A pele, por Helena Ales Pereira

A pele

O maior órgão do corpo humano 

Pensa ela enquanto ele lhe toca o nariz com a ponta dos dedos

Estão deitados lado a lado

Nus

Ela de barriga para cima

Ele de lado

Começa na testa

Desenha-lhe as sobrancelhas 

Podia fazê-lo de olhos fechados 

Vê-se nos olhos dela que sorriem

Toca-lhe os lábios

Que ela entreabre num sorriso que ele já desvendou há muito

Sente-lhe o queixo de rebeca 

E beija-o

Ela ri-se com cócegas

Desce com os dedos até ao pescoço

A mão percorre-lhe o peito

E fecha-se nos seios dela

Vazios

Usados depois de amamentarem os filhos

Os filhos dele

Já toca esses seios há quase 20 anos e continuam a surpreende-lo pela sensualidade

Como o surpreende a pele macia e suave

Que nem as fragrâncias italianas – as que ela prefere – nem os cremes com que se hidrata depois do banho

Conseguem disfarçar o cheiro

Quente, humano, doce, dela

Um cheiro que o alimenta de paixão

De desejo

Que o seduz

Olha-a nos olhos e reconhece-a

Os olhos dela continuam a sorrir

E pedem-lhe

Massaja-lhe a barriga metida para dentro

Estás mais magra outra vez

Diz-lhe 

Estou óptima

Responde ela

Sente-lhe a curva da barriga vazia

Sente-lhe as costelas

E conta-as

Falta-te a do Adão

Diz-lhe ele

Ela ri-se

É por isso que és tão refilona

Continua ele

A mão já desceu até ao ventre e toca-lhe no tufo de pelos púbicos

Percorre o interior da coxa

Aquele único sítio do corpo da mulher onde não há pelos

Sente-lhe as coxas 

Ela dobra as pernas para que ele lhe toque os joelhos

A respiração dela está mais forte

A dele está pausada

Mas não o sexo

Que ela sente duro nas costas da mão

Porque é que pintas sempre as unhas dos pés e não das mãos

Pergunta ele

Para tu fazeres essa pergunta

Que ela não responde

Como sempre

Descansa ao lado dela e olha-a nos olhos

Fundos, limpos, cinzentos

Que continuam a sorrir

Vira-te de barriga para baixo

Pede-lhe ele

Ela roda o corpo

Sem tirar os olhos dela dos dele

E repousa o rosto

Ele afasta-lhe os cabelos castanhos lisos que o cobrem

E toca-lhe os ombros

Musculados da ginástica

Sente-lhe as omoplatas

E desenha-lhe a coluna e as curvas desta

Uma ligeira subida a partir do pescoço

Uma descida mais acentuada a partir das omoplatas

E chega ao ponto que ele mais gosta

O início ligeiro daquela curva que o leva às nádegas

Pequenas como as de um rapaz

Musculadas com as de um homem

Que ele adora sentir

Apalpar

Morder

Agora percorre-as com os dedos

E sente aquela discreta penugem que as cobre

Os dedos descem

Reconhecem o caminho

Tocam-lhe o sexo

Húmido

Quente

Afasta-lhe os lábios e introduz-lhe um dedo na vagina

Ela geme

Os olhos já não sorriem

*Conto escrito ao som de ‘Are You a Boy or a Girl’, coletânea reunida por Ricardo Coelho, Though I Was James Dean For a Day

https://branmorrighan.com/2012/07/13.html

Helena Ales Pereira

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4 anos atrás

Muito.mau!; roll de cliches a querer passar por literatura ..

  • Sobre

    Olá a todos, sejam muito bem-vindos! O meu nome é Sofia Teixeira e sou a autora do BranMorrighan, o meu blogue pessoal criado a 13 de Dezembro de 2008.

    O nome tem origens no fantástico e na mitologia celta. Bran, o abençoado, e Morrighan, a deusa da guerra, têm sido os símbolos desta aventura com mais de uma década, ambos representados por um corvo.

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