Entrevista a Marcelina Leandro, Escritora e Editora Portuguesa

Hoje trago-vos mais uma entrevista, desta vez a Marcelina Leandro. Tomei contacto com a Marcelina através de um ou outro conto que li seu e por esta também ser editora da Fanzine Fénix. Gostei muito desta entrevista, principalmente por a Marcelina ser uma pessoa que luta em várias frentes e que tem uma visão que me agrada sobre os assuntos abordados. Conheçam mais uma pessoa que não só se vai aventurando no mundo da escrita, como tenta dar oportunidade a outros. Obrigada Marcelina pela disponibilidade e simpatia.

PS: Brevemente teremos passatempos para os números 1 e 2 da Fénix Fanzine!

Fala-nos um pouco sobre ti:

Nasci na Alemanha em 1983 e regressei aos 9 anos à terra dos meus pais, Vila do Conde, terra de Régio, Eça e Antero e do recente autor Hugo Mãe. As diferenças eram enormes e a alteração da língua principal acarretou uma reformatação do modo de pensar e a aquisição de novos conceitos. Os anos subsequentes foram como a da maioria da gente da minha idade. Secundário, Universidade, Investigação e depois o mundo do trabalho. O prazer de ler foi sempre uma constante e recentemente a escrita veio completar o ciclo.

Enquanto escritora, como caracterizas o teu ritmo e estilo de escrita?

Ainda estou a descobrir-me como escritora. Escrevo há muito pouco tempo, não, não comecei a escrever romances aos seis anos, e ainda não tenho nenhum estilo que me caracterize. Para já escrevo contos, e gosto, por isso vou continuar por este caminho. Tenho contos de terror, steampunk, fantástico português e ficção científica, por isso, não poderei caracterizar com poucas palavras os meus trabalhos.

Acima de tudo divirto-me enquanto escrevo, e estou a evoluir, o que para mim, neste momento é o mais importa. Não penso em publicar romances e tenho os pés bem assentes na terra, vivo da informática e a escrita é uma paixão.

Quais as tuas influências?

Curiosamente nem tento pensar nas minhas influências; quanto mais gosto de uma obra, “A estrada” de Cormac McCarthy, “1984” de George Orwell, ou “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, mais eu me afasto desse género porque as comparações seriam inevitáveis mas também seriam deprimentes. Gostaria de um dia conseguir escrever algo tão cativante como o Farenheit, ou algo com a fabulosa inteligência do Matadouro 5, mas não penso neles quando escrevo.

Qual o género de que mais gostas de ler e escrever?

Quanto aos meus gostos de leitura, é mais fácil de responder, gosto de distopias, ficção científica e fantasia. Sou normalmente muito crítica nos livros de fantasia que leio. É muito fácil escrever fantasia, mas torna-se difícil escrever boa fantasia. E claro, depois transporto isso para a minha escrita. Dentro do que escrevo, ficção científica e o “fantástico português” são os temas mais frequentes.

És editora da Fénix, juntamente com outras pessoas. Em que é que consiste este projecto?

A ideia da Fénix surge entre 2009 e 2010, numa altura em que as revistas não abundavam como acontece agora. Criou-se um grupo de pessoas interessadas em participar, que iriam rodar no papel de editores. Neste momento o grupo Fénix é constituído por cinco, eu e o meu marido, Álvaro de Sousa Holstein, a Regina Catarino, o Ricardo Loureiro e o José Cunha. Já tivemos um editor convidado, o que poderá voltar a acontecer. Neste momento estamos no terceiro número da revista, onde fui a responsável pela edição e direcção. A frequência da fanzine, não é a desejada, mas a possível, esperamos sinceramente melhorar nesse aspecto.

Enquanto editora de uma fanzine portuguesa, quais é que são os maiores desafios que encontras?:

“Fazer” um fanzine tem de ser algo que se faça por gosto, ninguém fica rico, ou conhecido por isso. Fazemo-lo, porque queremos divulgar o género, os autores e estamos dispostos a aprender. É um processo de aprendizagem. Dificuldades há em quase tudo. É difícil arranjar ilustrações, porque os autores têm vários meios de publicitação e nem sempre estão dispostos a participar; não há tantas submissões como era suposto, nem a qualidade é a que por vezes queremos; os atrasos também são constantes em todo o processo, nas correcções e revisões, paginação, basicamente em tudo. É uma espécie de rito de passagem.

Muitos jovens autores procuram estas fanzines para começarem a aparecer no nosso mercado editorial. O que é que a experiência te diz sobre isso?

Acho que é onde os autores podem e devem apostar, quando a fanzine é feita com sinceridade. É um assunto que dá pano para mangas e uma discussão bastante interessante. Como autora já tive várias experiências, revistas que não respondem, revistas que não corrigem, que não nos dão opiniões ou sugestões de revisões. Chega a ser desmotivante. Mas como quem escreve por gosto não cansa, e não o faz para as revistas, continua-se e escrever, na mais das vezes para a gaveta, mas o importante é ter prazer no que se faz.

Da perspectiva de “editor”, onde a minha experiência é reduzida, na Fénix, melhoramos em muito a comunicação. Neste momento os autores não ficam sem resposta, o que achamos importante, e recebem opiniões ou sugestões de como poderão melhorar o que enviaram. Fica depois, sempre, ao critério do autor a sua aceitação ou não e como será compreensível, se o autor não concordar nas revisões, a última palavra será sempre a do o editor que tem de ponderar se o trabalho é ou não publicável apesar da “teimosia” do autor. Mesmo os não incluídos recebem criticas construtivas, ou por vezes não (afinal o gosto pessoal é um importante factor), de pessoas experientes e doutras menos experientes. Com uma equipa multifacetada (editores experientes, escritores e leitores) esperamos ajudar em alguma coisa os escritores que tem a coragem de submeter os seus trabalhos.

Qual a tua opinião sobre o mundo editorial português neste momento em relação a novos autores?

Não muito boa, para ser sincera. Entendo que uma editora é acima de tudo uma empresa e que para pagar ordenados, tem de ter lucro. Mas estamos a falar de livros, cultura e acho que as editoras não podem esquecer-se disso, se não serão apenas mais uma multinacional a vender ao quilo o que produz. As apostas em novos autores são quase nulas, em qualquer editora, o que acho um disparate. Haveria maneira de apostar nos novos nomes, sem perder dinheiro, uma ideia seria por exemplo, uma das grandes editoras (para ter peso), criar uma chancela para “ilustres desconhecidos” em que simplesmente publicava edições de 500 exemplares, em formato de bolso, a um preço acessível, de maneira a dar a oportunidade a autores desconhecidos. Apostando na qualidade e com edições com revisões “a sério”, eu acredito que haveria boas surpresas.

Que projectos tens em mente para um futuro próximo?

Ideias há sempre muitas, continuo a escrever regularmente e participo nos concursos para antologias, falo principalmente nas antologias brasileiras. Espero conseguir editar mais números da Fénix e haverá para breve algo novo, mas desta feita em formato digital e muito mais pequeno, mas para já não posso adiantar mais.

Pergunta da praxe: Já conhecias o blog Morrighan? O que achas dele?

Quem não conhece o blog da Morrighan? Muito activo e sempre actualizado, tem também iniciativas muito positivas, como esta, de publicitar jovens autores e projectos nacionais. Os meus parabéns por todo o trabalho nestes últimos quatro anos e espero que os próximos, sejam ainda melhores e obrigada por este convite em meu nome e em nome do Grupo Fénix.

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Rosa Vermelha
Rosa Vermelha
8 anos atrás

Olá! Sem dúvida uma boa entrevista. Infelizmente para quem ainda escreve no anonimato a Marcelina tem razão: as nossas editoras têm um "medo terrível" de apostar em novos autores.
E desculpa me a ignorância, mas o que é uma fanzine?
Continuação de bom trabalho.

Anónimo
Anónimo
8 anos atrás

Marcelina, estás no bom caminho. Parabéns, pois vou estar bem mais atento aos teus escritos,pois já conheço alguns!Parafraseando Séneca: Não há vento favorável para quem não sabe para onde vai.Beijinho

  • Sobre

    Olá a todos, sejam muito bem-vindos! O meu nome é Sofia Teixeira e sou a autora do BranMorrighan, o meu blogue pessoal criado a 13 de Dezembro de 2008.

    O nome tem origens no fantástico e na mitologia celta. Bran, o abençoado, e Morrighan, a deusa da guerra, têm sido os símbolos desta aventura com mais de uma década, ambos representados por um corvo.

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