Opinião: Homegoing, de Yaa Gyasi

Homegoing

Homegoing
Yaa Gyasi

“You want to know what weakness is? Weakness is treating someone as though they belong to you. Strength is knowing that everyone belongs to themselves.” 

Comprei Homegoing enquanto ainda estava a viver nos EUA, depois de ver um anúncio sobre o mesmo. Fiquei curiosa, ainda mais porque na altura vivia-se com intensidade o movimento #BLM e a verdade é que não sei assim tanto sobre a Black American History. Sendo Fevereiro o mês da mesma, em conjunto com a Carina Pereira do Story of Sorts, decidimos que era a altura ideal para mergulhar nesta narrativa.

O pequeno pormenor aqui é que não tenho a certeza se existe uma altura ideal para se ser confrontado com uma realidade tão brutal, cujos ecos ainda se mantêm nos dias de hoje. Quantos mais livros neste temática leio, mais me apercebo que pouco ou nada sei sobre esta realidade (por muito que pudesse pensar que sabia) e que ser-se branco é, definitivamente, ainda um privilégio. E digo ainda porque espero, muito honestamente, que um dia deixe de ser.

“No one forgets that they were once captive, even if they are now free.” 

Neste seu romance de estreia, Yaa Gyasi, proveniente do Ghana, levou a cabo uma missão ambiciosa de nos tentar fazer testemunhar dois séculos de gerações que, de uma forma ou de outra, tiveram o seu destino marcado pela escravidão. Tudo começa com uma mãe que, deixando a filha a salvo, foge de um incêndio para outra aldeia. Nessa outra aldeia, casa-se novamente e tem uma segunda filha. São as linhagens destas duas irmãs, que não têm conhecimento uma da outra, que vamos acompanhando ao longo dos vários capítulos e de mais de dois séculos e história. Estas duas irmãs, Esi e Effia, representam também a dualidade entre os Fante e Asante e como as suas guerras internas se entrelaçam e ditam destinos diferentes às duas ramificações.

Enquanto Effia se casa com um general inglês e toda a sua linhagem se mantém no Ghana, Esi tem um destino mais brutal e depois de presa e violentada é deportada para os Estados Unidos da América, onde o resto da sua geração se mantém até aos últimos capítulos. Cada capítulo de Homegoing é uma provocação e ao mesmo tempo um lamento sobre a degradação, insegurança e violência, mais implícitos ou mais explícitos, que mesmo depois de abolida a escravatura ficou impregnada na sociedade culminando numa segregação difícil de combater.

O grande desafio desta leitura é a densidade de diversos elementos aos quais precisamos de prestar atenção. Se por um lado a escrita de Yaa Gyasi é emotiva, visceral e muito visual, por outro lado a agenda a que se propôs – representar as diversas transições históricas do povo afro-americano – faz com que por vezes haja um sentimento de vazio quando cada história termina. Sendo a narrativa centrada na personagem, e sendo que cada capítulo corresponde a uma personagem diferente, existem alturas de Homegoing que se opõem a este sentido de voltar a casa, porque perdemos um pouco o rumo por haver tanta acção suspensa.

Claro que esta técnica pode também ela servir de exercício de liberdade ao leitor para completar o que não ficou dito. Yaa Gyasi, serve-se tanto de uma expressividade feroz como de subtileza para nos inquietar e nos fazer reflectir sobre os constantes dilemas que o seu povo sempre enfrentou. Ninguém esteve a salvo. Nem os que se aliaram com os ingleses, nem aqueles que tentaram combatê-los. Homegoing deixou verdadeiramente uma forte impressão em mim. Houve momentos em que me senti verdadeiramente indisposta a imaginar cada sufoco. Poucos foram os momentos em que sorri. Não consigo imaginar carregar um legado assim.

Concluindo, esta é uma obra que vale a pena ler, apreciar a técnica e o estilo narrativo, ao mesmo tempo que se mete a mão na consciência e se faz o exercício de pensar em como participarmos numa dinâmica que não só não deixe a história repetir-se como ajude a elevar os nossos irmãos não brancos. Deixo uma última nota em relação à forma como a história nos é contada: adorei e fiquei fascinada com os elementos mais tribais e supersticiosos que foram passando de geração em geração. Pareceu-me, no fim de tudo, o elo de ligação constante e o verdadeiro voltar a casa.

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    Olá a todos, sejam muito bem-vindos! O meu nome é Sofia Teixeira e sou a autora do BranMorrighan, o meu blogue pessoal criado a 13 de Dezembro de 2008.

    O nome tem origens no fantástico e na mitologia celta. Bran, o abençoado, e Morrighan, a deusa da guerra, têm sido os símbolos desta aventura com mais de uma década, ambos representados por um corvo.

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