Penguin Random House – Bran Morrighan https://branmorrighan.com Literatura, Leitura, Música e Quotidiano Sat, 11 Sep 2021 21:59:38 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 https://branmorrighan.com/wp-content/uploads/2020/12/cropped-Preto-32x32.png Penguin Random House – Bran Morrighan https://branmorrighan.com 32 32 Opinião: A Tua Segunda Vida Começa Quando Percebes Que Não Terás Outra, de Raphaëlle Giordano https://branmorrighan.com/2017/05/opiniao-tua-segunda-vida-comeca-quando.html https://branmorrighan.com/2017/05/opiniao-tua-segunda-vida-comeca-quando.html#respond Tue, 02 May 2017 15:47:00 +0000

A Tua Segunda Vida Começa Quando Percebes Que Não Terás Outra

Raphaëlle Giordano

Editora: Suma de Letras Portugal

Sinopse: Camille tem tudo e parece estar feliz. Então, por que sente a felicidade escorregar-lhe por entre os dedos? Quando Claude, rotinólogo, se oferece para a ajudar, ela não hesita. Através de experiências surpreendentes e incríveis, Camille vai, passo a passo, transformando sua vida e começa a conquistar seus sonhos. Um romance enternecedor e autêntico sobre a capacidade de nos reinventarmos.

OPINIÃO: Antes de começar a opinião do romance, não posso deixar de dar os parabéns pelo título e pela capa do livro. Ambos são sugestivos e chamam à atenção, despertando uma curiosidade imensa para o seu conteúdo. Quando o iniciamos, não sabemos bem que rumo é que a história pode tomar. Camille não está a ter um bom dia e as reflexões que faz sobre a sua vida não ajudam. No meio do caos, com o carro avariado e uma chuva sem tréguas, acaba por conhecer Claude, que lhe dá abrigo temporário enquanto tenta contactar o seu marido, aparentemente desinteressado no seu drama. Claude, ao reparar que Camille tem um ar desolado, fala com ela e diz-lhe que se ela estiver disposta a mudar a sua vida, ele conseguirá acompanhá-la nesse processo. Só tem é de se comprometer a 100% ou não haverá resultados positivos. A ciência que apregoa é a rotinologia, que só de si é também um nome sugestivo no que toca a rotinas. Sentindo que nada tem a perder, Camille aceita. Cada passo mostrar-se-á um desafio às suas zonas de conforto. 

Na verdade, sendo bastante objectiva, mais do que um romance este pode ser considerado um livro de auto-ajuda, de desenvolvimento pessoal. A vantagem é que em vez de ser uma coisa muito directa, muito “a verdade é esta e o caminho é este”, permite alguma subjectividade e permite também que sejam relatadas as resistências comuns de quem já está tão enraizado em algumas dinâmicas que fazer diferente parece uma miragem. Quanto à rotinologia é preciso ter em conta que a autora, para além de escritora, é também pintora e coach em criatividade, havendo assim uma espécie de espelho entre as actividades da autora e aquilo que Claude sugere a Camille que vá fazendo. É engraçado que por muitos nomes diferentes que lhes demos, existem certas práticas que vão de encontro a uma maior consciencialização pessoal que são transversais. E essas bases são realmente úteis e algumas delas encontram-se nesta “rotinologia”. Acho que nem sempre haverá um consenso, entre os leitores, sobre quais as melhores práticas para atingir um certo fim, mas aí também está uma questão interessante, este é um livro que nos vai fazer pensar sobre as nossas posturas, colocando-as em causa. 

É um pequeno livro que se lê muito bem e que parece ter como objectivo não só entreter o leitor, como também levá-lo a agir sobre a sua vida tornando-se mais confiante, menos conformado, mais proactivo e determinado em tirar proveito da sua vida, aumentando não só a sua qualidade de vida como a dos mais próximos. As mudanças assustam sempre um pouco e talvez o impacto nos mais próximos possa causar alguma estranheza, mas a lição que se tira de A Tua Segunda Vida Começa Quando Percebes Que Não Terás Outra é que o risco compensa e que vale a pena. 

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[DESTAQUE] O Homem Ausente, o terceiro volume da série Sebastian Bérgman, chega às livrarias no dia 4 de janeiro https://branmorrighan.com/2016/12/destaque-o-homem-ausente-o-terceiro.html https://branmorrighan.com/2016/12/destaque-o-homem-ausente-o-terceiro.html#respond Wed, 28 Dec 2016 13:26:00 +0000

O Homem Ausente

DE HJORTH & ROSENFELDT

Suma de Letras

ISBN 978 989 6651 756

592 páginas

PVP c/IVA 21,90€

O TERCEIRO VOLUME DA SAGA SEBASTIAN BÉRGMAN 

Mais de 2 milhões exemplares vendidos

O Homem Ausente é mais um brilhante caso da série Sebastian Bergman, cuja personagem principal é uma criação brilhante, não exibindo nenhuma das características redentoras que esperávamos, nem mesmo do investigador nórdico mais deprimido; (…). Este é um romance complexo e convincente que convida comparações com a trilogia “Millennium”, de Stieg Larsson.

in Sunday Times, Reino Unido

LIVRO

Na ladeira das montanhas de Jämtland, na Suécia, seis corpos são encontrados. Mais precisamente, seis esqueletos. Dois deles de crianças. Os corpos foram enterrados há muito tempo. Para Sebastian Bergman, que viaja para o local do crime com o resto da equipa do Departamento de Investigação Criminal, estes factos só tornam ainda mais complexa a investigação sobre quem são, quem os matou e porquê.

No início, Sebastian vê o caso como uma oportunidade de escapar da ex-namorada e passar algum tempo com a filha, Vanja. Uma oportunidade para tentar construir uma relação com ela antes que seja tarde demais.

Mas rapidamente descobre que está mais envolvido no caso do que gostaria de estar.

AUTORES

MICHAEL HJORTH nasceu em 1963 em Visby. Sempre amou filmes e livros e hoje é um dos guionistas e produtores mais talentosos da Escandinávia. É um dos fundadores da produtora de sucesso Tre Vänner, responsável pela primeira comédia de grande sucesso da Suécia assim como por alguns dos guiões dos filmes da série Wallander, de Henning Mankell.

HANS ROSENFELDT nasceu em 1964 em Borås. Trabalhou como tratador de leões-marinhos, motorista, professor e actor até 1992, quando começou a escrever para a televisão. Escreveu guiões para mais de 20 séries e já foiapresentador de programas de rádio e televisão. É o criador da série sueca de maior sucesso – a premiada série policial Bron (“The Bridge”), reproduzida em mais de 170 países e com remakes nos EUA, com o mesmo nome, e em França (“The Tunnel”).

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Opinião: A Resistência, de Julián Fuks https://branmorrighan.com/2016/11/opiniao-resistencia-de-julian-fuks.html https://branmorrighan.com/2016/11/opiniao-resistencia-de-julian-fuks.html#respond Mon, 28 Nov 2016 19:02:00 +0000

A Resistência

Julián Fuks

Editora: Companhia das Letras

Sinopse: “Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado.”, escreve, logo na primeira linha, Sebastián, narrador deste romance. Como em diversas obras que tematizam a Guerra Suja — o regime de terror inaugurado em 1976 na Argentina —, A resistência envereda pela memória pessoal e nacional.

Sebastién é o filho mais novo, e seu irmão adotado, o primogênito de um casal de psicanalistas argentinos que logo buscarão exílio no Brasil. Os pais conhecem bem as teorias sobre filhos adotados e biológicos (Winnicott, em especial), mas a vida é diferente da bibliografia especializada. Cabe então ao narrador o exame desse passado violento e a reescritura do enredo familiar. O resultado, uma prosa a um só tempo lírica e ensaística, lembra belos filmes platinos como O segredo dos seus olhos.

OPINIÃO: Por algum tempo andei a resistir a esta leitura. Olhava para o livro, ele olhava para mim, mas havia um entendimento qualquer que teimava em não se alinhar. Eu não compreendia muito bem porquê, já que o interesse em lê-lo foi meu. Fui eu que provoquei o nosso encontro para depois nunca chegar realmente a comparecer, até Quinta-feira passada. Terminei-o ontem, mas tivesse havido tempo e tinha-o lido de uma só assentada. A Resistência, de Julián Fuks, é uma obra singular, desprovida de qualquer pretensão, e, talvez por isso mesmo, gigante por si mesma. Consegue, em tão poucas páginas, conter universos emocionais tão diversos, tão sentidos, tão em busca de um qualquer significado, que é impossível ficarmos-lhe indiferente.

Acho que esta leitura vai ser sempre uma experiência muito pessoal. Escrever sobre ela não é fácil, afinal, tal como está escrito a certa altura “cada linha tem um sentido duplo” e essa duplicidade vai ser inerente à experiência e sensibilidade de cada leitor. Cruzei-me com alguns textos sobre o livro e reparei que a impressão com que as várias testemunhas ficaram focavam-se em coisas diferentes, reforçando a opinião que já tinha ao final do livro. Esta história é uma espécie de auto-ficção, em que o escritor cruza acontecimentos reais da sua vida com ficção. O mote é a adopção do irmão do protagonista, mas à medida que avançamos na narrativa, são-nos apresentadas várias preocupações que não só essa.

A forma próxima com que o autor fala com o leitor, fez com que me sentisse a caminhar com ele pelos vários cenários, em bicos dos pés, oscilando na dúvida se devia de facto estar a assistir a episódios tão íntimos, a reflexões tão pessoais. Existe uma partilha tão intensa da dor, do esquecimento, da consciência atormentada pela dúvida, da procura de justificações para as suas acções e para as dos membros da sua família, que quando misturada com os factos históricos da altura, descritos pelo narrador, tudo se torna uma imensa tela cinematográfica que exala uma enorme energia de contenção e exploração pelo desconhecido.

Sei que escrevo meu fracasso. Não sei bem o que escrevo. Vacilo entre um apego incompreensível à realidade – ou aos esparsos despojos de mundo que costumamos chamar de realidade – e uma inexorável disposição fabular, um truque alternativo, a vontade de forjar sentidos que a vida se recusa a dar. Nem com esse duplo artifício alcanço o que pensava desejar. Queria falar do meu irmão, do irmão que emergisse das palavras mesmo que não fosse o irmão real, e, no entanto, resisto a essa proposta a cada página, fujo enquanto posso para a história dos meus pais. Queria tratar do presente, desta perda sensível de contacto, desta distância que surgiu entre nós [irmãos], e em vez disso me alongo nos meandros do passado, de um passado possível onde me distancio e me perco cada vez mais. 

Sei que escrevo meu fracasso. Queria escrever um livro que falasse de adoção, um livro com uma questão central, uma questão permente, ignorada por muitos, negligenciada até em autores capitais, mas o que caberia dizer afinal? Que incerta verdade sobre essas vidas que não conheço, marcadas por um ínfimo abandono inaugural, talvez nem mesmo abandono, talvez mera contingência pessoal, fortuita como outras, arbitrária como outras, semelhantes a que mais?

(…)Com este livro não serei capaz de tirá-lo [ao irmão] do quarto – e como poderia, se para escrevê-lo eu mesmo me encerrei? Agora não sei mais por onde ir. Agora paraliso diante das letras e não sei quais escolher. Agora sim, por um instante, posso sentir: queria que meu irmão estivesse aqui, a pousar sua mão sobre minha nuca, a apertar o meu pescoço com os seus dedos alternados, tão suaves, tão sutis, a indicar a direcção que devo seguir. 

Reconheci-me muito na temperança, na hesitação, e ao mesmo tempo no avanço determinado que Sebastian manteve na convicção de que este livro tinha que ser escrito. Julián Fuks é alguém que merece ser lido, que transporta consigo uma riqueza sublime no que à comunicação com o leitor diz respeito. A humanidade de A Resistência reforça um vínculo necessário e urgente nos romances actuais. Acho que cada vez mais o leitor procura um reconhecimento pessoal, íntimo, nas páginas que lê, ainda mais do que um final feliz ou uma qualquer fantasia dada como improvável na vida real. E é fácil harmonizarmo-nos com Fuks. Recomendo.

PS: A Resistência ganhou o prémio de Livro de Ficção do Ano. no Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira. 

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Opinião: Nem todas as baleias voam, de Afonso Cruz https://branmorrighan.com/2016/11/opiniao-nem-todas-as-baleias-voam-de.html https://branmorrighan.com/2016/11/opiniao-nem-todas-as-baleias-voam-de.html#respond Fri, 18 Nov 2016 09:12:00 +0000
Nem Todas as Baleias Voam

Nem todas as baleias voam
Afonso Cruz

Editora: Companhia das Letras

OPINIÃO: Não sei se existe algum outro autor que me cause uma urgência tão grande de leitura como Afonso Cruz. Não, não lhe chamaria obsessão, mas antes uma necessidade visceral. Há qualquer coisa na escrita de Afonso Cruz que, mesmo variando a temática e o formato (afinal escreve desde livros infantis a enciclopédias, passando pelos romances, em que por vezes não se sabe bem se são para adultos ou crianças, mas que na verdade apenas significa que são para todos), me tocam profundamente. Nem todas as baleias voam, o seu mais recente romance, não é excepção a este toque de midas literário. Aliás, dada a minha recente ligação mais intrínseca à música, raras não foram as vezes em que senti de sobremaneira algumas passagens. 

Esta é uma obra que volta a cruzar uma série de géneros: o romance romântico, o toque de thriller com laivos de espionagem, inevitavelmente o romance histórico e, claro, a poesia. Não é fácil falar sobre um livro de Afonso Cruz porque, após terminada a leitura, parece não haver palavras capazes de fazer jus ao que realmente se sentiu durante a leitura. Para não falar na genialidade com que o cruzamento de histórias e o entrelaçar de personagens é feito. Não só dentro do próprio Nem todas as baleias voam, mas também com outras obras suas. Há nomes que poderão ser mais familiares que outros, mas a sensação que dá, a cada nova história, é que toda a obra de Afonso Cruz não passa de uma grande família da qual ainda conhecemos pouquíssimo, mas que sem sombra de dúvidas queremos conhecer por completo. 

Gostei da forma como Nem todas as baleias voam me fez voltar a ouvir alguns clássicos do jazz, a forma como me fez sorrir, como me levou as lágrimas aos olhos, como me fez antecipar, em plenos sofrimento por um desfecho trágico, como depois senti algum alívio, como pelo meio fiquei completamente assombrada pela teia que se encontrava escondida até então… Podia ficar aqui por muito mais linhas, mas acima de tudo acho que é um livro que deve ser lido. Que deve sair das prateleiras das livrarias e habitar as mesinhas de cabeceira para depois ganhar uma nova vida na nossa imaginação, para que depois sintam o contributo sensível e brutal com que este livro nos presenteia. 

Queria contar-vos sobre a caixinha de sapatos para os doentes terminais. Do quanto nos questionamos o que é que realmente colocaríamos lá. Gostava de vos falar sobre o amor de Erik Gould, inabalável, infinito, tão vivo que toda a sua obra cresce tanto com a intensidade do mesmo como com o sofrimento atroz da ausência. Adorava que conhecessem Dresner e a razão do seu coxear. Oxalá pudéssemos todos ver as emoções tomarem forma e sermos capazes de enfrentar e acarinhar a nossa morte como Tristan. E preparem-se, o Escritor não vai ser nada daquilo que ao início podiam pensar. No fundo, quem me dera que realmente a música resultasse como solução de guerras que só o homem cego teima em perpetuar. Não quero falar-vos mais sobre a vida deste romance, quero que o leiam, quero se transportem para lá, quero que o sintam. Afonso Cruz é, para mim, o mais completo dos escritores portugueses da actualidade. 

Genuinamente, acreditavam poder, com este programa, vencer a Guerra Fria, ao evangelizarem uma juventude de Leste que ouvia música erudita mas tinha pouco contacto com outros géneros musicais, especialmente o jazz.

Este facto parece-me uma das ideias mais fantásticas da Humanidade: pretender conquistar o mundo através da música, em vez de, por exemplo, fazer explodir Hiroxima ou invadir o Iraque. A música tem um enorme poder transformador, quase imediato. É uma das poucas artes, senão a única, capaz de nos fazer mexer o corpo, de nos pôr a dançar, de provocar a catarse ou o êxtase. (…) O programa americano pode ter falhado – o Muro só viria a cair muitos anos depois -, mas a esperança que esteve na sua base, ainda que utópica, não deixa de ser maravilhosa: a possibilidade de uma guerra poder terminar num baile em vez da explosão de bomba de hidrogénio.

Sobrevivi a quatro mil toneladas de bombas atiradas contra Dresden, sobrevivi ao Holocausto, sobrevivi ao capital e aos programas de televisão. Sobrevivi. Ou seja, tenho vindo à tona, como uma baleia. Mas a maldade, de alguma maneira aberrante e perversa, é uma espécie de estrume. E a vida, por mais incompreensível que seja na sua génese e no seu cumprimento, nasce disso, da terra, do barro, da lama, da merda, se me permite a expressão, faz-nos medrar, e eu, envergonhado, contido, penso que é a maldade a terra mais fértil para a bondade e que o contacto com o fel faz nascer a coisa mais doce. Acho que todos mudamos em contacto com o mal. É o motor. Sei que é horrível, mas o que fazer? Todos os dias rezo para que o mal não deixe de aparecer na minha vida, ao mesmo tempo que o abomino. Adonai, afastai de mim todo o mal, Adonai, aproximai de mim todo o mal. Quando deixar de o fazer, de sentir a corrupção, quando não detectar o mal à minha volta, mais vale estar morto.

Se Tristan soubesse verbalizar as suas emoções, seria assim: Estou à espera de que a felicidade comece a crescer como os bebés no útero das mãos e que um dia nasça e chore e queira mamar e nós eduquemos a felicidade e a levemos à escola para que saiba ler as letras das nossas veias e fazer contas de multiplicar com a nossa saliva, estou à espera de um beijo daqueles que são dirigidos somente a uma pessoa, e não daqueles que se dão a pensar em alguém que está longe, estou à espera que o dia chegue ao fim e que não comece outro, porque os dias são uma chatice. Mas Tristan não saberia verbalizar as suas emoções, portanto: 

– Ia comer primeiro.

(…) eram isso os fantasmas, restos das pessoas que amámos, e a nossa casa ficava assim, repleta de assombrações modernas e antigas, densas e subtis. Tínhamos um protocolo com a memória, tínhamos assinado, juntamente com a dádiva da vida, o compromisso de carregar os mortos no nosso corpo, nos móveis da casa, nas paredes e na luz esmaecida dos candeeiros de estanho e de cobre, e cumpríamos esse contrato com um rigor e uma ética absolutamente notáveis, a ponto de, tantas vezes, chorarmos sem qualquer razão aparente.

PS: Este texto só foi possível escrever não por causa do jazz, mas por causa do novo disco do André Barros – In Between.

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Opinião: O meu nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout https://branmorrighan.com/2016/10/opiniao-o-meu-nome-e-lucy-barton-de.html https://branmorrighan.com/2016/10/opiniao-o-meu-nome-e-lucy-barton-de.html#respond Mon, 31 Oct 2016 12:30:00 +0000

O meu nome é Lucy Barton

Elizabeth Strout

Editora: Alfaguara

Sinopse: Lucy Barton está numa cama de hospital, a recuperar lentamente de uma cirurgia que deveria ter sido simples. As visitas do marido e das filhas são escasssas e pouco aproveitadas por Lucy. A monotonia dos dias de hospital é quebrada pela inesperada visita da mãe, que fica cinco dias sentada à sua cabeceira. Mãe e filha já não se falavam há anos, tantos quantos os que Lucy passou sem visitar a casa onde cresceu e os que a mãe passou sem a visitar em Nova Iorque, nem sequer para conhecer as netas.

Reunidas, as duas trocam novidades e cochichos sobre os vizinhos de infância de Lucy, mas por baixo da superfícies plácida da conversa de circunstância pulsam a tensão e a carência que marcaram a vida de Lucy: a infância de pobreza e privação no Illinois, a vontade de ser escritora e a desconfortável sensação de não pertencer a lado nenhum, a fuga para Nova Iorque e a desintegração silenciosa do casamento, apesar da presença luminosa das filhas. Com um passado que ainda a atormenta e o presente em risco iminente de implosão, Lucy Barton tem de focar para ver mais longe e para voltar a pôr-se de pé.

Mais do que uma história de mãe e filha, este é um romance sobre as distâncias por vezes insuperáveis entre pessoas que deveriam estar próximas, sobre o peso dos não-ditos no seio das relações mais íntimas e sobre a solidão que todos sentimos alguma vez na vida. A entrelaçar esta narrativa está a voz da própria Lucy: tão observadora, sábia e profundamente humana como a da escritora que lhe dá forma.

Opinião: Tenho de admitir, tenho sido sortuda com “os chamamentos” dos livros nas últimas semanas. Acontece que não tenho tido muito tempo para ler e o máximo que tenho conseguido é um livro por semana, a grande maioria do livro lido ainda no fim-de-semana. De Segunda a Sexta o meu dia vai muitas das vezes das 6h até perto da meia-noite e mesmo quando tenho tempo para ler antes de dormir, nunca é muito mais do que meia dúzia de páginas. A exaustão tem vencido sempre. Mas depois encontramos livros como o da semana passada, Cheio de Vida, de John Fante, ou este, O meu nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout. 

Na minha opinião, O meu nome é Lucy Barton é uma obra essencial. Não porque a autora ganhou um Pulitzer, mas porque nesta centena e meia de páginas consegue tocar em vários nervos que várias pessoas do sexo feminino têm como sensíveis. O que há de mais delicado que a relação entre uma mãe e uma filha. Por vezes temos aqueles casos em que mãe e filha são inseparáveis, confidentes, melhores amigas. Porém, também temos os casos em que a interacção entre ambas se torna uma espécie de tabu, com mais assuntos não falados do que aqueles que emergem, e mesmo estes últimos parecem quase forçados. 

A narrativa passa-se quase toda a partir da cama de hospital onde Lucy Barton se encontra e onde testemunhamos a sua mãe a passar noite após noite sentada numa cadeira de hospital, recusando-se a dormir numa cama de apoio ou noutro sítio que não ali. A sinopse é bastante reveladora quanto ao conteúdo do livro, mas mais do que a solidão e a carência sentida por parte de Lucy Barton, o que mais me marcou foram as suas ramificações e os seus reflexos na sua vida adulta. A protagonista teve uma infância que muitos poderão considerar traumática, cheia de zonas cinzentas, asfixiante e, por vezes, aterradora. Segundo a mãe, ainda assim ela foi a única que seguiu em frente e que conseguiu: tanto a sua irmã como o seu irmão parecem ainda presos a esses tempos. E Lucy reflecte sobre isso, ao mesmo tempo que salta entre o passado e o tempo pós-hospital. 

Em grande parte da escrita existe uma dor tão latente, tão visceral, que a ideia com que fiquei é que apesar da sua vida seguir em frente, ela não consegue parar de saltar entre os vários momentos da sua vida, bons e maus, reconstruindo o presente a partir do que sobreviveu de cada um desses momentos. Não é que ela não saiba quem é e qual o seu papel, apenas a sua história de vida está vividamente gravada no seu ADN. E depois temos ainda o papel invertido, se bem que pouco explorado, quando a relação com as suas filhas deixa de ser o que ela ambicionava que fosse. Foi a minha estreia a ler esta autora, não sei se existe alguma outra obra possivelmente relacionada com esta, mas que teria panos para mangas para outras ramificações, lá isso tinha. 

Uma coisa é certa. Tenho a certeza que diferentes pessoas terão diferentes interpretações de tudo o que está ali escrito. Acho, honestamente, que pode haver até casos de pessoas que ao se referirem a este livro pensam que se estão a referir a livros diferentes. Existe tanto por onde pegar, por onde analisar, se quisermos escrutinar a obra ao máximo, que no fundo o que é fascinante é que tudo isto é provocado numa história curta e directa. Deixo-vos com uma passagem com a qual penso que muitos amantes de literatura, escritores e/ou aspirantes a, se possam identificar:

(…) os livros trouxeram-me coisas. É aqui que quero chegar. Fizeram-me sentir menos só. E eu pensei: vou escrever e as pessoas não vão sentir-se tão sós!(Mas era um segredo meu. Mesmo depois de ter conhecido o meu marido, não lhe contei logo. Não conseguia levar-me a mim própria a sério. Só que levava. Secretamente, secretamente, levava-me muito a sério! Eu sabia que era escritora. Não sabia quão difícil seria. Mas isso ninguém sabe; e não importa.

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Vencedores do Passatempo Especial Penguin Random House Grupo Editorial https://branmorrighan.com/2016/07/vencedores-do-passatempo-especial.html https://branmorrighan.com/2016/07/vencedores-do-passatempo-especial.html#respond Sat, 02 Jul 2016 19:33:00 +0000

Viva! Cá estamos para anunciar mais vencedores, desta vez para o pack da figura. Cada livro terá um vencedor correspondente! Este passatempo contou com 858 participações e os vencedores escolhidos através do random.org foram:

A Livraria dos Finais Felizes: Ana Manuela Coelho Ferreira, 416

O Pacto: Joana de Almeida Victor Carvalho Lage, 587

A Vida é Fácil, não te preocupes: Catarina Azevedo Passão, 512

Dicionário de Sonhos: André Daniel Cerejo da Silva, 516

Parabéns! Têm um mail na vossa caixa de correio para responderem com os vossos dados para que os livros possam ser entregues. Obrigada a todos mais uma vez e em breve mais passatempos.

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Passatempo Especial Penguin Random House Grupo Editorial https://branmorrighan.com/2016/06/passatempo-especial-penguin-random.html https://branmorrighan.com/2016/06/passatempo-especial-penguin-random.html#comments Tue, 14 Jun 2016 11:08:00 +0000

Junho é o mês do meu aniversário, mas eu gosto é de oferecer livrinhos! Por isso temos mais um belíssimo passatempo com a parceria incansável do Penguin Random House Grupo Editorial, chancelas Suma de Letras e Arena. Em sorteio estão os livros do pack da figura, um exemplar por vencedor. No formulário poderão indicar a vossa preferência. Ou seja, quatro livros, quatro vencedores.

Para se habilitarem a ganhá-los basta preencherem correctamente o formulário com as seguintes regras:

– O passatempo termina às 23h59m de 1 de Julho

– Podem participar UMA vez por dia

– Só são aceites participações de Portugal

– Têm de preencher correctamente o formulário

– Partilhar nas redes sociais não é obrigatório, mas agradece-se a divulgação

Boa Sorte!

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Brevemente – Teaser 1 https://branmorrighan.com/2016/03/brevemente-teaser-1.html https://branmorrighan.com/2016/03/brevemente-teaser-1.html#respond Fri, 04 Mar 2016 12:38:00 +0000

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Em Fevereiro, pela Suma de Letras: A Vida é Fácil, Não te Preocupes, de Agnes Martin-Lugand https://branmorrighan.com/2016/02/em-fevereiro-pela-suma-de-letras-vida-e.html https://branmorrighan.com/2016/02/em-fevereiro-pela-suma-de-letras-vida-e.html#respond Mon, 29 Feb 2016 09:43:00 +0000

A VIDA É FÁCIL, NÃO TE PREOCUPES

De Agnes Martin-Lugand

A autora de Pessoas Felizes Lêem e Bebem Café

Chancela: Suma de Letras

ISBN: 978 989 6650 346

232 Páginas

PVP c/IVA: 15,90€

LIVRO

Desde o seu regresso da Irlanda, Diane virou a página da sua tumultuosa história com Edward, determinada a reconstruir sua vida em Paris. Com a ajuda do seu amigo Felix, lança-se de cabeça na compra e abertura do seu café literário. E é aí, em As pessoas felizes lêem e bebem café, o seu refúgio, que conhece Olivier. É simpático, atencioso e principalmente compreende e aceite a sua recusa em ser mãe novamente. Diane sabe que nunca vai se recuperar da perda da sua filha.

No entanto, um evento inesperado muda tudo: as certezas de Diane, as suas escolhas, pelas quais tanto lutou, vão entrar em colapso, uma após a outra.

Será que Diane tem a coragem necessária para aceitar um outro caminho?

AUTORA

Agnès Martin-Lugand, nascida em Saint-Malo, é uma escritora francesa e um fenómeno editorial. Psicóloga clínica com seis nos de experiência, auto-publicou o seu primeiro romance As pessoas felizes lêem e bebem café, em França, em 2013, (lançado em Portugal em 2014) e, dado ao seu enorme sucesso, entrou rapidamente para o mundo editorial tradicional. Os direitos de tradução foram vendidos para 16 países e, em breve, a história será adaptada ao cinema.

“Martin-Lugand analisa e disseca com fineza, humor e ternura os mecanismos da alma humana para nos entregar histórias que nos falam directamente ao coração.” Blog Le Baiser de la mouche

O QUE OS LEITORES DIZEM

“Se gostou de As pessoas felizes leia rapidamente A vida é fácil. As personagens, a história e a escrita são fiéis à primeira parte. Uma óptima sequela. Adorei”.

“Delicado, simples, vai directo ao coração! Um desses livros que temos muita pena de acabar. Uma grande história com personagens muito cativantes.”

“Ainda melhor do que o primeiro. Uma história maravilhosa. Uma leitura fácil e agradável. Difícil de deixar. Impaciente por ler mais livros desta autora.”

“Amei, mais ainda do que o primeiro. A vida é fácil é mais memorável. Não consegui de parar de o ler até o terminar.”

“Um livro cheio de emoções, uma escrita simples e cativante e um final que nos lembra que tudo é possível.”

“Um bom romance cheio de sentimentos, de sensibilidade… e relaxante. Uma pequena história que nos faz muito bem ao coração e à cabeça.”

“Uma segunda parte que não decepciona. Espero que a autora continue a escrever histórias destas.”

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Acabei de Ler: Nós os Dois, de Andy Jones https://branmorrighan.com/2016/02/acabei-de-ler-nos-os-dois-de-andy-jones.html https://branmorrighan.com/2016/02/acabei-de-ler-nos-os-dois-de-andy-jones.html#respond Mon, 08 Feb 2016 20:07:00 +0000

Nós os Dois

Andy Jones

Editora: Suma de Letras Portugal

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Eu sei, devia voltar ao formato opinião antigo, mas a verdade é que acabei mesmo agora de ler este livro e veio-me o impulso de escrever logo umas linhas sobre o mesmo. Virei a última página e fiquei tão confusa que às tantas parecia que ia chorar a rir, ou rir a chorar, não sei bem, ao mesmo tempo que me apetecia mandar uma quantidade imensa de palavrões cá para fora. Não foi uma leitura tão linear como ao início estava à espera e, embora não tivesse expectativas nenhumas, a verdade é que Nós os Dois foi um livro que, não sendo genial, me tocou verdadeiramente.

Ao início, o enredo parecia um pouco banal, nada de extraordinário, mas à medida que a história avança e nos vamos apercebendo de pequenos pormenores, há qualquer coisa que se começa a agitar dentro de nós. Fisher e Ivy são o casal protagonista, mas depois conhecemos também El e Phill, Esther e Nilo, e embora os últimos dois não tenham o “peso” dos primeiros, são elementos-chave no que toca ao que diferencia este romance de tantos outros. Pelo menos na minha opinião, claro. Temos ainda Joe, colega/chefe de realização de Fisher, e Suzy, que vieram a desempenhar um papel mais importante do que se calhar muitos leitores poderão dar conta.

Esta é a história de um casal que se conhece, que se apaixona automaticamente e fervorosamente, e que vive umas semanas dignas de lua-de-mel. O voltar à vida real traz consigo umas quantas questões, principalmente quando ambos dão conta que as suas vidas estão prestes a mudar… drasticamente! Ainda bem que a sinopse disponibilizada é tão curtinha, aconselho a que não procurem muito mais sobre o livro se estão a pensar lê-lo, porque honestamente o que não está lá é o que realmente importa. E a descoberta, o caminho que percorremos com os protagonistas, tem tanto de fascínio como de assombro, principalmente se formos reconhecendo algumas coisas pelo caminho. 

É um romance romântico, sim, mas é tão humano, tão comovente e ao mesmo tempo revoltante, que dei por mim a devorá-lo em, literalmente, três tempos (dias). Embora possa parecer um pouco marginal, tenho de destacar a mestria do autor na teia de El e Phill, na visão que nos é mostrada do ponto de vista de Fisher e na impotência provocada no leitor. Mesmo sendo secundário, El foi dos personagens que mais mexeu comigo. E nessa mesma linha do assistir e não poder intervir, tenho alguma dificuldade em falar de Ivy. Acho que lendo o livro perceberão porquê. Tentei colocar-me no lugar dela página após página e não foi nada fácil. Na última meia centena de páginas tornou-se quase insuportável. Ainda assim, a coisa boa de Nós os Dois é que, tal como na vida real, há sempre esperança de que algo se endireito, algo se concerte dentro de nós e que volte a fazer sentido. 

Embora tenha saído em tempo oportuno, perto da altura do Dia dos Namorados, acho que esta é uma obra a ser lida em qualquer altura. Fará recordar várias paixões, as suas diversas fases, mas também terá emoção suficiente para que em certas alturas nos recordemos que esta podia ser a nossa história. Poder-se-ia dizer que este é um romance onde as imperfeições humanas dão uma beleza única à história que conta. Gostei.

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