhar-me num dia mais sensível. Ainda assim, é um filme que se vê bastante bem e que não é perda de tempo nenhum. 

DESCRIÇÃO PÚBLICO

Srinivasa Aiyangar Ramanujan (Dev Patel) nasceu na índia, em 1887. Já na infância, a sua inteligência excepcional deixa todos à sua volta impressionados. Por causa disso, ganha uma bolsa para o Liceu de Kumbakonam, onde desperta a admiração dos professores. Na adolescência começou, por auto-recriação, a estudar séries aritméticas e séries geométricas e com apenas 15 anos conseguiu encontrar soluções de polinómios de terceiro e quarto grau. Com essa idade teve acesso a um livro que marcou a sua vida: “Synopsis of Elementary Results on Pure Mathematics”, a obra de George Shoobridge Carr, um professor da Universidade de Cambridge (Inglaterra). O livro apresenta cerca de seis mil teoremas e fórmulas com poucas demonstrações, o que influenciou a maneira de Ramanujan interpretar a Matemática. Aos 16 anos fracassou nos exames de inglês e perdeu a bolsa de estudos. Sem desistir, continuou as suas pesquisas de forma autodidacta. Estudando e trabalhando sozinho, recria tudo o que já fora feito em Matemática. Mais tarde, decidiu frequentar uma universidade local como ouvinte. Os professores, percebendo as suas qualidades, aconselharam-no a enviar os resultados dos seus trabalhos para o grande matemático inglês G. H. Hardy (Jeremy Irons). Em 1913, impressionado com o seu intelecto, Hardy convida-o para ir para Cambridge (Inglaterra). Ali, apesar de todas as dificuldades de adaptação e de algum cepticismo do corpo docente, ele tornou-se professor no Trinity College (Cambridge) e foi agraciado com o ingresso na Royal Society de Ciências. Em 1919, adoeceu com tuberculose e voltou para a Índia…

Com realização e argumento de Matt Brown (“Ropewalk”), “O Homem Que Viu o Infinito” conta a história verídica de Srinivasa Aiyangar Ramanujan (1887 – 1920), um dos mais influentes génios matemáticos do século XX. PÚBLICO

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A estreia bonita da Tour Isaura Francis Dale no Lux https://branmorrighan.com/2015/10/a-estreia-bonita-da-tour-isaura-francis.html https://branmorrighan.com/2015/10/a-estreia-bonita-da-tour-isaura-francis.html#respond Sun, 18 Oct 2015 16:07:00 +0000 Fotografia por Eugénio Ribeiro

O dia 15 de Outubro de 2015 ficou marcado pelo arranque da tour Isaura Francis Dale no Lux, que esgotou e transbordou não só de pessoas como de uma energia imensa. Quer estivessem presentes pela amizade, pela admiração ou apenas pela curiosidade, o frenesim fazia-se notar e às 23h, hora prevista para o concerto começar, já todos ansiavam que as luzes baixassem e os protagonistas subissem ao palco. Passado uns minutos tal aconteceu e tudo ficou silencioso. 

In the Elegy, do Francis Dale, foi o início daquele que seria um concerto bastante emotivo. Voltando um bocadinho atrás, eu já conhecia o trabalho do Francis Dale, graças ao Diogo que muito humildemente me mostrou o seu EP quando saiu. Como o mundo é pequenino, fomos a ver e o próprio artwork do seu disco tinha sido realizado pelo João Pedro Fonseca, já bem conhecido aqui no blogue, e a cereja no topo do bolo foi eu realmente ter gostado do seu trabalho. O concerto só veio assoberbar essa noção. Em relação à Isaura, já tinha ouvido o seu EP, mas os nossos caminhos nunca se cruzaram. Em conversa com os D’Alva e por esta ter participado no concerto especial do #batequebate, soube um pouco mais sobre ela e fiquei genuinamente curiosa quando soube da sua junção com Francis Dale numa tour. O EP de Isaura – Serendipity – tem tido uma excelente aceitação, a Change It e a Useless passam na rádio imensas vezes, e a verdade é que os estilos de ambos cruzam-se e complementam-se. Mote dado para uma colaboração promissora, eis que se juntam Ben Monteiro (D’Alva) e Fred Ferreira (Orelha Negra) – também eles músicos cuja qualidade é reconhecida e aclamada por quem trabalha com eles – completando assim a “banda” que sobe ao palco. 

Existem uns quantos pormenores nesta colaboração que acho que devem ser notados. O primeiro é a estética. Se os cartazes já realçavam um contraste simples de sombras entre o preto e branco, esse mesmo contraste subiu ao palco emparelhado no branco com Isaura e Ben Monteiro e no preto com Francis Dale e Fred Ferreira. mas não fica por aqui, os traços do espectro oposto faziam-se notar nos pescoços de ambos, ou nos braços, reafirmando e intensificando a noção de complementaridade. 

O concerto foi brutal. Os sorrisos do público comprovavam isso mesmo, mas também a gratidão de Francis Dale e Isaura, a cada paragem, tocou nos corações dos presentes. É fácil ligarmo-nos a pessoas que lutam pelos seus sonhos, que quase nem acreditam que se estão a tornar reais, mas que graças ao seu trabalho e dedicação fazem as coisas acontecerem. Entre um ou outro percalço técnico, percorreram-se os temas dos EPs de ambos, alternando entre um e outro e terminando com um coro fervoroso por parte dos espectadores quando Isaura e Francis Dale voltaram ao palco para um encore conjunto das músicas Eleanor e Change It. Nesta última então, Isaura mal precisava de ter cantado, pois as vozes do público estavam bem afinadas e sincronizadas. 

Também da parte do Ben e do Fred se notou um carinho enorme pelos seus dois companheiros e as trocas de abraços e provocações ao longo do concerto mostraram um companheirismo invejável. Dizem que a magia não existe, mas eu acho que a música é uma espécie de magia e que quando encontramos pessoas tão em harmonia com aquilo que fazem, com tanta paixão, é magia que acontece, pois o que sentimos não é apenas uma contemplação de algo estático, mas de algo que mexe honestamente com os nossos sentidos. 

E é isto da minha parte. Quero deixar aqui um mega abraço com votos de que corra tudo muito, muito bem, pois a continuarem assim, tendo sempre em vista que há sempre por onde crescer e aprender, quer-me parecer que o futuro só pode ser risonho. Um orgulho testemunhar que temos música portuguesa tão boa, que supera bastante algumas referências internacionais que andam por aí. 

Mais fotografias, aqui: http://www.branmorrighan.com/2015/10/foto-reportagem-tour-isaura-francis.html

Mais pormenores da tour: http://www.branmorrighan.com/2015/06/destaque-c-opiniao-francis-dale-com.html

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D’Estalo é o primeiro disco da dupla Sr. Inominável, pela Azul de Tróia e GDA https://branmorrighan.com/2015/10/destalo-e-o-primeiro-disco-da-dupla-sr.html https://branmorrighan.com/2015/10/destalo-e-o-primeiro-disco-da-dupla-sr.html#respond Mon, 05 Oct 2015 11:46:00 +0000

Dupla de Viana do Castelo, Sr. Inominável apresenta-se com o seu primeiro disco – D’Estalo. O nome parece-me apropriado quando olhamos para um disco que apesar de algo cru tem também muito de genuíno. A música portuguesa atravessa uma das suas melhores fases, mas a POP nem sempre tem sido muito valorizada. Eu própria não costumo ouvir muito este género de música, mas quando este trabalho me foi apresentado a curiosidade falou mais alto. Não me ficou no ouvido à primeira audição, confesso, mas há discos que precisam de um pouco mais para que possamos ver o seu potencial e a verdade é que até não desgostei. As músicas são alegres, as letras descontraídas, românticas ou só aventureiras, e apesar dos ritmos não divergirem muito, não é difícil imaginar o entusiasmo de um público algo sonhador num concerto ao vivo. Gostei da participação de Columbia na faixa “Pronto a Despir”, parece-me uma voz com potencial e espero ter notícias dela brevemente. No fundo estamos perante um projecto que ainda explora a sua inocência e que me parece ter muita margem de conquista.

Deixo-vos com a informação oficial do disco e do projecto, o teledisco que já saiu pela Antena 3 e o álbum pronto a ouvir no leitor do Spotify! Boas audições! 

Formado em 2011, o duo de Viana do Castelo ensaiou timidamente na cave deserta de um prédio de uma rua-não-qualquer dessa mesma cidade. Passados dois anos figurou “Fora de Prazo” na compilação “Novos Talentos FNAC” e decidiu reunir uma tropa para gravar aquele que viria a ser o primeiro disco.


Mãos à obra e anteciparam-se a apresentar o primeiro single – “Corre Por Aí” – com um teledisco acessível a todos nós. Era o prenúncio de que o primeiro longa duração estava prestes a ver a luz do dia. Pois bem, “D’Estalo” é a demorada mas contundente afirmação do Sr. Inominável. Um disco composto por nove canções que alimentam a urgência do que tinha de ser dito no tempo certo. O amor como ponto de partida e de chegada.


Gravado em fita de filigrana, durante o ano de 2014, esta é uma obra que não invoca qualquer pretensão mas na qual se escuta o marchar das guitarras e baterias orgânicas, as vozes que só e sempre oscilam, uns teclados sonhadores e portentosas linhas de baixo. Entre a realidade e a ilusão. Entre o corpo roque e a alma pop.


“D’Estalo” está disponível no mundo digital (Spotify, Apple Music, Meo Music, Google Play, YouTube, entre as outras plataformas) e poderá, ainda, ser encontrado nas lojas habituais e encomendado directamente à banda, através do e-mail: sr.inominavel@gmail.com.


Resta referir que o Sr. Inominável é bipolarizado por Ricardo Lemos e Pedro Rio-Tinto. Bem-vindos sejam os incautos.

1. Punhal

2. Corre por Aí

3. P’ra Inglês Ver

4. Diz que Disse

5. Self Service (sobe e serve-te)

6. Pronto a Despir (com Columbia)

7. Perfeito Acaso

8. Acabámos no Refrão

9. Volto Já

“D’Estalo” foi gravado, misturado e masterizado por Ivo Cunha, no Trovoada Estúdio, em Viana do Castelo. Composto por Pedro Rio-Tinto (guitarra-baixo e coros) e por Ricardo Lemos (letras, voz, guitarra e teclas). Contou com a participação de Igor Esteves (bateria), Ricardo Barriga (guitarra na “Diz que Disse”) e Pedro de Tróia (coros).

Esta edição tem o apoio da Fundação GDA. 

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[Cinema] Inauguração d’O Cinema da Villa em Cascais com Antestreia de Homem Irracional, de Woody Allen https://branmorrighan.com/2015/09/cinema-inauguracao-do-cinema-da-villa.html https://branmorrighan.com/2015/09/cinema-inauguracao-do-cinema-da-villa.html#respond Tue, 22 Sep 2015 17:14:00 +0000

Foi com imenso gosto que aceitei ir à inauguração d’O Cinema da Villa, em Cascais. Está um espaço muito bonito e confortável, tem zona de café-bar e até de compra de DVDs de filmes, mas é na programação que o grande trunfo se encontra, sendo que promete agradar a vários gostos, incluindo também uma forte aposta no cinema independente. Os blockbusters farão parte da ementa, tal como ciclos de autor, filmes documentais e ainda de animação. Cascais parece ter ficado bem mais rico! 

Em relação ao filme com que os convidados foram brindados – Homem Irracional, de Woody Allen – penso que não poderiam ter escolhido melhor. Apesar de o cinema já estar a funcionar há algum tempo, a organização esperou, e muito bem, por um filme que fizesse jus à qualidade que o espaço promete. Este foi primeiramente exibido em Cannes, fora da competição, e eis que agora chega a Portugal tendo como um dos alicerces a obra literária de William Barret – Irrational Man: A Study In Existential Philosophy.

A acção começa precisamente com um professor de filosofia –  Abe Lucas (Joaquin Phoenix) – a sofrer de impotência temporária, cuja vida pessoal se resume à bebida e à divagação. Se por um lado a maioria das pessoas o conhece como um génio da filosofia existencial, quem começa a conviver mais de perto com ele sente que pouca existência real existe ali. Eis então que aparece Jill Pollard (Emma Stone) desafiando-o a argumentar com ela uma série de aspectos que vão falando na aula, mas também incitando-o a ter mais vontade de viver. E essa vontade passa também por viverem uma paixão que só se concretiza após Abe planear o crime perfeito. Se começamos com uma vertente filosófica, eis que quando Abe e Jill estão num café a ouvir as injustiças que uma mulher está a passar por causa de um juiz, Abe decide que o mundo ficará melhor sem ele e toma a decisão de dar sentido à sua vida planeando o crime perfeito. Não há como associá-lo ao crime – ele e a vítima não têm qualquer tipo de relação e a forma como tudo é arquitectado torna impossível a sua detecção. Ou assim ele julga. A obsessão na rotina da vítima começa, tudo é planeado ao pormenor e ao milissegundo, enquanto Jill pensa estar a viver uma grande história de amor, com um homem que é auto-destrutivo, sim, mas também fascinante. 

Fico-me por aqui porque o filme tem uma vida muito própria. Woody Allen tem décadas de experiência cinematográfica e voltou a apostar num guião ambicioso que poderá provocar opiniões muito distintas. O que mais ficou gravado ao longo do filme foram os pequenos pormenores. As pequenas falas que parecem fúteis à primeira vista, as pequenas acções que parecem não ter importância, mas que mais tarde aparecem reflectidas num derradeiro acto. Claro que o elenco ajuda, os actores foram muito bem escolhidos e os papéis desempenhados de forma exemplar. 

Pessoalmente tiro daqui que a cada um tem uma maneira muito própria de ver o mundo e de interpretar a sua própria existência. Os objectivos de vida que traçamos, as relações que escolhemos viver em detrimento de outras são muitas vezes seleccionados sob condições muito emocionais e muito pouco racionais. Onde é que fica o equilíbrio entre uma coisa e outra? Até que ponto as nossas escolhas não condenam não só a nossa pessoa, mas também quem nos rodeia? Sinceramente acho que vale muito a pena ver este filme. Gostei. 

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[Opinião Teatro] Estreia da peça “Baile” no Teatro São Luiz https://branmorrighan.com/2015/09/opiniao-teatro-estreia-da-peca-baile-no.html https://branmorrighan.com/2015/09/opiniao-teatro-estreia-da-peca-baile-no.html#respond Mon, 14 Sep 2015 12:12:00 +0000

Foi na passada Quarta-feira que me dirigi ao Teatro São Luiz para assistir à belíssima estreia da peça “Baile”, uma criação de Carla Maciel e Sara Carinhas com direcção musical de Paulo Furtado (The Legendary Tigerman). 

Em palco juntaram-se dez protagonistas – cinco mulheres e cinco homens, elas dedicadas à encenação, eles à música para elas. Destes dez nomes – Ana Brandão, Carla Galvão, Carla Maciel, Manuela Azevedo (Clã) e Sara Carinhas; João Cabrita, Miguel Marques, Pedro Vidal, Nuno Sarafa e Pedro Pinto – muitos já eu reconhecia do universo musical e foi precisamente essa junção mais intrínseca das duas artes – música e teatro – que me levaram ao sempre maravilhoso palco do São Luiz. Sou uma amante de teatro, mas confesso que ultimamente a minha curiosidade tende sempre para projectos não tão convencionais e que desafiem as peças tradicionais. E foi isso mesmo que encontrei naquela noite, uma forma de expressão que entre a dança, a música, a poesia e outras narrativas, conseguiu deslumbrar uma plateia que tanto suspendia a respiração como desatava às gargalhadas, como também não se continha nos aplausos.

Podemos encontrar Sophia de Mello Breyner Anderson por entre as várias referências, com o seu conto Praia, que ajudou na caracterização dos músicos e ainda na construção de toda a peça. Também o reportório musical é de luxo e a harmonia das vozes e das coreografias fizeram com que Baile se tornasse num espectáculo único. Desde o primeiro momento que o jogo de luzes foi fundamental para o ambiente criado e esse esteve simplesmente perfeito. Foi também surpreendente a forma como dava por mim tão focada em certa parte do cenário para de repente outra ser iluminada com outra caracterização sem que tivesse dado conta de qualquer movimentação. Claro que o propósito é esse, mas é preciso que a equipa de toda a peça seja talentosa e esteja bem sincronizada para tudo correr tão bem como correu. 

Gostei da liberdade que a peça emanou, fazendo um brinde à amizade, às memórias que nos assaltam a mente, ao silêncio que é bom sentir sem que seja constrangedor, à força que cada uma daquelas cinco mulheres transmitiu em palco. Também os músicos estiverem irrepreensíveis e foram fundamentais para que a narrativa fosse tão vivida e emotiva. O final foi muito bonito, com todos alinhados em palco e ainda com a junção de Paulo Furtado, director musical desta obra de arte, que fez anos nesse dia. Para quem escolheu permanecer no Teatro São Luiz, a festa continuou no Jardim de Inverno com o meu excelso Paulo Furtado a passar música, juntamente com o seu amigo A Boy Named Sue. Conheço poucos que façam sets de tanta qualidade como este último e foi a primeira vez que vi o Paulo Furtado a passar música, mas tenho a dizer que a combinação foi um sucesso e não tardou a que o espaço se animasse com ainda mais dança. 

Noite bonita e a recordar, mas agora o que importa é que também vocês possam experienciar a peça. Sem dúvida que “Baile” vale a pena e vai estar em cena até 20 de Setembro. Têm esta semana toda para passar por lá, não há desculpas. Com um teatro tão bonito e protagonistas tão valorosos, só quem não vai é que perde.

Podem consultar a descrição, biografias e reportório aqui: http://issuu.com/teatro_sao_luiz/docs/web-folhadesala_baile-16×23

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[Festival Paredes de Coura 2015] Voltar a Casa – A Primeira Mão Cheia de Recordações https://branmorrighan.com/2015/08/festival-paredes-de-coura-2015-voltar.html https://branmorrighan.com/2015/08/festival-paredes-de-coura-2015-voltar.html#comments Mon, 31 Aug 2015 22:10:00 +0000 Ainda me lembro da minha primeira edição, em 2011. A forma como sozinha fui descobrindo as maravilhas de Coura, mesmo quando só queria fugir de todo o lado. Cheguei inquieta, fiquei algo nervosa ao início, mas no fim só queria poder ficar mais tempo, que o festival não terminasse logo naquele instante em que tudo parecia fazer sentido e eu sentia que o meu lugar era ali. E é. Nem que seja numa mão cheia de dias, por vezes mais, por ano. Desde então que não mais larguei Paredes de Coura. As férias são sempre reservadas para essa semana, a ansiedade que antecede esses dias é sempre positiva e a sensação ao começar a estrada das curvas-contra-curvas é a de que estou a regressar a casa após uma breve ausência. Não sei se convosco era assim, mas comigo era – lembram-se de quando eram miúdos e iam passar aqueles dias a casa dos avós ou dos amigos e em que às tantas só queriam que os dias passassem para lá voltarem no Verão? Aquela sensação de paz e alegria em que não havia lugar onde preferissem estar? É assim que me sinto quando regresso a Paredes de Coura. Começa desde que saio de casa até àquela pequena estrada após saída da auto-estrada, culminando quando chego à vila. Aí assaltam à memórias as pequenas rotinas anteriores e os pequenos pormenores anuais: as sandes americanas do Courense, ou as sandes de carne assada mesmo ao lado, as músicas Eurodance ali perto, as filas para os supermercados, os sorrisos espalhados, a vida a fervilhar! Mas este ano descobri também os banhos quentes nos balneários do Courense por uma ninharia, a poesia maravilhosa do Vozes da Escrita no Taboão e tantas outras coisas. Podem passar muito anos, mas há sempre algo novo a experienciar.

2015 fica marcado não só pela minha mão cheia de edições e de felicidade em Paredes de Coura, como pelo primeiro ano em que o festival esgota. Não será de estranhar, por isso, a confirmação que as faixas etárias dominantes estão a mudar. Muito se tem falado que Paredes de Coura parece o novo Sudoeste, mas para além de eu ferver com essa comparação, acho que podemos ver isto por outro prisma muito mais interessante. É que se Paredes de Coura começa a ser o primeiro festival a que os jovens vão, cabe-nos também a nós educá-los. Quanto à educação musical, o próprio festival encarrega-se disso, não fossem os cartazes sempre cheios de qualidade e diversidade. Em relação aos comportamentos nos festivais, cabe ao espírito festivaleiro dos mais antigos contagiar os mais novos. E é verdade que o festival ganhou outra vida este ano, tal como ganhou outros acessórios que até ali não tinha. Sou da opinião que a parte do campismo não estava totalmente preparada para receber tanta gente. Se a nível de área de tendas esta aumentou consideravelmente, a mesma quantidade de banhos e casas-de-banho não foi suficiente para dar vazão a tanta gente, mas a organização já anunciou que estas melhorias estão no caderno de encargos da próxima edição, por isso não se preocupem. O que prometem, cumprem. 


E é precisamente por isso que este festival não desilude, ano após ano. As gerações podem mudar, o festival pode ter mais ou menos pessoas, mas é a credibilidade e a solidez nas apostas que se fazem que mantém o amor eterno daqueles que vivem Paredes de Coura há mais tempo. Se por um lado achei completamente dispensável aquela torre de vigia perto do rio – acho que faz com que os mergulhos percam a sua genuinidade, tal como tiram a espontaneidade de quem por lá anda – a aposta na poesia foi uma aposta ganha. A parceria recente com a Tinta da China marcou pela diferença e pelos momentos bonitos, uma mais tímidos que outros. Assisti a dois dias do Vozes da Escrita, o primeiro com a Matilde Campilho, jovem poetisa portuguesa que nos leu alguns dos seus poemas. Entre o português do Brasil e o de Portugal, algumas das suas memórias foram escorrendo através das palavras. Momentos bonitos que culminaram numa longa fila para compra dos livros de Matilde e ainda uns quantos beijinhos e autógrafos. O segundo dia foi com Carlos Vaz Marques e Pedro Mexia. Traziam consigo livros de artistas nacionais e internacionais e dentro deles poemas e músicas que para muitos têm sido como bandas sonoras de uma vida. Foi dos momentos mais intensos do festival, pelo menos para quem sente na poesia uma forma de expressão de vida. Entre arrepios, coração apertado e lágrimas nos olhos, foi o orgulho que veio ao de cima – quem acha que Paredes de Coura é só música e rio está tão enganado que mais vale não voltarem, a poesia corre nas veias de todos aqueles que constroem este festival e assim o sentem. Infelizmente, no último dia já não estava presente (andava doente e com febre, tive de ir embora nessa manhã). 

Acho que também é de realçar que este é o festival onde vejo mais pessoas com livros. Mais, com livro interessantes! Não é que seja uma cusca sem remédio, mas dá-me algum gozo passear entre as toalhas e espreitar para os livros que ali pousam, à espera que os seus donos cheguem refrescados e peguem neles, com cuidado, sem os estragarem. Este ano foi mais complicado, as toalhas quase que se sobrepunham umas às outras, mesmo que as pessoas fossem entre si desconhecidas – mas isso não é problema, em Coura o pessoal dá-se bem e partilha sem confusões! Tive pena do rio andar sobrelotado este ano, não andei tanto por lá como gostaria, ainda por cima porque só nos dois primeiros dias é que isso seria possível, ao terceiro já só espirrava! Ainda assim lá andei eu também com o meu livrinho – Objetos Cortantes – atrás, a ler nas pausas do descanso e até na tenda, enquanto o after saía do recinto para as tendas dos meus vizinhos! 

Esta foi também a segunda edição que foi como imprensa, mas foi diferente do ano passado – é que este ano eu já conhecia mais gente e vi-me com um grupinho mesmo porreiro de companheiros! Quero destacar a Ana Cláudia Silva e o André Roma (que me tentaram aplacar a gripe com medicamentos e me mostraram o tal balneário de água quente para ver se eu me aguentava até ao fim…!) e ainda o Paulo Homem de Melo e a Sandra Pinho com quem partilhámos boas gargalhadas. Os jornalistas eram às dezenas, mas também aí o ambiente era bom, nota-se quando as pessoas gostam daquilo que fazem onde o fazem e o carinho por Paredes de Coura é generalizado e bonito de se ver e ouvir! Ah, e já agora de ler, que tenho visto por aí reportagens bem bonitas! 

Como imprensa o meu foco é não só estas pequenas experiências e trocas com outros festivaleiros, mas também dar um maior destaque ao que é nacional. Não há palavras a poupar aqui, as escolhas nacionais podem parecer poucas num cartaz tão vasto como o de Paredes de Coura – a verdade é que já temos festivais muito bons especializados em música portuguesa – mas são todas elas boas. Aliás, ainda me sinto completamente de consciência pesada por ter perdido Holy Nothing no último dia, banda que vi o ano passado na vila e que quis logo entrevistar. No entanto, tenho a certeza que arrasaram, eles são muito bons no que fazem! Este ano só fui um dia à vila, mas – e sem ofensa – acho que fui no melhor! Foi o dia da Escola do Rock de Paredes de Coura e dos Les Crazy Coconuts. “A “Escola do Rock” é uma iniciativa do município de Paredes de Coura (…) que permitirá a um conjunto de jovens proveniente de todo o país, desenvolver competências musicais e criativas, em especial na área da música rock.” E foi mesmo isto que vimos, clássicos do rock interpretado por miúdos e graúdos num palco completamente preenchido e versátil em instrumentos e tons de vozes. Há esperança para a juventude e para o rock portugueses! Seguiram-se uma das minhas bandas portuguesas favoritas – “os meus meninos”, como eu lhes chamo – os Les Crazy Coconuts. É engraçado como já os vi tantas vezes e, ainda assim, a cada concerto têm algo novo, diferente, único. Eu sabia que para eles o palco de Paredes de Coura, ainda que na vila, era muito especial e ao início pareciam um bocadinho nervoso. Não tardou a que o alinhamento também explodisse numa onda mais rock, arrancando uma resposta notável por parte do público.



Indo para o palco principal do festival, Palco Vodafone, como tem vindo a ser tradição, este foi sempre inaugurado com uma banda portuguesa, mas também houve espaço para um dos nomes mais sonantes de Portugal brilhar em prime time – The Legendary Tigerman! Mas já lá vamos… No dia 19, dia em que apenas o palco principal teve direito a concertos, a noite começou com Gala Drop. Tal como disse na antevisão aos artistas portugueses nunca tinha visto ao vivo, mas fiquei agradavelmente surpreendida. Para um primeiro dia e ainda para mais sem a noite ter começado, o anfiteatro belíssimo de Paredes de Coura já se fazia notar em termos de ocupação e o vocalista – Jerry The Cat – incitou à festa desde o início. O terreno sonoro desta banda consegue ter tantas paisagens que definir um género é um crime. Posso falar de electrónica, rock, psicadelismo, etc. etc., mas será sempre uma classificação redutora. Confesso, penso que é um género musical cujo pico de intensidade será mais bem aproveitando num ambiente noturno, mas nem por isso a luz do dia fez com que os corpor abrandassem. Que todas as festas comecem com a qualidade com que esta começou! Foi logo ao segundo dia que tivemos direito a dose dupla de música nacional e ambos no palco principal. Peixe:Avião começou, gratos como sempre, e fizeram-me recordar que foram uma das primeiras bandas que vi em Paredes de Coura na primeira edição em que estive presente – 2011. Nem de propósito, também os tinha visto uns dias antes noutro festival, mas cada palco é um palco e as experiências acabam por ser sempre diferentes. Estava numa das linhas da frente nesta actuação e foi espantoso a quantidade considerável de fãs que vibrava autenticamente com o concerto. É bom, sabe bem, vermos estes projectos acarinhados em grandes festivais! Sem querer minorar os outros projectos, tenho que ser justa – grande grande foi o Paulo Furtado! The Legendary Tigerman consegui, com um anfiteatro a abarrotar, contagiar todos e mais alguns com o seu rock&roll. Tenho tido a oportunidade de ver bastantes vezes este projecto a actuar e sou da opinião que só faltou o strip-tease rockeano que tanto deixa o público doido (afinal da última vez o pessoal até começou a despir o que era dispensável) para rematar o concerto. É também verdade que num palco tão grande como o de Paredes de Coura senti falta de uma maior interacção de Paulo Furtado com o público em detrimento do típico jogo de provocações com o seu saxofonista. Sei que faz parte da actuação, sei que é um sucesso, mas pela primeira vez senti necessidade de mais. O seu rock consegue ser muito poderoso – não foi à toa que colocou um microfone a circular, ou o seu portador, com “rock&roll” a ser expelido em plenos pulmões – e estando num ponto alto como estava foi bonito de ver a reacção fervorosa dos festivaleiros. Nesta noite ainda houve Mirror People, mas foi quando a minha febre começou a marcar presença e não consegui ficar para o after hours. No dia seguinte, o meu último dia possível no festival, tivemos direito ao grande regresso dos X-Wife. Confesso, e das bandas que mais prazer me dá ver. Mesmo com uma aparente timidez de Rui Maia em palco, a felicidade e o gosto pelo que os quatro fazem é tão grande que é impossível quem vê ficar indiferente. Desde clássicos mais antigos a temas novos, o conjunto de fãs – em que nem os cartazes faltaram – fez-se ouvir. Dizem que Paredes de Coura é um palco especial e João Vieira realçou isso mesmo, poupando palavras para terem mais tempo de música, recordando a edição de 2008 em que também actuaram. É um regresso que me deixa muito contente e que espero poder acompanhar de perto.

Ainda em relação às actuações portuguesas, independentemente da hora em que actuam, eu espero que as bandas saibam que o público só espera o melhor que possam ter para dar. Em tempos ponderei se abrir palcos se não seria diminuir o estatuto das bandas, mas na verdade a minha mentalidade tem mudado um pouco. Talvez por haverem festivais completamente dedicados à música portuguesa, talvez porque temos a oportunidade de os ver tantas vezes em tantos locais ao longo do ano, mas a verdade é que nada disso muda o facto de estar lá a vê-los independentemente da hora a que actuam. Se uma hora mais tardia os ajudaria a ter uma maior projecção? Sim, é verdade, mas estariam eles preparados para dar um concerto desses? Algumas, talvez, sim, mas também acho que essa evolução acabará por ser natural e ver o Tigerman a actuar em pleno horário principal já foi brutal.


É claro que eu não vi só os portugueses e mesmo não entrando em grandes detalhes não posso deixar de referir alguns daqueles que foram dos melhores concertos que já vi na vida. E é esta outra magia deste festival – a cada ano há sempre uns quantos concertos que nos ficam na memória e um ou dois que nos marcam ainda mais. Do primeiro dia tenho de referir Slowdive e TV on the radio. Slowdive foi belíssimo, eles são mesmo muito bons naquilo que fazem e o ambiente que criaram foi excelente. Mesmo com um comportamento do público a tender para o mosh – não me perguntem porquê – fazendo com que aquele rectângulo de plateia a direito engolisse pó até mais não, a música superou todas as parvoíces. Em TV on the radio a coisa piorou no que toca ao pó. Não sei quantos red bulls é que aquele pessoal tomou, mas até para o vocalista já estava a fazer impressão, tanto que este pediu para que ao menos não se magoassem e tivessem cuidado com quem estava contra as grades. Deram um concerto do caraças e não consigo compreender alguns comentários que fui ouvindo sobre se calhar não serem assim tão bons ou nem o serem de todo. Oh well, é por isso que cada um deve pensar com a sua cabeça, não é? Foi bom, muito bom mesmo.

No segundo e terceiro dias o público parece ter acalmado no que toca à euforia do mosh (imagino aquelas gargantas e narizes só pelo que eu própria fiquei e estava um pouco afastada), mas tudo correu bem e a felicidade esteve na mesma presente – basta consultarem as diversas fotografias dos inúmeros fotógrafos que lá estiveram. Em termos de concertos – Father John Misty! E nem devia ser preciso dizer mais nada… Que senhor! Que presença em palco! Mais, não sei se sabem, mas por norma os fotógrafos só podem fotografar um número limitado de músicas. Em FJM podiam nas três primeiras e o músico não se fez de rogado, deu-lhes tudo o que precisavam para excelentes fotografias e que realmente espelhavam um quão bom estava a ser o concerto. A sério, se ele voltar a Portugal… Corram logo para a bilheteira! Já Tame Impala, não sei… Eu adoro-os, a sério, mas sinto falta daquele rock inicial mais puro. O concerto foi muito bom, foi sim senhor, mas o meu gosto pessoal interfere aqui ficando apenas satisfeita e não deslumbrada. Mark Lanegan Band sabe sempre bem, mas soube a pouco. O seu estilo calado e pouco comunicativo não costuma prejudicar, mas o alinhamento desta vez não me satisfez por aí além. No fundo acho que as energias se estavam todas a guardar para Charles Bradley and his extraordinaires. Por esta altura já eu estava nas últimas, sentada numa pequena colina no cimo do anfiteatro, mas raios me partam que o homem merece vénias daqui até ao infinito. Lembro-me que na altura quando partilhei uma fotografia daquela perspectiva no Instagram meti como legenda “Acho que o Amo!”. Penso que não será demais dizer que naquela noite todos os amaram. A paixão, a entrega, a forma carinhosa como tratou o público português foi fabulosa. Adorei, adorei, adorei. O palco secundário, infelizmente, este ano não contou muito com a minha presença. Enchia muito rapidamente e ao contrário de anos anteriores eu não estava assim tão em condições de ir para o meio da multidão o que me fez perder Pond e Merchandise (ao longe ambos pareciam estar a ser brutais).

Deuses, como eu gosto de Paredes de Coura! Quando penso que nesse dia fui para a tenda já a saber que na manhã seguinte podia ter que ir embora, caso não melhorasse (já não havia sweats, camisolas do Mickey – sim, é verdade! – cachecóis e lenços que me protegessem do frio), até se me aperta o coração. Nem perguntei a ninguém, e tenho-me recusado a ler, sobre esse dia. Sei que choveu, provavelmente eram as minhas lágrimas misturadas com as do festival por me ter ido embora. Gosto de acreditar que aquele local gosta tanto de mim como eu dele, não há outro onde sinta que pertenço tanto. E lá esperei eu, sentadinha, na rotunda com o cartaz “Contigo o Cartaz Fica Completo”, a pensar até para o ano, a pensar que saía eu incompleta, mas as recordações são boas e haverá sempre histórias novas para contar. Não posso terminar este post sem agradecer a oportunidade à organização do festival, dar-lhes novamente os parabéns por terem conduzido com tanto sucesso uma edição completamente esgotada (sim, os diários também esgotaram!). Quero ainda deixar um beijinho ao Hugo Ferreira (obrigada pela boleia!), à malta de Leiria sempre tão boa companhia (em especial ao Gil e ao Walter com quem vi imensos concertos); ao Francisco Pinto, e à restante malta do sítio, que me deixaram um espaço reservado no meu local de sempre no campismo e foram sempre boa companhia; à Ana Cláudia Silva pelo companheirismo em quase tudo, mas principalmente nas aventuras gastronómicas (as sandes vegetarianas do Comida de Rua eram fenomenais tal como as bolas de berlim!) e nas fotos mais amalucadas; no fundo, obrigada a todos os que contribuíram para que este festival fosse o que foi. Em tom de aviso a novos visitantes, saibam ao que vão, contribuam para que o festival continue a manter o espírito genuíno e original. Não se preocupem com futuros cartazes ou públicos-alvo, tenho plena confiança em quem está à frente do Festival Vodafone Paredes de Coura. Sei que também eles são genuínos e originais nas suas escolhas. Venha 2016, já tenho saudades!

PS: Talvez fosse boa ideia começar a pensar em deixar o campismo e em alugar uma casa ou assim, mas não consigo deixar de sentir que a experiência seria diferente. Será?

PS2: Esqueci-me de mencionar que a comida dentro do recinto este ano estava melhor do que nos anos anteriores. Tinha pizzas muito boas, comida típica do norte e opções para todo o tipo de regime alimentar. Muito bom!

PS3: Provavelmente esqueci-me de tantas outras coisas… Perdoa-me Coura, eu Amo-te.


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