Escritos Aleatórios #7

“Eu estava completamente danificada, insegura, sem certezas sobre nada que me dissesse respeito. A vida tinha sido exigente e testou-me até ao limite. Tirou-me grande parte do que fazia de mim o que eu era. A sensação de ter ficado sem chão debaixo dos pés era constante. O pânico, o desespero, a sensação de vertigem, todos estes sentimentos e muitos mais assaltavam-me sem aviso prévio enquanto caminhava, a meio de uma conversa, a meio de uma noite de sono que deveria ser reparadora. A luta era constante; o agarrar-me ao meu eu, o lembrar-me de quem eu realmente era, de que era capaz de superar tudo aquilo, de que não ia deixar que nada me derrubasse. Cansava-me com facilidade, as minhas forças pareciam sugadas do nada deixando-me exausta e vazia. Eu sabia o que devia fazer para sair deste redemoinho tempestuoso, mas ainda assim sentia-me paralizada. Perguntava-me se merecia tudo aquilo, se por algum acaso macabro não seria melhor baixar os braços… só por uns momentos deixar-me… estar… por uns segundos… adormecer… NÃO! Não podia continuar assim. Que raios! Passadas algumas semanas mal me reconhecia, mal sabia quem era aquela mulher que me encarava no espelho exalando fraqueza e ao mesmo tempo revolta! Não sei quando foi o ponto de viragem ou o que é que o despoletou. Não faço ideia do que é que me levou a bater com o pé e a dizer, BASTA! Ou se calhar sei, porque todos nós temos o nosso orgulho próprio e se o deixarmos falar na medida certa, nem de mais, nem de menos, ele pode ser a nossa salvação.

Houve uma manhã, lembro-me perfeitamente, em que acordei e pela primeira vez em muito tempo não me senti esmagada. Nem tinha dormido muito, porém, foi suficiente para me sentir revigorada. Sorri para mim mesma, aproveitando esses momentos de alívio, fui tomar o pequeno-almoço e, enquanto verificava o correio electrónico e todos os compromissos para essa semana, deu-me uma vontade gigante de resolver alguns assuntos desta cabeça complicada através da escrita. Peguei na minha caneta de gel preta, no meu caderno preferido e comecei a escrever. Deve ter sido numa manhã de fim-de-se-semana, ou então cheguei atrasada ao trabalho, pois sei que estive numa espécie de transe durante uns bons minutos, talvez horas. A escrita libertou-me, mostrou-se um meio de despejo emocional que nunca pensei que resultasse tanto como resultou. Sempre fui muito resistente a escrever fosse o que fosse, quanto mais em relação a mim mesma e aos meus sentimento.

Alguns dos escritos foram endereçados, não interessa o que continham, interessa que me senti muito mais leve depois de os enviar. Daí em diante, comecei a prestar mais atenção às minhas necessidades, voltei a colocar-me em primeiro lugar na minha lista de prioridades. Penso que este seja um dos grandes males de alguns seres humanos; o que devia ser algo altruísta pode acabar por se tornar masoquismo. Quantas vezes não sentiram a necessidade de colocar alguém à vossa frente na vossa lista de prioridades? Ou porque pensam que a pessoa merece, por estar em dificuldades ou até por apenas ser boa pessoa. Então quando nos apaixonamos, erro fácil. Aos poucos vamos dando cada vez mais de nós até que quando damos conta já só damos e nem sequer recebemos. E haverá algo mais injusto do que perdermos a nossa identidade por alguém que não merece?

Voltando àquela manhã, sei que nunca mais fui a mesma. Aliás, lembro-me agora que escrevi tudo aquilo na manhã em que era suposto ir de férias. Deve ter sido o meu subconsciente a dizer-me que não podia viajar sem ter tudo arrumado na minha cabeça de forma a poder aproveitar em paz e da melhor forma possível os poucos dias anuais reservados para esse propósito. O que é certo é que nesse ano tive as melhores férias de sempre. Não que tenha ido para um hotel 5 estrelas, com praias paradisíacas ou algo do género, mas apenas porque me sentia em paz comigo mesma. Durante esses dias recuperei, curei-me, voltei-me a sentir Eu. A auto-estima e a confiança, aos poucos, foram-se instalando, dando-me um novo brio. Relembrei-me a mim mesma que não podia permitir que alguém, fosse quem fosse e independemente dos meus sentimentos, me fizesse sentir menos do que aquilo que eu era, que me fizesse sentir reduzida e desprezada, magoada. A luta pela minha felicidade voltou a estar no topo das minhas prioridades.

Este é um conselho que tenho para vos dar. Se alguma vez se sentiram, ou se sentem, de forma parecida à que descrevi no início, arranjem maneira de libertar tudo o que está acumulado dentro de vós. Para mim foi a escrita, confusa, frenética e um pouco louca, seguida de duas semanas de férias que mudaram a minha vida. Quero reforçar que nada, muito menos alguém, merece que vocês se desprezem a vós mesmos, que deixem de estar prestar atenção às vossas próprias necessidades que vivam mais para os outros do que para vocês. Tudo tem a sua conta, peso e medida. É no equílibrio que está a chave para trancarmos a loucura longe de nós. Só espero que, tal como eu, também vocês consigam encontrar paz e alegria nas pequenas coisas, que se tornem independentes do que vos rodeia e afecta negativamente. E isto, nada tem a ver com o sermos egoístas, mas sim termos amor próprio.”

Morrighan

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    Olá a todos, sejam muito bem-vindos! O meu nome é Sofia Teixeira e sou a autora do BranMorrighan, o meu blogue pessoal criado a 13 de Dezembro de 2008.

    O nome tem origens no fantástico e na mitologia celta. Bran, o abençoado, e Morrighan, a deusa da guerra, têm sido os símbolos desta aventura com mais de uma década, ambos representados por um corvo.

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