A Carne de Deus
Afonso Cruz
Editora: Bertrand Editora
Sinopse: Thriller satírico e psicadélico. Conrado Fortes, um homem cinzento, anónimo, preguiçoso, sem interesses nem qualidades e que ainda vive com a mãe, e Lola Benites, uma atraente e jovem jornalista a juntar informação para fazer um livro sobre seitas secretas, são apanhados separadamente, e por se encontrarem no sítio errado à hora errada, na voragem de uma luta assassina entre lojas maçónicas, pelo segredo de uma delas. É uma história cheia de aventura, suspense e ironia. A sua trama, o primeiro romance que Afonso Cruz edita, «nasceu de várias viagens pelo Leste europeu, América do Sul, Ásia e África, bem como do facto de ter sido iniciado em organizações escusas e religiões em desuso, por vezes animistas e, ocasionalmente, insalubres segundo os nossos padrões de civilidade.»
Opinião: Quem visita regularmente o blogue sabe que sou uma fã acérrima de Afonso Cruz. Adoro a sua escrita, admiro-o enquanto pessoa e artista e não descansei enquanto não tive acesso ao seu primeiro romance. Tinha bastante curiosidade em descobrir como é que tinham sido os primeiros passos do autor, que tema é que teria abordado e de que maneira. Dada a maneira tão própria e original de se expressar, foi como se o estivesse a ler pela primeira vez antevendo já a extrema evolução de que tem sido protagonista ao longo dos últimos anos.
A Carne de Deus é um livro simples, com uma história rocambolesca, cujo protagonista é do mais irónico possível. Numa narrativa pautada pelo humor, por vezes negro, o leitor é introduzido num enredo sustentado pelo tema da maçonaria, viajando pelo secretismo do que os maçónicos crêem ser fulcral manter longe do conhecimento público. Numa forte crítica, a meu ver, às motivações religiosas, assistimos a actos e desventuras daqueles que tentam a todo o custo controlar o que os rodeia e em que nos seus jogos de manipulação muitas vezes acabam eles como marionetas. Tudo isto por causa de um mítico cogumelo alucinogénico.
Desde os nomes dos vários personagens a toda a desenvoltura em relação aos cogumelos amanita muscaria não deram descanso às gargalhadas que fui soltando ao longo da leitura. Nota-se claramente a origem do traço característico de Afonso Cruz nas suas declarações incisivas, no estilo insólito de relacionar as personagens e nos momentos imprevisíveis. Sou sincera, todas as obras posteriores a esta vão crescendo em termos de qualidade e de maturidade, mas fico contente por ter tido acesso à origem de um grande tesouro nacional que são as obras do Afonso.