Autores – Bran Morrighan https://branmorrighan.com Literatura, Leitura, Música e Quotidiano Mon, 28 Dec 2020 05:34:34 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9 https://branmorrighan.com/wp-content/uploads/2020/12/cropped-Preto-32x32.png Autores – Bran Morrighan https://branmorrighan.com 32 32 Entrevista a Afonso Cruz, um passeio pelas obras literárias e muito mais – PARTE III https://branmorrighan.com/2015/05/entrevista-afonso-cruz-um-passeio-pelas_24.html https://branmorrighan.com/2015/05/entrevista-afonso-cruz-um-passeio-pelas_24.html#respond Sun, 24 May 2015 14:00:00 +0000 Depois de uma Primeira Parte e de uma Segunda Parte, eis que avançamos para o fim da entrevista com um dos nossos maiores escritores da actualidade – Afonso Cruz. Nas duas primeiras parte avançámos através das suas obras, o que está por trás de cada uma, o que é que fascina o autor quando conta uma história. Nesta última abordamos outras facetas do autor, as vertentes mais filosóficas e artísticas que acabam por ter sempre influência na sua literatura. Espero que gostem, tem sido uma bela viagem.

Fotografia Vitorino Coragem

Numa outra entrevista que li do Afonso, ele disse, mais coisa menos coisa, que a arte era a expressão do que não existe. Ao ler isto, e olhando para toda a vertente artística do Afonso, o meu pensamento foi mais que a arte era a forma de expressão da nossa percepção do mundo. Ele comentou: «Sim, eu quando falo disto, de que se trabalha o que não existe, é como um ficcionista, ele trabalha nas coisas que não existem. Mas acima de tudo porque a arte é um objecto artístico que não é uma reprodução de uma coisa que já existe, é uma coisa nova e por isso mesmo não existe. Se eu quiser criar um objecto artístico é uma coisa nova e única, ainda não existe, portanto tenho de pensar numa coisa que, na verdade, é uma “mentira” e trabalho com essa matéria. Ou seja, todos os artistas trabalham com… podem partir do real, evidentemente, mas têm de criar uma rotura com a realidade para nos dar uma coisa nova. Na verdade, todas as invenções são isso. Inventas um lápis, não existe um lápis, mas tu inventaste o lápis. Esse lápis não existia, existiu primeiro na tua cabeça e depois é que o criaste, mas ele não existia na realidade. A maior parte das coisas que nós criamos e que inventamos, fazem parte desse lado de ficcionista – trabalham com coisas que ainda não existem e depois a realidade é que se vai adaptar ao que não existe, ainda. Isso tem muito a ver connosco enquanto seres humanos, porque nós não nascemos com as armas dos outros animais. Nós não nascemos com pêlos, temos de fazer roupas, criar roupas, criar uma coisa que não existe – os tais pêlos que não existem. Não nascemos com garras, temos de criar armas. Não nascemos com utensílios, até para comer precisamos de utensílios – não necessariamente, mas fazem alguma falta. (risos) A verdade é que quase tudo o que nós fazemos, não nasceu connosco. É criado por nós. O ser humano depende, acima de tudo, da cultura, não nasce com essas coisas. Durante muitos anos, ao contrário dos animais que são adultos muito cedo ou independentes muito cedo, nós passamos anos e anos a aprender coisas, porque precisamente nós dependemos da cultura e só a cultura é que faz de nós seres humanos, senão seríamos iguaid a um animal – sem desprimor para com nenhum animal -, mas o nosso caminho é um pouco diferente. Não nascemos com as mesmas armas, temos de criar essas armas. Isso faz-se através da aprendizagem, ensinando aos outros, aprendendo dos outros, inventando novas coisas e essa cultura marca muito a nossa maneira de estar. Por isso, quando falo da arte e da ficção da leitura como trabalho de coisas que não existem, tem mais a ver com essa ideia de criação.»

A verdade é que a própria arte tem servido, muitas vezes, para moldar a visão das pessoas sobre o mundo: «É como aquela frase do Oscar Wilde que “a vida imita a arte”. Portanto, tu tens uma visão e essa visão, muito provavelmente, torna-se depois na maneira de toda a gente ver o mundo. Essa visão antes do artista ter colocado cá fora, não existia, é uma nova criação. É tão básico isto, que a nossa própria percepção, por vezes, até tem a ver com a verdade, é só uma descoberta, não é uma invenção. Por exemplo, nós descobrimos que não é o Sol que anda à volta da Terra, é a Terra que anda à volta do Sol e, de repente, toda a gente olha para o mundo desta maneira e não da outra. Assim um dia irá aparecer outra teoria qualquer que nós vamos passar a olhar para o mundo segundo essa teoria que, na verdade, não passam de teorias, são sempre teorias.»

Ilustração Afonso Cruz para o 5º Aniversário

do Blogue BranMorrighan

Para quem não sabe, o Afonso começou por realizar alguns filmes, sendo que hoje em dia acumulou vertentes artísticas como escritor, ilustrador, músico (nos The Soaked Lamb) e não se fica por aqui. Ao ver tantas linhas de acção, em que são raras as pessoas que conseguem ter tanto talento em todas como Afonso tem, perguntei-lhe se estas eram as suas várias formas de expressar a sua visão do mundo através dos vários sentidos: «São, são… São mesmo muito diferentes e complementam-se…Eu tenho a sorte de ter conseguido, pelo menos, aliar algumas delas e conseguir expressar-me em duas ou três diferentes e isso dá-me mais possibilidades. Consigo ser mais eficaz. Pelo menos, na minha cabeça, por vezes tenho uma ideia e ela é mais facilmente comunicável através da imagem, outras vezes através de sons, através de palavras. Portanto, encaminho para aquele que eu acho mais capaz. Mas enfim… outras pessoas terão sempre a mesma, não é um limite. Estas coisas também são más. As pessoas não se especializam tanto em determinada coisa e até se diz que… um provérbio qualquer espanhol que diz “Quem sabe muitas coisas, não é mestre de nada” ou uma coisa assim.» 

É claro que discordei na hora: «Mas há muitos casos assim, há muitos casos de pessoas que eram realmente muito boas em muitas coisas… Muitos artistas integrais, digamos assim, no século XX mais importantes e também um pouco esquecido Almada Negreiros que era um pintor excelente, um grande escritor, geómetra, portanto, era um tipo muito completo e fazia tudo muito bem. Eu acho que não há impedimento nenhum para isso. Até porque muitas vezes no pensamento artístico é igual. A parte criativa é igual. Depois a técnica e a manifestação disso é que é diferente, mas essa técnica qualquer pessoa pode aprender, não é verdade? Porque a técnica… Bem e a criatividade também! A criatividade não é uma coisa que nasça com as pessoas. É uma coisa também que se educa, que se trabalha e que se aprende.»

Esta é outra questão interessante, será que a arte é mesmo algo que se aprende? Não nascerá naturalmente já com certas pessoas? «Eu acho que não. Há pessoas com inclinações, mas também as podem perder ao longo da vida. Eu conheci imensas pessoas que desenhavam muito bem em criança e que nunca mais desenharam na vida e até têm vergonha de na altura as pessoas dizerem “Ah, mas ele era tão bom desenhador”. Também conheço imensos casos opostos, em que desenhavam mal e que depois tornaram-se grandes ilustradores ou grandes pintores ou grandes desenhadores. Eu acho que isto também depende não só da inclinação, mas depois do trabalho que tu colocas nesse gosto ou nessa paixão. Acima de tudo, é muito importante gostar muito daquilo que se faz ou gostar muito de ser determinada coisa e investir nesse caminho. Há muito trabalho a ser feito e a inclinação, só por si, não chega. Acima de tudo é isso. Porque às vezes até é contraproducente sentires que és um talento natural. Às vezes tens determinada facilidade para umas coisas e quando não as trabalhas, porque já tens aquilo e por ser uma coisa garantida acabas por não evoluir. Acontece muito no desporto, nós vemos pessoas muito talentosas até determinada idade e depois com o tempo desaparecem e que nunca mais fazem nada. Por outro lado, há outros atletas e desportistas que estão sempre a evoluir… Acontece o mesmo na arte.»

Sem me querer meter na vida pessoal do Afonso, mas por saber que ele tem dois filhotes e toda esta apetência para as artes, não pude deixar de perguntar se passar-lhes esse gosto era algo que de que tinha intenções de fazer: «O que eu tento é não ter de impor nada desse tipo, creio que não resultaria. Tento é que eles tenham acessibilidade a maior parte destas coisas, ou seja, que tenham sempre lápis de cor, tenham canetas de filtro, tenham papéis, tenham uma impressora, tenham acesso à informática – hoje em dia, é fundamental – mas também tenham sempre livros à mão e que possam, se quiserem, interessarem-se. Não estou a impingir os livros, mas eles estão à mão e estão acessíveis. Estas coisas todas são-nos acessíveis e, portanto, se mostrarem algum interesse e é normal que o tenham porque se me virem a ler – e eles vêem-me a ler – também é normal que sintam alguma curiosidade pelos livros e que os procurem. Depois logo se verá se gostam ou se não gostam, porque há pessoas que não gostam e não são, por isso, pessoas menores ou piores pessoas por não gostarem de ler. Acho que ler é muito importante, acho que a cultura é muito importante, mas há muitas formas de nós aprendermos, há muitas formas de ganharmos essa massa cultural. Não é só necessariamente através dos livros que nós o fazemos e que conseguimos. As viagens é uma grande maneira de conhecer o mundo, de conhecer as pessoas, de perceber a nossa sociedade, etc.. Há imensas maneiras de o fazer que não é exclusiva desta ou daquela arte. Por isso, a minha maior preocupação é que eles tenham acessibilidade a estas coisas e que estas coisas lhes sejam acessíveis. De resto, será mais a ver o feitio deles do que com o meu desejo ou imposição.»

Agora numa perspectiva mais geral, sendo o Afonso um artista no verdadeiro sentido da palavra, perguntei-lhe se achava que estamos num país que dá realmente oportunidade para os artistas terem espaço de expressão ou se é preciso ter alguma sorte e paciência para se conseguir fazê-lo: «É complicado. Nós somos um país cuja língua não tem a expressão que deveria ter se pensarmos em números. Temos um grande número de falantes, por exemplo, isto pensando na literatura, mas nós e o Brasil não comunicamos assim tanto e não partilhamos tanto as coisas de uns e de outros, ao contrário com o que se passa com Espanha e a América do Sul, ou América Latina. Neste caso, muitas vezes, os livros são logo publicados nos países todos e acabam por ter um mercado enorme e uma visibilidade muito maior. Nós, porque também a cultura tem caminhado nesse sentido, a língua inglesa tem um poder enorme e, portanto, os portugueses terão sempre de trabalhar muito mais para chegar a esse mercado. Podem ser muito bons, mas muito provavelmente não vão ser traduzidos porque eles não investem muito e portanto aí há esse esforço. Por outro lado, a competição lá é muito maior do que num meio pequeno e também se pode singrar mais facilmente, se calhar, nestes meios mais limitados. Tem as suas vantagens e as suas desvantagens – como tudo na vida – agora eu acho é que independentemente de ser fácil ou não ser fácil, conseguirmos ou não conseguirmos viver daquilo que gostamos, acho que devemos de apostar nisso. Se eu gosto de determinada coisa, tenho paixão por determinada coisa, tento fazer com que isso seja o meu caminho. E muito provavelmente porque realmente gostamos, não me torno naquele funcionário cinzento que tem apenas de cumprir o seu horário laboral e mais nada. O que se passa, por exemplo, comigo é que o meu trabalho é igual ao meu ócio. Eu gosto muito de escrever, e estou a escrever no tempo… ou melhor! Eu não tenho tempo de ócio nem tenho trabalho, eles são iguais. Ler também faz parte do meu trabalho, não é verdade? Portanto, é uma coisa que gosto muito e tudo isso… não há uma fronteira definida entre o que é realmente trabalho e o que é lúdico. Eu acho que isso é o ideal. Porque é aí que nós temos aquela sensação do trabalho como não alienado, um trabalho que é vocacional, tu sentes um apelo. A vocação vem da palavra voz, é uma espécie de apelo. Tu segues esse caminho e eu acredito que naturalmente, se realmente gostares, se realmente trabalhares, mais tarde ou mais cedo tudo o resto virá por acréscimo. Isso em Portugal, em Espanha, na China ou Inglaterra acho que funciona. Portanto, acho que essa será a maior preocupação.»

O Afonso conta-nos como foi com ele: «Eu desde que comecei ir à escola, etc., fui sempre muito incentivado a ser um sonhador, um artista plástico, a arte era… E que também, se nós imaginarmos, a maior parte dos meus amigos, os pais dos meus amigos pensavam “Ah, mas se ele tem jeito para desenhar, é melhor escolher arquitectura porque depois conseguirá um trabalho até mais sério”. Porque há muito esta crença. Na verdade, depois é igualzinho. Há imensos arquitectos desempregados como há imensas pessoas que não conseguem viver da arte somente. De qualquer maneira, sempre fui incentivado nesse sentido e fui seguindo o meu caminho. Até ao ponto, de certa altura, nem gostar nada de desenhar e já ter assim uma espécie de “malapata” com a ilustração e com o desenho, mas isso também faz parte da minha personalidade. Sempre gostei de mudar, sempre gostei de investigar outras coisas, tentar outras coisas, experimentar outras coisas. Tenho alguma curiosidade sobre as coisas que gosto, se gosto de cerveja, tento fazê-la, se gosto disto, tento perceber como é que se faz e se eu seria capaz de o fazer. No fundo, é isso que tenho feito.»

É sabido que o nosso escritor produz a sua própria cerveja, mas recentemente houve outra paixão que se manifestou através da rede social Instagram – a fotografia. O mais curioso é que mesmo não vendo o autor das fotos no Instagram, quando aparece uma foto do Afonso eu já sei que é dele ainda antes de fazer a verificação. Fiquei a saber que isto vem já de duas gerações anteriores, já que o pai e o avô também eram fotógrafos. Inclusive o avô tem ainda uma sala de exposições na Figueira da Foz com o seu nome. Em tom de despedida, ele fala-nos um pouco de como a fotografia tem presença na sua vida: «O meu avô trabalhou em fotografia a vida toda. Começou a trabalhar aos doze anos e morreu fotógrafo. Sempre trabalhou em fotografia, não fez mais nada na vida e era uma pessoa muito interessada. Por exemplo, na altura da 2ª Guerra Mundial não havia reveladores, nem fixadores, as pessoas dificilmente conseguiam adquirir alguns químicos. Ele próprio criou as suas fórmulas e começou a fazer com as coisas que arranjava. Mas eu sempre tive uma relação com a fotografia um pouco distante, apesar de ter estudado na António Arroio e mais tarde nas Belas Artes, e ter tido este convívio muito próximo com a fotografia, nunca liguei muito… E agora o Instagram até começou porque estava com um amigo meu – que é fotógrafo – na feira do livro e eu disse “Epá, já não consigo dar vazão ao Facebook, a todas as mensagens, comentários…” e então ele disse “O Instagram é muito porreiro porque até podes depois partilhar no Facebook. Eu agora raramente vou ao Facebook, vou ao Instagram…” Então fiquei a pensar nisso e pensei “Então vou criar uma conta no Instagram”. Criei a conta e depois, claro, começou-me a dar muito mais trabalho (risos) porque depois gosto de ter umas fotografias com as quais me sinta confortável em expô-las, em mostrá-las às outras pessoas. Portanto, dá-me algum trabalho fazer isso e pensar nisso. Na verdade, o que me aconteceu é que agora tenho o Facebook e tenho o Instagram para trabalhar. (risos) Mas estou a gostar imenso de fotografia. Também porque entretanto o meu avô morreu, recebi algumas máquinas que vieram dele, do meu pai… Fiquei com imenso material fotográfico de qualidade nacional e, aos poucos fui… lá está! Por estar acessível, por estar perto de ti, tu acabas por “Ah, deixa-me cá experimentar isto ou aquilo”. E pronto, comecei a gostar mais do que gostava e cada vez mais.»

Uma foto publicada por @afonso_cruz a

FIM DA TERCEIRA PARTE

E acaba assim, a entrevista com o Afonso Cruz, um dos meus escritores preferidos de todos os tempos e que parece ainda mal ter começado, apesar da extensa marca que já vai deixando em cada vertente artística em que toca.

Bibliografia: http://bookoffice.booktailors.com/autores/afonso-cruz/#?1

Facebook: https://www.facebook.com/pages/Afonso-Cruz/1573193082910892

Instagram: https://instagram.com/afonso_cruz/

As outras entrevistas ao autor podem ser encontradas aqui:

PRIMEIRA PARTEhttp://www.branmorrighan.com/2015/05/entrevista-afonso-cruz-um-passeio-pelas.html

SEGUNDA PARTE http://www.branmorrighan.com/2015/05/entrevista-afonso-cruz-um-passeio-pelas_23.html

Entrevista a 13 de Janeiro de 2013http://www.branmorrighan.com/2013/01/entrevista-afonso-cruz-escritor.html

OPINIÕES

A Boneca de Kokoschkahttp://www.branmorrighan.com/2012/12/opiniao-boneca-de-kokoschka-de-afonso.html

Jesus Cristo Bebia Cerveja: http://www.branmorrighan.com/2013/06/opiniao-jesus-cristo-bebia-cerveja-de.html

O Livro do Ano: http://www.branmorrighan.com/2013/06/opiniao-o-livro-do-ano-de-afonso-cruz.html

Os Livros que Devoraram o Meu Paihttp://www.branmorrighan.com/2013/08/opiniao-os-livros-que-devoraram-o-meu.html

Para Onde Vão os Guarda-Chuvas: http://www.branmorrighan.com/2014/01/opiniao-para-onde-vao-os-guarda-chuvas.html

A Carne de Deus: http://www.branmorrighan.com/2014/02/opiniao-carne-de-deus-de-afonso-cruz.html

Mar – Enciclopédia de Estória Universal: http://www.branmorrighan.com/2014/12/opiniao-mar-enciclopedia-da-estoria.html

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Entrevista a Afonso Cruz, um passeio pelas obras literárias e muito mais – PARTE II https://branmorrighan.com/2015/05/entrevista-afonso-cruz-um-passeio-pelas_23.html https://branmorrighan.com/2015/05/entrevista-afonso-cruz-um-passeio-pelas_23.html#respond Sat, 23 May 2015 14:00:00 +0000 Ontem foi publicada a PARTE I desta grande entrevista ao Afonso Cruz. Depois de uma primeira entrevista ao escritor em Janeiro de 2013, que pode ser lida aqui, houve a necessidade de aprofundar mais algumas obras, centrarmo-nos nos seus mais recentes trabalhos e ir para além das histórias – saber motivações, o que move o autor para escrever determinadas coisas. E é por aí que começamos esta PARTE II. 

Fotografia Vitorino Coragem

Para Onde Vão os Guarda-Chuvas, como foi dito anteriormente, foi um livro que emocionou muitos leitores, que levou a diversas interpretações e sentimentos, principalmente na temática de como é perder um filho. Claro que cada leitor sente sempre o livro à sua maneira, mas do lado do escritor, o que é que estava em causa quando escreveu aquela narrativa? «Acima de tudo, esta relação com o outro e com a diferença. Porque é também um tema transversal nas coisas que escrevo. A Boneca de Kokoschka também retrata muito disso…Tal como o Pintor. A verdade é que as relações sociais, a sociedade e… não gosto nada de me alhear desses assuntos e acho que são muito importantes. Essa era uma das preocupações principais. Claro que tem a ver com a perda de um filho e tem também a ver com a nossa capacidade de lidar com a dor, com a vida,  de quando olhamos para o mundo e sentimos que há imensas injustiças… Foi tentar criar alguma luz no meio desta coisa toda e tentar perceber que sentido faz um mundo criado assim em que tudo come tudo, que nós já sabemos à partida que vivemos num jogo já viciado – que nascemos e vamos morrer. Na realidade somos realmente optimistas, porque se tu fosses jogar um jogo em que diziam “ olha vais perder”, tu não querias jogar, mas todos queremos jogar. Não só queremos jogar como tentamos fazer o melhor possível e às vezes até tentamos enganar aquele final destinado. Fazemos isso através da religião, da filosofia, da arte, através de imensas coisas que podem enganar esse final – e isso claro é uma preocupação. Acima de tudo, a perda de um filho acaba, se calhar, por ser aquela que é mais difícil de suportar porque é a nossa descendência. Os nossos ascendentes nós achamos mais ou menos natural vê-los morrer, mas os nossos filhos nós não esperamos vê-los morrer. Se calhar, é a perda mais difícil suportar. Mas precisamente por isso, por ser uma coisa tão complicada e tão difícil o facto de sermos capazes, depois de perdermos um filho, perdoar quem o fez e, mais do que isso, caminhar em direcção a ele. Eu acho que é quase épico, verdadeiramente a grande coragem do ser humano que é fazer isso.»

Aproveitando esta questão de caminhar em relação ao outro, de perdoar e aceitar, peguei no tópico do título Jesus Cristo Bebia Cerveja. Quem vê o título pode pensar várias coisas e até mesmo condenar o autor por ter escolhido um título, como já ouvi dizer, provocatório. Perguntei ao Afonso se ele já tinha sentido algum tipo de recriminação por causa deste título: «Imagino que sim. Algumas pessoas já contaram-me algumas histórias. Há uma senhora sentada ao lado no metro de alguém que está a ler o Jesus Cristo Bebia Cerveja e faz um comentário sobre isso. Por exemplo, nas edições espanhola e italiana, não aparece Jesus Cristo na capa por terem algum receio que fira susceptibilidades. Agora quanto ao título, normalmente uso os títulos um pouco como metáfora da história. Como A Boneca de Kokoschka ela aparece muito pouco também, no caso de Jesus Cristo Bebia Cerveja também, mas é um exemplo de transformação. Tanto a cerveja quanto Jesus Cristo, esse é um livro em que Jesus Cristo é Deus e é homem ao mesmo tempo. Há ali uma sobreposição de planos – há um plano mítico e histórico – e a própria cerveja tem isso também. Há essa transformação numa coisa duradoura que não morre. Quando nós “matámos” o cereal, fazemos apodrecer o cereal para o podermos transformar nesta bebida. Ela mais do que o pão, por exemplo, apesar de ser feito pela levedura do pão, dura muito mais do que o pão. Tu consegues guardar cerveja e portanto tem uma longevidade muito maior e tu consegues transformar o grão numa outra coisa, adicionar-lhe um patamar.»

Para ficar então esclarecido, o Afonso explica-nos sobre o que realmente trata Jesus Cristo Bebia Cerveja: «O livro é basicamente sobre isso, sobre estas coisas que tu és capaz de sacrificar, ou seja, de perder o grão e transformares-te numa outra coisa qualquer. Nós todos temos isso na vida e, se calhar, é assim que nos dá sentido à vida. É saber sacrificar essas coisas por algo que nós achamos mais valioso do que nós próprios como os bens ideais, por vezes outra pessoa – o amor é o exemplo disso. Uma pessoa é capaz de morrer porque ama outra pessoa ou é capaz de fazer um sacrifício enorme por amor ou por dedicação, por filosofia, por ideais, por tudo, do bom até ao mau – muitas vezes é horrível, como se passa com o radicalismo religioso – mas é uma maneira de nos trocarmos, de nos relacionarmos, de nos transformarmos e também é uma maneira de enganar a morte. Porque torno-me naquilo que gosto.»

Um exemplo desta interacção é dado pelo nosso escritor: «Eu gosto muito do Saint-Exupéry, gosto especialmente do livro Cidadela. Nesse livro, julgo que ele diz que quando se mata um jardineiro, ele morre uma vez, mas se matarmos o jardim desse jardineiro, ele morre duas vezes. Porque, na verdade, este está sempre ligado, o seu trabalho diário é de criar aquele jardim. Quando lhe tiras aquilo, não só o mataste a ele como destruíste o jardim. E isto acontece muito na vida das pessoas. Nós entregamo-nos a uma coisa e se nós morrermos não há problema, porque essa coisa permanece. Temos essa sensação que conseguimos enganar a morte e, se calhar, até o fazemos na verdade. Porque continuamos a viver de outra maneira – colocamo-nos nessa coisa. O Camões dizia “o amador, torna-se na coisa amada.” Nós acabamos por nos tornar nas coisas que amamos e se isso que amamos continuar a persistir ou continuar viva, em especial se for um ideal ou uma ideia de sociedade, uma ideia de evolução, etc., nós na verdade continuamos vivos ali. Não com as nossas características, não com os nossos acidentes, eu não continuo com o nariz que tenho, nem com… mas também não é uma coisa que queira preservar pela eternidade. Acho muito mais importante preservar as nossas ideias, os nossos pensamentos, a nossa maneira de estar. E se existisse o rio da morte, como os gregos tinham, e que eu tivesse de passar aquele rio e tivesse que deixar alguma coisa para trás, o que eu não me importaria de deixar efectivamente era o meu corpo, algumas coisas da minha individualidade, algumas características específicas, mas gostaria muito que nesse barco fossem algumas coisas que considero muito mais importantes do que isso e que são muito mais abstractas – que não têm nada a ver comigo propriamente, tem mais a ver com o pensamento, com uma ideia.»

As Enciclopédias são um exemplo de obra onde o autor expressa vários desses pensamentos e ideias, sendo que o formato reúne tanto aforismos, citações, como pequenos textos. Sendo que a primeira Enciclopédia foi também a primeira obra que o Afonso escreveu questionei-o sobre o que o motivou a construir este formato. Que liberdade é que ele sentia para fazer disto algo contínuo: «Quando comecei a escrever a enciclopédia nem sequer estava a pensar escrever, nem em ser escritor. Comecei a escrever, pensei num conceito, fiz um blogue privado e só chateava os amigos – e não chateava muito porque não sou muito de chatear. E aquilo inseria-se nesse contexto, podia todos os dias escrever uma ou duas histórias, às vezes só um aforismo, um poema… Conseguia incluir tudo naquela enciclopédia. Só quando já tinha uma dose grande de verbetes é que me apercebi “se calhar, isto dava um livro”. Só nessa altura é que decidi enviar para uma editora, pois até lá ainda não tinha pensado nisso. Aquilo era simplesmente um blogue para mim, como hobby e não mais do que isso. Depois acabou por ser o projecto em que eu me envolvo… não diria mais, mas como tenho esta continuidade, estou sempre a pensar na enciclopédia. Há histórias que me pedem, há textos que me pedem, que quando os escrevo para publicações efémeras teoricamente iriam para o lixo, mas eu penso de modo a que eles não vão parar ao lixo mas à enciclopédia. Escrevo-os a pensar na enciclopédia.»

Uma característica das Enciclopédias é o facto de Afonso Cruz misturar tanto realidade como ficção, sendo que o leitor poderá nem sempre conseguir discernir que parte pertence a cada uma destas duas facções. Este é um jogo que o nosso escritor gosta de fazer nas suas obras em geral: «Gosto, neste caso gosto especificamente porque esse é também outro assunto que falo muito nos livros que é a realidade, a ficção, a verdade… Eu gosto muito de um filósofo que é o Berkeley. As pessoas dizem que ele era solipsista, portanto ele acredita que o mundo é percepção. Se não houver alguém a percepcionar alguma coisa, essa coisa não existe. Ela só existe se alguém testemunhar essa coisa, se houver alguma consciência a olhar para essa coisa. É aquela história zen do “se um pinheiro cair numa floresta faz barulho ou não faz barulho, se ninguém estiver a ouvir?” Para o Berkeley não fazia barulho – o pinheiro a cair não faz barulho se ninguém estiver a ouvir. O que de certa maneira também é consentâneo com muitas coisas que nós experimentamos. Por exemplo, ainda no outro dia o meu filho perguntou se aquilo era vermelho e eu disse “Não, isso não é vermelho. Tu é que vês vermelho. Os objectos não têm cores. Nós é que vemos as cores dos objectos porque é a reflexão da luz. A cor não é uma propriedade intrínseca de um objecto. Outras pessoas com olhos diferentes veriam com cores diferentes. Isso tem a ver a maneira como vemos o mundo.” Os ouvidos é a mesma coisa, nós temos aqui uma coisa que vai interpretar ondas sonoras que passam pelo ar e nós interpretamos como palavras, como uma orquestra a tocar, como coisas incríveis! Ainda no outro dia estava a falar nisso em relação aos vinis. Até já escrevi um texto em que falei disso. Os vinis, para mim, são um mistério enorme. Aquilo são sulcos criados naquele vinil e naquele sulco tu passas uma agulha e essa agulha, mesmo que não seja amplificada, permite-te ouvir. Estão a tocar orquestras inteiras. Tu consegues ouvir oboés, trompetes, saxofones e uma série de coisas e aquilo parece realmente magia – e é também extremamente mecânico. Não são zeros e uns que depois são interpretados… Não, aquilo é uma coisa perfeitamente mecânica. Isto para dizer que, se calhar, o universo é percepção. Portanto, tem a ver com a consciência, com haver alguém a percepcionar esse universo e, se calhar, não existe nada se não existir consciência. E a consciência, se calhar, é a base disso tudo. Porque me preocupo com essa questão da realidade e da ficção, na enciclopédia já a lês precisamente com isso, ou seja, desvaloriza de certa medida aquilo que nós temos por realidade, e que sentimos que existe uma coisa que é a verdade, que é real, que é palpável e etc., e existe depois um mundo ficcionado. Eu acho que eles os dois são exactamente a mesma coisa e a enciclopédia é um exemplo disso porque mistura essas coisas.»

Focando-nos um pouco sobre esta última – Mar – o autor conta-nos que este volume acabou por surgir não da sua proximidade com o mar, do tempo que viveu na Figueira da Foz, mas antes de uma série de textos que tinha escrito para outra revista: «Na verdade, não tenho muita relação com o mar, ou melhor, não tenho uma relação especial – obviamente que gosto muito de o contemplar, está fora de questão –, mas isso não quer dizer, por exemplo, que não adore viver no campo, também gosto muito do campo. Ambos têm a sua beleza e o seu fascínio. No caso da enciclopédia, desta do mar e do tema, a determinada altura saiu uma revista em que me pediram textos sobre o mar e a minha coluna chamava-se “Enciclopédia da Estória Universal”, mas só sobre o mar. Então escrevi quatro ou cinco textos e a revista entretanto acabou, ou foi descontinuada como se diz hoje em dia. (risos) Eu não só tinha aqueles textos, como também a determinada altura fui visitar o museu marítimo e fiquei muito impressionado com as histórias dos pescadores de bacalhau. (risos) Naquela altura, quis escrever um romance sobre um pescador de bacalhau. Acabei por escrever uma novela que incluí aí no Mar. Portanto já tinha uma série de coisas que poderia incluir numa enciclopédia temática e então juntei para fazer este volume.»

Três das estórias deste volume acabam por estar ligadas e entrelaçam em si mesmas questões como destino, encontros, desencontros, livre arbítrio, inevitabilidade e aceitação. «Essa coisa do destino, das coincidências que todos passamos e vivemos, os desencontros e os encontros agradam-me muito. Porque criam uma trama, uma tapeçaria. Nós olhamos para a vida e percebemos que realmente há imensos laços, imensas coisas que por vezes nem nós conseguimos unir, mas eles, de alguma maneira, estão mais ou menos entretecidos e agrada-me muito isso nas histórias – mostrar que o mundo é esta tapeçaria estranha com encontros e desencontros. Por vezes os fios não vão parar onde nós imaginamos e vão parar a outro lado. Claro que me agrada muito também a ideia de destino, de liberdade, qual é a liberdade que nós temos para escolher ou não escolher, também do tempo e de todas estas coisas que fazem parte da nossa vida e que na realidade são os grandes mistérios da nossa vida – a morte, o tempo, etc. Aliás, filosoficamente, o tempo… Santo Agostinho disse “se nós percebemos o tempo, percebemos Deus.” Há mistérios que são muito difíceis de compreender, o tempo agrada-me imenso e há alguns livros que colocam algumas questões sobre isso foram sempre muito importantes para mim. Falo sempre muitas vezes sobre o Flatland, ele dá-nos umas perspectivas e coloca-nos algumas questões muito curiosas sobre o tempo. Isso foi também uma espécie de moda no final do século XIX e que depois, se calhar, culminou na física do século XX, com novas teorias sobre o tempo, em que o tempo não era aquilo que nós imaginávamos que era – uma setazinha que vai do passado para o futuro. Tudo isso é importante para mim e é uma coisa que tenho muito prazer de passar nas histórias. Essas três, em especial, funcionam num conjunto porque são as mesmas personagens. Em todas elas, pelo menos, nós percebemos uma faceta diferente de cada personagem e, portanto, de certa maneira, aquelas três histórias reunidas em conjunto, seria uma espécie de romance.»

Outro facto curioso é que há personagens dos romances que aparecem nas diferentes enciclopédias. Perguntei ao Afonso em tom de brincadeira se isso era para “obrigar” os leitores a lerem todos os seus livros: «Não, obrigar não. (risos) Até porque tu não precisas de conhecer aquela personagem para compreender aquele livro, mas quando tenho uma personagem que, a determinada altura, tem determinadas características e que vai aparecer naquele livro e se eu já tenho essa personagem criada, se ela já existe com essas características, porque não usar exactamente a mesma? Dou-lhe mais um bocadinho de vida, mais um novo ângulo sobre essa personalidade e essa personagem.»

FIM DA SEGUNDA PARTE

PRIMEIRA PARTEhttp://www.branmorrighan.com/2015/05/entrevista-afonso-cruz-um-passeio-pelas.html

TERCEIRA PARTEhttp://www.branmorrighan.com/2015/05/entrevista-afonso-cruz-um-passeio-pelas_24.html

Relembro que em Janeiro de 2013 uma primeira entrevista foi feita e podem lê-la aqui: http://www.branmorrighan.com/2013/01/entrevista-afonso-cruz-escritor.html

OPINIÕES

A Boneca de Kokoschkahttp://www.branmorrighan.com/2012/12/opiniao-boneca-de-kokoschka-de-afonso.html

Jesus Cristo Bebia Cerveja: http://www.branmorrighan.com/2013/06/opiniao-jesus-cristo-bebia-cerveja-de.html

O Livro do Ano: http://www.branmorrighan.com/2013/06/opiniao-o-livro-do-ano-de-afonso-cruz.html

Os Livros que Devoraram o Meu Paihttp://www.branmorrighan.com/2013/08/opiniao-os-livros-que-devoraram-o-meu.html

Para Onde Vão os Guarda-Chuvas: http://www.branmorrighan.com/2014/01/opiniao-para-onde-vao-os-guarda-chuvas.html

A Carne de Deus: http://www.branmorrighan.com/2014/02/opiniao-carne-de-deus-de-afonso-cruz.html

Mar – Enciclopédia de Estória Universal: http://www.branmorrighan.com/2014/12/opiniao-mar-enciclopedia-da-estoria.html

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Entrevista a Afonso Cruz, um passeio pelas obras literárias e muito mais – PARTE I https://branmorrighan.com/2015/05/entrevista-afonso-cruz-um-passeio-pelas.html https://branmorrighan.com/2015/05/entrevista-afonso-cruz-um-passeio-pelas.html#respond Fri, 22 May 2015 22:00:00 +0000 Aqui há uns tempos sentei-me com o Afonso Cruz para falarmos sobre a panóplia de actividades em que ele participa, sendo que o foco principal foi passar um pouco por cada uma das obras literárias até agora publicadas, passando depois para as restantes áreas – música, ilustração, etc, e ainda um ou outro pormenor mais pessoal. A conversa teve perto de uma hora, foi super interessante (falar com o Afonso tende sempre a ser uma actividade em que se perde a noção do tempo!) e faço-vos chegar agora, finalmente, todo o seu conteúdo. O timing não é despropositado já que está aí a chegar a Feira do Livros de Lisboa e nada melhor do que aproveitar uns belos descontos para comparar os seus livros! Relembro que uma primeira entrevista foi publicada aqui, em Janeiro de 2013. 

Fotografia Vitorino Coragem

Tendo lido quase todas as obras do Afonso (falta-me a enciclopédia editada pela Quetzal), não tardei em tentar saber mais sobre a sua envolvente. Inclusive, não há muito tempo descobri que a história do Pintor Debaixo do Lava-Loiças tinha um paralelismo com a realidade relacionada com o avô do Afonso que escondeu, de facto, Ivan Sors, protagonista desta obra. Será que todas as obras têm um pouco de facto reais?

«Não, nem sempre. Os Livros que Devoraram o Meu Pai não tem praticamente nada, mas O Pintor Debaixo do Lava-Loiças partiu de uma história real, um pouco como A Boneca de Kokoschka também, a metáfora d’ A Boneca de Kokoschka também serve para o livro. Às vezes uso histórias verdadeiras e aplico-as. No caso d’ O Pintor Debaixo do Lava-Loiças, até foi diferente porque, inicialmente, era para ser um livro ilustrado para crianças com uma série de histórias da minha infância que ouvi dos meus avós edo meu pai. Apresentei à Caminho, estava lá ainda o José Oliveira, o editor, e ele disse “Esta história merecia ser desenvolvida. Ter uma coisa mais…” e então eu pensei “Bom, então vou escrever uma novela” – do género Os Livros que Devoraram o Meu Pai, que é para jovens – mas a meio percebi que aquilo já não era para jovens. Liguei ao José Oliveira “Pá, isto se calhar já não é para jovens” e ele concordou“Não, não, não. Isto é para adultos!” e a partir daí desenvolvi com isso em mente. Foi o único livro que publiquei na Caminho que é para adultos.» 

E agora o processo deste livro magnífico, O Pintor Debaixo do Lava-Loiças: «Cheguei a tentar informar-me e até saber um pouco sobre o pintor – ele não era só pintor, também era ilustrador e escultor – mas não consegui obter grandes informações. Mais tarde, soube que ele tinha também umas aguarelas no museu da Figueira da Foz e sei agora também que há uma pessoa a escrever uma biografia dele acho que em Coimbra. Na altura cheguei ao pé do José Oliveira e disse “Olha, eu não sei nada da vida dele” e ele então disse “Inventa!” e foi isso que eu fiz, inventei. Pesquisei imenso sobre a vida dos judeus daquela altura, como é que era o périplo que eles faziam desde quando fugiam do nazismo e era praticamente sempre o mesmo. Procuravam sempre os países neutros e, portanto, fugiam normalmente da Alemanha para a Áustria, da Áustria para a Suíça – que era neutro – depois para o sul de França que ainda não estava tomado… Espanha – que era relativamente neutra – e Portugal, que apesar de termos uma ditadura, não era uma ditadura xenófoba e os judeus apareciam cá todos. Depois havia umas casas de refugiados, a maior parte deles perdiam os documentos durante esta viagem – que não era nada fácil para eles – e, por vezes, havia o perigo de serem enviados de volta, seria terrível! Neste caso, os meus avós decidiram esconder o Ivan Sors dentro da casa deles. Isso foi uma história que eu sempre ouvi em criança. Eu nem sabia qual era a nacionalidade dele, acho que o meu pai dizia que ele era jugoslavo ou uma coisa qualquer. (risos) Depois fiz algumas pesquisas na Internet, encontrei algumas peças dele à venda em leilões, percebi o ano do nascimento, o ano da morte. Já sabia que acabava bem o livro, porque realmente ele chega aos Estados Unidos e, pronto, fiz a história imaginando qual seria a viagem de um judeu em 1940.»

Os Livros que Devoraram o Meu Pai, apesar de ser para crianças, faz muitas referências a obras literárias de referência mundial. Perguntei-lhe se achava que as crianças que o lêem, por fazer parte do plano nacional de leitura, conseguem realmente entendê-lo: «Eu acho que eles podem fruir a história e conseguir ler como um entretenimento. Não creio que tenham lido esses livros, em especial alguns que são mencionados, como o Crime e Castigo ou o Fahrenheit 451, mas tenho esperança que seja uma espécie de semente que fique lá. Ou seja, não é preciso ter lido aqueles livros para compreender Os Livros que Devoraram o Meu Pai, se os tivesses lido, se calhar ajudavam a dar outra dimensão à história, mas não tendo espero que seja uma semente – são nomes que ficam na tua cabeça, ficas a conhecer mais ou menos do que é que o livro trata e, se calhar, um dia, entras na livraria e “Olha já ouvi falar deste livro e deste autor!”, e compras e lês o livro. Aliás, tenho tido alguns feedbacks de leitores que depois de ler Os Livros que Devoraram o Meu Pai decidiram ler alguns daqueles livros que falo lá.»

Apesar de os livros do Afonso estarem distribuídos por várias editoras, algumas especificamente de infanto-juvenil, a verdade é que, por exemplo, O Livro do Ano, que poderá ter uma aparência para essa faixa etária, é na verdade um livro para adultos. Falámos um pouco sobre esta transversabilidade das suas obras e de como os livros são uma espécie de nutrientes: «Inicialmente não penso muito no público-alvo. O que acontece muitas vezes é que os livros ilustrados são pintados para um público mais juvenil e eu tento também que esses livros sejam adequados para crianças, não sendo necessariamente para crianças. O Livro do Ano foi vendido para adultos, sempre. Nunca esteve nas secções de infanto-juvenil, mas inicialmente quando penso no livro imagino de modo a que toque essas franjas todas porque também acho que é importante. Muitas vezes nós temos a sensação que existem realmente livros para crianças e outros para adultos. E existem, realmente, livros só para adultos porque tocam em temas que não são adequados para as crianças ou que o vocabulário é realmente exigente no pensamento, etc., mas o contrário não é verdade, ou seja, os livros para crianças poderão ser sempre lidos e apreciados por adultos. Eu acho que um livro para crianças que não seja bom para um adulto, não é um bom livro. Porque somos nós que os compramos, somos nós que decidimos e se eu quiser oferecer um livro ao meu filho, compro um livro que eu goste. Porque os livros também são uma espécie de nutrição, não exactamente a mesma da comida, mas a verdade é que se eu deixasse essa decisão nas mãos dos meus filhos, por exemplo em relação à comida, e nós não o fazemos, eles só comiam chocolate e com os livros também é um pouco assim. De vez em quando, comem um chocolate, mas também têm de comer outras coisas que sejam pouco mais nutritivas. Portanto, são esses livros que nós escolhemos para as nossas crianças, ou seja, chegamos a uma livraria e optamos por um livro que nos diz alguma coisa e que nós sabemos que é adequado para eles e que eles conseguem ler, gostar, fruir as ilustrações e estas coisas todas. Se, por acaso, eu chegar a uma livraria e achar que o livro é mau para mim, eu não vou comprar porque não faz sentido, eu não vou comprar um livro que diga “este livro é uma porcaria, mas é bom para os meus filhos”, isso não faz sentido nenhum.»

Tem sido um percurso eclético no que toca a histórias e a abordagens, principalmente se pensarmos na primeira obra editada – A Carne de Deus, pela Bertrand Editora – caracterizada com um “Thriller satírico e psicadélico”. A obra esgotou, nunca foi reeditada e o Afonso também nunca mais escreveu nada deste género. A curiosidade natural é se se arrependeu de ter editado aquele livro ou se alguma vez ele voltará a ver um reedição: «Não sei. Precisamente porque é muito diferente e também porque ele tem uma história. Ele apareceu porque eu queria publicar a Enciclopédia – foi o primeiro livro que eu escrevi – e, na altura, as sucessivas administrações da Bertrand achavam que o livro não era um bom primeiro livro, que não venderia, etc., e que era um livro muito complicado para primeiro livro. Então, a certa altura, a editora Lúcia Melo disse-me que não queria desistir de me publicar e pediu-me um romance para primeiro livro. Então eu decidi escrever um thriller – apesar de muito irónico. Sentei-me em frente ao computador durante dois meses e escrevi o livro, entreguei o esboço passado esses dois meses e o livro acabou por ser publicado. Realmente, é muito fora das outras coisas que tenho publicado e tenho feito, sai fora desse contexto. Ele esgotou e, mais tarde ou mais cedo, imagino que será novamente publicado, mas eu sinto que devo rever algumas coisas, melhorar algumas coisas e provavelmente sairá uma edição diferente.»

Terá sido o facto de “ter sido obrigado” a escrever este livro que levou a que depois nunca mais escrevesse dentro do género? O Afonso responde: «Não fui obrigado. Na altura, já tinha pensado muito nesta história e era como se já a tivesse na cabeça, não me custou nada a escrever. Por isso é que foi tão rápido escrever esse livro. É realmente uma coisa diferente e até tem um sentido que induz a pensar que poderá haver uma colecção que são as Aventuras de Conrado Fortes e Lola Benites – eles poderiam continuar – e houve até uma altura que escrevi uns primeiros parágrafos de uma continuação. Entretanto, porque me meti noutras coisas e fui escrevendo outro tipo de coisas, acabei por largar isso, mas talvez um dia volte. Também me agrada muito esta coisa mais Pulp… Por exemplo, adoro policiais negros, gosto e leio muito de ficção científica. É um tipo de literatura que me agrada e que se calhar volte lá algum dia.»

O último grande romance publicado foi Para Onde Vão os Guarda-Chuvas e tem uma série de descrições culturais que advêm muito de toda a experiência que o Afonso tem acumulado com as suas viagens. Ainda assim, a origem da obra é outra e também ela real: «Esse livro nasceu a partir de uma história do Gandhi – mais uma vez, uma história verdadeira – em que há um hindu que aparece com o filho morto nos braços junto do Gandhi e diz que foi um muçulmano que fez aquilo e o que é que deve fazer – o Gandhi diz que o que ele devia fazer era adoptar uma criança muçulmana. Eu sempre achei esta história muito bonita e decidi escrever um romance baseado nesta ideia. Isto não é só tolerância, é um caminho em direcção ao outro, é dar um passo muito maior do que aceitar a diferença, é quase amar a diferença, amar o inimigo. Acho isso mesmo muito bonito até porque cada vez mais o mundo, as notícias que ouvimos todos os dias, vai corroborando esta coisa de que precisamos realmente de mudar um pouco este tipo de mentalidade e foi daí que nasceu – mais do que das viagens. Claro que ele se passar entre Ásia Central e o Extremo Oriente, tem a ver apenas com o enredo, com algumas coisas que eram necessárias para a história. Tinha de ficar perto da antiga Pérsia, por causa dos fragmentos persas que eu queria incluir no livro e até trabalho infanti lindustrializado – trabalho infantil há em todo lado, em Portugal também  mas  este tipo trabalho infantil tinha de ser perto da ilha para justificar a história do Gandhi – tinha de ser um país de maioria muçulmana com intervenção americana para isto tudo bater certo. O único país provável ou possível, se calhar, era o Paquistão. Por isso, optei por uma escolha que tinha a ver com o enredo.»

Algo que sempre me cativou na escrita do nosso autor português foi a sua capacidade de criar emoções em crescendo dentro do leitor, uma espécie de acumular que no fim transborda como um todo. Nesta última obra, em particular, o sentimento de perda tem sido partilhado por vários leitores e o arrebatamento também. Como escritor, o Afonso diz não ter muita noção do impacto que o que escreve poderá ter em quem lê: «Eu tenho muito poucas noções do resultado e, na maior parte das vezes, até erro. É um pouco como escrever a pensar em crianças muito pequeninas e afinal até é para crianças com 8 ou 9 anos e não para crianças novas. Eu até brinco porque tenho dois filhos em casa e podia ter feito a experiência, mas nem sequer me lembrei disso. Na realidade, muitas vezes, penso que… Porque nós estamos tão embrenhados dentro da história que aquilo nos parece tudo evidente. Nós já lemos aquela história N de vezes, pensámos, conhecemos todos os meandros, todos os labirintos, todas as coisas… E é um pouco como aquele rato que já conhece o caminho do labirinto. Depois de conheceres o caminho, ele deixa de ser labiríntico, simplesmente fazes aquele caminho e já não te perdes mais. Mas eu esqueço-me muitas vezes que o leitor só lê uma vez e não cem vezes como nós fazemos, por isso a percepção deles da história é muito diferente daquela que tu imaginaste inicialmente. Eu lembro-me que n’A Boneca de Kokoschka, quando saiu, toda a gente dizia “aquilo é labiríntico e é muito complexo” e para mim, na minha cabeça, era muito simples. Tanto que, ao início, quando entreguei o livro na editora nem sequer tinha uma ordem cronológica – saiu com uma ordem cronológica, os acontecimentos seguem mais ou menos uma linha de tempo normal, mas inicialmente eles estavam trocados – e a editora é que me disse “isto é uma maldade enorme que vais fazer com os teus leitores” e eu fiquei espantado porque aquilo para mim era evidente. Com o Para Onde Vão os Guarda-Chuvas aconteceu exactamente a mesma coisa, por exemplo, no final. Porque para mim é um final em aberto – eu não posso dizer qual é, mas pronto, senão estrago o final. O leitor ficaria na dúvida se fica assim ou assado, mas porque o tom é pessimista e eu não me apercebi disso – o tom é muito pessimista no final – as pessoas acreditam todas num final pessimista também.»

Para quem não sabe, há duas versões diferentes desta obra. Algures, nessas versões, existe uma palavra que é diferente e que consegue mudar o sentido que podemos dar à narrativa: «Existe uma palavra em que tu podes perceber que o teu livro é diferente. Tens um diálogo que não existe nos outros livros normais, mas se descobrires essa palavra já sabes que tens um livro especial. Na realidade, isso foi uma maneira de fazer com que as pessoas não descobrissem imediatamente, mas também é um processo muito complicado, esses dois exemplares especiais nunca apareceram. Como o livro vai para a terceira edição, os 5000 da primeira edição terão sido todos vendidos, mas pode estar numa biblioteca, num sítio qualquer, na prateleira de alguém, alguém que não leu, alguém que leu e não reparou… O que fiz com esses dois livros é, na realidade, é muito fácil explicar. O livro como tem o final em aberto, pode acontecer A ou B, ou seja, temos um final pessimista ou optimista. Nesses dois exemplares, num deles há uma confirmação do pessimismo e há um final optimista no outro. É por isso que um é luminoso e o outro nocturno.»

FIM DA PRIMEIRA PARTE

SEGUNDA PARTEhttp://www.branmorrighan.com/2015/05/entrevista-afonso-cruz-um-passeio-pelas_23.html

TERCEIRA PARTEhttp://www.branmorrighan.com/2015/05/entrevista-afonso-cruz-um-passeio-pelas_24.html

Relembro que em Janeiro de 2013 uma primeira entrevista foi feita e podem lê-la aqui: http://www.branmorrighan.com/2013/01/entrevista-afonso-cruz-escritor.html

OPINIÕES

A Boneca de Kokoschka: http://www.branmorrighan.com/2012/12/opiniao-boneca-de-kokoschka-de-afonso.html

Jesus Cristo Bebia Cerveja: http://www.branmorrighan.com/2013/06/opiniao-jesus-cristo-bebia-cerveja-de.html

O Livro do Ano: http://www.branmorrighan.com/2013/06/opiniao-o-livro-do-ano-de-afonso-cruz.html

Os Livros que Devoraram o Meu Paihttp://www.branmorrighan.com/2013/08/opiniao-os-livros-que-devoraram-o-meu.html

Para Onde Vão os Guarda-Chuvas: http://www.branmorrighan.com/2014/01/opiniao-para-onde-vao-os-guarda-chuvas.html

A Carne de Deus: http://www.branmorrighan.com/2014/02/opiniao-carne-de-deus-de-afonso-cruz.html

Mar – Enciclopédia de Estória Universal: http://www.branmorrighan.com/2014/12/opiniao-mar-enciclopedia-da-estoria.html

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[Divulgação] Xiu…. Que é Segredo! (6) -> Entrevista à autora de S.E.C.R.E.T. – L. Marie Adeline https://branmorrighan.com/2013/03/divulgacao-xiu-que-e-segredo-6.html https://branmorrighan.com/2013/03/divulgacao-xiu-que-e-segredo-6.html#respond Mon, 04 Mar 2013 20:22:00 +0000

L. Marie Adeline, é o pseudónimo de Lisa Gabriele, uma aclamada escritora canadiana e conhecida produtora de televisão, que faz a sua estreia no romance erótico.

S.E.C.R.E.T. ainda não estava concluído e já trinta países estavam interessados em adquirir os direitos do livro. Uma história sobre uma mulher, viúva, na casa dos trinta anos, que vai descobrir e realizar as suas fantasias sexuais com a ajuda de um clube misterioso, onde as mulheres são as estrelas. Em entrevista à estação CBC News, a autora revela os segredos sobre uma história que ninguém vai querer perder.

A ficção erótica segue quase sempre regras convencionais, mas a L. Marie Adeline decidiu seguir por outro caminho. O que a fez escrever este tipo de história?

Nos romances eróticos que li quando era adolescente, o homem seduzia a mulher, ela resistia, ele voltava a tentar, ela continuava a resistir mais um pouco e quando ela finalmente cedia, ele recuava, forçando-a a prosseguir este jogo. E claro, tudo com muito sexo à mistura. Estes eram livros divertidos e que eu adorava. E certamente que a combinação da ingénua versus o milionário pode ser ridiculamente atraente. Nas Cinquenta Sombras de Grey isso resultou tão bem que eu quis tentar algo diferente. Quis contar a história de uma mulherque é sexualmente contida, e que vai descobrir e realizar os seus desejos e fantasias depois de uma tremenda perda. No S.E.C.R.E.T. as mulheres assumem as rédeas e são as estrelas, determinam as fantasias sexuais e recrutam os homens certos para as satisfazer e encorajam-se umas às outras para ir em frente. A protagonista, Cassie Robichaud, representa qualquer mulher, com todos os medos, emoções e frustrações que todas nós temos. Foi-me muito gratificante escrever a sua evolução sexual e acompanhá-la nessa jornada.

O que a levou a escolher Nova Orleães como o local da acção deste romance?

A minha paixão por esta cidade remonta aos anos 90 quando namorei com um rapaz de Baton Rouge e Nova Orleães causou-me uma maravilhosa impressão. Desde então sempre senti uma vibração sedutora nesta cidade: a comida, a música, a estilo muito francês em quase tudo. Por isso, não podia pensar num melhor local para o S.E.C.R.E.T. Revisitei a cidade várias vezes para pesquisar e escrever, e apesar dos estragos devastadores causados pelo furacão Katrina, a cidade continua a ter aquela poderosa atmosfera magnética de antigamente. Espero que o S.E.C.R.E.T. traga de volta à cidade mais brilho e sensualidade. Nenhuma cidade o merece mais.

Vai haver mais histórias sobre o S.E.C.R.E.T.?

Sim, neste momento estou já a trabalhar no S.E.C.R.E.T. II, que vai explorar o funcionamento interno deste clube secreto, onde Cassie passa a desempenhar o papel de recém-iniciado membro do S.E.C.R.E.T. Ela vai ajudar a recrutar uma nova candidata que passará também por uma transformação sexual. Cassie vai ainda descobrir e testar alguns homens que irão fazer parte das suas novas fantasias. E, claro, que continuará a acção no Café Rose. Bom, mas não quero dizer muito mais, apenas que vai ser divertido, empolgante e com muito e bom sexo, claro!

Será que é desta que os meus leitores ficaram curiosos? Ler mais aqui: https://branmorrighan.com/2013/03/divulgacao-xiu-que-e-segreto-5-secret.html

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[Druidismo] Os Autores Clássicos e os Druidas II https://branmorrighan.com/2013/01/druidismo-os-autores-classicos-e-os_18.html https://branmorrighan.com/2013/01/druidismo-os-autores-classicos-e-os_18.html#respond Fri, 18 Jan 2013 18:47:00 +0000

Plínio, o Velho (23 EC – 79 EC)

Em Naturalis Historia, manuscrito elaborado em 77 EC, Plínio aborda as ervas sagradas utilizadas pelos druidas e descreve o ritual de colheita das mesmas, temática abordada ao longo deste almanaque.


Marco Túlio Cícero
(106 AEC – 43 AEC)

Em De Divinatione, Cícero fala de um homem com quem travou conhecimento pessoalmente, possivelmente um druida, e cujas particularidades seriam as seguintes:

«Este homem professava não apenas um conhecimento profundo do sistema da natureza, ao qual os gregos chamam fisiologia, mas também predizia eventos futuros, parcialmente através do augúrio e parcialmente através da conjectura.»


Pompónio Mela
(séc. I EC)

Em De Chorographia, Pompónio Mela relata-nos:

«Eles [os Gauleses] têm uma eloquência muito própria e os druidas como mestres da sabedoria. Estes afirmam conhecer a magnitude e forma da terra e do mundo, o movimento do céu e das estrelas, e a vontade dos deuses. Eles ensinam de forma privada aos mais nobres, e por muito tempo, às vezes por vinte anos, numa gruta, ou em florestas inacessíveis. (…) Juntamente com os mortos, eles queimam e enterram objectos que lhes pertenceram enquanto vivos (…)»


Públio Cornélio Tácito
(56 EC – 117 EC)

Este historiador romano fala-nos especificamente dos druidas na Grã-Bretanha e legou-nos um relato simultaneamente surpreendente e comovedor, aquando da invasão da Ilha de Mona:

«Ali na costa estava um exército, repleto de homens e armas, e as mulheres corriam para trás e para a frente à maneira das Fúrias, com vestes fúnebres, de cabelo desgrenhado e carregando tochas diante deles. Também os Druidas, que lançavam terríveis preces em seu redor, com as mãos erguidas para o céu, atingiam os soldados com assombro provocado por esta estranha visão; de modo que, como se os seus membros estivessem colados ao corpo, eles ofereciam os seus corpos imóveis aos ferimentos. Depois, pelas exortações dos seus líderes e pelo seu próprio encorajamento mútuo, para não terem medo de guerreiros efeminados e fanáticos, eles envergavam os estandartes, derrubavam os seus oponentes e envolviam-nos nas suas próprias fogueiras (…) Então, era colocada uma tropa de guarda sobre os vencidos e os seus bosques eram derrubados, os quais tinham sido consagrados às suas cruéis superstições; pois eles consideravam legítimo oferecer o sangue dos prisioneiros nos seus altares e consultar os deuses através das entranhas dos homens.»

* [Retirado de A Guerra das Gálias, Júlio César (tradução de Angelina Pires realizada a partir de uma edição em latim do séc. XVI), Edições Sílabo, Lisboa, 2004]
por Sofia Vaz Ribeiro (http://obod.com.pt)

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Entrevista a Alberto Silva, Escritor Português https://branmorrighan.com/2013/01/entrevista-alberto-silva-escritor.html https://branmorrighan.com/2013/01/entrevista-alberto-silva-escritor.html#respond Fri, 11 Jan 2013 18:01:00 +0000 Boa tarde! 2013 já começou e com ele recomeçam as entrevistas. Hoje apresento-vos o autor Alberto Silva que descobri recente e que me deixou logo rendida à sua escrita. Fiquem com a sua entrevista de um escritor que tem muito para dar. Tenho de confessar que foi das melhores entrevistas que já li. Adoro a forma como Alberto Silva se expressa.

Fala-nos um pouco sobre ti:

Antes de mais, deixa-me agradecer o convite para esta entrevista, Sofia. É sem dúvida, um enorme prazer, e ainda mais por ser a primeira do ano de 2013!

Sobre mim… aproveito o texto onde descrevo quem sou na minha página do facebook:

Sou desinteressadamente interessado, tenho mudanças de humor, sou divertido e introspectivo, sou presente q.b. e maioritariamente ausente sem nunca esquecer, sou proactivo e não espero pelos acontecimentos, sou complicado, aliás, extremamente complicado até para mim mesmo, procuro a verdade das coisas fugindo à ilusão da fantasia, tenho sonhos (alguns reais outros nem tanto), sou verdadeiro nos meus sentimentos, sou verdadeiro acima de tudo comigo mesmo, detesto cozinhar mas faço o melhor arroz de tomate do mundo para a minha filhota, detesto a ignorância e a estupidez, irritam-me a incompetência e a mentira, adoro pequenos prazeres, sou incontrolavelmente viciado em nicotina, mas penso todos os dias em deixar de fumar, sou liberal de pensamento, sem nunca abandonar os meus ideais e valores, não gosto da promiscuidade, gosto de ouvir, mas não tenho muita paciência para conversas de circunstância, detesto a futilidade, mas adoro passar as tardes de Domingo em casa, gosto de desafios e não desisto facilmente, sou obstinado com o que me dá prazer, sou analiticamente pensativo em demasia, num estado de constante intermitência e não é muito difícil desligar e concentrar-me na desconcentração do mundo e no esvoaçar do meu pensamento. Adoro escrever, embora não o faça há algum tempo. Perco-me facilmente nas livrarias, inebriado pelo gosto de folhear manuais e novas descobertas. Detesto perder tempo a dormir e no entanto adormeço em qualquer canto com o máximo prazer, não sou grande amigo da comida e acho sempre que o tempo da refeição é uma total perda de tempo. Sou dos que acham que passamos pouquíssimo tempo nesta vida e gostariam muito que houvesse outra coisa depois disto tudo, mas que não acredita em nada disso.

Sou fruto de mim e de ti, sou eu com tudo o que me apareceu. Sou o tudo de alguém e sou o nada de muitos mais. Sou fruto de muitas alegrias e tristezas, ilusões e desilusões, conquistas e derrotas, procuras e encontros. Sou mais sereno hoje do que fui algum dia. Espero sê-lo ainda mais amanhã. Espero estar aqui muitos mais amanhãs…

Tenho pena de ter perdido a inocência acerca da Religião e acredito que o ser humano tem muita vontade de acreditar que acredita. Eu pessoalmente já não acredito, embora gostasse muito que houvesse mais depois disto.

Como caracterizas o teu estilo e ritmo de escrita?

Eu diria que a minha escrita é eminentemente desconstrutiva. Gosto de brincar com as palavras, fazê-las ganhar vida própria. Carregá-las de emoções e sentimentos, em frases aparentemente sem nexo, que no final, farão parte de um universo mais lógico e evidente, sem nunca o ser abertamente.

Eu adoro escrever, e a escrita flui, vive, respira-me. Toma conta daquela parte do meu “eu” que necessita da adição, do vício.

Na poesia, por exemplo, a escrita é uma escrita de garra, quase vomitada. Sai. Ponto. Na prosa, acaba sempre por beber, da poesia, o ritmo, a intensidade, a própria loucura.

De uma forma geral, tenta ser louca, fora do comum, arrojada, mas nunca forçada. Se não sai, não se insiste.

Quais as tuas principais influências?

Seria difícil e redutor, concentrar tudo em meia dúzia de aspectos ou, até mesmo autores, quando se fala em influências. Um sentimento, uma emoção, um estado de espírito é, inúmeras vezes, “A” influência absoluta e necessária. Por vezes são momentos, etapas, são frases ou palavras… Há tanto que nos rodeia que nos faz viver e sentir vivos. Tudo o que foi – e o que é – nos influencia, de uma maneira ou de outra. Tudo. Por vezes pegamos nesses pequenos nadas e fazemos uma história.

Sem fugir das influências na escrita, invariavelmente teremos de visitar escritores como Dostoiévsky, com a sua escrita exploradora da condição humana nas suas vertentes arrasadoras e alucinantes, que nos transportam a mundos desordenados e perfeitamente actuais; Nietzsche, pela sua crítica ao status quo instalado, acompanhou parte da minha adolescência, revelando e demonstrando-me que o pensamento crítico deve fazer parte de nós e que a escrita de aforismos nem sempre é tão simplista como pode parecer; Kafka que, ao ler o seu “O processo” e o “Castelo” rapidamente entendi que os pavores e constrições interiores são potenciadores de obras prodigiosas, em ambientes elevadamente visuais e absolutamente envolventes. O Allan Poe, que me apresentou ao “Corvo”, que acho simplesmente divinal. “A metamorfose”, “Assim falou Zaratustra”, “O Castelo”, “O Príncipe”, “O Jogador”, “Gente que bate à porta”, entre outros, talvez tenham sido a porta para o meu caminho na literatura.

Gosto de escrita diferente, que desperte, que abra mentes. Que fuja à norma, à regra e ao processo comum, instalado. Gosto de quem pensa fora do quadrado, de quem quebra barreiras e procura dar passos em frente. Já há demasiadas pessoas a darem passos para o lado. O que precisamos é de quem dê passos em frente, que faça as coisas mexer e andar.

Escreves poesia e romance. Qual dos géneros preferes? Qual deles achas que te faz chegar mais perto dos leitores?

A poesia é mais rápida de se escrever, sai de uma forma muito fluida, vomitada, de dentro das entranhas. A prosa, sendo fluida, também, embora pela forma tenha de ser necessariamente diferente, na sua génese. Não fico muito tempo a pensar no que vou escrever, ou na forma. As ideias fluem naturalmente, muitas vezes à medida que vão saindo as palavras anteriores. Quando se dá conta, do caos, nasce um texto. Ainda caótico, mas ordenadamente desconstruído de um caos gerador. Gosto de gerar caos, do caos.

Escrevi três livros de poesia e um romance. Na sua forma muito peculiar, ambos são altamente envolventes na forma como despertam a emoção e o prazer em mim. Um não existiria sem o outro, na minha forma de escrita.

Apesar da escrita ser sempre um prazer para mim, este último livro, o romance, foi sem dúvida especial, e pela reacção dos leitores se calhar foi com o romance que alcancei uma maior projecção.

Conta-nos um pouco sobre o teu trabalho já publicado.

Tenho três livros de poesia editados, dois em 2011 e um no início de 2012, uma participação numa colectânea de poesia e no ano passado editei o meu primeiro romance – branco.

O Demências – poemas ou algo parecido, o primeiro que editei, surgiu de forma algo inesperada. Eu sempre escrevi, sempre pensei que seria fantástico poder, um dia, editar um livro, mas achava que era um daqueles sonhos que não se iria concretizar, nem perdia muito tempo a pensar nisso. Depois de ter imenso material reunido, de o prazer de escrever ser tão grande e por ter um feedback tão entusiasta, por parte de quem me ia lendo, pensei – porque não? – e assim surgiram os 2 primeiros livros o “Demências poemas ou algo parecido” e o “Labirinto de nós”. Como consequência desse trabalho fui convidado a participar numa colectânea de poesia editada o ano passado.

Em 2012 editei um e-book, de download gratuito (http://perfeitosencaixes.comlu.com/web_documents/perfeitos_encaixes.pdf), e que teve uma excelente aceitação por parte dos leitores, chamado “perfeitos encaixes”, com alguns textos que eu simplesmente quis partilhar com os meus leitores.

Lista de publicações:

Demências poemas ou algo parecido – Edições Vieira da Silva (2011)

Labirinto de nós – Alfarroba Edições (2011) (Opinião no Morrighan)

Colectânea de poesia entre o sono e o sonho vol. III – Chiado Editora (2012)

Perfeitos encaixes – e-book (2012)

Branco. – Chiado Editora (2012) – romance

Fora as publicações em formato físico, lançaste também um e-book. Qual a tua opinião sobre o tema ‘Livro vs E-book’?

Como amante de livros continuo a preferir o livro tal e qual sempre o conhecemos. Adoro sentir a sua textura, o seu peso, o seu cheiro, de o folhear e perder-me nos textos, mas acho bastante interessante o formato ebook, pela sua practicidade – pois podemos transporta-lo connosco para todo o lado, num simples telemóvel, por exemplo. Em alguns casos pode servir como um excelente veículo de divulgação, permitindo novas abordagens à escrita e divulgação de conteúdos.

Hoje em dia a criação não tem, nem pode ter, limites. O ebook pode ser um excelente meio de se conseguir fazer chegar a leitura a um público mais vasto, incorporando elementos visuais, som, movimento, etc.

Sei que utilizas bastante a web para ir dando a conhecer o teu trabalho. Tens recebido feedback dos leitores?

Sim, bastante. Tem sido uma aventura fantástica, uma jornada de aprendizagem e crescimento, com um feedback tremendo, profundamente positivo, muito bom mesmo… No caso do “branco.”, por exemplo, temos criado uma corrente de quase campanha, onde o escritor e o leitor se confundem, com a geração de movimentos e ideias que surgem de várias pessoas diferentes. Ainda continuo a receber – e partilhar – fotografias do “branco.” com os seus leitores. Até ao momento, sei que já visitou Washington e a Casa branca, passou pelo Japão, foi à Opera em Paris, chegou recentemente ao Egipto, saltou a Espanha, e passeia infinitamente por Portugal e pelas cidades e vilas magníficas que temos. Além das fotos, chegam peças de áudio, comentários, cartazes, enfim, tem sido ao mesmo tempo inesperado, mas imensamente bom, com uma alegria enorme de conseguir a proximidade com todos os que me lêem.

Para além do facebook (facebook.com/alberto.silva.autor), escrevo com alguma regularidade no meu blogue: http://sofarouge.blogs.sapo.pt/.

Que projectos tens em mente para um futuro próximo?

No futuro ainda mais que próximo, agora, vou lançar um projecto acabadinho de sair da forja e que divulgo aqui em primeira mão: vai sair um ebook, para o qual convidei alguns escritores como o Pedro Paixão, Samuel Pimenta, Hugo Girão e o Jorge Bogalheiro, e ainda ao nível da fotografia o Pedro Costa. É um projecto que me deu um gozo tremendo e que penso ser algo de inovador no campo dos ebooks, uma vez que é uma conjugação de poesia, contos e frases em perfeita sintonia com a fotografia. Lancei o repto a todos para que escrevêssemos algo sem tema definido, sem limite de ideias, sem barreiras ou constrições, sem fio condutor… A ideia era reunir um conjunto de textos (poemas, contos, mini-contos, etc), que ficassem assentes num fluir de imagem (fotografia), já num formato pensado nas novas tecnologias e suportes, como são as tablets. E o melhor, é que vai ser de download gratuito.

Além disto, quero muito continuar a escrever enquanto me der prazer e o continuar a fazer para mim próprio. Assim, serei fiel ao meu estilo de escrita, não me desiludo a mim nem aos meus leitores, nem engano ninguém. Enquanto assim for, continuarei a escrever: com prazer, ânimo, vontade, garra…

Escrever mais um romance, talvez editar um novo livro de poesia, mas acima de tudo continuar a escrever com prazer.

Pergunta da praxe: O que achas do blog Morrighan?

Desde o dia que o conheci que tem sido uma companhia diária. Isso diz tudo. As críticas, as apresentações, os novos autores, os livros revisitados, o rico conteúdo, tudo isto é indissociável do Morrighan. Foi uma das boas surpresas de 2012, tanto o blogue como as nossas pequenas, mas profundas, conversas.

Parabéns Sofia. Muitos!


Muito obrigada por toda a atenção, simpatia e disponibilidade, Alberto. Tudo de bom.

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John Green, Autor de ‘A Culpa é das Estrelas’ dá uma Entrevista ‘Viver e morrer intensamente ‘ https://branmorrighan.com/2012/09/john-green-autor-de-culpa-e-das.html https://branmorrighan.com/2012/09/john-green-autor-de-culpa-e-das.html#respond Fri, 07 Sep 2012 11:58:00 +0000

Depois de ter devorado ‘A Culpa é das Estrelas‘, foi irresistível não procurar mais sobre o escritor e obra e encontrei esta entrevista que ele deu ao Diário de Notícias. Leiam, vale a pena 🙂 

Dois jovens com cancro conhecem-se, apaixonam-se e vivem intensamente. Contra a morte. A Culpa é das Estrelas é o mais recente livro do premiado autor norte-americano John Green, criador de uma comunidade com milhões de seguidores nas redes sociais. O livro será lançado amanhã em Portugal.

Demorou quase dez anos a escrever A Culpa é das Estrelas. Porquê?

_Comecei a escrever o livro quando acabei o meu trabalho como estudante capelão num hospital pediátrico. Foi um trabalho difícil e triste, passei muito tempo com crianças que estavam a morrer e com as suas famílias. Nos primeiros anos em que tentei escrever a história, saía-me demasiado sentimental, lamechas. Tudo o que não queria que fosse. Queria que fosse divertido, vibrante e cheio de aventura, como a vida, mas estava tão zangado com o que tinha testemunhado que não conseguia escrever uma história autêntica. Só quando conheci uma adolescente, que era minha leitora, chamada Esther Earl, é que desbloqueei. A Esther lembrou-me como os jovens doentes podem ser empáticos, atenciosos e divertidos e isso foi a chave para ser capaz de escrever o livro. (A Esther morreu em 2010 e por isso não chegou a ler A Culpa é das Estrelas, mas não teria existido sem ela.)

Foi dessa experiência de trabalho no hospital pediátrico que retirou a matéria-prima e a inspiração para escrever o livro?

_Sim, porque os jovens que conheci lá – até os muito doentes – eram miúdos cheios de vida, sentido de humor e ironia. Não eram como os adolescentes sobre os quais lia nos livros sobre cancro, aquelas criaturas de olhos tristes que tinham uma sabedoria muito maior do que o normal para a sua idade. As pessoas que conheci eram humanas, no melhor e no pior sentido da palavra, e mesmo quando estavam a morrer, continuavam muito vivas. Foi isso que quis agarrar.

Em que sentido?

_Queria explorar esta questão: uma vida curta pode ainda assim ser uma vida cheia. Quis muito escrever a partir da perspetiva da Hazel e colar-me a ela para não deixar margem ao leitor de se sentir distante. Se não estivesse a escrever sobre e para adolescentes, se calhar não teria sido tão obsessivo com a necessidade de criação deste sentimento de intimidade.

E porquê o cancro?

_O cancro é a doença que nos assombra e aterroriza. A nossa relação com ele é semelhante à que existia com a tuberculose no século xix. O cancro é uma doença que afeta indiscriminadamente jovens e velhos. Às vezes mata; às vezes não. É imprevisível. É caprichoso. E por ser tão abrangente é o símbolo da aparente absoluta indiferença do universo em relação a nós.

Uma das coisas interessantes no seu livro é a inteligência e o sentido de humor com que aqueles dois miúdos – a Hazel e o Augustus – lidam com a morte (e o amor). Isto tem que ver com a sua própria forma de os encarar?

_Muito mais do que os meus sentimentos em relação à vida e à morte, o determinante foi ter testemunhado como os jovens viviam com doenças terminais. Demasiadas vezes imaginamos quem está a morrer como alguém que existe apenas para nos dar lições sobre como viver uma vida com significado ou qualquer coisa do género. Mas isto desumaniza. E é ridículo, claro. As pessoas doentes são tão humanas e divertidas e zangadas e com mau feitio e amorosas e complicadas e carentes como as saudáveis. O que tentei foi transmitir a complexidade e desafio emocional de quem vive com doenças crónicas. Quis que o livro fosse divertido e sobretudo retirar-lhe qualquer tipo de sentimentalismo. Não há lugar no mundo para os coitadinhos. Como diz a Hazel Grace: «A piedade não é reconfortante.»

A luta de Augustus, mais do que uma luta pela vida, é uma luta contra o esquecimento. Ser lembrado é, neste caso, a única forma de lutar pela vida?

_Penso que muitos de nós querem deixar uma marca da sua passagem pelo mundo, mas isso também pode ter um lado negativo: da forma como Augustus o encara, essas marcas são muitas vezes cicatrizes. O que me interessou foi perceber como dois jovens enfrentam a morte e pensam sobre o significado das suas vidas enquanto cá estão.

Hazel Grace é a «sua» personagem. Como foi pôr-se na pele de uma miúda de 16 anos, com um cancro em estado terminal?

-Senti-me muito ligado à Hazel desde que comecei a escrever a partir da sua perspetiva. A voz dela soou-me muito clara e nunca tive dificuldade em «acompanhá-la». A grande alegria de escrever o livro foi poder viver com a Hazel. Apaixonei-me mesmo por ela e, espero, isso sente-se no livro.

Como é o seu processo criativo?

_Não sou, nem de perto nem de longe, tão organizado e prolífico como gostaria de ser. Tento escrever todos os dias, mas nem sempre sou bem sucedido. Gasto cerca de um ano a escrever um primeiro rascunho, mas depois apago a maior parte quando começo a revisão. Cada um dos meus livros, e este é o sexto, passa por uma série de rascunhos, o que não é muito eficaz, mas rever dá-me imenso prazer. Acho que deve ser por isso que cada livro me leva uns anos a escrever.

Também faz vídeos com o seu irmão Hank no YouTube e tem milhões de seguidores em todo o mundo na comunidade nerdfighter. O que vem a ser isso, afinal?

_Um nerdfighter é alguém que, em vez de ser feito de ossos, órgãos e assim, é na verdade feito de curiosidade. Os nerdfighters estão ligados por uma crença comum de que é importante perceber o mundo e as outras pessoas. Não lutam contra os nerds [termo normalmente usado como depreciativo e que poderia traduzir-se por «totós» ou «bananas»], são antes nerds que lutam pela intelectualidade e a cultura nerd. A comunidade nerdfighter cresceu em torno dos vídeos que eu e o meu irmão Hank fazemos no YouTube, um para o outro há mais de cinco anos e meio. Somos os dois nerds e à medida que aumentava o número de pessoas que viam os nossos vídeos, quisemos usá-los como plataforma para celebrar a «nerdice» e o compromisso intelectual para com o mundo. O nosso desejo é que esta comunidade possa levar as pessoas – especialmente os jovens – a usar as ferramentas da internet não só para mero entretenimento, mas sobretudo para tornar o mundo um lugar melhor, através da reflexão e da filantropia.

É casado e tem um filho pequeno. A paternidade influenciou a sua escrita?

_Penso que não teria podido escrito este livro se não tivesse sido pai. O Henry ensinou-me a verdadeira natureza do amor entre pais e filhos: o amor de pai é verdadeira e completamente incondicional. Enquanto um de nós for vivo, eu serei o pai do Henry e ele será o meu filho. Perceber isso tornou possível para mim imaginar a relação entre a Hazel e os seus pais.

Estava à espera de todo o sucesso e excelentes críticas que A Culpa é das Estrelasrecebeu?

_Não, nunca imaginei que sete meses depois da sua publicação, o livro continuasse na lista do New York Times ou que tantos críticos, aqui nos EUA e no mundo todo, escrevessem tão generosamente sobre ele. Tem sido uma experiência muito gratificante e arrebatadora. Estou muito contente que este livro tenha ido ao encontro de tantos leitores e que a maioria goste. Isso é o mais importante para mim.

Amanhã o seu livro será lançado em Portugal. Como é vê-lo atravessar o oceano?

_Nunca estive em Portugal, mas o meu livro conseguiu viajar até aí. Isso é espantoso. Espero poder segui-lo e visitar o vosso país brevemente. Este livro é muito especial para mim e pensei que seria difícil separar-me dele, mas na verdade sinto-me muito feliz e privilegiado. Esta foi a história à qual dediquei a última década e é gratificante encontrar para ela tantos leitores. Mas quero continuar a escrever. Fico mais feliz quando o faço. Sou um tímido. O meu conceito de um dia perfeito é sentar-me sozinho na minha cave a escrever uma história durante dez a 12 horas por dia. Gosto muito dos outros trabalhos que faço, mas escrever é o que me dá mais prazer.

A culpa é das estrelas

Aos 35 anos, John Green é uma estrela nos EUA. Com o irmão Hank fundou o Vlogbrothers, onde disponibiliza vídeos com milhões de seguidores em todo o mundo e que está na base da bem humorada comunidade nerdfighter. Mas escrever é o seu ofício de eleição e tem vários livros na lista de best-sellers do New York Times. Como este A Culpa é das Estrelas.

Notícia Original: http://www.dn.pt/revistas/nm/interior.aspx?content_id=2749405

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Entrevista a Luís Miguel Rocha, Autor Português reconhecido no estrangeiro https://branmorrighan.com/2011/05/entrevista-luis-miguel-rocha-autor.html https://branmorrighan.com/2011/05/entrevista-luis-miguel-rocha-autor.html#respond Thu, 26 May 2011 11:43:00 +0000 Bom dia,

Hoje começamos o dia com uma entrevista a um autor português que atravessa uma fase de grande sucesso! Luís Miguel Rocha, editado em mais de 30 países, disponibilizou-se para responder rapidamente a uma série de perguntas tópicos que apresento de seguida.

Muito obrigada Luís, pela tua disponibilidade. Em breve começarei a leitura do seu mais recente thriller “A Mentira Sagrada”.

Sobre mim:

Sou um e vários como todas as outras pessoas. Neste momento é o escritor quem responde 😉

Estilo e Ritmo de Escrita:

Tenho um estilo muito ecléctico. Desde o alucinante do thriller ao floreado do histórico. As personagens são quem manda no estilo narrativo.

Influências:

Tudo e todos.

Fala-nos um pouco sobre a tua mais recente obra “A Mentira Sagrada”:

“A Mentira Sagrada” é uma porta aberta para uma personagem ainda desconhecida chamada Jesus. Não aquele descrito na Bíblia mas o que está a ser descoberto pelos historiadores e pela arqueologia.

Qual é a sensação de ser o primeiro autor português a entrar para o top do New York Times?

Fico muito feliz. Agrada-me que os leitores gostem do meu trabalho ao ponto de me colocarem nesse top.

Tens obras publicadas em mais de 30 países! Há algum país em especial que te tenha dado mais gozo publicar? Que feedback é que tens recebido lá de fora?

Recebo imenso feedback dos leitores de todo o mundo. Acho graça às versões asiáticas. Os leitores mais interventivos são os romenos.

Qual o livro que te deu mais gozo escrever?

Sempre aquele que estou a escrever no momento. Gozo tem obrigatoriamente de fazer parte do combustível criativo.

Quais os teus projectos num futuro próximo?

O próximo thriller do Vaticano.

Obra Completa do Autor:

 

Edição/reimpressão: 2006

Editor: Saída de Emergência

ISBN: 9789728839697

Sinopse: 1978, Cidade do VaticanoÀs 4.30 da manhã, a irmã Vincenza, assistente pessoal de João Paulo I, chega à antecâmara dos aposentos pontífices com o pequeno-almoço. Deseja os bons dias ao Papa mas, pela primeira vez, não é convidada a entrar. Só quando mais tarde ganha coragem e abre a porta, descobre que Albino Luciani, representante de Deus na Terra, jaz morto na cama. Tinha sido eleito Papa há apenas 33 dias. E em 2000 anos de História, nunca nenhum Papa havia morrido sozinho.

2006, LondresSarah Monteiro, uma jovem jornalista portuguesa, está de regresso a Londres depois de umas férias na terra natal. Ao chegar, encontra entre a correspondência um envelope que lhe chama a atenção. Lá dentro, uma lista com nomes de personalidades públicas e pessoas desconhecidas, entre eles o de seu pai. A lista tem mais de 25 anos e muitos dos nomeados já faleceram. Mas como cedo irá descobrir, aquela lista pode transformar-se num bilhete para a morte. Com a ajuda de um homem misterioso com muitos nomes e poucas respostas, inicia uma frenética corrida para escapar à morte. De Londres a Lisboa e a Nova Iorque, terá que levar a melhor a uma organização secreta que não olha a meios para deitar a mão à lista, e impedir a divulgação de um segredo que o Vaticano esconde há quase trinta anos. 

Edição/reimpressão: 2007

Editor: Cavalo de Ferro

ISBN: 9789898134004

Sinopse: Que acontecimentos estiveram por detrás da tentativa de assassinato do Papa na praça do Vaticano em 1981?

Quem é, e o que sabia verdadeiramente Alia Agca, o turco que disparou contra João Paulo II?

Que forças ocultas gerem os destinos da igreja católica e conseguem nomear e destronar Papas, ocultando impunemente as suas acções?

Uma jornalista internacional, um ex-militar português, um muçulmano que vê a Virgem Maria, uma padre muito pouco ortodoxo que trabalha directamente sob as ordens do sumo-pontífice, vários agentes dos serviços secretos mais influentes do mundo e muitos outros personagens dos quatro cantos do globo, envolvem-se numa busca pela verdade e descobrem que ela nem sempre é útil. Pelo menos não o foi para João Paulo II. 

Edição/reimpressão: 2009

Páginas: 250

Editor: Mill Books

ISBN: 9789898185198

Sinopse: A Virgem dá-nos conta do Portugal moribundo no tempo do Estado Novo, mais precisamente na década de trinta. Um país suspenso no tempo, deslumbrado com o estrangeiro, pobre em recursos e ideias. Centrado numa família privilegiada, outras famílias se lhe juntam. Assistimos aos seus ódios, amores, perdas e cumplicidades num enredo em que o trágico e o absurdo se cruzam. Numa intriga cheia de humor, através do olhar lúcido do narrador, são desmascaradas situações gritantes de injustiça e de exploração em que o abuso de poder de alguns grupos privilegiados se passeia livremente por um país sonâmbulo e decadente com a cumplicidade silenciosa da Igreja.

Edição/reimpressão: 2011

Páginas: 408

Editor: Porto Editora

ISBN: 978-972-0-04325-2

Coleção: MARCA D’ÁGUA

Idioma: Português

Sinopse: Será que Jesus nasceu em Belém e viveu em Nazaré? E quem, na realidade, o condenou a morrer na cruz? E será que tudo isso aconteceu como está descrito na Bíblia ou… nada daquilo terá sido assim? Esqueça tudo o que sabe ou pensa que sabe sobre Jesus, o Cristo. Qual é o grande segredo do Vaticano que cada Papa tem de manter até à morte? E a que preço? O que está escrito no documento que apenas pode ser lido por Papas desde Clemente VII (1530) e agora está nas mãos de Bento XVI? Em 1947, um beduíno descobriu um conjunto de manuscritos em Qumran. Será que foi mesmo ele ou tudo não passou de uma encenação para esconder algo muito maior? E que tão importante evangelho guarda um milionário israelita em Londres? Será mesmo o mais importante documento da Cristandade? Este livro leva-o numa demanda em busca do Jesus verdadeiro, do homem, e não da fantasia em que se tornou ao longo dos séculos e milénios. Descubra Jesus, tal como ele foi. Um livro em que o papa Bento XVI e o Secretário de Estado Tarcisio Bertone também são protagonistas e onde todos os documentos mencionados existem realmente.

Site Oficial do Autor

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Divulgação – “Elohim” de Manuel Forno https://branmorrighan.com/2010/09/divulgacao-elohim-de-manuel-forno.html https://branmorrighan.com/2010/09/divulgacao-elohim-de-manuel-forno.html#respond Thu, 23 Sep 2010 20:40:00 +0000

Elohim

Manuel Forno

Editora: HM Editora

Ano: 2010

Páginas: 240

Género: Ficção Científica

Sinopse: Num futuro próximo, uma nave de turismo espacial destinada ao planeta Marte é subitamente desviada da sua rota. Todos os seus tripulantes acabam por perder os sentidos e quando despertam, descobrem-se miraculosamente vivos, num planeta estranho.

Neste planeta em tudo semelhante à Terra, depressa vêm a descobrir que não estão sós. Uma comunidade de humanos e alígenas coabitam lado a lado, fruto de experiências dos avançados Kions, testes esses que podem, inclusivamente, pôr em causa o futuro do Planeta Azul…

ELOHIM é uma obra repleta de acção e mistério, bem como um alerta para muitos dos problemas ecológicos e sociais que nos perturbam.

Sobre o Autor: Nascido no ano de 1969, na cidade de Vila Real, pouco antes do homem pisar a Lua pela 1ª vez, Manuel Forno passou toda a infância e adolescência numa aldeia daquele concelho. A maioria da sua formação educacional e literária foi alicerçada nessa cidade transmontana, também berço de alguns grandes escritores como são exemplo Miguel Torga e Camilo Castelo Branco. Desde jovem que foi tomado pelo gosto da escrita contudo, só com o passar dos anos sentiu crescer essa vontade de tentar passar algumas mensagens mais fortes e ganhou coragem para escrever livros. “Elohim” é o primeiro e a vontade de Manuel Forno de criar outros mantém-se.

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Entrevista a Susana Almeida, Escritora Portuguesa https://branmorrighan.com/2010/09/entrevista-susana-almeida-escritora.html https://branmorrighan.com/2010/09/entrevista-susana-almeida-escritora.html#comments Thu, 09 Sep 2010 11:20:00 +0000 Bom dia! Hoje trago até vós uma jovem escritora portuguesa que acaba de lançar o segundo livro da trilogia “Estrela de Nariën” – Susana Almeida. Foi com muito prazer que fiz esta entrevista. A Susana mostrou-se smepre disponível e foi muito agradável falar com ela. Muito obrigado pelo teu tempo Susana. Fiquem então com a sua entrevista:

Olá Susana! Fala-nos um pouco sobre ti:

Chamo-me Susana Almeida, nasci em Novembro de 1984, sou escorpião (e há que aprender a viver com um). Sou do Algarve, mais propriamente de Faro e, apesar de viver a cerca de 25/30 minutos da praia, é raro frequentá-la nos meses de Verão devido à sempre imensa confusão.

Desde pequena que crio histórias na minha cabeça, mas somente aos 17 anos decidi passá-las para o papel e a partir daí nunca mais parei.

Os meus gostos passam pela leitura, música, desenho, embora ultimamente não me reste muito tempo para o fazer, cinema, séries e claro, o mais importante, a escrita.

Qual o teu estilo de escrita?

Cada autor tem o seu próprio estilo, e certamente que não encontraremos dois iguais. Tenho uma escrita simples, não demasiado aprofundada em descrições, geralmente só recorro ao uso de descrições mais pormenorizadas nos momentos de acção. Confesso que escrevo de acordo com o meu próprio gosto pessoal, ou seja, intercalando romance e acção. Dou muita importância às minhas personagens e à forma como se vão interligar ao longo da narrativa. Gosto ainda de trabalhar com vários núcleos e não somente com um ou dois protagonistas.

Com que ritmo costumas escrever?

O meu ritmo de escrita normalmente é até bastante rápido, uma vez que, desde que não esteja em processos de revisão, escrevo todos os dias um bom par de horas.

Quando estou a criar uma nova história começo por pensar no nome, algo a que dou extrema importância, pois é como uma identidade. Segue-se um possível prólogo, digo possível porque muitas vezes acaba por sofrer várias alterações, defino as personagens e o que as motiva, crio um fim provisório, uma meta à qual quero chegar e o resto flui naturalmente, sem que perca dias ou horas a pensar em como vou fazer.

Quais as tuas maiores influências?

Tudo pode ser uma influência desde que se tenha uma mente aberta, mas pessoalmente considero que a minha maior influência, o que me aguça a criatividade, é sem dúvida a música. Aliás, tenho o hábito de seleccionar músicas para tudo o que escrevo.

Em termos literários, o meu autor preferido é Emílio Salgari, considerado por muitos como o maior escritor de aventura dos séculos XIX e XX. Tive o prazer de ler algumas das suas obras, infelizmente, e com imensa pena minha não todas, e foi inevitável não me apaixonar, não só pela sua escrita, como também, pela emoção que consegue transmitir ao leitor. 

 

O que te levou a escrever dentro do género do fantástico?

Na verdade não comecei por escrever dentro do fantástico, mas sim da aventura e no fundo, acho que o que me levou para o fantástico foi a possibilidade de poder criar mundos, culturas e personagens diversas que não estariam presas a um determinado período temporal ou específico da nossa própria História. Gosto de pensar que o fantástico é um mundo em aberto que não impõe limites à imaginação.

Apesar de os teus livros se encontrarem numa colecção mais para adolescentes, achas que qualquer adulto se pode divertir a lê-los?

Sim, acho que, no caso da “Estrela de Nariën” existem diversas situações ao longo da narrativa que tornariam a leitura bastante agradável a um adulto, até por este ter uma compreensão diferente do texto.

Sei que é difícil para os autores portugueses, vingarem no mercado nacional…

Foi difícil publicar?

Considero que é sempre difícil publicar quando se é desconhecido e não se tem qualquer obra no mercado que sirva como referência. E sendo o nosso mercado claramente dominado por literatura estrangeira torna-se ainda mais difícil conseguir algo tão simples, como submeter os nossos manuscritos para apreciação editorial.

Nunca contactei somente uma editora de cada vez, até porque era mais frequente a ausência de resposta por parte das mesmas, do que a situação inversa. Mas não me posso queixar de falta de profissionalismo por parte das quais obtive resposta e recordo-me somente de uma situação de resposta engraçada, em que me disseram que não publicavam poesia.

Ouvir um “não” nunca me desmotivou, aliás pelo contrário, incentivava-me a querer melhorar. Comprei livros, li e reli alguns para perceber onde poderia melhorar ou o que estava errado.

Mudei bastante a minha forma de escrever e a obra resultante dessa mudança foi a

“Estrela de Nariën”.

Aproveito ainda para expressar os meus agradecimentos à editora Saída de Emergência, por ter acreditado na minha obra.

Tens recebido feedback dos teus leitores?

Sim, tenho recebido algum e até agora sempre positivo o que é bastante encorajador.

Quais os teus projectos futuros?

Para já, publicar o último livro da “Estrela de Nariën”, depois, e apesar de gostar bastante de escrever fantasia e ter outras obras que se enquadram neste género, (incluindo um novo projecto que tenho em mente) gostava de ter a oportunidade de publicar noutros géneros, nomeadamente romance e aventura.

Termino agradecendo à Sofia Teixeira pela entrevista e dando-lhe os meus parabéns pelo trabalho de divulgação de autores portugueses quem tem vindo a fazer.

Livros:

Estela de Narien – Sombras de Morte

Sinopse: Num Império onde as avatares da Senhora da Sabedoria são tão respeitadas como o próprio Rei e os cavaleiros são admirados pela sua bravura e honra, a paz próspera nas terras do Império dos Homens. Aheik, um jovem cavaleiro, tem sonhos que o levam para outra era, onde o seu nome é Eogan, marido da guardiã da Estrela de Nariën. A Estrela de Nariën é um artefacto que se julga perdido e cujo poder não tem limites. Se de facto existir e cair nas mãos erradas, poderá até destruir o mundo. Atormentado, Aheik procura compreender o significado dos sonhos. Do outro lado do Império, Étaín, uma elfo enlouquecida pelo desejo de possuir a Estrela, cria uma aliança com o povo bárbaro das terras da perdição. E a partir desse dia, a guerra ameaça todo o Império, devastado por sangrentas batalhas contra um povo que mata por matar e destrói por prazer. Mas Aheik não está sozinho. O destino reserva-lhe as maiores surpresas: o amor, a traição a amizade… Todo o Império depende de uns poucos heróis, e Aheik tem a sua própria cruzada pessoal.

Estrela de Narien – O Renascer

Sinopse: Com a capi­tal do Impé­rio tomada pelas for­ças do mal e Kyran retido para lá das por­tas da cidade, toda a espe­rança parece per­dida. Sabendo que ten­ta­rão recu­pe­rar o con­trolo da capi­tal a todo o custo, a malé­vola Étaín recorre, uma vez mais, aos bár­ba­ros Sha­trus para impe­dir a perda da Capi­tal. Men­sa­gei­ros par­tem para os qua­tro can­tos do Impé­rio, con­vo­cando os seus gover­na­do­res para anun­ciar a morte do Rei e a subida ao trono do seu suces­sor. Sob ame­aça, os gover­na­do­res não têm alter­na­tiva senão acei­tar aquele que Étaín colo­cou no trono do Impé­rio. Agora, com o Impé­rio asse­gu­rado, ape­nas Aheik se atra­vessa no cami­nho de Étaín, na busca pela Estrela de Nariën. Dis­posta a tudo para se apro­priar de tal poder, Étaín será mais do que Aheik poderá supor­tar. E mor­rerá às suas mãos se não tiver ajuda do seu lado. É então que um estra­nho fenó­meno tem lugar perante o olhar de duas jovens. A Estrela de Nariën renasce tra­zendo con­sigo o poder que Étaín tanto ambiciona.

Blog da Autora: O Berço da Esperança

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