Tiago Silva – Bran Morrighan https://branmorrighan.com Literatura, Leitura, Música e Quotidiano Mon, 28 Dec 2020 05:35:56 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 https://branmorrighan.com/wp-content/uploads/2020/12/cropped-Preto-32x32.png Tiago Silva – Bran Morrighan https://branmorrighan.com 32 32 [Reportagem] Boogarins no Musicbox — Tropicalismo renascido https://branmorrighan.com/2014/07/reportagem-boogarins-no-musicbox.html https://branmorrighan.com/2014/07/reportagem-boogarins-no-musicbox.html#respond Sun, 27 Jul 2014 20:48:00 +0000

Fotografia por Sofia Teixeira

Ontem, eu e o Tiago Silva fomos ver Boogarins ao Musicbox. Dado os recados da semana ainda por tratar, adianto a reportagem na escrita do Tiago Silva que já antes comentou sobre o concerto de Dead Combo no Coliseu e a estreia do filme O Homem Duplicado. Da minha parte, ficam a faltar as fotografias e mais algumas palavras que conto, no máximo, amanhã ter publicadas. Entretanto, fiquem com o texto do Tiago, que faz jus à excelente noite de que fomos testemunhos. 

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Antes de fazer uma análise propriamente dita de tudo o que se passou ontem no Musicbox, convém referir, primeiro que tudo, que as noites Teach Me Tiger continuam a ser dos eventos mais interessantes e recompensadores da capital, constituindo uma oportunidade incomum para assistir aos primeiros passos de bandas que se irão afirmar facilmente no panorama musical. Neste regresso da curadoria de The Legendary Tigerman, foi possível perceber que o ritmo destas sessões não abrandou e os Boogarins, depois da breve passagem na noite anterior pelo Milhões de Festa em Barcelos, mostraram a quem ficou por Lisboa que toda a atenção que têm recebido por parte da crítica é mais do que justificada.

Os brasileiros vieram apresentar As Plantas Que Curam, aquele que é um dos melhores discos do ano passado pela sinceridade e frescura tão próprias à sua sonoridade. Mas o mais interessante na banda é observar que, apesar de toda a sua aparente espontaneidade e despreocupação, as origens nunca são esquecidas ou postas de parte. Pelo contrário: o psicadelismo estonteante dos Boogarins só é possível a quem passou a adolescência inteira a ouvir Os Mutantes e Caetano Veloso, desejando vir um dia a homenagear tudo aquilo que a Tropicália teve para oferecer. E foi precisamente isso que aconteceu, quase de um dia para o outro (os Boogarins têm uma história que merece ser conhecida) e que ficou confirmado ontem no Cais do Sodré — estamos perante um novo tropicalismo.

Ao vivo, o som dos Boogarins é bem mais denso e alucinante do que no seu único álbum até à data, sendo que grande parte das músicas recebe arranjos inesperados e que são, não raras vezes, produto do acaso. Há mais espaço para o improviso e para o descalabro provocador da distorção das guitarras e isso verifica-se logo que surge a segunda música do alinhamento, Lucifernandis, um dos temas mais cativantes da banda. É agradável notar que o público se entrega facilmente ao tom animado do concerto, entoando em conjunto a história da «menina perdida no céu azul», talvez a mesma de que os Beatles nos falam em Lucy in the Sky With Diamonds. Todo o universo musical dos Boogarins é feito de referências como esta, e tentar descobri-las por entre as letras das suas músicas é uma tarefa curiosa, provando que, apesar da sua tenra idade, os músicos já sabem bem aquilo que fazem.

Logo de seguida, Hoje Aprendi de Verdade e Infinu encabeçam os momentos mais marcantes de todo o concerto, com sequências tão delirantes que se torna impossível não acreditar que os Boogarins ainda não andavam por cá, quando se viveram os melhores anos da música psicadélica. É o caso daqueles longos minutos hipnotizantes em que Fernando Almeida, de enorme sorriso nos lábios, repete «Ser para ser / Ou não ser para ter» enquanto os riffs repetitivos criam um transe que leva a maior parte do público ao headbanging ou de quando este pede o infinito, «não todo, mas todo ele em fracções». Há uma poesia muito simples na música dos brasileiros que permite uma forte empatia com a mesma e esta honestidade, por começar a ser rara nas bandas actuais, merece atenção.

Despreocupar acalma os ânimos durante um tempo, mas a tranquilidade não dura muito. Erre, de fulgor violentíssimo, começa repentinamente e ainda na introdução, torna-se difícil não pensar na Solitude is Bliss de Tame Impala. De facto, alguém atrás de nós grita «Tame Impala brasileiros!» e a banda não esconde uma gargalhada orgulhosa. Os pedidos para que toquem Doce multiplicam-se na plateia e os Boogarins, que voltariam para a tocar em encore, decidem não sair do palco e atacar imediamente o single de uma forma bem mais rápida e caleidoscópica do que seria de esperar — e ainda bem, conferiu ao final uma aura apoteótica. No final, ficou o contacto apaixonado com os fãs: os agradecimentos, os autógrafos e as inúmeras dedicatórias. Os Boogarins vão ser muito grandes. E em muito pouco tempo.

Texto de Tiago Silva

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[CINEMA] Crítica ao filme «Enemy» – O Homem Duplicado – por Tiago Silva https://branmorrighan.com/2014/06/cinema-critica-ao-filme-enemy-o-homem.html https://branmorrighan.com/2014/06/cinema-critica-ao-filme-enemy-o-homem.html#respond Sun, 22 Jun 2014 22:47:00 +0000

A escrita de Saramago é uma ordem por decifrar

Se a adaptação ao cinema de qualquer obra literária constitui sempre uma tarefa complexa e exigente, lidar com a escrita de Saramago e reinventá-la de modo a permitir a sua representação visual é um esforço particularmente trabalhoso — não por qualquer delito ou ambiguidade do autor, antes pela efervescência e singularidade do seu discurso. Esta ideia tornou-se evidente aquando da estreia de Ensaio Sobre a Cegueira de Fernando Meirelles (encarado como medíocre e decepcionante pela generalidade dos espectadores, apesar dos emocionados elogios tecidos pelo escritor) e acentua-se com este Enemy de Denis Villeneuve. Sendo trabalhos em que os realizadores se comprometeram a deixar de lado as questões mais formais e a focar-se exclusivamente na acção, é natural que não se verifique qualquer reflexão sobre o processo e a densidade da escrita, com os seus enigmas tão característicos; o que não chega a ser censurável, embora pudesse produzir resultados bem mais interessantes. No entanto, esta nova tentativa de assimilação da sua prosa é indubitavelmente mais pertinente.

Convém salientar, antes de mais, que Enemy é uma interpretação deveras livre da obra de onde extrai o seu conteúdo e que quem procurar fidelidade aos vários aspectos da narrativa sentir-se-á desiludido: é que o homem duplicado que nos é lentamente revelado nas páginas do livro é diferente daquele que é interpretado por um Jake Gyllenhaal competente e enloquecido pelas várias facetas da sua identidade. No filme, apenas se aproveitam algumas premissas que servem de base à história, transformando-se grande parte da atmosfera em que os acontecimentos se desenrolam: tudo é mais opressivo, claustrofóbico e desesperante, não só pela ausência do delicioso sarcasmo tão presente no romance, como pela fotografia soturna e trabalho de som admirável, que ataca os sentidos sem qualquer aviso na sequência inicial, onde o desejo atinge níveis doentios. E é sobretudo de desejo obsessivo e controlador que se fala durante a hora e meia seguinte. O ambiente obscuro criado por estes primeiros planos mantém-se durante toda a diegese e faz do filme uma experiência verdadeiramente perturbadora e verosímil.

Os ecos de Franz Kafka eram já notórios no livro e Villeneuve faz questão de engrandecer essas peculiaridades, transfigurando-as através de uma desorientação mental que roça o ensurdecedor; o que resulta bem na maior parte da narrativa e confere originalidade ao seu trabalho, apesar de algumas falhas ocasionais criadas pela montagem e que revelam alguma insegurança, especialmente na transição entre planos (os flashes, as constantes fusões em negro, as elipses) e na falta de um dispositivo que assegure a fluidez dos acontecimentos. Ainda que muito daquilo que vemos em Enemy se processe ao nível do inconsciente, o surrealismo cai por vezes num espalhafato despropositado — e neste sentido, as comparações com Lynch são hiperbólicas e até dispensáveis. O realizador tem, no entanto, o mérito de provocar no espectador uma sensação semelhante aquela que nos acompanha nos dias posteriores à leitura do thriller: a paranóia e a consciência do absurdo de tudo trepam por nós como os aracnídeos imprevisíveis do filme. Em suma, Enemy é uma homenagem hábil à obra de Saramago. Mas ainda não foi desta vez que conseguiu encontrar equivalente fílmico.

Tiago Silva

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[Reportagem] Dead Combo no Coliseu dos Recreios https://branmorrighan.com/2014/03/reportagem-dead-combo-no-coliseu-dos.html https://branmorrighan.com/2014/03/reportagem-dead-combo-no-coliseu-dos.html#respond Mon, 24 Mar 2014 21:46:00 +0000

Uma semana depois do lançamento de A Bunch of Meninos e de breve passagem por alguns pontos do país, Lisboa recebeu finalmente a apresentação ao vivo do novoálbum dos Dead Combo. Em formato intimista, Tó Trips e Pedro Gonçalves conseguiram tornar memorável a noite de ontem, aproveitando ao máximo as potencialidades cénicas do Coliseu de Lisboa e transformando-o num autêntico calabouço de jazz em que Tom Waits uiva inquietamenteà lua, entre rosas, caveiras, molduras antigas e quadros.

De forma ainda contida,“Povo que Cais Descalço” abriu um espectáculo de gradação crescente na sua intensidade. Se a influência do fado já era mais que evidente na música dos Dead Combo, no novo trabalho esta atinge um nível superior, transportando-nos para a madrugada das ruas escuras de Lisboa. Há uma sensibilidade quase ressentida que se manifesta em alguns momentos de A Bunch of Meninos, sendo este sobretudo um disco de lamentos proferidos por quem vagueia sozinho pelos becos escondidos da cidade. Segue-se“Waiting for Nick at Rick’s Café” e já nos encontramos em território blues de melodias lentas e envolventes a confessarem uma boémia adormecida. Esta não tem tempo de se instalar e em“Miúdas e Motas”, ou«o sonho de qualquer adolescente do liceu» nas palavras de Trips, a estrada abre-seà nossa frente e as guitarras lembram os temposáureos de uma Route 66 sem fim.

‘Mr. Eastwood’ é a primeira explosão da noite, com autênticos trovões a fazerem tremer o chão. Evocam-se os míticos westerns de Sergio Leone sob um sol abrasador e os acordes explodem numa fúria tremenda.É, principalmente pelas paisagens sonoras que criam, que a música dos Dead Combo se torna tão interessante— é impossível ouvi-los e não imaginar um universo só seu, em que criam histórias insólitas. Logo de seguida ouve-se“Waits”, um dos melhores temas do novoálbum, que funciona como homenagem ao mais misterioso de todos os músicos, o grande vampiro que poderia ser parente afastado da banda.“Rodada” mantém o ambiente incendiário e prepara o tom provocador de“Pacheco”. Pedro Gonçalves senta-se ao piano e Trips arranha a guitarra, falando-nos de figuras que adoraríamos conhecer. Por esta altura, os aplausos no fim de cada música eram já ensurdecedores.

Funcionando como curto interlúdio e quebrando o ritmo da sequência anterior,“Mr. Snowden’s Dream” situa-se no domínio de um terror mudo. Não a imaginávamos tão negra ao vivo, mas o ambiente quase fantasmagórico que criaé admirável. Em“Dona Emília”, os Dead Combo desdobram-se em sonoridades mais dançáveis e“Cachupa Man” do anterior Lisboa Mulata infiltra-se na perfeição por entre as mesmas.“Arraia” marca o meio do espectáculo e surge ainda mais encorpada do que em disco, fazendo o retrato de uma cidade perdida no tempo através de inúmeras subtilezas na densidade musical do tema.

Seguem-se os momentos mais efusivos da noite com o sombrio“Rumbero” logo sucedido por“Lusitânia Playboys”. Vamos em passeio do Bairro Alto até ao Cais do Sodré e cá está a irreverência típica a que a banda nos habituou, apresentando-nos os boémios, os noctívagos, os arruaceiros. A grande decadência lisboeta. Os temas são vertiginosos e as notas soltas do contrabaixo beijam-nos caoticamente. Num registo mais despido e acústico,“Zoe Llorando” e“Welcome Simone” são dedicadasàs filhas dos músicos, mantendo-se“Esse Olhar Que Era Só Teu” na mesma linha melódica.

Perto do fim, dá-se o regressoàs origens com“Eléctrica Cadente”, talvez um dos temas mais agressivamente crus do seu repertório. Durante o mesmo, cai o pano que se situava atrás dos músicos e revela-se um Coliseu vazio que observa a plateia em cima do palco, surpreendida perante o golpe de mestria. Pedro Gonçalves mostra-se genuinamente emocionado, agradecendo a presença de todos e anuncia que em Dezembro os Dead Combo voltam a ocupar a sala, desta vez com o público“do lado de lá”. Há tempo para histórias sobre desventuras no México antes de atacar “Dos Rios” que invoca imediatamente a alma do país.

Finalmente,“A Bunch of Meninos” é aúltima música antes do encore e, pelos ruidosos aplausos, percebe-se que era seguramente um dos temas mais esperados. O single contagiou o público e progrediu de um modo quase surrealista pelo ambiente que agora se havia instalado. De volta, tocam-se“Malibu Fair” e“Lisboa Mulata” que levam osânimos ao rubro e terminam o concerto da melhor forma.  Um espectáculo incrível em que os Dead Combo firmaram a sua posição como uma das melhores bandas portuguesas dasúltimas décadas e demonstraram o enorme potencial do novoálbum.

Tiago Silva


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Obrigada Tiago, por esta colaboração. Que seja a primeira de muitas.

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