RA – Bran Morrighan https://branmorrighan.com Literatura, Leitura, Música e Quotidiano Mon, 28 Dec 2020 05:36:00 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 https://branmorrighan.com/wp-content/uploads/2020/12/cropped-Preto-32x32.png RA – Bran Morrighan https://branmorrighan.com 32 32 [AGENDA] Daniel O’Sullivan + Ricardo Remédio | St. George Church | 08 de Outubro | 19 horas https://branmorrighan.com/2017/10/agenda-daniel-osullivan-ricardo-remedio.html https://branmorrighan.com/2017/10/agenda-daniel-osullivan-ricardo-remedio.html#respond Sat, 07 Oct 2017 11:01:00 +0000

Daniel​ ​O’Sullivan​ ​|​ ​Ricardo​ ​Remédio

8 de OUTUBRO | 19.00 | IGREJA ST. GEORGE | LISBOA

Daniel​ ​O’Sullivan

Poucos, muito poucos aliás, serão os artistas que se poderão genuinamente afirmar como criadores de um universo próprio e que cruze com inegável mestria e sensibilidade diferentes formas de expressão artística. Daniel O’Sullivan é um deles. Veld​, o mais recente trabalho de Daniel comprova-o sem a mais ínfima ponta de incerteza. Veld, obra de sortilégios pop, música electro-acústica e de cintilantes reverberações drone, simultaneamente denso e alusivo com encantadores derivações sónicas, mantras hipnóticos e estranhos ritmos biomecânicos. Veld foi escrito e gravado entre 2010 e 2016 enquanto Daniel vivia em Tower Gardens Road (Londres), exactamente no mesmo período em que colaborava com outros projectos: Grumbling Fur (com Alexander Tucker) e Laniakea (com Massimo Pupillo, dos Zu). Este foi também o local onde Daniel editou e tratou dos arranjos de ATGCLVLSSCAP dos Ulver e dos dois últimos álbuns de Æthenor (Daniel “compositor automático” do grupo juntamente com Stephen O’Malley dos Sunn O))) e Steve Noble). A casa de Tower Gardens funcionou como um mundo paralelo, um oásis místico e de uma certa estranheza nos subúrbios do norte de Londres. O ecletismo do seu trabalho encontra-se intrinsecamente unido pelo seu amor à bricolage, ao seu fascínio pelo desenho dos sons e ideias provenientes de múltiplas fontes e universo estético multifacetado que convergem para uma órbita partilhada.

‘O’Sullivan’s​ ​dream​ ​pop​ ​mantras​ ​casually​ ​open​ ​up​ ​portals​ ​into​ ​other​ ​dimensions.’​ ​UNCUT ‘…richly​ ​textured​ ​album​ ​brimming​ ​in​ ​lush​ ​sonic​ ​detail’​ RECORD COLLECTOR mothlite.blogspot​.com | facebook​.com/mothlite

Ricardo​ ​Remédio

Amplamente conhecido como membro fundador de LÖBO, Ricardo Remédio fez nascer a solo RA no qual surgiu “Rancor”, EP lançado pela Lovers & Lollypops. Nomes como JK FLESH, Daniel O’Sullivan, Necro Deathmort e Blac Koyote, foram responsáveis pelas quatro remixes, lançadas em 2014, complementando e reinterpretando cada faixa. Mais tarde decide arriscar na produção musical como figura homónima, através de “Natureza Morta”. Ricardo Remédio contou com a participação de Daniel O’Sullivan na produção e James Plotkin na masterização. facebook.com/ricardoremediomusic​ ​| soundcloud​.com/ra-doom

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[Playlist da Quinzena] 15 a 30 de Setembro de 2014 – As Escolhas de Ricardo Remédio (RA) https://branmorrighan.com/2014/09/playlist-da-quinzena-15-30-de-setembro.html https://branmorrighan.com/2014/09/playlist-da-quinzena-15-30-de-setembro.html#respond Tue, 16 Sep 2014 00:00:00 +0000

1. Fever Ray – “Concrete Walls”

Um dos meus álbuns favoritos da última década. Rodou constantemente na altura que esta a compor para o meu primeiro EP.

2. Ben Frost – “Venter”

Lembro-me da primeira vez que ouvi o Ben Frost numa viagem do trabalho até casa. A certa altura tive que parar o carro e deixar o álbum acabar pois não acreditava no que estava a ouvir. Venter faz parte do último álbum e mostra provavelmente como soaria uma festa rave no fim do mundo.

3. Roly Porter – “Tleilax”

Descobri de 2014 apesar de ele já andar por aí à algum tempo – passou inclusivé no Semibreve – e eu já devia ter a obrigação de o conhecer. O último albúm – “Life Cycle Of A Massive Star” é tão grandioso como o titulo sugere.

4. Grumbling fur – “Ballad of roy batty”

Pegar numa das mais fortes citações do cinema moderno e fazer-lhe um tributo à altura não é para todos. Admito que emocionei-me quando ouvi pela primeira vez. Grande Daniel O’Sullivan

5. Cult of Luna – “Passing Through”

Apesar de ouvir menos música pesada do que ouvia à uns anos, os Cult of Luna continuam a ser uma referência para mim e das minhas bandas favoritas. Voltam cá dia 5 de Outubro ao Amplifest, assim como Ben Frost.

6. Jesu – “Silver”

Outra das minhas referências – Justin K Broadrick mais conhecido pelos grandes Godflesh aqui a mostrar que a distorção e a beleza não precisam de estar de costas voltadas.

Fotografia Pedro Roque

Ricardo Remédio, mais conhecido no mundo da música por RA, é um dos grandes nomes da nossa música electrónica. Rancor, o seu primeiro EP, já tem dois anos e esperamos agora, ansiosamente, que saia um novo trabalho. Entretanto, e para ir mitigando um pouco essa falta que sentimos da sua música, este foi-nos dando a conhecer os remixes feitos das faixas do EP, que podem ser encontrados aqui: 

http://www.branmorrighan.com/search/label/RA

É o meu segundo convidado para criar uma playlist aqui no blogue, pois admiro sinceramente o seu trabalho e sou uma daquelas pessoas que o chateiam com a típica pergunta “Para quando?”. Fica também aqui o link caso queiram directos ir à entrevista que o Ricardo deu ao Morrighan no início do ano: http://www.branmorrighan.com/2014/02/entrevista-ricardo-remedio-ra-musico.html

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Último Remix de Rancor – RA – «O Inferno São Os Outros» pelos Necro Deathmort https://branmorrighan.com/2014/07/ultimo-remix-de-rancor-ra-o-inferno-sao.html https://branmorrighan.com/2014/07/ultimo-remix-de-rancor-ra-o-inferno-sao.html#respond Wed, 23 Jul 2014 18:54:00 +0000

RA | «O Inferno São Os Outros» • Remix de Necro Deathmort

[artwork acima, criado por Marta Macedo]

Quando Sarte afirmou que o inferno mora no alheio, de indirecta forma depositou em nós o ónus da culpa. Apontou a víbora e o seu veneno, mas logo nas entrelinhas perguntou a razão de nos deixarmos morder pelo escárnio e maledicência. Vivemos das palavras alheias. De portas escancaradas para a aflição.

RA encontra-se na ausência verbal, onde a sintaxe punitiva dá lugar à electrónica desumanizante. O EP de estreia, ardósia digital de quatro movimentos, fecha com «O Inferno São Os Outros» – construção agora refundida nos sombrios alicerces dub de Necro Deathmort.

Os britânicos assinam a derradeira remix extraída desse primeiro passo discográfico, após Daniel O’Sullivan, Blac Koyote e Justin K Broadrick terem chefiado as restantes.

RA | BandcampFacebook

Entrevista dada ao Morrighan: http://www.branmorrighan.com/2014/02/entrevista-ricardo-remedio-ra-musico.html

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[DESTAQUE] RA | «Paz Podre» • O remix por Justin K Broadrick [Godflesh, Jesu] – artwork por João Pedro Fonseca https://branmorrighan.com/2014/06/destaque-ra-paz-podre-o-remix-por.html https://branmorrighan.com/2014/06/destaque-ra-paz-podre-o-remix-por.html#respond Mon, 23 Jun 2014 11:11:00 +0000

RA | «Paz Podre» • Remix por Justin K Broadrick 

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https://soundcloud.com/ra-doom/paz-podre-jk-flesh

[artwork acima, criado por João Pedro Fonseca]

Se a História não mais for do que a cíclica reincidência de acontecimentos, um taxativo sublinhar do Eterno Retorno, respiramos hoje a férrea poeira da Pax Romana – pétrea e milenar. Esse putrefacto sossego, de quem cala na ansiedade e estoicamente resiste ao medo abraçado, nutre «Paz Podre», o terceiro tema do debutante EP de RA.

Pedagogo niilista, Justin K Broadrick [Godflesh, Jesu], via codificações morse feitas a drum machine, tacteia a opressão existencial como poucos. O esquálido profeta do nada, sob a entidade JK Flesh, reinterpreta agora, numa lânguida e robótica semiologia, «Paz Podre» – sete sibilantes minutos daí resultam, vagos na dissonância e concretos na inquietação.

Esta é a penúltima de quatro remixes que RA, projecto de Ricardo Remédio, difunde. A primeira, construído pelas apátridas mãos de Daniel O’Sullivan [Ulver, Mothlite, Grumbling Fur], mostrou-se a 23 de Abril. A segunda, lapidada por Blac Koyote, eclodiu a 23 de Maio. Resta uma.

RA | BandcampFacebook

Entrevista a Ricardo Remédio aqui no blogue: http://www.branmorrighan.com/2014/02/entrevista-ricardo-remedio-ra-musico.html

Entrevista a João Pedro Fonseca aqui no blogue: http://www.branmorrighan.com/2014/02/entrevista-joao-pedro-fonseca-artista_18.html

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RA – Novo Remix | «Rancor» • O remix por Blac Koyote | artwork João Pedro Fonseca https://branmorrighan.com/2014/05/ra-novo-remix-rancor-o-remix-por-blac.html https://branmorrighan.com/2014/05/ra-novo-remix-rancor-o-remix-por-blac.html#respond Mon, 26 May 2014 11:43:00 +0000

RA | «Rancor» • Remix por Blac Koyote

artwork por João Pedro Fonseca

Se a palavra persistência, no esgar de uma neolinguística por descobrir, transcrita fosse numa mecânica palpitação, «Rancor» dar-lhe-ia o significado. O tema-título do primeiro EP de RA, há dois anos nascido, comunica-nos essa obstinação de a carne lancetar para, numa ecdise perpétua e instintiva, ir além do que é humano, demasiadamente humano.

Sob o vínculo de uma ligação não-verbal, RA encontrou nas siderais roldanas de Blac Koyote um semelhante – neste remix, José Alberto Gomes despoja «Rancor» da noctívaga ânsia original para logo lhe descerrar as portadas de uma manhã tingida a silêncio. [A remistura integra o alinhamento de «Quiet Ensembly», o novo LP de Blac Koyote.]

Esta é a segunda de quatro remixes que RA, projecto de Ricardo Remédio, difunde. A primeira, construído pelas apátridas mãos de Daniel O’Sullivan (Ulver, Mothlite, Grumbling Fur), mostrou-se a 23 de Abril. Seguir-se-ão outras duas, a 23 de Junho e 23 de Julho, num tetralógico ciclo dedicado à redescoberta de «Rancor» EP.

RA | Bandcamp – Facebook

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Entrevista a Ricardo Remédio – RA – Músico Português https://branmorrighan.com/2014/02/entrevista-ricardo-remedio-ra-musico.html https://branmorrighan.com/2014/02/entrevista-ricardo-remedio-ra-musico.html#respond Sun, 23 Feb 2014 20:28:00 +0000 Ricardo Remédio, ex-teclista de LÖBO e actual protagonista de RA, aceitou sentar-se comigo à conversa para ficarmos a saber um pouco mais sobre ele e os seus projectos musicais. Acabei por descobri-lo noutra feliz coincidência, semelhante à do João Pedro Fonseca pois foi mesmo através deste último que acabei por descobrir RA. Na saga das entrevistas a artistas nacionais, aqui fica mais uma perspectiva interessante de alguém que fez parte de uma banda, tem agora um projecto a solo e tudo isto num registo musical que não faz parte, de todo, de grandes massas, mas que cuja força e projecção não deixa ninguém diferente. Conheçam então o Ricardo Remédio.

Sei que não gostas deste tipo de perguntas/pedidos, mas fala-nos um pouco sobre ti.

Ricardo Remédio. 27 anos. Português. Gosta de fazer barulho nos tempos livres. 

Quando e de que forma é que entraste no mundo da música?

Tinha 13/14 anos? Por volta disso. Lembro-me que pedi uma guitarra pelos anos e comecei por aí, algures numa garagem em Setúbal. A guitarra eventualmente foi deixada esquecida e comecei a brincar com efeitos/samples/sintetizadores, na altura sem perceber nada do assunto (e sem saber tocar). De uma forma ingénua mesmo. Ia mexendo em botões e tocando teclas, alterando sons que sacava da internet. Tive 1 ou 2 bandas que nunca saíram da sala de ensaio durante a adolescência comigo na voz e nos efeitos até que em 2008 surgiu LÖBO.

O teu percurso inicial é curioso. Começaste, aos 14 anos por comprar uma guitarra, depois por constatar que ser vocalista não era para ti, acabando por te renderes à música electrónica. O que é que a música electrónica te dá que as outras tentativas não te deram?

Uma maior amplitude de sons possíveis de fazer. Ou pelo menos sempre senti que mais facilmente conseguia transmitir os sons ou as imagens que tinha dentro da minha cabeça através de instrumentos electrónicos e efeitos do que através de um baixo, guitarra ou bateria. A ironia é que se calhar bem mais de metade das minhas influências/referências têm pouco ou nada a ver com música electrónica. Pelo menos dos géneros que estão associados normalmente a esse “chavão”. Mas acaba por ser um desafio, usar ferramentas e instrumentos electrónicos para tentar criar paisagens e sons se calhar não tão comuns nesse mundo. Todas aquelas máquinas à minha volta acabam por ser uma espécie de protecção que é diferente da exposição enquanto homem a liderar numa guitarra ou mesmo num microfone. Há um maior grau de controlo, uma maior segurança na exposição da música electrónica.

Começaste cedo, mas a primeira banda que te é conhecida é Lobo. Neste momento tens o teu projecto a solo RA. Quais as maiores diferenças entre fazer parte de uma banda e seres o único homem a bordo?

Liberdade nas decisões principalmente. Por poucas vezes senti-me completamente satisfeito com o processo criativo feito de maneira 100% democrática. Sempre senti que se tentamos agradar toda a gente e comprometer nunca chegamos a ter uma visão mesmo nossa. O próprio verbo comprometer em algo como a arte adquire sempre uma carga um pouco negativa para mim. É claro que deixa de haver aquela camaradagem que existe numa banda e se um concerto falha não tens ninguém para meter as culpas. És tu e só tu.

O projecto acabou em 2012, coincidindo com o ano em que RA surge com o seu primeiro EP. Alguma relação entre o fim de Lobo e o início de RA?

Os LÖBO acabam oficialmente em 2013, sendo que o EP de RA saiu em 2012. Mas não, acho que haja uma relação directa entre uma coisa e outra. Ainda há pouco tempo coloquei uns vídeos antigos no facebook de LÖBO e tiveram logo dezenas de likes e comentários. A solo ainda não consegui nada disso. Talvez RA a certa altura tenha parecido um projecto com mais futuro pois era novo e havia certas frustrações e dificuldades que estava a impedir que LÖBO estivesse a ser ou a satisfazer-me como que queria. A certa altura era só eu e mais um e às tantas estava a levar com o lado negativo da banda e o lado positivo de estar a solo. Fazer a gestão do esforço de conciliar os dois projectos, depender de outros para continuar com a banda e ao mesmo tempo manter RA estava a ser muito complicado. Apesar de tudo, sinto falta de tocar música mais extrema/pesada como a de LÖBO era.

Quem te descobre agora provavelmente não consegue imaginar o que significam as siglas RA. Lendo entrevistas anteriores tuas, descobri que significava Rei Abutre. Porquê esse nome e porquê a desassociação actual do mesmo?

Sempre preferi, para os meus projectos pelo menos, que a música fizessem o nome e não o nome fizesse a música, ou seja usar nomes ambíguos e que por si só não trouxessem muitas conotações ou imagens mentais e deixar que fosse a música e o imaginário da mesma criar essas imagens mentais. Quando estava a compor o EP “Rei Abutre” foi um nome que surgiu-me no contexto de um conto que estava tentar escrever. O nome ficou, o conto não. Na altura de dar um nome lembrei-me do nome mas cedo percebi que seria um nome que por ja ser forte e quiçá negro, ia condicionar já a maneira que o som seria ouvido. Dai ter escolhido um acrónimo do mesmo.

A desassociação.. bem não estou nem quero fingir a origem do nome mas é algo que é mais uma curiosidade que outra coisa. E estranhei terem pegue tanto nesse pormenor. E a verdade é que se quisesse que o nome do projecto fosse esse, não tinha mudado.

O primeiro EP chama-se Rancor e foi classificado como o 3º melhor de 2012 pelo site BandCom. Qual foi a receita do sucesso? Em que é que te inspiraste enquanto produzias as músicas?

Falar em receita de sucesso acaba por pressupor que houve um plano por detrás da construção tanto do projecto como das músicas. E a verdade é que não houve. Claro que a partir de certa altura comecei a perceber que talvez estivesse a compor algo interessante – senão não tinha lançado o EP – mas nunca pensei que tivesse a fazer algo mesmo de outro mundo. Acho que a atenção que possa ter tido é mais uma consequência de haver uma “cena” tão pequena em Portugal que facilmente reparam em ti – “Em terra de cegos que tem um olho é rei”. Em termos musicais tentei-me abstrair um pouco de influencias directas – elas por certo que encontraram o seu caminho inconscientemente – e foquei-me mais no que queria em termos sónicos. Sabia que queria que fosse agressivo, electrónico, algo que fosse duro.

Sei que andava a ouvir constantemente Fever Ray e Ben Frost. Também tive por pouco tempo interessado no género/subcultura do Witch House. Mas acho que o resultado final, para bem ou para mal, está bem longe dessas referencias.

Porquê o nome Rancor e os respectivos nomes tão próprios de cada faixa?

Primeiro que tudo é uma palavra forte não? Sendo a música instrumental sempre tive particular cuidado com o nome das faixas, evitando clichés e títulos aleatórios. Haverá obviamente parte de mim nesses títulos, estaria a mentir se dissesse que não. E acabou por ser um EP bastante pessoal nesse sentido mas a verdade é que a verdadeira inspiração foi a peça “Huis Clos” do Sartre. Um facto é que somos tão bombardeados sempre por temas em inglês, nomes em inglês, letras em inglês, que acho que fez todo o sentido atribuir os nomes em português. Não que seja nacionalista, mas se tenho essa oportunidade, ainda por cima de transmitir emoções e pensamentos fortes que raramente são exprimidos, porque não? 

Consideras-te um perfeccionista obsessivo?

Bem, perfeccionista… Para o ser tinha que trabalhar muito mais do que trabalho, por isso não posso dizer que o sou. Sou um pouco obsessivo sim e só estou bem quando sinto que estou a trabalhar e a fazer esta música. É claro que quero que tudo corra da forma que penso e que seja algo que esteja o mais orgulhoso possível. Se não sentir isso, nem vale a pena lançar nada.

A nível de público e de actuações ao público, como é que tem sido a recepção/interacção?

Os concertos têm servido para tentar evoluir e tentar perceber a melhor maneira de passar o som e o ambiente que tenho passado. Já tive experiências incríveis e… umas bastante más. Faz parte. Mas no geral tem sido tudo positivo! 

Créditos Pedro Roque

Tens actuado em vários locais já tidos como referências, como o Milhões de Festa, por exemplo, e foi no Zigurfest que te estreaste com um parceiro para a projecção visual, o artista João Pedro Fonseca. Como surgiu essa parceria e de que forma é que achas que a projecção visual pode complementar ou completar o que transmites sonoramente?

A parceria, vim mais tarde descobrir, surgiu da parte dele. Pelo que sei ouviu o meu EP e gostou e quis fazer algo. E concretizou-se no ZigurFest. E gostei tanto da experiência que se repetiu, noutro formato, mais recentemente no Musicbox. Sobre a questão do complemento confesso que tendo um background musical não ligado necessariamente à música electrónica, a ideia de um concerto a olhar apenas para um músico só, muitas vezes acompanhado com um portátil, não é a mais atractiva. E claro, contra mim falo. Daí achar que uma actuação, principalmente no live act com as minhas características, facilmente ganha com uma componente diferente, seja simples projecções seja algo mais vivo e mais real como foi a vez que o João Pedro simplesmente pintou um quadro ao vivo. E correu bem, tanto que tivémos vários convites para repetir a experiência. Alguns acabaram por não se concretizar, mas é algo que quero voltar a explorar no futuro, decididamente. 

Ainda em 2012 fizeste outra parceria para uma colectânea com Jibóia. Dado preferires trabalhar sozinho por te dar total liberdade e independência, como é que foi voltar a trabalhar com outro músico para um mesmo fim?

Foi um convite que surgiu através do site Bodyspace.net para comemorar os 10 anos de existência do mesmo. E foi uma óptima experiência. No inicio tinha um pouco esse receio mas foi dos músicos com que trabalhei em que a química/dinâmica melhor funcionou. Juntámo-nos numa tarde, correu bem e gravámos. Normalmente demoro semanas a gravar uma música, com ele foi numa tarde! Achei isso tão fantástico que cheguei a falar com o Jibóia em fazer mais meia dúzia de músicas, coisa que infelizmente depois não foi possível acontecer.

Numa outra entrevista tua, li que gostavas de fazer outro tipo de música fora a música electrónica. O que é que gostavas de experimentar produzir?

Acho que quem fica preso num ou nuns determinados géneros de música, como músico ou simplesmente ouvinte, vai aborrecer-se e vai estagnar. Penso que é sempre bom desafiarmo-nos a novos sons e tentar fazer coisas diferentes. Tendo isto dito há géneros de música que gostava um dia de um dia, mais a sério ou mais como experiência, experimentar a ver o que sai. Gostava de lançar algo apenas com um piano por exemplo. E por mais que se olhe para mim e não se imagine, há um baixista de puro rock aqui dentro a querer sair um dia destes.

Fazer/produzir música em Portugal pode ser uma actividade bastante ingrata. São poucos os músicos que podem fazer da música a sua única profissão. Que apoios é que achas que faltam, sejam governamentais ou não, para que essa situação possa mudar?

Na minha lista de coisas a mudar, acho que Portugal tem que mudar bastante e corrigir tanta coisa antes de chegarmos ao assunto “apoios para música”. Falar em apoios para música quando temos uma taxa de desemprego como temos e vivemos um dos momentos mais precários na história recente do pais é não ter noção do que se passa à nossa volta. Se é difícil viver da música no dias de hoje em Portugal? Claro, quase impossível diria. Mas hoje é difícil viver em Portugal, ponto final.

Achas que existe algum tipo de preconceito em relação a ser-se artista em Portugal?

Apesar do respondi acima, a verdade é que há coisas que podem e deveriam mudar e pouco ou nada tem a ver com questões governamentais mas mais da cultura (ou falta dela) de um povo. Digo muito que vivemos infelizmente num pais (e será porventura o ultimo) em que o termo artista e/ou intelectual é visto como um termo pejorativo. A arte é vista como um hobby excêntrico e quem o faz a tempo inteiro ou é maluco ou “deve andar a viver do estado”. Somos um povo muito pequenino nesse aspecto.

Sei que és um defensor da partilha digital grátis da música. Porquê essa postura?

Faço parte da geração que começou a “sacar” música com o napster por isso pirataria tem sido uma constante na minha vida.

Um músico, em 2014, tem que pensar que é algo inevitável (já o é à pelo menos 10 anos!) e deve preocupar-se mais em como usar a pirataria em seu proveito em vez de de manifestar-se contra a mesma. Hostilizar quem o faz ou fazer o discurso do coitadinho também não me parece muito sensato. E a pirataria tem feito um papel enorme na divulgação de novos artistas, acho que é um facto incontornável. E no que toca a prejudicar vendas.. bem talvez as bandas grandes tenham sido afectadas. Mas não me lembro de um “tempo áureo” em que pequenos músicos recebem fortunas por vendas de álbuns. Outro argumento que se diz é que a pirataria esta a matar o negocio da música. E nunca vi tanta gente, tantos géneros e tantos novos sons a aparecerem. Bem, talvez seja a matar o “Negócio” da música, mas a música de certeza que não.

Projectos para um futuro próximo?

Compor. Gostava de acabar o ano com um EP e um Álbum pelo menos compostos (de preferência gravados) mas o tempo o dirá. Mais vale um passo lento e seguro de cada vez do que correr e cair. Mas gostava sem dúvida de acabar o ano pensando que estou num ponto, como RA e pessoalmente, melhor do que comecei.

Perguntas Rápidas:

Artista favorito: Nine Inch Nails

Músico favorito: Trent Reznor

Pessoa que mais admiras: Essa pessoa sabe e é o que interessa.

Cidade que mais gostas: Coimbra

Combinação Prato + Bebida Ideal: Pizza fria às 3 da manha + resto de vinho

Local em que mais gostaste de actuar: Demasiados para especificar.

Pergunta da praxe: Já conhecias o blog Morrighan? Que mensagem podes deixar para os seus leitores?

Não conhecia confesso mas já tentei compensar o tempo perdido e dei por mim a ler alguns artigos. Gostei bastante.


Facebook RAhttps://www.facebook.com/ramusicpt?fref=ts

Bandcamp RAramusicdoom.bandcamp.com

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Obrigada, Ricardo, pela extrema simpatia e disponibilidade. 

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Entrevista a João Pedro Fonseca, Artista Português https://branmorrighan.com/2014/02/entrevista-joao-pedro-fonseca-artista_18.html https://branmorrighan.com/2014/02/entrevista-joao-pedro-fonseca-artista_18.html#comments Tue, 18 Feb 2014 18:55:00 +0000 Descobri virtualmente o JP numa feliz coincidência enquanto fazia a minha pesquisa para a entrevista aos Riding Pânico. O João estava como um dos administradores da página e não o tendo identificado como um membro da banda, armei-me em curiosa e fui averiguar a ligação que este teria à banda. A verdade é que actualmente não tem nenhuma, mas em compensação tem todo um portfólio que vale a pena descobrir, saborear e admirar. Ele pinta tradicional e digital, faz artworks para músicos, projecções visuais, escreve de vez em quando, entre outros. Vou-vos deixar com a entrevista dele que vale bem mais a pena ler do que qualquer coisa que eu tenha para vos contar mais. 

Olá João! O que é que nos podes contar sobre ti? Quem é o João Pedro Fonseca que aos 23 anos já conta com um portfólio tão variado?  

Bem, sendo o mais breve possível e não caindo no erro de escrever uma bíblia, sou um rapaz que cresceu em Lamego desde que me conheço a mim e à minha barba. Lá, fiz artes no secundário e mal acabei vim a correr para a FBAUL (Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa) tirar a licenciatura em pintura. No meio desta transição, conheci e vou conhecendo pessoas fantásticas que têm uma imensa influência nas minhas artes a nível cultural, intelectual, filosófico e experimental, pessoas que vivem na ânsia de viver, recheadas de vida e ensinos, que nunca param, e pessoas que ficam, que são hoje os meus amigos mais próximos, do qual a maior parte pertence à editora Zigur Artists (ZA). Com eles consegui explorar caminhos que nunca pensaria trilhar, inclusive o da música, performance e artworks gráficos, chegando mesmo a fazer parte de alguns projectos ao vivo, como Mr. Herbert Quain e C&C. O meu portfólio pode-se considerar variado porque vivo constantemente sedento de novos estímulos, explorar o máximo número de ferramentas onde me possa expressar, onde a insistência na exploração da ferramenta é às vezes mais exaustiva que o objectivo de chegar a um produto final. Muitas vezes, o meu conceito ideológico empregue num projecto acaba por se desmaterializar durante o processo dando algo que à priori nada tinha haver, é como estar a planear pintar uma maça e de repente dar por mim a deixa-la cair de um prédio de 26 andares só para registar o estilhaço. Acho que é mesmo este o à vontade na manobra de pensamentos e processos que me possibilita ter uma boa variedade de trabalhos.    

Foi em Novembro de 2009 que iniciaste oficialmente o teu percurso no mundo da arte. Quais é que foram os teus primeiros trabalhos? 

Exacto. Foi a data que marquei como início nas redes sociais não só porque fica bonito mencionar que tivemos uma fase de “salto artístico”, mas porque na realidade é mesmo verdade. Foi o ano em que travei grandes amizades que me fizeram crescer a todos os níveis e que hoje ainda preservo. Pessoas como o Afonso Lima , Manel Guimarães e o José Santos, são notáveis e talentosos que mais tarde fundariam a ZA. Os meus primeiros trabalhos foram todos eles centrados na procura da fórmula do realismo, entrar na mente dos grandes artistas que damos no ensino básico como Miguel Ângelo, Leonardo DaVinci, Rubens e etc… mas depois comecei a notar que faziam mil e uma teorias da conspiração desses artistas para vender livros. Achei isso uma atitude super moderna e foi então que me elucidei; estava no séc. XXI e tinha que deixar de ser um pré-velho-rezingão e modernizar-me, desprendi-me então dessa tentativa do procurar o realismo absoluto para dar lugar a outros conceitos mais exploradores, mas nunca sem deixar as habilidades aprendidas do realismo pois acho que é uma ferramenta incrível para ingressar mais facilmente por qualquer outro caminho artístico. Contudo, todo este processo de desprendimento foi gradualmente lento e de puros acasos na exploração dos materiais. 

Falaste na Zigur Artists, em que é que consiste esse projecto e qual o teu papel nele? 

Como diz a descrição “Somos um colectivo de artistas e uma netlabel com vontade de trabalhar, editar e promover.”, essencialmente a ZA quer fazer coisas acontecer onde o maior motor é a música, lá se encontram Coure and Colours, Morsa, Tales and Melodies e Mr. Herbet Quain. O meu papel nisso tudo está mais focado a nível gráfico, elaboração de posters, artworks de álbuns,  ilustrações, imagem do Festival da Zigur Fest, VJ (video projecções), entre outras coisas efectivas à imagem. Muitas coisas menos, ironicamente, tocar música. 

Vem por Aqui dos Ermo, foi considerado por vários sites de música um dos melhores álbuns de 2013. Dado que todo o artwork foi feito por ti, sentiste que de alguma maneira este destaque ao álbum deles te beneficiou de alguma forma?  

Trabalhar com o António e o Bernardo foi incrível, eles são incríveis e o álbum é incrível! Acho que a capa beneficiou ambas as partes, os Ermo deram-me uma liberdade enorme para desenhar o que eu quisesse ao estilo que mais me estimulava. Foi um enorme prazer e não estava mesmo a contar que o artwork tivesse tanto impacto. Vários artistas, desde actores a músicos, me deram os parabéns, foi super gratificante e com isso outros artistas já começaram a requisitar os meus serviços.  

És autor de trabalhos muito diversificados. Desde artworks de álbuns a pinturas mais obscuras, alguns nús… O que é que te inspira nas tuas criações? 

O que mais inspira as minhas criações são mesmo todos os momentos que vou vivendo, os pequenos pormenores que servem de combustão ao motor da vida; após uma directa beber um café no meio de uma caótica manhã Lisboeta, observar um cubo de gelo a derreter-se num guardanapo, perder o número de vezes que ouço sempre a mesma música nos supermercados, adicionar no facebook “amigos” que não conheço, etc, todas estas contemporaneidades, mas, essencialmente, as pessoas que vou conhecendo, os livros que vou lendo, as músicas que vou ouvindo e os locais que vou visitando. Todas estas acções e sensações têm a consequência de ficarem agarradas à minha pele e que por vezes necessito de as largar em forma de peças de arte, outras vezes deixo-as transformarem-se em cicatrizes.  

Muitas obras que faço têm um carácter obscuro porque já é algo que não me consigo desprender e já admiti a mim mesmo: faz parte de mim, eu tenho essa tendência, gosto de tudo o que seja surreal, tenha um impacto dramático muito forte e pesado, até mesmo invasivo e inquietante ao espectador. Mas juro que não andei a matar animais em pequeno, tenho a ficha limpa.   

Quando andei a navegar pelo teu site, descobri que para além de toda a arte da pintura e ilustração também escreves algumas coisas de vez em quando. O que é que está por trás desses textos?  

Vou logo directo ao ponto. Sempre fui mau a Português e só passei com nota 10. Nunca senti a necessidade de escrever, pelo contrário, era algo que evitava completamente, mas como já referi, sou viciado em explorar todo o tipo de expressões artísticas e houve uma altura em que me envolvi com uma escritora que fez crescer em mim uma grande curiosidade pelo mundo das letras. Após o envolvimento comecei a esboçar textos muito pequenos. A certa altura dei conta que já tinha muitos e foi então que decidi publicar alguns e lá foi. Hoje ainda escrevo, mas não tenho publicado com regularidade. Tenho que tratar disso!  

Já pensaste em fazer uma espécie de publicação mista? Em que exibes tanto as ilustrações como os textos? Brincares um bocadinho com as interpretações tanto das imagens como dos textos?

Sim, já, mas deixei de pensar quando me convidaram para ilustrar contos e textos, então nunca mais explorei a ideia. Penso que se uma imagem está acompanhada de um texto, então a pessoa não tem que pensar sobre a imagem, o significado está ali. Eu gosto que as pessoas pensem sobre o que vêm, que se questionem sobre os significados das coisas.

Qual é a tua relação com a fotografia?   

A fotografia nasceu na preguiça de desenhar e pintar, como também com o intuito de as usar como peças documentais para futuras recordações. O registo é muito mais imediato estando a um clique entre o dedo e o botão mágico. Com o tempo e o aprimorar do gosto visual, os conceitos começaram a ganhar formas mais esteticamente pensadas e trabalhadas, tentado não só simplesmente alcançar o “registo” visual, mas também uma ideia, uma sugestão ou uma chamada de atenção, onde vários caminhos ideológicos eram assumidos. E foi assim comecei a levar mais a sério a ferramenta que é a fotografia.  


Vi um trabalho teu em que basicamente és tu dentro de uma banheira com um jogo de tintas brutal. Em que é que consistiu em concreto? Qual a mensagem que é suposto transmitir?  

Bem, estas fotografias foram um projecto de Pintura Digital feito na última semana da disciplina. Não sabendo o que fazer, encontrava-me no banho submerso na banheira. Estava tão cansado que as poucas pingas que caiam na água pareciam balas a bater na parte de trás da minha cabeça. A água em contacto com a água nunca deixa de ser transparente mas o seu peso psicológico na minha mente era tão forte que as pingas assumiram uma forma negra, cercando a minha face, descaracterizando-a, quase que numa intenção de roubar as minhas emoções, os meus sentidos, em troca de um sufocante manto negro. E assim experimentei trazer essa sensação à realidade; usei tinta da china, um jogo de luzes personalizado e uma perspectiva área para captar o cenário, nascendo assim a sessão fotográfica. O resto das fotos foram consequência desta primeira, mas transportada para outros ambientes, tal como diz a descrição do projecto: o trabalho expõe a vulnerabilidade do homem e o seu meio ambiente à intervenção de elementos quotidianos.  

Disseste que não fazias música, mas acabas por fazer parte dela quando participas com as projecções visuais. Inclusive, estiveste ao vivo em tela com o RA. Conta-nos como foi essa experiência e o que te motivou a juntares-te a ele em palco.  

Estas participações com elementos visuais nas músicas vieram porque queria dar algo mais à música fora dos artworks, principalmente ao vivo, em palco. E com o Ricardo Remédio (RA) foi assim que aconteceu. Mal ouvi o EP dele, Rancor, ainda não estava fechado o cartaz da 2º Edição do Zigur Fest, disse de imediato que queria pintar uma tela ao vivo enquanto ele tocava o EP e o António M. Silva convidou-o. Foi das sensações mais fantásticas que tive, nunca me absorvi tanto com algo. Curiosamente conheci o Ricardo umas horas antes do concerto, ele ainda não tinha muito bem a noção do que ia acontecer, mas o mais interessante é que nem falámos nisso, pois passámos as horas a falar de conceitos filosóficos, gostos culturais e etc… só 5 minutos antes do concerto é que me pergunta:

“Mas tu vais mesmo pintar uma tela ao vivo?” 

“Sim, vamos!” 

Nunca tinha sentido tantos nervos na minha vida como antes de entrar em palco. Era a primeira vez que estava a pisar um e ainda por cima para pintar uma tela ao som de música, algo que nunca tinha feito antes. O que me levou a chamar o Ricardo foi mesmo esta minha necessidade de “deitar tudo cá para fora” porque a música dele é de uma inquietação interior prestes a explodir, tão forte que necessitava de um elemento visual, algo que materializasse a música visualmente.    

O que projectaste na tela, já estava planeado?  

Sim, já tinha uma certa ideia, mas todo o resultado final, os pigmentos, o estilo da forma e o jogo de cores não estava nada planeado, tanto eu como os espectadores estávamos no mesmo compasso de espera a ver o que iria sair dali.   

Especificamente na projecção visual estás associado ao projecto Herbert Quain. Fala-nos dessa parceria e em como é que ela te completa enquanto artista.  

O Manuel Bogalheiro também conheci umas horas antes do concerto onde eu ia actuar pela minha primeira vez como VJ e ele com o Live de Mr. Herbert Quain. Foi curioso, mas o mais curioso ainda foi eu ter feito o artwork todo do álbum “How I learned to stop worrying and start loving the waiting” e o mundo visual de Quain sem o nunca ter conhecido pessoalmente. Voltando ao live, eu não tinha noção alguma do que era ser VJ, mas resultou tudo tão bem que até hoje fazemos todos os lives juntos pois uma parte complementa a outra para dar vida a Mr. Herbert Quain. 

E o Manuel é uma pessoa incrível, dos maiores prazeres que tenho é fazer parte de Quain, mas mais ainda é tê-lo como amigo. É um ser humano incrível, com um nível cultural astronómico e um talento musical fenomenal. Para mim, não por eu fazer parte do projecto e ele ser meu amigo, considero o Manel dos artistas mais talentosos que já conheci. Criou um mundo maravilhosamente delicioso que por imensa sorte tive oportunidade de dar imagem e até hoje estou imensamente grato pois já aprendi tanto com este projecto… mas a todos os níveis, não só artístico como também humano, que no fundo é o mais essencial; crescermos mais como seres humanos! É o que tenho aprendido mais com as minhas aventuras ao lado do Manuel Bogalheiro, nas viagens e nos lives, que a vida é um livro que se abre com imensas páginas por preencher onde o branco tem obrigação de ser a cor mais ausente.  

De um modo geral, em Portugal, de que forma é que a arte anda a ser valorizada e/ou desvalorizada?  

A arte em Portugal é valorizada por quem a sabe valorizar e desvalorizada por quem não a quer sequer tentar entender, e infelizmente a massa do “não quero” é muito superior. O pior em Portugal, na minha opinião, é como diria Gonçalo M. Tavares, é a existência de um julgamento estranho da modéstia no qual nos embrenhamos;  “Batem-se palmas a quem basicamente diz que não é muito bom a fazer o que faz. E quando alguém diz que tem confiança no que faz, utiliza-se uma palavra pejorativa: arrogante.” A arte deixa então de ter um sentido lato para dar lugar a um caminho limitado, de uma só direcção. Parte da culpa passa pela nossa educação e pelos pobres recursos culturais abertos ao público, os estímulos artísticos são pouco desenvolvidos… Vivemos também numa era de um apogeu crescente que contribui para essa mesma carência, o capitalismo, onde as pessoas são dominadas por um sistema vicioso que controla as suas tendências culturais.  Vivemos na geração noodles, cada vez mais são instantâneos os produtos e obras que nos passam à frente, imensamente saborosos ao inicio, mas criados para nos tirarem o espaço para pensar, raciocinar, ou até mesmo opinar, deixando-nos vazios no fim. Tornam-nos, por consequência, instáveis e emocionalmente voláteis. É triste, pois quem aí vence é o que vem de fora e o que é nacional é chutado a um canto.  Na minha opinião, existe uma falsa consciência cultural onde de tenra idade ter “consciência” de cultura é escolhermos um clube de futebol e mais tarde decorarmos todas as bandas musicais conhecidas e

não conhecidas, onde quem não conhecer a banda (com o nome mais esquisito do mundo) do 206º video recomendado de artistas similares a Radiohead pelo youtube é classificado como burro e inculto. A meu ver, uma boa parte das pessoas vivem mergulhadas e alienadas por este fenómeno que atingiu Portugal numa ápice que é os festivais musicais, criam-se estilos, grupos sociais distintos e febres constantes, alienando-as de outros caminhos culturais que também podem e devem ser explorados (mas se calhar não são tão rentáveis para estes grandes nomes capitalistas). Infelizmente, a moda social é criar festivais para tudo, música, cinema, letras, etc… restringindo o público do poder de escolha e cultural.  Nunca Portugal teve tantos bons artistas como hoje e tão mal divulgados e apreciados. Mas felizmente a música portuguesa traz com ela uma coisa bela, é a oportunidade de artistas plásticos conseguirem divulgar o seu trabalho, sendo convidados a fazerem capas, videoclips, etc… as bandas que o fazem só merecem todo o respeito! Contudo, o público é totalmente ambíguo no querer, quer coisas novas, mas quando surge algo novo questiona-se da ridicularidade que aquilo é, não pára para pensar e reflectir sobre uma obra, principalmente mais conceptual, quer tudo feito e instantâneo, tal e qual como os noodles.  

Estudas na faculdade de Belas Artes que tem estado no centro de grande polémica relacionada com o governo. Que iniciativas governamentais, ou não, é que poderiam haver para dar um empurrão na arte portuguesa?  

Sinceramente acho que o governo não pode ajudar em nada, pois só tem olhos para o lucro, tal e qual como a razão que gerou esta polémica entre o Museu do Chiado e a FBAUL. A arte portuguesa precisava de mais fundos, mais oportunidades de divulgação. Embora seja muito bonito trazer para os museus portugueses os Renoirs e os Van Goghs, os artistas portugueses também são interessantes, não estão mortos e podemos vê-los ao vivo e questioná-los com porquês sobre as suas obras. Felizmente, começam-se a criar grupos grupos artísticos onde vão montando, bloco a bloco, torres consistentes para pendurarem os seus trabalhos e toda a gente ver, é de louvar e de enaltecer! Não faz sentido não haver cooperação entre artistas portugueses. Somos um país tão pequeno, e se ainda por cima houver rivalidade em se ser o artista do país, é impossível porque no mapa mundial quando olham para Portugal vêem sempre a cara do Cristiano Ronaldo. 

A ilustração tradicional tem mais encargos económicos do que a digital, mas a digital também acaba por ser mais trabalhosa a nível de esforço e detalhe. Qual é que preferes? Tradicional ou digital?   

Tradicional! Sempre! Infelizmente não faço tanto porque o dinheiro que gasto em fazer uma digital é 0 e uma tradicional ainda é uns bons euros! O digital é super interessante mas não existe nenhuma espontaneidade, nenhum acaso, é tudo matemático, tudo números informáticos e um ecrã brilhante. 

Para quando uma exposição do João Pedro Fonseca? 

Embora receba alguns convites para exposições, sempre recusei. Nunca me senti preparado porque ainda não achei o meu eu nas telas de branco para o poder expor tão publicamente, mas este ano sim! Acho que será o ano que finalmente vou sair da caverna!  

Projectos prestes a explodirem?  

Fácil, mesmo, mesmo neste momento o Artwork de;

Mr. Herbert Quain – “Forgetting is a Liability”; 

o de; 

Tales and Melodies, 

e umas performances, pinturas, ilustrações e videos de projectos pessoais.  

Perguntas Rápidas: 

Artista favorito: Bill Viola 

Músico favorito: Ben Frost 

Pessoa que mais admiras: Gonçalo M. Tavares 

Cidade de que mais gostas: Lamego 

Combinação Prato + Bebida Ideal: Francesinha (do piolho no Porto) e Sagres Bohémia  

Pergunta da praxe: Já conhecias o blog Morrighan? Que mensagem podes deixar para os seus leitores?  

Não conhecia não. Posso dizer que é muito interessante porque a quantidade de artigos e entrevistas a artistas portugueses é completamente deliciosa!

Site do João Pedro Fonseca: http://joaopedrofonsecaart.blogspot.pt/

Facebook: https://www.facebook.com/JoaoPedroFonsecaArtist?fref=ts

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Obrigada JP. És grande! Votos de muito sucesso e felicidade.

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