White Haus – Bran Morrighan https://branmorrighan.com Literatura, Leitura, Música e Quotidiano Mon, 28 Dec 2020 05:34:04 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9 https://branmorrighan.com/wp-content/uploads/2020/12/cropped-Preto-32x32.png White Haus – Bran Morrighan https://branmorrighan.com 32 32 [Diário de Bordo] O meu autismo no NOS Primavera Sound 2016 https://branmorrighan.com/2016/06/diario-de-bordo-o-meu-autismo-no-nos.html https://branmorrighan.com/2016/06/diario-de-bordo-o-meu-autismo-no-nos.html#respond Sat, 18 Jun 2016 13:40:00 +0000

Olá olá, bem sei que estou um bocadinho atrasada para escrever sobre o NOS Primavera Sound, mas foi chegar a Lisboa e ter exames para vigiar e corrigir, uma série de contratempos pessoais e profissionais, mas nada a que não se sobreviva para contar. E a partir daqui apenas falarei do NOS Primavera Sound 2016 e do orgulho que foi ver os portugueses a darem concertos bem melhores que outros grandes nomes e de como Sigur Rós, Savages, Protomartyr, Car Seat Headrest, Explosions in The Sky e Moderat fizeram o meu festival no que toca a bandas internacionais.

Mas comecemos pelo que é nacional, ou seja, pelos Sensible Soccers, White Haus e Linda Martini, em que os dois primeiros abriram o palco Super Bock nos dias 9 e 10 e os últimos o palco NOS no dia 11.

Sensible Soccers

Cheguei um pouco antes das 17h e, sendo o primeiro dia, não pude deixar de ficar surpreendida com a quantidade de gente já pronta para os ver. Ao início mais tímidos, sentados na relva, entretanto de pé e a dançar. Confesso, ver Sensible Soccers em ambiente de festival não é o meu formato preferido, mas o facto de Vila Soledad, o disco que têm andado a apresentar pelo país, ser mais electrónico que o anterior, ajuda a que haja uma maior envolvente entre banda e público. O espectro musical sendo mais alargado, também não dispensa os tons orgânicos da guitarra e do baixo, que complementam a atmosfera sublime e psicadélica que é muitas vezes gerada. Para meu deleite e de tantos outros, a AFG, tema que nos conquistou no disco anterior, também não faltou. E lá está, não há como resistir aos sorrisos e cumplicidade trocados em palco, à forma carinhosa como a banda trata sempre os seus fãs. Tivessem tocado à noite e de certeza que iriam ter público cheio e reacções ainda mais emotivas.

White Haus

Este é projecto que muito pouco tem a provar. Já os vi umas quantas vezes ao vivo e o à vontade, a confiança e a provocação em palco assenta-lhes lindamente. Neste concerto tiveram a estreia de João Doce na percussão, e mesmo sendo provocado várias vezes pelos colegas por um potencial nervosismo, saiu-se lindamente. Já todos o conhecemos de tocar com o Tó Trips, e vê-lo neste contexto mais electrónico em nada lhe fica mal, pelo contrário, a sua energia é um bom complemento ao quarteto habitual White Haus. João Vieira, a cara do projecto, mostra uma experiência notável ao animar um público que costuma ser claramente noturno. Calhou um sol radiante e uma luz quentinha, mas qualquer hora é boa para dançar e, perdoem-me o à parte, existem poucas artistas mais sensuais do que a Graciela em palco. Juntamos a segunda dose de NOS Primavera Sound do André Simão e não podemos não ficar com a impressão que aquele palco era apenas mais uma casa para este conjunto de artistas.

Linda Martini

São a banda portuguesa que mais vezes vi ao vivo. São também a banda portuguesa que sigo há mais anos, ainda era eu uma adolescente meia perdida (será que alguma vez nos encontramos verdadeiramente?). Talvez por isso tenha sentido este último concerto mais morno. Sirumba é um disco que, sendo recente, ainda não aqueceu as gargantas dos seus fãs e isso nota-se claramente quando são tocadas músicas mais antigas, em que a exaltação se faz notar de sobremaneira e as letras estão na ponta da língua. É claro que já se tornaram numa banda de culto, com mais de 10 anos de existência é o palco principal que abrem, já em Paredes de Coura foi assim (um dos melhores concertos que vi deles, se não o melhor), e é-lhes reconhecida a excelência de quem faz o que faz por gosto, a seu tempo e com a devida segurança e confiança. Não faltou o crowdsurfing final de Geraldes e Hélio, que careceu na apresentação no Coliseu de Lisboa, e o concerto fechou-se como sempre, em festa.

Explosions in the Sky

Sigur Rós, Savages, Protomartyr, Car Seat Headrest, Explosions in The Sky e Moderat

Podia mencionar muitos outros nomes por aqui, mas a verdade é que se não o faço foi porque ou me desiludiram ou me foram completamente indiferentes. Eu sei que nos festivais a probabilidade de uma banda de quem gostamos nos desiludir é grande, afinal os concertos em festivais são sempre voláteis, muito dependentes também de quem nos rodeia, e daí o título deste post. Andei armada em autista na grande maioria do NOS Primavera Sound. Tinha dezenas de amigos espalhados pelo festival, mas não seria raro ou de estranhar ver-me afastada, ou só com uma ou duas pessoas, num qualquer posicionamento mais estratégico para ver determinado concerto. Agora que penso nisso, tive apenas três pessoas que, intercaladas, me foram acompanhando (ou que eu acompanhei) nesta selecção de concertos que não queria perder.

Comecemos com Sigur Rós, logo no primeiro dia. Quando li os relatos pelas redes sociais (que começo a abominar cada vez mais) rapidamente percebi que todos pareciam ter estado em concertos completamente diferentes. Eu, muito bem acompanhada pela Melissa e pelo Bernardo, estivemos muito bem posicionados, perto do palco numa zona central, e soubemos aquietar e silenciar o pouco povo que decidia abrir a boca durante o concerto. Uma banda como Sigur Rós não pede um concerto ao ar livre, mas eles souberam como compensar enchendo o palco de uma artilharia material e de luz proeminentes. Foi dos concertos que mais mexeu comigo, mas também foi a primeira vez que os vi ao vivo. Sei que faltava pelo menos o teclista em palco, mas mais uma vez não senti o palco vazio ou sequer falta de energia a vir de lá. Pelo contrário, o vocalista de alguma maneira esmerou-se e ultrapassou o seu habitual recolhimento para chegar mesmo a provocar o público em alguns momentos da actuação.

Protomartyr e Car Seat Headrest foram duas bandas que conheci graças ao João Pedrosa. Tanto me provocou que lá o segui e a verdade é que ele tinha mesmo razão. Foram dois concertos do caraças, ambos no palco Pitchfork. Fiquei surpreendida, principalmente com os segundos, por terem tanto público à sua espera. Melhor, sabiam as letras e os Car Seat Headrest chegaram mesmo a dizer que Barcelona podia ter tido o dobro do público, mas que no Porto eram o dobro no entusiasmo e no feedback que se fez sentir. Aqui ficam duas bandas anotadas para atenção futura.

Mas não nos adiantemos demasiado porque ainda me faltam as Savages no segundo dia que mais uma vez deram um concertão. Não sei bem de que material são feitas aquelas três mulheres, mas só conseguia pensar que quem me dera andar com elas na estrada, conhecer as suas histórias e de como se tornaram esta máquina bem oleada que, por mais vezes que as veja ao vivo, nunca me desiludiram. A vocalista ainda defendeu uma eventual prestação menor, alegando que se aleijou nas costas recentemente, mas qual quê. Atirou-se ao público e deu o que tinha a dar e nós só podemos ficar gratos por tamanha entrega. Nos dias de hoje a distância entre o palco e o público parece ser formada por uma qualquer camada fina de gelo, mas neste concerto a única coisa que se sentiu foi um fogo capaz de domar qualquer um. Claro que uma das consequências foi depois não ter conseguido ficar muito tempo no concerto de PJ Harvey que não foi muito mais do que uma encenação. O facto de nem numa guitarra ter pegado mostra que os seus dias dourados já passaram, fica aquela ligação ao seu eu mais antigo.

Moderat

Último dia do NOS Primavera Sound e depois de Linda Martini e de Car Seat Headrest, veio a espera de hora e meia na grande do palco Super Bock para ver Explosions in The Sky. Sim, aconteceu. Não me lembro de alguma vez o ter feito, nem quando era miúda e comecei a ir aos festivais. Mas aos 28 anos, e depois de ter perdido algumas oportunidades de os ver, tal aconteceu. E este é outro concerto que causa alguma discordância entre quem o viu, mas que a mim pareceu-me só do melhor que já vi. Mas eu sou suspeita. Sou daquelas pessoas em que a Your Hand in Mine foi banda sonora de umas das separações mais difíceis da minha vida, que tantas outras músicas foram o bálsamo para inúmeras e diversas situações ao longo dos últimos dez anos.

Por fim, Moderat. Para quem não conhece, Moderat é o projecto de Sascha Ring, Apparat, com os membros de Modeselektor. Conheci Apparat há cerca de oito ou nove anos e ainda só tinha tido a oportunidade de ver o Sascha a solo no Super Bock Super Rock em 2012. Na altura tocou a Rusty Nails e uma ou outra do projecto com Moderat, mas só agora no NOS Primavera Sound é que pude testemunhar o poderio deste trio. III, o último disco de Moderat, tem sido um vício constante – acho que qualquer dia chego ao carro e o disco já não toca por exaustão. Sendo o último concerto do NOS Primavera Sound no palco principal, tive algum receio que os três não fossem suficientes para entusiasmar o público, mas pelo que pude testemunhar saíram de lá com bem mais fãs do que com que entraram. O concerto contou com um espectáculo de luzes e de imagens forte, não faltou a abordagem mais orgânica à guitarra e ao baixo, o Sascha é uma caixinha de surpresas, e se tinha medo de ficar desiludida, a verdade é que saí de lá com um bruto sorriso nos lábios.

Ambiente

Abençoado NOS Primavera Sound e o reforço das casas de banho. Não encontrei uma única fila o festival inteiro. A zona da restauração foi reforçada com novas instalações sanitárias e a própria oferta alimentar era variada o suficiente para não me ter deparado também com grandes filas para comer. Não há como não gostar do recinto. O Parque da Cidade do Porto é dos sítios mais bonitos do nosso país e dada a disposição dos palcos tanto podemos desfrutar de um concerto sentados, como de pé e podemos circular sem andarmos aos tropeções e aos encontrões. Não vou cair naquela mania de falar do tipo de público que frequentou o festival, talvez porque andei os três dias muito abstraída disso mesmo. Acho que cada vez mais os concertos e os festivais, se quisermos tirar alguma coisa deles, tem de ser uma experiência pessoal. Só saquei do telemóvel para uma ou outra fotografia no final dos concertos que mais me marcaram e nem foi em todos. Ou seja, quis viver e sentir sem ter de me preocupar com isto ou aquilo ou aquele ou o outro. Daí a falta de fotografias neste post, mas basta irem ao Facebook do NOS Primavera Sound e por lá não faltarão, com certeza, fotografias de tudo e mais alguma coisa. Mais uma excelente experiência num dos únicos festivais dos quais ainda tiro um prazer genuíno. 

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[Queres é (a) Letra! Especial] Apresentação do single This is Heaven, de WHITE HAUS https://branmorrighan.com/2016/02/queres-e-letra-especial-apresentacao-do-2.html https://branmorrighan.com/2016/02/queres-e-letra-especial-apresentacao-do-2.html#respond Fri, 19 Feb 2016 11:06:00 +0000

WHITE HAUS ANTECIPA SEGUNDO ÁLBUM COM THIS IS HEAVEN

Desde que o João Vieira, o mítico Dj Kitten e um dos mentores dos X-Wife, iniciou o seu projecto a solo – White Haus – que o tenho acompanhado e é com muito gosto que partilho convosco a antecipação do seu novo álbum de originais, com o single This is Heaven

Depois de, em 2013, se estrear com um E.P. homónimo de clara inspiração Disco-Punk e de, no ano seguinte, ter editado o seu primeiro longa-duração – “The White Haus Album” – explorando territórios mais cósmicos, João Vieira acaba de gravar o seu sucessor, sintetizando, de forma superior, a amálgama de sons de que é herdeiro e que compõem a sua singular personalidade.

“This is heaven”, single de avanço do segundo álbum de White Haus, retrata na perfeição este percurso feito duma assimilação e transformação, quase caleidoscópica, que torna a sua visão musical única. Como se os Talking Heads de “Remain in light” se encontrassem com Gino Soccio e Alexander Robotnik, algures na Polónia, local onde, mais uma vez, Vasco Mendes filmou o maravilhoso videoclip desta canção, numa sociedade que não pára de inovar.    

Próximos concertos

26 de Fevereiro, Festival Boreal, Teatro de Vila Real

9 a 11 de Junho, Festival NOS Primavera Sound, Porto

Entrevista Julho de 2014

http://www.branmorrighan.com/2014/07/entrevista-joao-vieira-white-haus.html

People on the launderette

across the street with awful hair

People on the underground

playing tunes with awful sound


but when i’m lying next to you

the world is not so blue blue

like ten feet over across the sky

makes you feel like it’s all right


this is what? this is heaven

afternoon on your bed

this is what? this is heaven

where do we go? go from here


i’ll tell you right now


what? It’s insanity!


This is what? this is heaven

afternoon on your bed

This is what? this is heaven

where do we go? Go from here

i’ll tell you right now


exactly how am i supposed to feel

when you say it’s allright


what? It’s insanity!


you found this feeling too?

that made your life so good

that made your life so cruel

we didn’t talk it through

and i want you

but i want you 

and i want you

yeah i want you 


you never thought you could

you somehow broke the rules 

oh baby its all right

i’ll never spend the night

and i want you

but i want you 

and i want you

yeah i want you 


exactly how am i supposed to feel

when you say it’s allright

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[Foto Reportagem] White Haus @ Fusing Culture Experience https://branmorrighan.com/2014/08/foto-reportagem-white-haus-fusing.html https://branmorrighan.com/2014/08/foto-reportagem-white-haus-fusing.html#respond Sat, 23 Aug 2014 11:30:00 +0000

Fotografias por Sofia Teixeira


Reportagem aqui: http://www.branmorrighan.com/2014/08/reportagem-fusing-culture-experience_15.html

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[Os Artistas Portugueses no Vodafone Paredes de Coura II] – Dia 2 – Fast Eddie Nelson e White Haus https://branmorrighan.com/2014/08/os-artistas-portugueses-no-vodafone_22.html https://branmorrighan.com/2014/08/os-artistas-portugueses-no-vodafone_22.html#respond Fri, 22 Aug 2014 17:12:00 +0000 Fotografia por Hugo Lima

Mais um dia de Vodafone Paredes de Coura e mais duas presenças nacionais de destaque. Ao contrário do que é o habitual, as bandas portuguesas sempre a abrir, desta vez fugiu-se um bocadinho à regra e tivemos uma a abrir o palco Vodafone.fm e a outra a fechá-lo! Ou melhor, para mim, a noite acabou depois de White Haus! 

Mas comecemos com Fast Eddie Nelson, o concerto de abertura deste dia 21 de Agosto. Foi a primeira vez que vi ao vivo e foi uma agradável surpresa, quanto mais não seja pela completa despretensão e o enorme à vontade em palco, num tom rock puro, sem artifícios ou paninhos quentes. Originário do Barreira, foi a primeira vez que veio a Paredes de Coura «e ainda por cima pagaram-me para o fazer!». É neste tom descontraído e “sem merdas” que a actuação se desenrolou, havendo espaço para fazer piadas sobre o Barreiro e ainda umas quantas interacções com o público – que obviamente tinha gente conhecida da banda e que a certa altura tomou contornos cómicos. Para um início de tarde e primeiro concerto do dia, a quantidade de público foi razoável e o resultado foi então uma boa amostra do que Fast Eddie Nelson tem para dar. 

Fotografia por Hugo Lima

Existem projectos que nos enchem de orgulho e White Haus é um deles. Iniciado por João Vieira, dos, agora em pausa, X-Wife, White Haus apresenta-nos um som fresco, de disco que é bem mais do que isso, e que faz corar qualquer projecto do género, internacional ou não. Em banda, o músico faz-se acompanhar por André Simão e Graciela Coelho (Dear Telephone), e por Nuno Sarafa (We Trust, Best Youth) – desconfio que não podia haver combinação melhor. Quatro pessoas que exalam a sua paixão pela música, influenciando de forma incontornável quem os assiste. 

Já conhecendo o trabalho de White Haus, e já tendo visto outros dois concertos, não posso deixar de referir que este foi o meu preferido. Todo o espectáculo de luzes com a projecção visual, o convidado de energia inesgotável a dançar e a participação do baixista dos X-Wife, culminaram num grande concerto com as voz inconfundível de João Vieira e com a postura sempre sensual da Graciela. E se há coisa que adoro quando vejo estes quatro a tocarem juntos, são as caras de entrega de André Simão e Nuno Sarafa. Quatro grandes músicos e um fechar de noite fantástico. 

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Entrevista a João Vieira, White Haus, Músico Português https://branmorrighan.com/2014/07/entrevista-joao-vieira-white-haus.html https://branmorrighan.com/2014/07/entrevista-joao-vieira-white-haus.html#respond Sat, 05 Jul 2014 17:06:00 +0000 Muitos conhecem o João Vieira como DJ Kitten, outros tantos como guitarrista dos X-Wife, mas agora é altura de juntar todo esse público e uni-lo em torno do seu mais recente projecto White Haus. Com uma belíssima vista no Miradouro de São Pedro de Alcântara, o João aceitou estar à conversa comigo sobre o seu percurso na música e o lançamento do seu primeiro LP enquanto White Haus. Falámos também da gravação do videoclip do seu primeiro single e das histórias que o álbum acaba por nos contar. Por fim, conhecemos os hábitos de leitura do nosso músico e ainda uma das obras que mais o marcou e porquê. Obrigada pela disponibilidade e simpatia, João! O sotaque é óptimo! 

«Ui! Já foi há muitos anos! (risos)», é assim que o João começa por responder em relação ao início da sua carreira musical. Foi com a banda Centerfold, depois de uma demo enviada para a Roma Mega Store, que tudo começou. «Tinha influências de britpop e eu cheguei a cantar com sotaque e tudo! (risos)» João não se ficou por aqui e, passados uns meses, foi para Londres onde teve outra banda e trabalhou também como DJ e promotor. Quando voltou para Lisboa, voltou a essa mesma rotina: DJ, promotor, formou os X-Wife, mas parece que a grande mudança estava marcada para 12 anos depois. «Tem sido um percurso longo que nunca pensei que tivesse tantas etapas, muito sinceramente. Pensei que estas coisas eram uma banda, um projecto, e ficava por ali, mas afinal ainda há muita coisa para fazer.»

A música sempre esteve na vida de João Vieira e, ao recuarmos no tempo, é com nostalgia que recordamos os meios com que há duas décadas se gravava e fazia música: «A primeira coisa que eu comprei com o meu dinheiro, que poupei, foi um gravador duplo de cassetes para poder copiar e fazer cassetes. Gravava músicas de rádio e editava e gravava. Fazia cassetes para as festas… Com 11, 12 anos já punha música nas festas. Tenho irmãos muito mais velhos e o meu cunhado, que é músico, nessa altura tocava numa banda que eram os Taxi, e eu comecei a ver concertos muito miúdo. Com 8 anos já ia ver os Taxi e os Trabalhadores do Comércio, e bandas da altura do new wave português. Cresci rodeado de música, os meus irmãos tinham muitos discos, ouvia muita coisa, e eu tenho essa imagem das capas dos vinis lá pousados e fui ganhando interesse.»

White Haus surge, principalmente, pela necessidade de João Vieira produzir música de dança para crescer como DJ. «O meu percurso como DJ já existe há muitos anos e hoje em dia é muito difícil tu seres só DJ. Podes ser, mas para teres algum sucesso ou destaque, precisas de produzir música também. Depois pelo desafio, saber se era capaz de o fazer. Sabia que iria ser complicado e que iria exigir muito trabalho de estudo para começar a produzir música. Aprender os instrumentos, a parte das batidas, dos ritmos, etc. Mas quis tentar.» Também o facto de um dos elementos dos X-Wife ter vindo viver para Lisboa acabou por dar o empurrão que White Haus pudesse precisar para nascer: «Nós parámos. Tínhamos aquela rotina de ensaios que desapareceu. Deixámos de ensaiar e eu deixei de ter que fazer música. Não sabia bem o que havia de fazer e pensei que era a oportunidade certa para pensar no projecto. Eu não queria misturar as coisas, não queria ter um projecto paralelo aos X-Wife em que eu fosse o vocalista, isso poderia prejudicar a banda e confundir as pessoas. Achei então que era uma boa altura. Comecei só por instrumentais, mas senti a necessidade de colocar voz. Foi algo muito natural.»

Surge assim The White Haus Album, o LP tão esperado desde que o primeiro EP foi lançado há cerca de um ano atrás. Se normalmente a música de dança está associada a EPs e singles, neste álbum João Vieira pretende contrariar um pouco essa tendência:  «O primeiro foi um EP, claramente mais virado para a pista de dança. Este aqui é um álbum que, embora tenha um elemento ou outro mais de dança, é para ser ouvido como um disco; eu tive essa preocupação. Acho que os álbuns de música de dança falham muito. A música de dança, quanto a mim, não é para ouvir um mesmo artista durante dez músicas seguidas, salvo raras excepções em que isso funciona. Até artistas como os Daft Punk, que são música de dança e passa em clubs, têm a preocupação de fazer algo com alguma lógica, com temas que funcionam melhor em álbum. No The White Haus Album eu tive muito esse cuidado. Havia muitos temas que eu tinha que não fariam sentido num vinil de 12 polegadas. Mesmo no processo de masterização, eu falei com a pessoa que masterizou e disse-lhe “Isto é um álbum, não quero que seja algo agressivo de pista, as pessoas vão-se cansar. Pensa como um álbum de ouvir do princípio ao fim.”»

João Vieira explica-nos que este disco conta muitas histórias, experiências de vida, e que é muito auto-biográfico. Sendo observador por natureza, diz-nos que «Ao longo dos anos comecei a aperceber-me que isto da vida é muito complicado. As pessoas são muito complicadas, complicam muito as vidas delas, quando podiam facilitá-las. Eu vou buscar muito essas coisas. A partir de uma certa idade, há uma insatisfação que eu acho que paira em cima das pessoas. As pessoas não sabem bem aquilo que querem, nunca estão bem, estão sempre à procura de algo. Isto pode ser positivo, por mostrar alguma ambição, mas também pode ser stressante. Falo de como, por exemplo, ainda há pouco tempo parecia que estava em Londres e agora já passou tanto tempo. São experiências pessoais, sem aprofundar muito, não falo de ninguém em concreto, falo de coisas, de apartamentos (risos). Há uma música que fala de um apartamento, tenho uma memória muito visual dele, de me lembrar da mesa da sala de jantar virada para um jardim. Posso lembrar-me disso e falar sobre isso.»

Quanto às influências na sua sonoridade, White Haus vai buscar tanto coisas contemporâneas como música da sua adolescência: «Eu cresci a ouvir música dos anos 80 e fui descobrindo coisas dos anos 70 ao longos dos anos. E é tudo isso com coisas contemporâneas. Tenho esse trabalho de procurar e investigar música moderna. Tento criar uma identidade muito própria, em que não vou atrás de uma referência só, de uma década, mas vou buscar também outras coisas. Eu procuro surpreender e também fugir um bocadinho àquilo que é óbvio. Acho que a música tem-se tornado um pouco repetitiva, ouço muito rádio e às tantas parece tudo mais do mesmo. Gosto de bandas que se distanciam desse conceito “mais um”. Não tenho grandes ambições de vendas ou de salas de concertos e por isso há uma certa disponibilidade e desprendimento da minha parte de querer agradar a críticos ou assim. O que eu queria era fazer um disco com que me sentisse bem.»

O videoclipe de Far From Everything, o primeiro single do disco, foi gravado em Hong Kong com realização de Vasco Mendes. A história passa pela colaboração entre músico e realizador e um conceito simples numa viagem longínqua: «O Vasco disse que ia fazer uma viagem a Hong Kong e, quando lhe mostrei as músicas do álbum, ele disse que esta era a ideal para fazer o video. Ainda para mais a música chama-se Far From Everything, que quer dizer “Longe de Tudo”, e Hong Kong é longe não só em termos de distância, mas também em termos culturais e de mentalidades. É como se estivesses noutro mundo, noutro universo. Nunca lá fui, mas deve ser uma coisa completamente diferente de estar na Europa ou nos Estados Unidos. Achámos que ficava bem o conceito de uma rapariga, francesa, perdida naquele mundo.»

Embora seja um projecto a solo, ao vivo conta com três músicos que o acompanham: «Quando fazes as coisas em estúdio, e te começas a entusiasmar e a criar novas músicas, não estás a pensar nos concertos ao vivo e tens de reproduzir tudo o que gravaste. Sozinho é impossível.»

Dada a experiência de João Vieira no mundo da música, questionei-o sobre a diferença de há duas décadas para cá no panorama musical português. A resposta foi peremptória: «Antes era mais fácil, havia mais facilidade em tocar em certos locais e havia espaço para muitos. Hoje já não é assim. Antigamente não havia esta enormidade de festivais que há agora, com todas as bandas estrangeiras. Eu vejo muitos festivais com bandas estrangeiras a terem spots no alinhamento muito mais privilegiados do que projectos portugueses com mais qualidade. “É português abre, o espanhol fecha.” Tem que se mudar esta mentalidade. Há muita qualidade no que se faz por cá, que em nada ficam atrás dos projectos lá fora.»

Indo um pouco para as minhas questões tradicionais que relacionam a música dos artistas com a literatura, João Vieira conta-nos que lê bastante, mais nas férias, e que o livro que mais o marcou foi O Estrangeiro de Alberto Camus: «Na altura vivia em Londres e leva-me muito para esse lado. Eu estava doente, com gripe, um amigo meu levou-me e devorei-o completamente. Foi a primeira vez que um livro me prendeu do início ao fim.» Já recentemente leu Just Kids de Patty Smith: «Foi um livro que adorei porque me revi imenso nele. Fala dos anos 70 em Nova Iorque, da pobreza dos artistas dessa época. E também me lembrei de Londres, do tempo em que era DJ lá e havia aquela maluqueira toda. Levou-me a viajar no passado e também é interessante sob a perspectiva de que Patty Smith, que é agora um ícon, uma lenda viva, passou por imensas dificuldades e pobreza, como tanta gente e artistas, por coisas mesmo trágicas. Foi o último livro que li e que me marcou mesmo.»

Reportagem do concerto no Musicboxhttp://www.branmorrighan.com/2014/06/foto-reportagem-white-haus-no-musicbox.html

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[Foto Reportagem] White Haus no Musicbox Lisboa https://branmorrighan.com/2014/06/foto-reportagem-white-haus-no-musicbox.html https://branmorrighan.com/2014/06/foto-reportagem-white-haus-no-musicbox.html#respond Fri, 27 Jun 2014 18:12:00 +0000

Fotografias por Sofia Teixeira

Foi ontem, pelas 22h30, no Musicbox Lisboa, que a magia se deu. Vindo do Porto, João Vieira trouxe com ele Nuno Serafa, André Simão e Graciela Coelho para uma noite fantástica de música cheia de ritmo e boa disposição. The White Haus Album é o primeiro álbum de longa duração de João Vieira no seu projecto a solo com White Haus e, após a apresentação no Porto, no dia 21, foi a vez de chegar à capital.

Apresentados os seus companheiros de concerto, começou o festim de música disco, com baixos, sintetizadores, bateria, uma voz feminina e um vocalista imparável. Se ouvirem alguma música numa rede social e ficarem sem a certeza se gostam ou não de White Haus, o vosso tira-teimas será uma simples ida a um concerto – ficarão completamente rendidos.

Tive de ir ao concerto como fotógrafa e, como tal, usufruir do concerto em si foi mais difícil, mas houve momentos em que nem valia a pena tirar qualquer fotografia, porque pura e simplesmente o meu corpo não obedecia à ordem de permanecer quieto. João Vieira sabe como dar um bom concerto, com frequentes interacções com o público, e como criar uma sinergia com quem o ouve e observa.

Se a sua experiência como músico, com mais de 15 anos, podia não ser suficiente para mostrar todo o seu potencial, o que é certo é que com The White Haus Album perdoamos completamente a pausa dos X-Wife, pois sem ela não haveria White Haus para ninguém. A repetir, completamente.

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[DESTAQUE] Agenda Musical – White Haus, Moullinex e Tradiio Live (26, 27 e 28 de Junho) https://branmorrighan.com/2014/06/destaque-agenda-musical-white-haus.html https://branmorrighan.com/2014/06/destaque-agenda-musical-white-haus.html#respond Wed, 25 Jun 2014 18:12:00 +0000

Amanhã, a partir das 22h, White Haus no Musicbox Lisboa! Informações aqui: http://www.branmorrighan.com/2014/06/destaque-white-haus-disco-single.html

Sexta-feira, a partir das 21h, no Pequeno Auditório do CCB, Moullinex! Informações aqui: http://www.branmorrighan.com/2014/06/destaque-moullinex-tem-novo-single-e.html

Sábado, a partir das 16h, Tradiio Live, com Voxels, Capitão Fausto (DJ Set), O Martim, Mr. Herbert Quain, Lasers, entre outros! Informações aqui: http://www.branmorrighan.com/2014/06/destaque-tradiio-goes-live-os-primeiros.html

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[DESTAQUE] White Haus – Disco – Single – Concerto de Apresentação esta Quinta-feira no Musicbox! https://branmorrighan.com/2014/06/destaque-white-haus-disco-single.html https://branmorrighan.com/2014/06/destaque-white-haus-disco-single.html#respond Tue, 24 Jun 2014 13:32:00 +0000 Fotografia Luís Espinheira

João Vieira pousou a guitarra e deu descanso aos X-Wife.

Agarrou num baixo, em sintetizadores, uns mais vintage do que outros, num computador para comandar as programações e chegou a White Haus.

No ano passado editou um EP, em vinil de doze polegadas, que prometia novos e estimulantes desafios. A sua estreia em longa-duração confirma a promessa.

São muitas as músicas que se ouvem em The White Haus Album, não fosse ele um melómano e um DJ (DJ Kitten) de referência, responsável por uma das últimas grandes revoluções da club culture nacional, e ainda assim é só uma, a sua.

Disco not Disco e respectivos devaneios cósmicos, o Electro-Pop da BEF ou dos Yazoo em versão Dub, o proto-Tecno de Detroit e dos Cybotron, o mais ou menos ácido House dos primeiros anos de Chicago, o Prince e a geração dourada do R&B de Minneapolis e, claro, todo o pós-Punk que está na génese da sua formação, convivem num caldeirão fervilhante de onde resulta, como sempre, modernidade e se mostram novas facetas duma personalidade vincada e original.

O primeiro single “Far from everything” é prova disso mesmo.

Hong Kong, Abril de 2014, mas podia ser uma qualquer cidade, sem tempo, digna de um Blade Runner.

Assim é o extraordinário videoclip que Vasco Mendes realizou para “Far from everything”, primeiro single a ser retirado do álbum de estreia de WHITE HAUS, projecto a solo de João Vieira, um dos mentores dos X-Wife. Uma cidade em ambiente noturno, encharcada de luz tecnológica e de gente incógnita, que se cruza mas que não se reconhece, de beleza solitária e até, quem sabe, de Replicants.

Porque não é disparatado falar de Replicants, a propósito da música de “The White Haus album”.

Tal como nas personagens do filme de Ridley Scott, são muitas as suas raízes e único o seu resultado.

E é para o futuro que João Vieira aponta ao convocar Disco não Disco, e seus afluentes mais ou menos cósmicos, mais ou menos Ítalo, Pós-Punk e Synth-Pop, Electro e Proto-Techno, Acid House e Prince, para os conjugar num todo coerente e altamente personalizado.

Música desta merece vídeos assim…

Fotografia de fundo – Luís Espinheira

É já esta Quinta-feira que João Vieira apresenta este seu disco a solo no Musicbos Lisboa.

Do Punk ao Funk, Disco que não é Disco, entre electrónica e Sintetisadores, João Vieira faz por si mesmo. Conhecido como DJ KITTEN e vocalista dos X-WIFE, é agora em WHITE HAUS, compositor, autor, produtor e intérprete.

Música independente num certo rácio, experiência provada e inspirada pela Nova Iorque dos oitenta subterrâneos, une ZE Records e Death From Above numa mistura crua de contorções de géneros musicais.

Com EP homónimo lançado editado e bem cotado o LP já foi lançado a 9 Junho!

No clube ou no palco pode ser encontrado em DJ set, Live Act ou Live Band, mas o formato não interessa… if you wanna ride, ride the WHITE HAUS.

Dia 26 Junho || MUSICBOX LISBOA

Bilhete // 6€

http://www.bilheteiraonline.pt/Comprar/Bilhetes/19898-white_haus_lancamento_de_the_white_haus_album-musicbox/

Bilhete + CD // 10€

http://www.bilheteiraonline.pt/Comprar/Bilhetes/19897-white_haus_pack_concerto_cd-musicbox/

Bilhetes à venda na Bilheteira Online e locais habituais

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