Saúde Mental

Saúde Mental
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Pensei muito sobre se devia (ou sequer queria) escrever sobre este assunto – saúde mental. A verdade é que existe tanta desinformação, tanto preconceito mal dirigido em relação à saúde mental, que escrever sobre este assunto é como sentir que a qualquer momento se dá um passo em falso, é-se mal interpretado e lá vêm os julgamentos todos – quais treinadores de bancada.

Ainda assim, decidi “que se lixe” e aqui estou eu, de peito aberto em relação a este assunto. Primeira confissão para não haver aqui desentendimentos sobre se sei do que estou a falar – eu faço psicoterapia. Pronto, está cá fora. Faço sim e foi uma das melhores decisões da minha vida. Durante muito tempo, anos até, vivi as minhas crises de ansiedade de forma muito abafada “ah e tal, se falo sobre isto as pessoas vão pensar que sou maluca ou não me vão levar tão a sério ou vão pensar tudo-de-mau-e-do-pior-porque-quem-tem-ansiedade-não-bate-bem-da-cabeça”. 

Este tipo de diálogo interior não só piora a condição de ansiedade como não faz sentido nenhum. Mais, restringirmos os nossos próprios pensamentos sobre o assunto faz com que a ansiedade em vez de ser exteriorizada, fuja para a nossa componente celular, tornando-se numa ansiedade “biológica”. Para quem está familiarizado com ataques de ansiedade e de pânico, nunca vos aconteceu terem um episódio sem que se tenham apercebido da origem do mesmo? Isto acontece devido ao mecanismo (perdoem-me o estrangeirismo) trigger que faz com que algum estímulo ao nosso redor seja interpretado pelo nosso subconsciente como algo ameaçador, activando o nosso mecanismo fight-or-flight

Viver nestas condições, em que nunca se sabe quando é que o próximo “ataque/episódio” vai acontecer é extremamente debilitante. Não só já se tem a patologia como depois vive-se no receio de que a qualquer momento se vai ficar desarmado e paralisado. Vêm a dificuldade em respirar, as lágrimas saídas sabem-se lá de onde, uma sensação de que nada vai ficar bem nunca, uma tristeza e uma apatia que nos deixa sem saber que passo dar a seguir. 

Estou longe de ser dona da verdade, e longe de descrever todos os tipos de episódios possíveis, por isso o que descrevo aqui baseia-se na minha experiência e na experiência de uns quantos amigos que partilharam comigo a sua familiaridade com o assunto (aos quais agradeço). E aqui está a chave – começar-se a falar destes assuntos como se fala do colesterol ou da hipertensão. Se houvesse uma maior normalidade associada a este assunto, provavelmente haveria muito menos casos escondidos que muitas vezes evoluem para depressões profundas e, umas quantas vezes, para situações mais fatais.

E aproveito aqui para esclarecer também este assunto – ansiedade/pânico não são sinónimos de depressão. Por vezes, se prolongados, podem culminar numa depressão, mas não significa que se está deprimido só porque se sofre de episódios de ansiedade/pânico. Eu, por exemplo, nunca tive depressão ou fui sequer medicada com antidepressivos. Mas houve um passo importante – procurar ajuda. 

Não é um passo fácil, mas um extremamente necessário. Eu sempre fui uma pessoa bastante ansiosa, mas era uma ansiedade muito quotidiana pois sempre fiz muita coisa ao mesmo tempo. No entanto, há uns anos atrás, essa ansiedade quotidiana (que tem o aspecto positivo de nos fazer mexer e ser proactivos) evoluiu para uma que deixou de ter qualquer sentido positivo, tornando-se paralisante. 

Há sempre aquele momento forte de hesitação, pois não queremos dar parte fraca – ou pelo menos é isso que dizemos para nós mesmos. O estigma social, e às vezes até familiar, faz com que achemos que procurar ajuda é um sinal de fraqueza. Deixem-me que vos diga que eu acho que é um dos actos de maior bravura e auto-preservação que alguém pode ter consigo mesmo. É um acto de amor, na verdade. 

Para mim, ter começado a fazer terapia mudou a minha vida. Não resolveu tudo, mas ajudou-me a arranjar mecanismos de prevenção, de resiliência e. sobretudo, de amor-próprio e confiança nos meus instintos. Mas tem sido um trabalho contínuo, quanto mais manutenção, mais calma interior. No meu caso, por exemplo, eu não faço terapia com frequência, mas faço sempre que preciso de treinar o músculo da resiliência, da compaixão comigo mesma. Dependendo de cada caso, a ansiedade/pânico são eventos que precisam de ser trabalhados, não tanto pelo mecanismo do porquê, mas antes pelo mecanismo do como lidar com isso. Os porquês conseguem ser complicados e nem sempre trazem qualquer benefício à situação.

Atenção, volto a reforçar, isto é um post puramente pessoal. Todos são, mas este é-o ainda mais. Para mim é importante normalizar estas conversas e falar sobre este assunto como se fala da série X ou do filme Y. Principalmente agora com o confinamento é mais do que normal que a ansiedade comece a aparecer onde nunca existiu antes. E é preciso ser-se solidário. Não fazemos ideia do que se passa com as pessoas à nossa volta porque este é um assunto do qual não se fala. Mas provavelmente aquela pessoa que gostamos muito ou aquela celebridade que admiramos imenso também lida com esta luta interior. 

Faz toda a diferença estarmos receptivos a falar deste assunto e a apoiar quem precisa, porque um dia podemos ser nós a precisar. Acima de tudo, faz diferença não se sentir vergonha de pedir ajuda. Seja ao vosso amigo, seja a procurarem um terapeuta. E deixem-me que vos diga isto – vocês não precisam de se contentar com o primeiro terapeuta que consultam. Aconselho-vos até a fazerem primeiro trabalho de casa sobre os vários tipos de terapia, qual se adequa mais ao vosso caso, fazerem uma lista de possíveis terapeutas, e às vezes é por tentativa e erro. Não precisam de se sentir reféns. Mas também não desistam à primeira. 

E é isto. Espero que este post possa dar um empurrão gentil a quem neste momento lida com situações de ansiedade debilitantes e que haja uma abertura ao diálogo maior sobre o assunto. Pode realmente mudar a vossa qualidade de vida de forma significativa. E deixem-me dizer-vos que a prática de yoga e meditação ajuda mesmo imenso, mas tem de ser uma prática regular. Pode não ser muito tempo por dia, mas todos os dias um bocadinho, vai fazendo a diferença. Força desse lado! 

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Ana
Ana
19 dias atrás

Gostei. Tem mesmo de se falar mais disto e normalizar a auto ajuda.

  • Sobre

    Olá a todos, sejam muito bem-vindos! O meu nome é Sofia Teixeira e sou a autora do BranMorrighan, o meu blogue pessoal criado a 13 de Dezembro de 2008.

    O nome tem origens no fantástico e na mitologia celta. Bran, o abençoado, e Morrighan, a deusa da guerra, têm sido os símbolos desta aventura com mais de uma década, ambos representados por um corvo.

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