Opinião: Nem Tudo Será Esquecido, Wendy Walker

Nem Tudo Será Esquecido

Wendy Walker

Editora: Editorial Presença

Sinopse: Na pacata cidade de Fairview, no Conneticut, a vida parecia perfeita até à noite em que um acontecimento trágico chocou a comunidade. Jenny Kramer, uma adolescente com quinze anos, é brutalmente violada depois de sair de uma festa. Os médicos decidem administrar-lhe um fármaco usado nos casos de patologias de stresse pós-traumático, eliminando as memórias do incidente. Contudo, nos meses seguintes, Jenny é surpreendida com sensações que a fragilizam psicologicamente, levando-a a tentar o suicídio. O pai, Tom, está determinado a descobrir o culpado e fazer justiça. A mãe, Charlotte, age como se nada tivesse acontecido. Os pais de Jenny procuram a ajuda do psiquiatra, Alan Forrester. Nisto, o seu casamento é posto à prova, revelando segredos e fragilidades, bem como a teia que une toda a comunidade. Afinal, todos têm algo que não desejam revelar e a busca pelo violador conduz a um thriller psicológico com um desfecho inesperado e perturbante.

OPINIÃO: Nem tudo será esquecido, pois não. Este livro certamente não será esquecido. É daquelas leituras que nos agarram desde a primeira à última página, com poucas paragens para respirar, para descansar, para conseguir dormir sem se querer voltar novamente para ela. Atenção, com isto não quero dizer que é um livro perfeito, que vamos amar todas as personagens, etc. Com isto quero dizer que a estrutura da história e o estilo de escrita se tornam irresistíveis. O tema em si é tudo menos fácil de digerir, principalmente quando já se tomou contacto (in)directo com ele. Na verdade, acho que o desafio é mesmo esse, colocarmo-nos constantemente na pele de cada um, tentar compreender as motivações e reflectir sobre o que faríamos se fossemos nós.

A primeira grande questão que se levanta é sobre a administração de drogas que possam “apagar” da nossa memória eventos traumáticos. E logo aqui temos muito por onde pegar. A memória é um arquivo frágil em que os ficheiros têm vida própria e muitas vezes parecem editar-se a eles mesmos sem que demos conta. Muitas vezes quando repescamos algumas lembranças elas parecem-nos diferentes, ou deixamos de ter certeza de como realmente foi. A mente humana é um tecido delicado, misterioso e que se rege com as suas próprias regras. Querer manipulá-lo através de químicos tanto pode resultar como estragar tudo. No fundo, este fármaco (fictício, mas não tão fictício assim) é correspondente àquilo que eu chamo de arquivo sem endereçamento de memória definido. As coisas estão lá, algures, mas não foram arrumados numa gaveta como costumamos fazer diariamente. Foram lançados para um espaço negro onde tanto podemos eventualmente tropeçar nele como não. Porém, não será difícil entender o conceito de trigger – alguma sensação, visão, cheiro, que de repente despoleta uma série de reacções físicas e emocionais inesperadas por estarem associadas a certos eventos específicos. E são estes pequenos triggers, provocados ou surgidos naturalmente, que definem todo o percurso deste enredo.

Agora juntem, e perdoem-me a crueza, uma adolescente violada, um ex-combatente, um casal disfuncional com uma série de rotinas calejadas pelo próprio passado conturbado, um psiquiatra que se vê numa posição delicadíssima entre o pessoal e o profissional… Tem tudo para dar asneira. E dá, e não dá, e é um misto de emoções e contradições que dificilmente serão de julgamento leve. A intriga sobrevive quase até ao fim, Wendy Walker teve a mestria de realimentar o suspense na medida e no tempo certos. Os protagonistas são complexos e consistentes o suficiente para facilmente os aceitarmos como reais e a escrita é muito inteligente. No entanto, tal como avisei no início, não é uma história com a qual tenha simpatizado por inteiro. É claro que procuramos o reconhecimento da nossa dor no outro, mas… E isto é uma coisa muito específica relacionada com a temática e daí também o misto de opiniões contraditórias que fui tendo ao longo da leitura. Não obstante, é impossível não sugerir este livro para qualquer amante de thrillers psicológicos. Está bem trabalho, é de leitura compulsiva e de um ritmo de emoções pulsante e intenso. 

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    Olá a todos, sejam muito bem-vindos! O meu nome é Sofia Teixeira e sou a autora do BranMorrighan, o meu blogue pessoal criado a 13 de Dezembro de 2008.

    O nome tem origens no fantástico e na mitologia celta. Bran, o abençoado, e Morrighan, a deusa da guerra, têm sido os símbolos desta aventura com mais de uma década, ambos representados por um corvo.

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