Escritos Aleatórios #42

“Levanto a cabeça, é o teu olhar que encontro. É proibido. Eu sei-o, tu sabe-lo e ainda assim sustentamo-nos, durante uns meros segundos, com esse olhar. Estendes-me a mão em tom formal. Mais não podes. Mais não deves. Tem-la a uns metros atrás, sei disso. Aceito-o, resignadamente. Cumprimentas-me em curtas palavras, mas que valem por horas de conversa. Mantemos as mãos entrelaçadas no que parece uma eternidade, mas que na realidade não passam de uns segundos. A lembrança da hesitação no percurso lento de perdermos o contacto faz-me sorrir. As palmas largaram-se, os dedos deslizam. Estão quase soltas, estas mãos que gostavam de traçar  outros rumos, de escreverem uma nova história, mas não sem o  aperto subtil e desesperado de dois últimos dedos, aqueles de juramento, aqueles que juram em silêncio coisas que jamais serão proferidas em voz alta ou mesmo concretizadas… Está na hora de virar costas e ir embora. Parto de coração apertado. Levo comigo um sentimento sem lugar no espaço e no tempo presentes. Platónico? Talvez, mas não menos real. Não menos capaz de me incendiar por dentro e de me levar a pequenos momentos de loucura. 

Aquele dia. Não me esqueço do teu sorriso, do teu cheiro, da tua barba a roçar na minha cara enquanto sorrias. Não me esqueço do pouco que partilhamos, do abismo em que estivemos prestes a mergulhar, mas que é mais do que ambos alguma vez imaginássemos vir a sentir ou a viver. Se desejava nunca te ter conhecido ou posto os olhos em cima? Não. Porque não me esqueço dessa primeira vez que te vi, e do baque que senti, com a trágica certeza mortal que nunca serias meu, mas que não me parou na descoberta de ti. “Desculpa!”, dissemos nós ao mesmo tempo, após uma interrupção abrupta da conversa que estávamos a ter para os nossos lábios se tocarem e as nossas línguas se saborearem. Embaraçados, foi como ficámos, mas por pouco tempo. Pareceu tão natural, tão destinado, tão irremediável… A aceitação de que não poderia voltar a acontecer não foi tão fácil. Sei que não faz sentido mudar, mas isso não invalida o quanto sofregamente desejo poder ter mais. Queria que fosse possível suspender o mundo, no tempo, no espaço, na memória, em tudo. Apenas eu e tu conscientes, apenas uns instantes, num lugar perdido do Planeta em que podemos dizer e fazer o que nos arder na consciência sem medos e sem restrições. Apenas uns instantes de fogo puro a arder lentamente enquanto as nossas almas se tocam e os nossos corpos se tocam alimentando-se do fruto tão proibido e ainda mais cobiçado. 

Sonhos, delírios, alucinações. Sim, isso tudo… como aquele ácido no estômago tão típico das coisas inacabadas e das palavras não ditas. Do sofrimento não expressado, das lágrimas não vertidas. Tudo acumulado num poço de vómito que jamais será expelido, antes obrigado a ser engolido queimando tudo no caminho de volta. Fica o buraco no estômago para onde escoam todas as amarguras, desilusões e tristezas, ficando o vazio e a desolação. O amor não pronunciado.

.

Não haverá tempo que passe e que alivie ou atenue a electricidade que fica no ar de cada vez que identificamos a presença um do outro ou a ferocidade com que te desejo. A cada encontro repassamos no olhar um do outro aquele beijo, esse ingrato que nunca mais se repetirá. A insipidez do passado que jamais será presente e muito menos futuro. Ainda assim, aqui estou, aqui me tens. Tu sabes, eu sei, mas o universo não conspirou por nós. Não interessa. Aqui, noutra vida, onde for, quando for, eu sei que seremos. Eu sei que amaremos. Enquanto isso, ambos continuamos com as nossas vidas, surpreendendo-nos com a permanência da ansiedade, do aperto no estômago, do acelerar do sangue nas veias a cada encontro. A cada aperto de mão.“

Morrighan 1/12/2013 – 22h42

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    Olá a todos, sejam muito bem-vindos! O meu nome é Sofia Teixeira e sou a autora do BranMorrighan, o meu blogue pessoal criado a 13 de Dezembro de 2008.

    O nome tem origens no fantástico e na mitologia celta. Bran, o abençoado, e Morrighan, a deusa da guerra, têm sido os símbolos desta aventura com mais de uma década, ambos representados por um corvo.

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