Escritos Aleatórios #11

Parte I

“Dizem que um coração partido pode destruir uma pessoa ou, pelo menos, deixá-la em estado vegetativo durante bastante tempo. Para mim, foi a melhor coisa que me podia ter acontecido. Não que seja masoquista; a forma como despedaçaram tudo o que eu sentia, a forma como fiquei reduzida a pouco mais do que um ser que se limitava a respirar e a comer a horas certas, podia ter sido o meu fim. No entanto, a pequena história que tenho para vos contar tomou contornos completamente inesperados.

Uma das ocupações que se tornou rotina para mim depois da separação, foi dar uma caminhada todos os dias durante pelo menos uma hora. Os destinos variavam, mas escolhia, invariavelmente, locais que me proporcionassem algum conforto, ou seja, sítios onde vegetação abundasse, cheios de árvores ancestrais, ou então perto do leito de um rio. Se pudesse conjugar ambos, melhor ainda. Cada vez que iniciava a minha caminhada, tentava fugir deste mundo para outro, ao estilo do que tentamos fazer quando lemos um livro. Aos poucos, fui eu construindo a minha versão de um enredo só para minha diversão. Por vezes parava perto de uma árvore só para poder colocar a mão no seu tronco e sentir a sua vida a pulsar. Outras vezes, sentava-me numa ponte de pedra a observar a água a correr sobre as pedras, a tentar acompanhar o seu percurso e a imaginar que histórias poderia trazer com ela.

Quando chegava a casa, após essa hora que tão bem me fazia, sentava-me à frente do computador e destilava todas as ideias que me assaltavam a mente no teclado. Esta foi a única forma de me expressar durante meses. Eu não falava com ninguém, não interagia com ninguém. Os meus dias limitavam-se a uma rotina muito própria: trabalho (com o mínimo de interação, mas máxima eficiência possíveis), caminhar, comer, dormir. Nada mais, nada menos. O telemóvel pessoal encontrava-se desligado, o número do profissional só os meus colegas é que tinham e nenhum deles fazia a mínima ideia do que se passava. Quando me perguntavam se estava tudo bem comigo, eu limitava-me a acenar e a dizer que sim, que apenas andava muito cansada. “Vai a um médico, esse cansaço assim não é normal.”, diziam-me eles; ao que eu respondia, com um sorriso, “Sim, hei-de ir. Não se preocupem.”, e tudo voltava ao normal rapidamente.

Quando veio o Outono, já tinha passado mais de meio ano desde que aquele pulha decidiu que a minha personalidade forte e espírito guerreiro eram demais para ele, decidi voltar a visitar um lugar que há muito deixara de o fazer. Com o ingresso no mundo do trabalho mais a relação que mantinha com ele, acabei por ir deixando de fazer algumas coisas. O dia tem apenas vinte e quatro horas, sempre foi assim, e os poucos momentos livres eram dedicados a cuidar um pouco de mim e das minhas necessidades ou apenas a não fazer nada.

Cheguei à clareira, aquele local que tantas vezes me curou o espírito em várias fases da minha adolescência, montei a minha tenda, mesmo entre um conjunto de árvores em que uma delas, a maior delas todas, tinha raízes tão salientes que a sua forma tinha o formato perfeito de uma excelente espreguiçadeira, e fiz o que tanto fazia naqueles tempos – deitei-me directamente sobre a relva fresca, ainda com resquícios do orvalho da manhã.

O bosque que a rodeava era farto em beleza. Com um espaço imenso e muito para explorar, tinha ainda um pequeno rio a contorná-lo. Passar aquela ponte sempre teve um efeito maravilhoso. Levantei-me e lá passei eu por ela, mas só para ir até uma parte em que tinha pé no rio e poder dar um bom mergulho refrescante. A esta altura do ano a água ainda costumava estar a uma temperatura amena, mas naquela manhã, especialmente fresca, senti a água a gelar-me os ossos! Ainda assim, movi-me para uma zona onde o sol começava a bater e deixei-me ficar um pouco, metade dentro de água, metade fora, olhos fechados, apenas a sentir o coração a bater e o ar a percorrer-me os pulmões. Quando voltei a abrir os olhos, encaminhei-me para a toalha que jazia na relva ali perto e deitei-me a secar.

Penso que devo ter adormecido por uns instantes, o sol já ia alto e lentamente comecei a endireitar-me. O que vi do outro lado do rio deixou-me surpresa e intrigada. Um homem, da minha idade ou sensivelmente mais velho, montava o seu espaço de lazer, semelhante ao que eu tinha feito momentos antes na minha clareira. Reparei que ele olhava para mim com um ar curioso. Há quanto tempo estaria ali? Não estava à espera daquilo. Setembro não é um mês que atraia muita gente para aquelas bandas, ainda por cima porque poucos conhecem aquele pequeno espaço que eu considerava paradisíaco. (continua…)

Morrighan

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Unknown
Unknown
7 anos atrás

É tão engraçada a capacidade humana de conseguir sempre sentir algo nosso nas palavras dos outros…

Sempre soube isso, porque em parte escrevo e as pessoas sentem cada linha minha da sua forma própria, adoptando-as – já que eu as tinha, em parte, abandonado.

Bem, então, essa situação de nos perdermos pelos corações partidos, encontrando-nos novamente e descobrindo que parte do que éramos se foi… Mas, ao mesmo tempo, somos sobreviventes. É curiosa a forma como voltamos ao original – A Natureza (neste caso, e no meu, ahah).

Curioso também, o quanto parecemos ter em comum. Mas, no meu caso, a minha pele não congelou com a água gelada… Mas com o vento cortante de uma noite de verão bem fresca, enquanto caminhava contra ele, numa blusa que permitia cada célula do meu corpo sentir a maravilha do que é ser-se humano. Amei a experiência, sentir cada célula minha ser exactamente isso – apenas minha.

🙂 Esse continua dá que falar…hihihi

Morrighan
Morrighan
7 anos atrás

Sofia, concordo com tudo! Uma das experiências mais surpreendentes que tenho tido é precisamente a interpretação tão diferente que muitas vezes as pessoas têm das nossas palavras.

Já me aconteceu escrever um texto, pensado num elemento qualquer e inspirando-me nele, para depois receber uma mensagem/mail/comentário a dizer que se tinham identificado completamente com as palavras, mas depois as circunstâncias em que se identificaram não foram de todo as que me tinha inspirado em!

É muito gratificante conseguirmos que as pessoas se revejam nas nossas palavras, eu acho completamente extraordinário. Penso que é isso que me vai motivando a ser mais destemida, a arriscar e a não ter medo de continuar a escrever, mesmo que seja só para te cantinho.

De resto sou ainda uma menina no que toca à escrita. Sou quase incapaz de reler o que escrevo e sinto sempre que podia ser melhorado. Seja uma expressão, uma pontuação, o que for.

Confesso que a narrativa acabou assim porque naquele momento a inspiração parou. Estou à espera que volte para poder retornar… Veremos se tal acontece!

Muito obrigada pelos teus comentários :))

Um grande beijinho

Unknown
Unknown
7 anos atrás

Eu amo os imprevistos quando, repentinamente, tudo muda e ficamos a olhar para o que aconteceu como se tivéssemos sido apoderados por um demónio 😀
Eu sou demasiado de marés, se vires minhas postagens pessoais no tumblr até te passas xD ahahah Ainda hoje, saiu mais uma loucura qualquer.

Continua a ser destemida, que é isso que nos faz ser maravilhosas por dentro. 😉 ~e nada convencidas, notemos.

Fica bem e bom domingo ^^

Morrighan
Morrighan
7 anos atrás

Eu só consigo escrever quando estou nesse modo "possuída"! Senão parece que nem sequer é natural.

Tenho é de confessar que isso me deixa, por vezes, frustrada. Já me aconteceu ter ideias a fervilhar na mente, mas esta não estar virada para traduzi-las em palavras! É terrível :b

Obrigada pela motivação :)) É muito importante!
Espro que também tu continues a encontrar na escrita uma fonte de grande prazer e loucura, claro! Eheheh

Beijinho e bom Domingo!

António Silva
António Silva
7 anos atrás

Esse é o tal conto?
Gostei bastante da narrativa. Agora pode seguir a via romântica, thriller, sobrenatural ou outra coisa qualquer…
Deixar a meio não se faz! Estou curioso…
Exijo saber a continuação XD

Morrighan
Morrighan
7 anos atrás

Transcendente, ainda não é o conto! Eheheh, é só o início de algo que, lá está, pode tomar qualquer um desses rumos :b

Mas fico contente que tenha despertado a curiosidade!

António Silva
António Silva
7 anos atrás

Hmmm… Compreendo. Pega-se nele quando surge a criatividade. De bloco em bloco surge algo.
Siga. Está aprovado

Morrighan
Morrighan
7 anos atrás

Eheheh, é um bocado isso. Na altura comecei a escrever este texto e parei quando cheguei a um ponto não me veio mais nada à cabeça.

Quando tiver uns dias mais calmos, pode ser que a inspiração volte. Desde que voltei a trabalhar que a disponibilidade mental tem andado muito em baixo :

Obrigada pela aprovação!

  • Sobre

    Olá a todos, sejam muito bem-vindos! O meu nome é Sofia Teixeira e sou a autora do BranMorrighan, o meu blogue pessoal criado a 13 de Dezembro de 2008.

    O nome tem origens no fantástico e na mitologia celta. Bran, o abençoado, e Morrighan, a deusa da guerra, têm sido os símbolos desta aventura com mais de uma década, ambos representados por um corvo.

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