Opinião: Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, de Gonçalo M. Tavares

Uma menina está perdida no seu século à procura do pai

Gonçalo M. Tavares

Editora: Porto Editora

Sinopse: – E vocês? De onde vêm?

Tentei explicar-lhe que não era um homem falador. Gosto de ouvir, disse-lhe, não tenho muito para dizer.

Ele perguntou, virado para Hanna:

– Como te chamas?

Hanna respondeu. Ele não percebeu. Hanna repetiu, ele continuou sem perceber. Eu repeti:

– Chama-se Hanna.

– Hanna – disse Fried. – Bom.

– Que idade tens?

– Catorze – respondeu, e agora percebeu-se.

Fried sorriu para ela, simpaticamente. Ela disse:

– Olhos: pretos. Cabelo: castanho.

Eu disse: – Ela aprendeu assim.

Depois ela disse:

– Estou à procura do meu pai.

Fried sorriu, não disse nada.

Opinião: Seguir em frente. Continuar. Porquê olhar para trás? 

Nunca antes tinha lido Gonçalo M. Tavares e no final desta leitura perguntei-me se teria sido o início ideal. Não que não tenha gostado, mas porque, passados dois dias do término da leitura, ainda não consegui perceber se me sinto em sintonia com o que li. Mal pousei o livro, o sentimento foi de falta de familiaridade com a escrita do autor, como se para se ler esta obra fosse indicado ler outras anteriores, algo que nos introduzisse à lírica e à estética do escritor. Dada toda a especulação que por fim ficou no ar, Uma menina no seu século à procura do seu pai é um livro que dá pano para inúmeras mangas. 

A estrutura da obra fez-me pensar numa espécie de mapa em que existem certos pontos de paragem obrigatória, com possibilidade de voltar atrás, e em que em cada um destes pontos, algo subjacente estivesse por ser descoberto, reflectido e digerido. Comecemos com os protagonistas, Hanna e Marius. Ela, uma menina com trissomia 21 e ele, um homem que foge, foge de algo que não sabemos o que é, tendo apenas noção de que não deve parar. No entanto, assim que os caminhos de ambos se cruzam, pequenas mudanças vão sendo operadas. A verdade, é que várias dissertações poderiam ser escritas no que toca às interpretações que cada momento desta narrativa tem.

Poderíamos começar com as interpretações logo em relação a Fried, um personagem que conhecemos pouco depois do início e cuja história pessoal se vai desenrolando ao longo de uma viagem. Cola cartazes nas ruas, conta-nos eles, naquelas escondidas e cheias de sombras, onde tem a certeza que as pessoas pararão para ver, para prestar atenção. São cartazes revolucionários, ou pelo menos é essa a sua intenção. E toda a sua família o faz, todos em países diferentes, conspirando para uma revolução à escala mundial. Conhecemos também um mestre de antiguidades que já não tem qualquer contacto com o mundo exterior, um artista cujo um dos olhos está em sangue e só se consegue manter aberto quando olha pelo microscópio – trabalha em obras de arte que poucos conseguem ver -, temos a pensão onde Hanna e Marius ficam e os seus peculiares donos, entre outros. 

Existe uma metafísica intrínseca a cada história que nos é contada. As conclusões, as ilações, serão sempre subjectivas. Não estamos perante uma obra com princípio/meio/fim, mas antes perante um profundo questionário sobre o que faz mover estas personagens e o porquê. Hanna, ao início, estava limitada aos seus cartões de instruções, mas até estes acabam por servir como símbolo de Hansel e Gretel como uma possibilidade de regressar ao ponto de partida seguindo o percurso oposto ao qual foram sendo deixados. 

No fundo, ler este livro foi para mim uma experiência complexa, próxima do que seria ler e avaliar uma obra académica. Uma coisa é certa, a escrita de Gonçalo M. Tavares inspira a que se vá mais longe do que os padrões ditos normais da Literatura, desafia o nosso pensamento e a nossa lucidez. Não restam dúvidas de que estamos perante um autor de grande qualidade e intensa reflexão, mas a única certeza com que fiquei após ter virado a última página é que preciso de ler mais obras suas. 

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    Olá a todos, sejam muito bem-vindos! O meu nome é Sofia Teixeira e sou a autora do BranMorrighan, o meu blogue pessoal criado a 13 de Dezembro de 2008.

    O nome tem origens no fantástico e na mitologia celta. Bran, o abençoado, e Morrighan, a deusa da guerra, têm sido os símbolos desta aventura com mais de uma década, ambos representados por um corvo.

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