[Diário de Bordo, Samuel Pimenta] A nova casa

A nova casa

Uma residência literária é o acto de ir viver para um local durante um determinado espaço de tempo, com a finalidade de escrever, de criar. No meu caso, vim para a aldeia de Pinheiro, no concelho de Carregal do Sal, a terra de onde é originária parte da minha família. Embora conheça a aldeia desde a minha infância, passar pela experiência de viver aqui é fundamental para a escrita do meu novo livro. Conhecer os lugares durante um fim-de-semana é diferente de conhecer os lugares por lá ter vivido durante algum tempo. Era imperioso estar aqui. Cheguei no dia 3 de Janeiro e fico até ao fim do mês. E desde que cheguei, tenho-me deparado com aquele que é o primeiro desafio para quem escreve: o lugar onde se escreve, a casa.

A primeira semana tem sido, literalmente, de adaptação à nova casa onde estou a viver, aqui na aldeia. Em Alcanhões, vila do concelho de Santarém, onde vivo, estou habituado a escrever na minha casa, com a qual estou mais que familiarizado, mas desde que cheguei a Pinheiro tenho-me vindo a adaptar a um novo espaço, procurando ambientar-me às divisões que podem potenciar o acto criativo. Acabei por escolher o ponto mais alto da casa, onde há uma secretária com uma janela virada para a Serra do Caramulo, de onde vejo as casas da aldeia, um souto e o pinhal ao longe. É o cenário ideal para o exercício da escrita, inspirador e apaziguador, mas as casas têm outros desafios. Estou habituado a interromper abruptamente a escrita, levantar-me da secretária e andar pelas divisões da casa, ponderando ideias em voz alta, incorporando personagens e olhando para a janela que tiver mais próxima de mim, preciso de horizonte. Mas também danço. Sim, interrompo regularmente a escrita para dançar, para que as palavras bloqueadas se libertem dos meus músculos, do meu corpo. É que a escrita, antes de ser uma arte do intelecto, é uma arte corporal, vem do corpo, passa por ele. Em última análise, porque passa pelas mãos. No meu caso em particular, preciso de muito mais do que as mãos para escrever, preciso do meu corpo completo, e por isso dançar ajuda-me a escrever melhor, a trazer a palavra à superfície. Acaba por ser uma forma de meditação, também. Ora, para poder fazer tudo isto na nova casa, tenho de me adaptar aos espaços, conhecer quais os seus limites e que cantos me são mais confortáveis. Na minha casa de origem, por exemplo, chego a descer e a subir as escadas à noite sem a luz ligada, posso fazê-lo porque conheço a casa e a casa conhece-me, temos um pacto. Ou então posso dançar de olhos fechados, porque sei onde termina o chão e começa a estante. Aqui, ainda estou em processo de conhecer a casa, de selar um acordo com ela. Já tentei descer as escadas sem a luz ligada, num daqueles momentos em que interrompo a escrita abruptamente para ir à cozinha e voltar a subir outra vez sem ter feito especificamente nada, para além de subir e descer escadas; é que por vezes tenho de largar tudo o que estou a fazer e sair, inclusive, do espaço em que estou a criar, nem que seja por um minuto, para voltar outra vez e pegar no texto de forma diferente. Claro que não consegui descer as escadas sem luz, tive de a ligar, ou corria o risco de cair. Mas estou a adaptar-me à nova casa. O facto de ser da família ajuda.

É curioso que, mais do que o espaço físico, tem sido o espaço sonoro que me traz mais desafios. Cada casa tem uma respiração distinta, um som, assim como um cheiro. Aqui a casa cheira a Outono, um misto de terra com feno molhado. Os sons que vêm do exterior não os ouço, além da chuva e do vento. E ainda bem, já que sou hipersensível ao som, preciso ou de silêncio ou da música apropriada. Mas os ruídos da casa têm-se manifestado. A madeira a estalar, o frigorífico, o relógio. No início, por eu não estar familiarizado com eles, entrava de imediato em estado de alerta, tentando entender qual a sua origem. Mas agora quase nem dou conta, posso dizer que a nova casa já me acolheu. Julgo que já me observa, curiosa, perguntando-se quem é e o que faz esta figura bizarra que lhe entrou portas adentro.

Pinheiro (Carregal do Sal), 10 de Janeiro de 2016 – 00h12m

Samuel Pimenta

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jorge vicente
jorge vicente
5 anos atrás

Incrível como o teu processo de escrita, Samuel, é tão parecido com o meu, embora não desligue as luzes.

Mas danço
caminho pela casa
vou até à varanda e leio o poema em voz alta,
ouço os sons que a noite me conduz. Alguns que sinto serem de outro mundo.

Muitos abraços
Jorge Vicente

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    Olá a todos, sejam muito bem-vindos! O meu nome é Sofia Teixeira e sou a autora do BranMorrighan, o meu blogue pessoal criado a 13 de Dezembro de 2008.

    O nome tem origens no fantástico e na mitologia celta. Bran, o abençoado, e Morrighan, a deusa da guerra, têm sido os símbolos desta aventura com mais de uma década, ambos representados por um corvo.

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