[Diário de Bordo] The Dream Is Real

Fotografia Nuno Capela

Ontem foi um dia do caraças! Modalidade atrás de modalidade, atleta atrás de atleta, tudo a dar o que tem e o que não tem pela bandeira portuguesa. Atletismo, natação, basquetebol e futebol a fazerem história! Imagino que, para estas dezenas de atletas e para os milhões de adeptos que os têm acompanhado, esta manhã tenha parecido um sonho. Mas não, é real. E se esta foto que vos mostro foi tirada na última noite do NOS Alive em tom de prenúncio, a verdade é que o sofrimento foi do primeiro ao último minuto. 

E caramba, aquela pancada no joelho do Ronaldo magoou-me particularmente. Aliás, uma das razões pelas quais acabo por não falar muito de basquetebol hoje em dia é porque se tornou doloroso. Ontem enquanto eu via a agonia do Ronaldo, lembrava-me daquele torneio em Vigo, comigo a representar a Selecção Nacional de Basquetebol Sub20, a levar uma joelhada muito parecida. Fiquei afastada dos campos de basquetebol durante quase quatro anos. O Ronaldo ainda se conseguiu levantar e voltar a tentar, mas eu fui directa de ambulância para o hospital, a dor foi tal que desmaiei e pouco mais me lembro daquele momento, só da maior tristeza que sentia. Falhei o Europeu daquele ano, tive direito a duas cirurgias e a três anos de fisioterapia, nunca mais voltei à selecção. Quando já tinha desistido de voltar a jogar, concentrei-me em terminar a licenciatura. Mas andava insatisfeita. Voltei aos campos, fui campeã nacional dois anos seguidos, mas não sem consequências. Lembro-me de um treino em que quase comprometi as finais nacionais, em que fiquei novamente agarrada ao joelho, desta vez uma pancada de uma colega de equipa (obviamente não foi propositada). Deuses! Acho que naqueles poucos segundos em que vi o Ronaldo agarrado ao joelho que revivi todos aqueles momentos e o meu coração deu um salto. 

Felizmente tudo correu pelo melhor, a nossa selecção mostrou do que é feito e a força do Ronaldo manteve-se com os seus colegas. Também a selecção sub20 feminina de basquetebol ganhou ontem a Espanha num feito histórico. E juro que tive vontade de começar a planear a próxima época, de voltar aos campos onde vivi tanto e fui tão feliz. Mas a vida é feita de etapas e apesar de ainda estar em idade de fazer mais umas épocas, acho que dei o que tinha a dar no basquetebol. As últimas duas épocas mais sérias que fiz tiveram consequências na minha saúde física. Trabalhar mais de 12h por dia, treinar duas vezes por dia e ainda ter que andar na fisioterapia quase diariamente tinha-se tornado inconcebível. E a verdade é que jogar a brincar na segunda divisão não me preenchia. “Ah e tal, mas assim és a estrela!” As estrelas estão no céu e esse tipo de protagonismo nunca foi algo que eu tivesse procurado. Ainda tentei esta época, comecei no Técnico, que joga na segunda divisão, mas logo ao segundo ou terceiro jogo o contacto físico de quem não sabe melhor já era tanto que num dos jogos corri o risco de perder uma viagem em trabalho por causa de uma lesão. Senti que era mesmo um sinal de que já tinha sido o que tinha de ser. Nem eu andava feliz, nem as minhas colegas andavam satisfeitas porque eu passava a vida a faltar aos treinos por causa do trabalho. 

Claro que a minha história no basquetebol é muito mais rica do que este pobre resumo, talvez vos conte um dia, mas acho que com este post o que eu quero realmente dizer é que esta vitória de Portugal no Europeu de Futebol, modalidade mais valorizada na Europa, acaba por ser uma vitória transversal a todos aqueles que de alguma maneira defendem as nossas camisolas. Somos cada vez melhores em quase todas as modalidades e espero mesmo que toda esta euforia sirva para abrir os olhos do mundo, mas principalmente dos portugueses, em relação ao esforço, dedicação e sacrifício que tantos atletas, cada um na sua especialidade, faz para elevar o nome do nosso país lá fora. E é isto. O sonho é real, somos carne e osso, mas muito, muito espírito forte e emotivo, solidário. A paixão e compaixão corre nas nossas veias de maneira única, seja exemplo disso o vídeo do miúdo a abraçar um francês destroçado. É um orgulho ser portuguesa, é um orgulho ser de uma geração que mesmo sendo desvalorizada dá chapadas de luva branca a tanta gente. Somos Grandes, Somos Portugal. 

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Mary Batalha
Mary Batalha
4 anos atrás

Realmente ontem foi um grande dia para Portugal… os nossos antepassados (conquistadores e descobridores) ficariam orgolhosos dos seus descendentes que num só dia fizeram grande à História de Portugal. Um grande obrigado a todos os atletas que conseguiram e aos outros que tentaram e fizeram pelo seu melhor, um grande obrigada pelo esforço!
Quanto a Sofia, parabéns pelo percurso mas a vida é feita de altos e baixo e cabe a nós de voltar para cima! Boa sorte para as suas escolhas.

Morrighan
Morrighan
4 anos atrás

Querida Mary, é isso mesmo 🙂

"Bola para a frente" que olhar para trás durante muito tempo só pode causar um torcicolo! Eheheh 🙂

Beijinhos!

  • Sobre

    Olá a todos, sejam muito bem-vindos! O meu nome é Sofia Teixeira e sou a autora do BranMorrighan, o meu blogue pessoal criado a 13 de Dezembro de 2008.

    O nome tem origens no fantástico e na mitologia celta. Bran, o abençoado, e Morrighan, a deusa da guerra, têm sido os símbolos desta aventura com mais de uma década, ambos representados por um corvo.

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