Escritos Aleatórios #29

“Voltar a encontrar-te passado tanto tempo foi como receber um murro no estômago sem qualquer aviso prévio. Julgava já ter ultrapassado todos os sentimentos e ressentimentos, julgava-me livre das correntes que tão suavemente soubeste colocar em mim naquela altura. De suave, a separação não teve nada, mas ainda assim acreditei que a velha máximo do tempo curar tudo se iria realizar. Continuei com a minha vida, abstraí-me de ti e de nós, do que fomos, do que vivemos, do que sentimos. Descompliquei o complicado e consegui, inclusive, ser feliz durante estes últimos meses. Conheci pessoas novas, meti-me em novas aventuras, arrisquei mais por mim mesma, senti-me crescer, senti-me a sair de ti.

O tempo não se pode medir em horas ou em dias, até meses ou anos, quando se refere ao amor e à paixão. O tempo mede-se em sentimentos, em passagens do desgosto para a tristeza, da tristeza para a apatia, da apatia para a reacção, da reacção para a acção e da acção para a felicidade. Quem consegue medir o espaço temporal em dias e semanas ou minutos entre estas pontes essênciais à reconstrução da alma?

Mas então apareces tu, como se nada fosse, como se o ontem não passasse de algo que apenas foi imaginado por mim, vivido por mim. Escondo a cara do que fomos por vergonha do que não fomos. Sinto por mim e por ti tudo aquilo que está suspenso no ar entre nós. Apetece-me gritar-te, abanar-te e com isso agitar o mundo com estas emoções capazes de humilhar um vulcão no auge da erupção.

Aproximas-te e já eu estou a fugir pela porta das traseiras da minha consciência. Lanço um sorrio vazio, não estou ali. Não quero estar ali. Perguntas-me como estou na sequência da conversa que é em grupo e não entre nós os dois. É educado, segundo dizem. Como não estou ali, tenho apenas noção de que respondo algo que deve ser parecido com um sim. Tudo o que me chega aos ouvidos parece-me apenas ruído de fundo de uma televisão antiga há muito avariada, mas que se exige que esteja ligada.

Mais uma vez, não consigo medir o tempo que ficas, mas consigo sentir o abandono das emoções, a morte da empatia, a força da revolta e o auge da fúria. Vejo-te a partir, assim, sem mais nem menos, sem ai nem ui. Acho que neste caso a educação não exige um novo cumprimento e aos poucos obrigo a consciência a voltar a mim mesma, o serenar dos tumultos interiores que se personificados resultariam em monstros disformes, solitários, melancólicos. É como olhar e não ver, estar e não sentir, ouvir e não escutar. Foi isto que, mesmo passado este tempo todo, tu deixaste em mim – a destruição, o caos, a sombra escura do sonho iluminado, o nada, o vazio.

Quero-me de volta, mas de forma ainda mais absurda quero-te a ti também. Não consigo não te querer, embora deseje que desapareças para nunca mais te voltar a ver. Exijo que o tempo passe, em segundos, em minutos, em sentimentos em acontecimentos e em vida. Quero mais, quero novo, quero os nadas dos tudos que juntos fazem de mim uma pessoa nova, uma pessoa sem ti.”

Morrighan 02/10/2013 – 16h52

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    Olá a todos, sejam muito bem-vindos! O meu nome é Sofia Teixeira e sou a autora do BranMorrighan, o meu blogue pessoal criado a 13 de Dezembro de 2008.

    O nome tem origens no fantástico e na mitologia celta. Bran, o abençoado, e Morrighan, a deusa da guerra, têm sido os símbolos desta aventura com mais de uma década, ambos representados por um corvo.

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