Reflexões sobre o Basquetebol Feminino em Portugal


Para quem não sabe, sou jogadora de Basquetebol. Ou fui, nem tenho bem a certeza. O tempo passa depressa demais e quando damos conta, puff!

Entrei para o basquet com 12 anos e a partir dos 13 anos fiz parte de todas as selecções distritais e nacionais. Fui a todos os europeus que havia para ir nos respectivos escalões, fui campeã distrital pelo meu clube, ganhei sempre os prémios de 5 ideal em todas as final four em que participei, numa até ganhei de melhor marcadora, fui campeã nacional de street basquet, fui campeã de muita coisa, mas no final nada disto parece interessar. Até fui convidada para fazer parte do CAR (Centro de Alto Rendimento) no Jamor, mas isto eu recusei e não me arrependo.

Em Dezembro de 2006 ao serviço da selecção nacional sub20, num torneio internacional em Espanha, lesionei-me. Uma espanhola idiota com o dobro do meu peso, decidiu “atirar-se” para cima de mim e na queda lixei o joelho esquerdo.
Fui a um médico que me mandou fazer 20 sessões de fisioterapia. A fisioterapia não resultou e ele queria operar. A federação achou que o médico estava a ser precipitado (afinal havia um eurpeu a ser disputado daí a uns meses) e mudaram-me de médico para uma segunda opinião. Mais 20 sessões de fisioterapia que em nada resultaram. Fiz uma ressonância magnética que nada parecia indicar e então o ortopedista decidiu abrir para ver o que se passava. Fez uma artroscopia onde descobriu que o meu menisco estava todo lixado e decidiu agrafá-lo em vez de retirá-lo. Já que eu tinha apenas 18 anos e ainda tinha muitas competições pela frente, ele achou que era a melhor opção. Mas a recuperação era de no minímo dois meses. Ora, eu fui operada a 18 de Abril de 2007 e já não tinha hipóteses de ir ao Europeu de 2007. Quando se soube desse facto, o interesse da federação caiu por terra.

Lá estive eu 2 meses sem andar e sem pousar a perna no chão. Passados esses dois meses começaram mais sessões de fisioterapia. Até que chega Dezembro e eu continuo com dores e sem conseguir fazer vida normal. A 28 de Dezembro de 2007, volto a ser operada. Tenho alta em Julho de 2008, mas entretanto tinha a faculdade atrasada, as dores não tinham desaparecido completamente e na suposta época de 2008/2009 eu ainda não compito porque tenho uma faculdade e uma vida para recuperar.

Na época de 2009 recomeço a receber propostas de clubes. A mais aliciante foi a do Torres Novas, com promessas de condições e dinheiros que nunca vieram a ser bem reais, e meti-me num buraco de onde saí a meio da época. Uma experiência triste e a servir de exemplo para não acreditar na maioria do que os clubes prometem para nos terem lá a jogar.

Como estou bastante cansada disto tudo e até já estou licenciada e com um mestrado iniciado, ando a reflectir se vale a pena voltar a competir ou não. Mas sim, já tenho mais propostas para a próxima época, mas as coisas não são claras como a água.
O basquetebol feminino, atingiu uma decadência como nunca vi. Os clubes prometem mundos e fundos a atletas internacionais como eu, que não podem cumprir. Enganam e aldrabam. Podem não ser todos assim, mas garanto que a maioria é.

À conversa com uma antiga treinadora minha, cujo clube ando a ponderar como possibilidade de ser o meu na próxima época caso volte a competir, ela disse-me:
“Foste uma jogadora que andaste por Campeonatos da Europa e com um bom nível de desempenho, e Portugal não se pode dar ao luxo de te deixar sair.
Eu sei que é extremamente dificil conciliar estudos com basquete, principalmente quando queremos ser das melhores. E tu és destas”

Claro que me babei. Dado que nem o treinador da altura em que me aleijei, se dignou a saber como eu estava, nem ter recebido qualquer tipo de melhoras da FPB, ver o meu valor reconhecido por alguém que esteve lá no início, que não foi fácil, é bom.
Mas Portugal não quer saber.

Estou a escrever este post sobre mim, mas não duvido que como eu hajam mais atletas femininas em condições semelhantes.
Tenho 1,80m. Com esta altura muitos treinadores tentaram fixar-me como poste, mas eu desenvolvi outras capacidades e no ano em que me aleijei, até a base jogava. A posição onde tinha melhor desempenho até era a extremo, mas fazia todas as posições se fosse preciso. Ora, estas características numa atleta de 1,80m são raras. Não é para me gabar ou dizer que sou melhor do que as outras. Não tem nada a ver com isso. Tem a ver com o reconhecimento e não haver falsa modéstia.

Com 13 anos eu ia sózinha desde a Póvoa de Santa Iria até Algés para treinar nas selecções distritais. Com 16 anos, como o meu clube não tinha escalão de juniors, mudei-me para um clube novo, mais longe de casa, com as minhas colegas, onde acabei por ficar sózinha porque a maioria não estava para fazer o esforço de ter que apanhar comboio e ainda ir à chuva para o pavilhão que ficava a 10minutos da estação de comboios.
Durante todo o meu percurso no basquet, cresci e lutei muito. Há uns anos talvez eu não fosse capaz de pronunciar estas palavras, mas depois de muito do que vi e passei, eu sei que mereci todos os títulos que ganhei, todas as selecções a que fui. Lutei, trabalhei, esforcei-me e venci a maioria das vezes as maiores adversidades – as colocadas por nós mesmas. E acreditem que eu fui sempre a minha maior adversária.

Enfim, foi um desabafo que me andava entalado na garganta ao tempo. Há pessoas que gostam de brincar com as outras. No desporto feminino isso é mais que evidente.
E pronto, ando nesta corda bamba a tentar decidir se hei-de voltar a competir ou não. Tenho um mestrado para acabar nos próximos dois anos, vou começar a fazer investigação muito brevemente e não sei até que ponto compensa fazer todos os sacríficios (comboios, distâncias longas, condições questionáveis, tempo perdido, aturar pessoas idiotas) para voltar a praticar um desporto que já não parece o mesmo que pratiquei quando era mais nova.

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ataner
ataner
10 anos atrás

Não sabia desta faceta de desportista, é fácil esquecer que pode haver mais em comum entre blogger e leitores. Gostei de ler o que escreveste e de te saber com os pés tão assentes no chão! Adoro basquetebol, cheguei a praticar enquanto estudante (era base – porque sou baixinha) e modéstia à parte não era má jogadora, embora não saiba se a qualidade chegaria para ir mais longe. Posso dizer que embora não esteja arrependida do caminho que a vida levou o bichinho de querer saber se poderia ter ido mais longe ficou. Acho que a única coisa a dizer é que espero que decidas por aquilo que for melhor para ti, para que mais tarde não haja dúvidas ou arrependimentos.

Morrighan
Morrighan
10 anos atrás

Ataner, pois é… O bichinho morde e morde…
Quando eu me lesionei, naquela altura, tive propostas de clubes da liga em que me ofereciam apartamento, ordenado, etc etc, mas por causa dos estudos fiquei na primeira divisão no clube onde estava. O clube era bom, e até quase tinhamos subido à liga um ou duas épocas antes. Depois lesionei-me e desde então me pergunto se teria qualidade para jogar na liga.

Mas depois comecei a ver as coisas como elas são. As ilusões desapareceram e sinceramente não é preciso muito para se jogar na nossa Liga. A maioria dos clubes contrata duas americanas e o resto são jogadoras medianas. Claro que há jogadoras com muito boa qualidade, mas o basquetebol feminino está longe de ser o que era nos tempos de juventude da Ticha Penincheiro (por exemplo).

Entristece-me o facto de se desleixarem tanto. Sou duma geração em que vi pessoal mais velho de extrema qualidade a estragarem-se e a serem "maltratadas" pelo nosso basquet. Da minha geração já quase nem tenho vontade de falar.

Mas é bom ter feedback da parte dos meus leitores 🙂
Não sei que idade tens, mas se tiveres interessada em voltar a jogar (e se fores daqui de perto) estou a pensar montar uma equipazita para jogar na segunda divisão, muito descontraidamente, caso as minhas outras opções não se tornem viáveis. Se quiseres, envia-me mail =P
O basquet, o basquet.. Tanta alegria me deu e agora só sinto tristeza e desilusão.

  • Sobre

    Olá a todos, sejam muito bem-vindos! O meu nome é Sofia Teixeira e sou a autora do BranMorrighan, o meu blogue pessoal criado a 13 de Dezembro de 2008.

    O nome tem origens no fantástico e na mitologia celta. Bran, o abençoado, e Morrighan, a deusa da guerra, têm sido os símbolos desta aventura com mais de uma década, ambos representados por um corvo.

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