Paulo André Cecílio – Bran Morrighan https://branmorrighan.com Literatura, Leitura, Música e Quotidiano Mon, 28 Dec 2020 05:05:20 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1.3 https://branmorrighan.com/wp-content/uploads/2020/12/cropped-Preto-32x32.png Paulo André Cecílio – Bran Morrighan https://branmorrighan.com 32 32 [Crónica Paulo André Cecílio] A culpa é dos Lobos https://branmorrighan.com/2019/01/cronica-paulo-andre-cecilio-culpa-e-dos.html https://branmorrighan.com/2019/01/cronica-paulo-andre-cecilio-culpa-e-dos.html#respond Thu, 03 Jan 2019 10:28:00 +0000

Podia estar aqui a gastar o latim que não tenho a escrever sobre a importância da Sofia dentro daquilo que constitui a “cena” musical portuguesa – e que não começa nem termina apenas neste blogue -, mas, à boa maneira daquilo que tinha vindo a escrever antes de uma tremenda falta de tempo me ter cortado os dedos e as pernas, prefiro recordar: aquela viagem longuíssima até Alenquer, terra do novo Side B, para ver de perto duas das mais relevantes bandas do metal tuga do presente: os Process Of Guilt e os Löbo.

Num Hyundai cinzento que já viu melhores dias, a viagem começou na Póvoa de Santa Iria, onde nada se passa ou voltará a passar desde que o Wake Up Póvoa sofreu uma infeliz morte prematura, passou pelas portagens da A1 que me recusei a que ela pagasse e terminou numa cidade ribatejana onde perdermo-nos à procura de um bar de rock parece estupidamente fácil, até que do baixo de um prédio (quero dizer rosa) ali estava a entrada: rock n’ roll, bandas de versões a toda a hora, um ou outro concerto mais interessante para quem não tem a mínima pachorra para bandas de versões. 

A cerveja foi seguindo o seu caminho goela abaixo – o que foi chato, porque havia que conduzir depois – e aguardando ansiosamente pelo iniciar dos concertos, com os Löbo a mostrarem-se em forma (ainda que, no final, tenham dito que o concerto foi uma merda) e os Process Of Guilt a soarem tão soberbamente janados que quase nem deu para aguentar dentro da sala, tamanho era o volume (e não se aguentou mesmo, o que é bastante porreiro. Ficar surdo é o objectivo principal para quem gosta de rock e/ou metalada e não adianta dizer que não).

No final, só uma t-shirt de Process Of Guilt comprada no merch e memórias vagas do João Vairinhos a falar do filho e do facto de não gostar de bola sobraram neste recanto. Ou não, espera, sobrou outra: a ideia de que conhecer alguém que goste tanto de música quanto nós a tão poucos quilómetros de casa (quando a infância e a adolescência e a juventude adulta foi passada a falar de kizomba com amigos mainstream) é uma dádiva. E só por isso há que enaltecer a Sofia – com quem mais teria bebido copos nessa noite de tédio suburbano?

Paulo André Cecílio

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[Crónica Paulo André Cecílio] É PAUS, é pedras https://branmorrighan.com/2018/05/cronica-paulo-andre-cecilio-e-paus-e.html https://branmorrighan.com/2018/05/cronica-paulo-andre-cecilio-e-paus-e.html#respond Sun, 06 May 2018 15:27:00 +0000

É PAUS, é pedras

Olhamos para aquela banda, hoje em dia, e surpreendemo-nos por termos acompanhado os seus primeiros passos, quando o que havia era apenas um link para o Myspace e um único tema: “Mudo e Surdo”. De lá para cá, muita coisa mudou na vida dos PAUS, que de “supergrupo” – expressão que tanto pode indicar algo que se faz apenas pela piada e/ou para ganhar mais uns trocos – passaram a “certeza”. Mas sabíamos isso à partida: estava tudo no ritmo, na bateria siamesa, naquele baixo “que te faz sentir coisas”.

“Eu acredito em PAUS”, disse ao Quim no final do concerto no Santiago Alquimista, em 2010, a abrir para os HEALTH. Tinha razões para isso e essas mesmas razões foram-se confirmando; em palco, os PAUS não devem nada a ninguém (e os discos não captam muito bem a ferocidade de que eles são capazes, admitamos). 

Não deviam na altura, continuam sem dever hoje em dia, quatro álbuns e dúzias de concertos depois. Acreditei mais em PAUS que nos HEALTH, que deixaram de ser uma banda de noise rock electrónico para serem discípulos dos Pet Shop Boys (ouçam “Flesh World (UK) e digam que não tenho razão). Deles não rezará muito a história. Os PAUS já a fizeram.

Paulo André Cecílio

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[Crónica Paulo André Cecílio] O xx marca o local https://branmorrighan.com/2018/04/cronica-paulo-andre-cecilio-o-xx-marca.html https://branmorrighan.com/2018/04/cronica-paulo-andre-cecilio-o-xx-marca.html#respond Sun, 01 Apr 2018 21:15:00 +0000

Quando eu era um jovem imberbe, achava que James Blake iria
obter, com o seu álbum de estreia, o mesmo tipo de sucesso indie que os The xx
haviam obtido apenas um ano antes. O tempo acabou por validar as minhas
conjecturas; tanto um como os outros enchem hoje salas de espectáculos e editam
discos que, não sendo feitos para as massas, chegam até uma franja da população
melómana que quer algo mais da sua pop que não as melodias e batidas do
costume.

E achava que James Blake = The xx porque ambos vinham do
mesmo sítio, da canção R&B tornada minimal e absurdamente branca, menos
sensual e mais introspectiva, menos in your face e bastante mais subtil.
Não que Blake ou os xx não saibam ser sensuais. Isso mesmo comprovei eu, várias
vezes, sobretudo ao vivo. Aliás, dos The xx em Portugal perdi apenas dois
concertos: o da primeira edição do NOS Primavera Sound (porque, estupidamente,
não fui) e o da Casa da Música, na sua estreia, em 2010.

Mas este último é perfeitamente desculpável porque, afinal
de contas, os vi na Aula Magna no dia anterior, quando os britânicos eram “só”
uma banda a beneficiar do hype da Pitchfork e das palavras de meia dúzia
de cabecilhas indie. Bem, as canções ajudaram ao hype – aquela
melancolia que entra no coração e que por vezes se dança, aquela “Intro” (que é ainda melhor quando
misturada com Notorious B.I.G
), aquela “VCR” que foi revenge of the 90’s
antes de isso ser sequer um conceito, aquela “Crystalised”, aquela “Shelter” a
alimentar dores de corno e
a ir buscar uma das grandes malhas eurodance desta vida
, aquela
“Infinity” a relembrar a “Wicked Game” do Chris Isaak…

E, por detrás disso, o negro – um negro minimal, o negro do
pano com um “X” que os cobriu na Aula Magna durante as primeiras canções, um
negro absoluto que não deixava passar qualquer tipo de luz. Nos anos
subsequentes, os The xx descobriram-na, e moldaram a sua sonoridade em algo
mais próximo do clubbing, resultando isto num péssimo segundo álbum e
num aceitável terceiro. Mas, bom, não há amor como o primeiro.

Paulo André Cecílio

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[Crónica Paulo André Cecílio] Shellac https://branmorrighan.com/2018/03/cronica-paulo-andre-cecilio-shellac.html https://branmorrighan.com/2018/03/cronica-paulo-andre-cecilio-shellac.html#respond Thu, 01 Mar 2018 16:40:00 +0000

Eles agora moram cá

Hoje em dia poderá não parecer – porque há um NOS Primavera Sound todos os anos – mas tempos houve em que os Shellac, pura e simplesmente, não metiam cá os pés. Eram tempos mais tristes, em que tínhamos de nos contentar com os .mp3 de 1000 Hurts, sacados a um Rapidshare desta vida (caramba, lembram-se do Rapidshare?), com os versos de “The End Of Radio” na ponta da língua, com as merdas que íamos lendo em blogues e websites diversos sobre os concertos dos Shellac – poderosos, agressivos, e uma experiência enriquecedora de comunhão.

Quis o destino que os Shellac pisassem solo tuga em 2010, para uma daquelas noites rock que quem sabe relembra para sempre: não foram só eles a apresentar-se ao vivo no aquário da Zé Dos Bois, mas também os Mission Of Burma, lendária banda saída do punk (numa perspectiva mais arty) e que não se esqueceu, naturalmente, de tocar o hino “That’s When I Reach For My Revolver”.

A noite seria, no entanto, de Steve Albini, Bob Weston e Todd Trainer, o rock reduzido à sua expressão mais simples: uma guitarra, um baixo, uma bateria, ruído q.b. e riffs que parecem ter sido arrancados a um osso calcificado pela electricidade, se é que tal coisa existe ou existiu. Pelo meio, os poemas-diatribes de Albini, que aprendemos a tratar como um Deus, pura revolta adolescente de óculos na cara e livros de Céline na estante. 

E, claro, o momento em que a banda pára e deixa o público perguntar o que quer que seja. Da minha parte só me recordo de alguém perguntar aos Shellac se gostavam do Obama (quem não, naquela altura?) e a resposta ser afirmativa – com Albini a dizer “vocês não têm noção: podíamos estar tão pior”. Gostava de saber o que ele responderia se o concerto fosse hoje.

Paulo André Cecílio

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[Crónica Paulo André Cecílio] Gil Scott https://branmorrighan.com/2018/01/cronica-paulo-andre-cecilio-gil-scott.html https://branmorrighan.com/2018/01/cronica-paulo-andre-cecilio-gil-scott.html#respond Wed, 31 Jan 2018 13:21:00 +0000 Olá, sou novo aqui

Devo isto da escrita a toda a gente que me deu uma oportunidade, quer me apresentando às pessoas certas quer arranjando um espacinho no seu blogue ou webzine, e a todos os que nos anos seguintes foram lendo as parvoíces que vou deixando, mas a músicos só a um, de forma mais indirecta: Gil Scott-Heron. Foi sobre ele o primeiro texto que escrevi para o Bodyspace, em 2010, aquando da sua vinda à Aula Magna e ao lançamento de I’m New Here, que se veio a revelar o seu último álbum. E cujo título não podia fazer mais sentido – Gil Scott-Heron dizia ser “novo aqui”, assim como eu o fui por sua culpa.

Quando o doutorado em bluesology aterrou em Lisboa, já eu tinha passado boa parte do meu tempo a escutar os seus discos e, mais importante ainda, as suas palavras. Antes disso conhecia, naturalmente, “The Revolution Will Not Be Televised”, que se tornou frase-feita e parodiada por inúmeros grupos de pessoas ao longo dos anos. Depois, ri-me a bandeiras despregadas com “Whitey On The Moon”; pensei em “Who’ll Pay Reparations On My Soul?” como um dos grandes temas negligenciados da soul; decorei “Lady Day And John Coltrane” com preciosismo – e só estou a dar alguns exemplos. Ele era pai do hip-hop, e sobretudo pai daquilo que se entende por “hip-hop inteligente” – com uma mensagem para além do bitches and bling, que quando se é novo, pretensioso e se pina pouco, é algo que passa muito ao lado.

Ter podido ver Gil Scott-Heron num período em que ainda não sabia onde a vida me iria levar foi uma bênção, e estar-lhe-ei eternamente grato por me ter entrado nos ouvidos; se eu tivesse continuado a ouvir exclusivamente o metal que ouvia na adolescência, provavelmente não estaria aqui, agora, a contar esta história neste blogue (e provavelmente nem sequer saberia da sua existência). Não teria feito os amigos que fiz ou chegado aos sítios que cheguei. Por isso, Gil, onde quer que estejas: obrigado, caraças. Obrigado pelos discos e por aquela noite na Aula Magna. E obrigado por me teres levado a escrever isto.

Paulo André Cecílio aka PAC

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[Crónica Paulo André Cecílio] Bater àquela porta https://branmorrighan.com/2018/01/cronica-paulo-andre-cecilio-bater.html https://branmorrighan.com/2018/01/cronica-paulo-andre-cecilio-bater.html#respond Tue, 02 Jan 2018 14:01:00 +0000 Fotografia Paulo Cunha Martins

Quem me conhece sabe que, de todas as centenas de bandas que já ouvi ao longo de anos de melomania, há uma que guarda um lugar especial no meu coração: os Mão Morta, os sempre imprevisíveis Mão Morta, a resposta portuguesa aos The Fall – sempre diferentes, sempre os mesmos –, a banda que mais fez pelo rock (ou pela música!) em Portugal através de processos e processos de reinvenção, a que mais estudou diferentes sonoridades ao longo de uma vasta carreira, e sem sombra de dúvida a mais poética… Culpa de um Homem, Adolfo Morais de Maceo, ou Luxúria Canibal, culpa de outros tantos, guitarristas, baixistas, convidados. Não são “a melhor banda portuguesa de sempre”, porque isso era reduzi-los a um qualquer patriotismo bacoco; são, isso sim, a melhor banda da história da humanidade. Está dito.

E, no entanto, esta minha paixão pelos Mão Morta – que começou ainda na juventude, ali por volta de uns metálicos 14 anos, quando escutei “Orgia Scherzo Em Fá #” pela primeira vez e julguei estar na posse de uma qualquer loucura antropomorfizada – não se traduz em dezenas e dezenas de idas aos seus concertos. Afinal de contas, cheguei tarde a estas coisas na música ao vivo; só pelos 20 e poucos anos comecei a sair de casa. Pelo que, concertos que já vi ao vivo dos Mão Morta, consigo contá-los pelos dedos de duas mãos, não sendo isto de todo algo de que me orgulhe. Mas adiante.

Da primeira vez, que a gente nunca esquece, recordo-me sobretudo da ida à Fnac para comprar, em vinil, aquele que era à altura o álbum mais recente dos Mão Morta: Pesadelo Em Peluche. Como eu, muitos outros compraram a mágica rodela em inúmeros pontos de venda, facto comprovado pelas dúzias de sacos que eram sendo ostentados de forma mais ou menos garbosa dentro do Coliseu dos Recreios, naquela noite de Abril. Não como eu, que me limitei a olhar, embevecido, para o que se passava em palco, outros tantos preferiram as drogas, o álcool e a loucura – como o tipo que, mal começou o concerto, se atirou para as grades, tombou de cachaço e foi prontamente levado pela segurança. Rock n’ roll, claro.

E não só – recordo-me de “E Se Depois”, essa canção no fio da navalha, logo à segunda; recordo-me de Fernando Ribeiro subir ao palco para interpretar “Como Um Vampiro”; recordo-me de “Vamos Fugir” e do coro do público em “Tiago Capitão”, para além dos insistentes pedidos de “Lisboa”, que não foi tocada. E recordo-me de ter pensado que, durante aquela noite, a vida valia a pena enquanto pudéssemos ter ídolos que a alumiassem. De lá para cá, já me encontrei com ALC por um par de vezes – a última das quais em Paredes de Coura, 2017, comigo a tentar não morrer de vergonha e balbuciando como uma menina de 12 anos perante os One Direction. Também faz parte desta coisa de gostar de música. Acho eu.

Paulo André Cecílio

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[Crónica Paulo André Cecílio] Juventude Sónica https://branmorrighan.com/2017/11/cronica-paulo-andre-cecilio-juventude.html https://branmorrighan.com/2017/11/cronica-paulo-andre-cecilio-juventude.html#respond Thu, 02 Nov 2017 14:29:00 +0000

Este poderia ser um texto sobre os Linda Martini, mas não é. É-o, aliás, de uma das bandas que deram forma e cor aos Linda Martini: os Sonic Youth. Uma daquelas bandas que se descobrem na adolescência e que ficam connosco. A meta para quem gosta tanto de noise como de canções. Nação de sonhos à distância de uma escuta. Sentimos imenso a falta deles, não sentimos? Culpe-se Thurston Moore, que depois de tantos anos decidiu ser “homem” e passar a pensar não com a cabeça de cima mas com a de baixo. É pena – os Sonic Youth mereciam ter terminado de forma mais digna.

Os seus últimos concertos em Portugal datam de 2010, meses antes da bomba que eclodiu em seio indie. O álbum a apresentar, The Eternal, não era o melhor – assim como “melhor” não é um adjectivo que em boa parte se possa rotular a qualquer um dos discos de Sonic Youth pós-Washing Machine – mas era, ainda assim, o álbum de pérolas como “Anti-Orgasm”, que não destoam em nada do cânone habitual dos nova-iorquinos. Essa ecoou bem alto pelo Coliseu de Lisboa. Ao contrário dos Gala Drop.

À altura, a banda portuguesa era uma das grandes novidades da música feita por cá – experimental sem merdas, dub, punk, electrónica, you name it – e tinham um disco fabuloso em mãos, homónimo, editado em 2008. E menciono os Gala Drop porque, 1) foi a primeira vez que os vi e 2) foi a primeira vez que vi uma banda ser expulsa do seu palco, após a electricidade no Coliseu falhar e o grupo se ver obrigado a abandonar, envergonhado, a cena, perante o olhar atento na linha lateral por parte de Thurston Moore (que, imaginamos, nunca pensou nos Gala Drop com a cabeça de baixo). Mas só foi mais um caso daquela muy própria Lei de Murphy que é accionada quando se tratam de bandas portuguesas: se algo pode correr bem, alguém tratará de fazer com que corra mal.

Quanto aos Sonic Youth, limitaram-se a cumprir o estipulado no contrato e deambularam não só por The Eternal como também por Daydream Nation, levando a que milhares de pés e gargantas se erguessem aquando de “’Cross The Breeze”, que 30 anos depois continua a ser uma malha maior que a tua vida. Tal como “Death Valley ’69”, que fechou o concerto em altas. Bons velhos tempos em que os homens brancos não davam cabo de coisas boas.

Paulo André Cecílio (PAC)

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[CRÓNICA PAULO ANDRÉ CECÍLIO] Tudo é Melhor no Porto – Dick Dale https://branmorrighan.com/2017/10/cronica-paulo-andre-cecilio-tudo-e.html https://branmorrighan.com/2017/10/cronica-paulo-andre-cecilio-tudo-e.html#respond Tue, 03 Oct 2017 09:43:00 +0000

Tudo é melhor no Porto

Isto hoje até parece uma frase batida, mas continua tão verdadeira quanto o era desde que há uns curtos anos eu decidi dizê-la alto e bom som para quem a quisesse ouvir: Tudo é melhor no Porto. Sim, é certo que o facto de provir de boas famílias futebolísticas ajudou a cimentar o meu amor pela cidade. Mas a música, as saídas, as pessoas também contribuíram em larga escala para que, todos os dias, eu passasse a sonhar em mudar-me para a mais bela das cidades mundiais e quem sabe europeias (alguém me arranje um emprego, s.f.f.).

O Porto, cidade, esteve sempre presente; por ali se passava rumo a Ponte de Lima para as férias tradicionais de Páscoa, por ali se ficou durante outros tantos verões, ali se viu uns quantos jogos em família. Concertos, esses, só a partir de 2010 – altura em que começa a existir tempo e dinheiro e vontade de partir sozinho à descoberta. O local, a Casa da Música. O artista, era dois: o mago da guitarra surf, Dick Dale, e os punks originais, os The Sonics (e até houve tempo para, depois, apanhar os YACHT numa outra sala, sendo que já praticamente ninguém se lembra dos YACHT e isso não é necessariamente uma coisa má).

Não me recordo exactamente que meio de transporte apanhei para chegar até ao Porto, mas lembro-me de que fiquei bastantes horas depois dos concertos à espera de voltar para baixo. Tudo em nome, evidentemente, do rock n’ roll. Porque Dick Dale era – e é – o homem que pôs toda a gente a dançar depois de ter visto Pulp Fiction e porque os Sonics eram – e são – uma das melhores bandas dos anos 60 e autores, também, de um disco nada vergonhoso para a idade em pleno 2015: This Is The Sonics.

Do que me recordo é disto: dos Sonics a dar um bom concerto que só pecou por escasso. Dos YACHT a serem chatos. E de Dick Dale, do génio Dick Dale, que dá a dada altura uma das suas palhetas de guitarra a uma menina na fila da frente. Menina essa que estava em cadeira de rodas, mas que se divertia como se voasse sobre a audiência. Vi-a depois a sair e fiquei com esta frase para sempre, dita no sotaque mais bonito do país: ser manquinha até tem cousas boas… E não será preciso mais do que isto para explicar o rock n’ roll.

xxx

Paulo André Cecílio

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[Crónica Paulo André Cecílio] Tangerinas https://branmorrighan.com/2017/09/cronica-paulo-andre-cecilio-tangerinas.html https://branmorrighan.com/2017/09/cronica-paulo-andre-cecilio-tangerinas.html#respond Fri, 01 Sep 2017 14:26:00 +0000

Quando Edgar Froese morreu, em Janeiro de 2015, levou também consigo boa parte do espírito criativo dos Tangerine Dream, que fundou quase cinquenta anos antes na sua nativa Alemanha, à procura de uma música que não fosse similar aos ecos rock n’ roll que vinham dos Estados Unidos e que pudesse ser tão clássica quanto os grandes compositores da Europa.

Nascia então uma das bandas mais importantes da música electrónica do séc. XX, que influenciou tantos e tantos nomes que posteriormente influenciaram outros tantos nomes, que deu praticamente origem àquele género a que chamamos trance (basta ouvir Phaedra, editado em 1974, caso não acreditem).

Dois anos e meio após a morte de Froese, os Tangerine Dream continuam activos. E dois anos e meio parece ser uma distância temporal suficiente para poder afirmar, sem medo de ofender ou sem que alguém me acuse de sem um abutre, que os Tangerine Dream deram, sem exageros, um dos piores cinco concertos que já vi em toda a minha vida.

A banda, cuja música continuo a adorar, veio até Lisboa no ido ano de 2010, para apresentar sabe quem o quê, traduzindo esse quê em três longas horas de rock progressivo azeiteiro (nem sequer era rock progressivo, o bom!) e deixando a electrónica para outros campos mais perdidos no tempo. Se bem me lembro até trouxeram uma vocalista. Uma vocalista, valha-me a santa.

Os Tangerine Dream, portanto, passaram a figurar numa lista que também inclui: os Biffy Clyro, em Paredes de Coura 2008; os Klaxons, no Super Bock Super Rock 2007; os Tara Perdida, no “mítico” Rock One em Portimão, em 2009; e uma banda absurda cujo nome felizmente esqueci mas que fez a primeira parte da Zola Jesus no Musicbox há uns tempos. Não devia ser orgulho para uma banda que emitiu clássicos como Atem. Mas aconteceu.

Paulo André Cecílio

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[Crónica Paulo André Cecílio] Estranha https://branmorrighan.com/2017/07/cronica-paulo-andre-cecilio-estranha.html https://branmorrighan.com/2017/07/cronica-paulo-andre-cecilio-estranha.html#respond Tue, 04 Jul 2017 15:08:00 +0000

Eu gosto de música estranha. Eu gosto de coisas que soam a berbequins e gosto de gente que desafina. Eu gosto de matagais electrónicos abstractos, de descargas violentas a decibéis insuportáveis, de atonalidade e de xaropes pseudo-pop. Gosto de tudo, na verdade. Se não gostasse não me poderia descrever segundo o único adjectivo que realmente creio que me faz justiça: o de melómano.

Gosto de música estranha. Como Jandek, artista que andou desaparecido durante anos e anos, sendo culto para pessoas que também a adoram, como os Sonic Youth, os Low ou Bill Callahan. Jandek, para quem não conhece, é autor de dezenas de discos desde que se estreou, em 1978, com um álbum que seria um clássico da folk (vaporosa e sombria, mas folk) caso o mundo fosse justo: Ready For The House. É um disco onde ele não canta, balbucia. E é um disco onde ele toca, mas não da forma que é ensinada a milhares de estudantes pelo mundo fora. É tão idiossincrático que poderia ser o seu próprio género.

Mas dizia eu que gosto de Jandek, e tive a oportunidade de vê-lo no Teatro Maria Matos, naquela que foi a segunda vez que passou por cá – ele que, como referi, andou desaparecido: a sua identidade permaneceu por muitos anos um verdadeiro mistério e só foi mais ou menos desvendada já no novo milénio, quando ele se atreveu a aparecer em público. Do concerto poucas memórias sobram que não as mais importantes: não houve folk, mas sim algo ainda mais estranho do que os discos mais estranhos que possam imaginar. Um saxofonista a arrastar o banco onde se sentou, em palco, de forma a produzir som. Pessoas a sair da sala, confrontadas com uma sessão daquilo que julgavam ser anti-música (música é música, Sr. Gershwin, e o som é música in and of itself). Nada que pudesse ser familiar nem para os fãs mais acérrimos do norte-americano. Tive de ir recuperar uma publicação perdida num blogue perdido que fundei e depois mandei às urtigas para me lembrar que passei aquele concerto todo com um sorriso de orelha a orelha. Só para poder provar este ponto, o de que sim, senhores, em gosto de “música estranha”.

Tão estranha quanto, por exemplo, a dos Sunn O))) – que pegaram numa ideia de La Monte Young e transpuseram-na para o mundo do metal. Drone atrás de drone, peso atrás de peso, gente com protecções nos ouvidos e o Mágico Porto a espetar cinco batatas ao Sporting para a Taça: assim foi a noite dos Sunn no Lx Factory, naquele ido Fevereiro de 2010, com Attila Csihar vestido de árvore cyberpunk a plantar o terror nos corações de todos quantos haviam ido ao concerto. Tentei tirar os tampões durante alguns minutos e creio ter visto Deus ali perdido algures, mas não aguentei por muito mais. A estranheza é saudável, a surdez nem por isso.

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