Opinião: A Estranha Ordem das Coisas, de António Damásio

A Estranha Ordem das Coisas

A Estranha Ordem das Coisas
António Damásio

Temas e Debates

Homeostasia – Processo de regulação pelo qual um organismo consegue a constância do seu equilíbrio (Priberam).

Opinião: Há muito que me interesso pela mente humana, mas nos últimos anos esse interesse tem-se tornado numa pequena obsessão. Sempre me questionei muito do porquê do ser humano agir desta ou daquela maneira quando confrontado com diferentes situações. A luta entre a razão e a emoção tem sido o eixo pelo qual tenho procurado saber mais sobre o funcionamento do cérebro humano. Essa procura iniciou-se através de alguns livros temáticos, mas desde há dois ou três anos que tenho mergulhado mesmo na neurociência, numa mistura de interligar a neurobiologia com a actividade dos neurónios e a repercussão no comportamento humano.

Ainda estou longe de ter o conhecimento que gostaria, mas ler este livro ajudou a que algumas questões pertinentes ficassem um pouco mais claras, chegando à conclusão que existe um’ “a estranha ordem das coisas”. À semelhança da velha expressão – “o que nasceu primeiro? o ovo ou a galinha?” – existem muitas perguntas semelhantes em relação à emergência da cooperação, das diferentes culturas e do papel que as emoções tiveram nestes processos complexos.

António Damásio é professor da cátedra David Dornsife de Neurociência, Psicologia e Filosofia, e diretor do Brain and Creativity Institute na University of Southern California, em Los Angeles. Neurologista e neurocientista, Damásio tem dado contributos fundamentais para a compreensão dos processos cerebrais subjacentes às emoções, aos sentimentos e à consciência (Wook).

António Damásio, autor deste livro, explica-nos que “Os sentimentos são as expressões mentais da homeostasia, e a homeostasia, agindo sob a capa do sentimento, estabelece a ligação funcional entre as primeiras formas de vida e a extraordinária colaboração que se veio a estabelecer entre corpos e sistemas nervosos.” E o que isto significa é que as culturas resultam da expressão dos sentimentos e que esses sentimentos são expressões da tentativa do nosso organismo de manter a homeostasia. Aviso-vos, ler este livro é super fascinante, porém também um pouco de cansativo pela sua densidade e forma.

Não sei se é por o livro ser a tradução do original em inglês, mas a narrativa não é fácil nem para quem está familiarizado com o assunto, muito menos para quem não está. É muito importante perceber logo desde o início que “homeostasia” é todo o processo celular que tenta manter o organismo num equilíbrio em que, no sentido figurado, temos uma harmonia e uma dinâmica que nos mantém saudáveis e com uma sensação de bem-estar. Aliás, é argumentado no livro que, dado que os sentimentos são expressões da homeostasia, devemos ter atenção às mesmas para perceber se estamos com alguns desequilíbrio ou doença. O que, na verdade, faz todo o sentido.

Se tiverem paciência e curiosidade suficientes, acho que a persistência na leitura acaba por ter a sua recompensa. Fazendo um balanço do livro no seu todo, é incrível como António Damásio nos explica como é que a nossa composição genética, os nossos comportamentos e culturas têm origem nos tempos unicelulares resultando da evolução do processo homeostático. E talvez vocês já estejam um bocadinho cansados da palavra homeostasia, mas esse é mesmo o conceito central o livro e vai aparecer muitas vezes.

Antes de terminar, quero só referenciar também uma parte mais curta do livro, mas com que o meu lado engenheira ficou logo em alerta – o papel da inteligência artificial na reprodução/preservação do cérebro humano. Confesso que mesmo trabalhando indirectamente com Inteligência Artificial e Sistemas Inteligentes, o ramo que explora a possibilidade de reproduzir emoções e uma estrutura capaz de mimicar o cérebro humano, não me seduz. E aqui, correndo o risco de ser redutora, espero que António Damásio tenha razão na sua argumentação de que todo este processo que nos distingue dos demais seres vivos, resultante de processos complexos entre diferentes componentes celulares, genéticos e culturais, dificilmente será passível de se ser reproduzido por mão humana.

Resumindo e concluindo, A Estranha Ordem das Coisas é um livro interessante, por vezes um pouco confuso, mas em que partes em que a narrativa fica mais fácil e fluída vale completamente a pena. O nosso poder associativo e racional facilmente cria ligações entre os conceitos mais complexos e dinâmicas mais simples, fazendo com que este processo de compreender melhor a origem e a ordem de emergência dos vários componentes da civilização humana ganhe alguma luz e maior compreensão.

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    Olá a todos, sejam muito bem-vindos! O meu nome é Sofia Teixeira e sou a autora do BranMorrighan, o meu blogue pessoal criado a 13 de Dezembro de 2008.

    O nome tem origens no fantástico e na mitologia celta. Bran, o abençoado, e Morrighan, a deusa da guerra, têm sido os símbolos desta aventura com mais de uma década, ambos representados por um corvo.

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