Opinião: Apneia, de Tânia Ganho

Apneia

Apneia
Tânia Ganho

Editora: Casa das Letras

Sinopse

Opinião: Aaaah! As saudades que eu tinha de ler Tânia Ganho! Alguma vez leram o seu romance Mulher-Casa? Foi essa obra que me introduziu à escritora portuguesa e desde então que volta e meia me perguntava quando teríamos o privilégio de um novo romance. Esse momento chegou em 2020, ainda estava eu a viver nos Estados Unidos, mas assim que aterrei em Portugal, passados poucos dias, o livro chegou-me às mãos. Que momento feliz! Melhor ainda foi ter partilhado esta leitura com uma amiga muito querida. Decidimos mergulhar juntas neste belo e arrepiante Apneia.

Apneia – suspensão da respiração (priberam).

Logo de início o título do livro faz todo o sentido. Tânia Ganho começa a narrativa com a descrição de uma situação que nos deixa logo em alerta para a evolução e potencial violência psicológica da história. Quando a premissa é violenta, o que nos espera na conclusão? O caminho que nos leva de um a outro fez-me lembrar uma caminhada numa floresta com trilhos íngremes, em que volta e meia tememos pela nossa segurança, alternada com parcas e falsas sensações de descanso.

Sendo um livro longo, a mestria de Tânia Ganho pontuou-se na estratégia de optar por capítulos curtos e rápidos, alternando entre espaços temporais, motivando o leitor a manter-se atento. Durante a leitura, existem alguns elementos que se repetem como que para nos relembrar constantemente de padrões que merecem a nossa atenção. Apesar de ser uma história de cariz sério, pesado e violento, a verdade é que após o início agressivo, temos um intervalo emotivo de algumas dezenas de páginas, em que Tânia Ganho vai lançando todas as sementes necessárias para a certa altura se iniciar uma subida vertiginosa, sem forma de voltar atrás, de apneia constante, que nos revolve o estômago e nos desarma.

Sem mais rodeios, Apneia é capaz de ser um dos romances mais necessários na literatura portuguesa devido à forma como expõe um dos maiores problemas da nossa sociedade – abuso doméstico e infantil e o quão frustrante podem ser os processos judiciais associados. E há aqui um ponto muito importante que se relaciona com a noção que temos de violência e abuso. Quando se fala de violência doméstica ou abuso, a grande tendência é associar-se esses conceitos a um sinónimo de agressão física.

A história de Adriana e Edoardo vem mostrar-nos, precisamente, como é que sem haver evidência de violência física podem perpetuar-se abusos psicológicos que destroem qualquer sentido do “eu”, qualquer sentido de autopreservação, havendo uma alienação e um percurso de submissão inconsciente em que se perde poder pessoal.

No seu romance anterior, o Mulher-Casa, a escritora portuguesa já tinha explorado uma relação mãe-filho que muito me impressionou. Não sou mãe, portanto há coisas que só posso imaginar. Em Apneia, é difícil conceber colocar-me nos pés de Adriana enquanto mãe de Edoardo. Os pensamentos irracionais que me passaram pela cabeça à medida que avançava na leitura fizeram-me crer que nunca ninguém, jamais, por mais forte que seja, estará alguma vez preparado para a imprevisibilidade que pode ser ter um parceiro/a com as características psicológicas e de personalidade de Alessandro. Mais, o sentimento de impotência sempre tão latente é desconcertante.

O abuso psicológico constante, o bullying, o gaslighting, e outras técnicas de deturpação de personalidade do próximo, deixam marcas para uma vida. Foi difícil aceitar que, por vezes, psicólogos e psiquiatras testemunhos destas situações decidam lavar as mãos e retirarem-se dos processos por serem litigiosos. Compreendo que haja intimidação por parte de intervenientes envolvidos, mas não lhes cabe eles, perante o juramento que fizeram, denunciar todos os riscos que lhes saltam à vista? Quanto vale a saúde psicológica de uma criança, com todos os riscos que a mesma acarreta para o seu desenvolvimento e formação de personalidade enquanto adulto?

O outro ponto fundamental deste romance, que me enfureceu de início ao fim, é a descrição do processo judicial, tanto de divórcio como de custódia de um filho, que é completamente desumanizador. Tendo a escritora feito um estudo profundo e apurado, com testemunhos de quem passou por situações semelhantes, de como tudo se processa, é revoltante ver um sistema a funcionar tão mal e que é tão enviesado pelos preceitos que se tem do papel do homem e da mulher numa família e na sociedade. É completamente revoltante e aberrante que este tipo de processos se arraste por tanto tempo sem garantir qualquer tipo de segurança aos intervenientes, muito menos às crianças.

“As palavras afiguravam-se-lhe sempre aquém. Insuficiente perante a dor. Como se a dor fosse incompatível com a articulação da linguagem. Com a ordem. A dor era o caos e o caos não obedecia à gramática, a regências, concordâncias, tempos verbais. Tudo era presente; o passado e o futuro transfiguravam-se em presente. Se escrevesse, seria para dizer << Eu sou a minha dor >> e não era verdade, ela era muito mais do que a sua dor, até porque havia uma hierarquia e a sua ficava longe do topo da pirâmide. Existiam dores tão piores, recordava a si mesma, e enumerava-as, para se lembrar de que a sua era suportável. Mas não era compatível com palavras.”

Destaco esta citação porque, honestamente, poderia escrever muito mais, mas nada do que estou a escrever me parece suficiente para fazer jus à palete de emoções que fui sentindo. Um pormenor lírico belíssimo, que ainda não referi aqui, foram as referências literárias e artísticas ao longo da narrativa, reforçando a vulnerabilidade física e mental retratados na pele da personagem de Adriana.

Para terminar, a última parte do livro foi extremamente dolorosa de ler. Se houve dias em que só consegui ler poucas páginas, para o fim já lia madrugada fora, tentando de alguma forma arranjar cenários mentais para salvar uma situação impossível. O fim, em si, a situação com que Tânia Ganho decidiu fechar o livro, é um fim à filme, mas que, a meu ver, tenta dar alguma esperança a Adriana e Edoardo.

Foi dureza, mas valeu a pena. Obrigada, Tânia Ganho, por nos trazeres esta obra e que a mesma possa inspirar e incentivar todas as componentes envolvidas a agirem.

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Alexandra Guimarães
Alexandra Guimarães
1 mês atrás

Tenho lido opiniões muito positivas sobre o livro e gostaria de o ler.

Gizela Mota
Gizela Mota
1 mês atrás

Também já li este livro. Gostei bastante e foi um verdadeiro “murro no estômago”.

Krystel
1 mês atrás

Na minha lista de leitura! A tua opinião deixou-me bem curiosa!

António Ginja
António Ginja
1 mês atrás

E de pensar que é a realidade de tantas famílias portuguesas…

  • Sobre

    Olá a todos, sejam muito bem-vindos! O meu nome é Sofia Teixeira e sou a autora do BranMorrighan, o meu blogue pessoal criado a 13 de Dezembro de 2008.

    O nome tem origens no fantástico e na mitologia celta. Bran, o abençoado, e Morrighan, a deusa da guerra, têm sido os símbolos desta aventura com mais de uma década, ambos representados por um corvo.

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