Opinião: «Cinzas de um Novo Mundo», de Rafael Loureiro

Cinzas de um Novo Mundo

Rafael Loureiro

Editora: Editorial Presença

Sinopse: Em 2111, o mundo vive enclausurado numa nuvem de poluição. Portugal não foge à regra. As pessoas debatem-se nas ruas da capital por ar puro e dignidade. Os Tecnal, soldados com implantes mecânicos, foram proscritos pela sociedade estratificada, mas uns quantos sobreviveram, perseguidos por uma polícia especial e dependentes de uma droga potente. Filipe, agente desta força policial, está dividido entre seguir a lei ou o instinto. Embrenhado naquele submundo, cedo descobre que os Tecnal podem ser a chave para uma verdade maior. A ele juntam-se personagens surpreendentes e fortes, perdidas na ambiguidade da sua própria condição.

Opinião: Rafael Loureiro, escritor português, estreou-se na literatura com a Trilogia Nocturnos, um mundo que a espécie imortal, vampírica, nos é apresentada e em torno do qual o universo da trilogia gira. Lembro-me de ter ficado agradavelmente surpreendida quando li sobre Nocturnos. Reparei que o romantismo era um traço na escrita do Rafael, mas que também a acção e a ausência de tempos mortos o eram. Passados cinco anos, sai novo romance cá para fora, desta vez uma distopia, com a capital portuguesa como local de eleição – Cinzas de Um Novo Mundo. As características que acabei de apontar, parecem manter-se, mas confesso que me senti surpreendida pela ausência de romance romântico a que os outros livros me habituaram.

Cinzas de Um Novo Mundo apresenta-nos um cenário apocalíptico no que toca ao ambiente e à deterioração e à segregação social. Temos Filipe, enquanto protagonista, um agente cuja integridade e valores vão contra quase tudo o que é confrontado. Nesta sociedade, para além de cada cidadão estar marcado como Par, Ímpar, ou ser considerado uma “Ratazana”, temos ainda os Tecnal, humanos geneticamente modificados para servirem como soldados, com diferentes características. Penso que aqui a história peca um pouco por apenas expor dois tipos de Tecnal, sendo que ficamos um pouco na obscuridade no que toca aos restantes. Achei os dois personagens fascinantes, mas senti falta de intervenção de outros de outros tipos ou de um maior desenvolvimento sob a perspectiva dos mesmos.

A acção decorre a bom ritmo. Do início ao fim, Filipe passa por uma série de mudanças nas suas convicções. O que julgava certo mostra-se sombrio, as suas dúvidas tornam-se em certezas que preferia não ter, e quando dá por si encontra-se sem norte, escondendo um segredo que dita o seu destino. Destino esse que não chega sem que se cruze com uma assassina profissional. É também a única protagonista feminina do romance, mas força e independência não lhe faltam. O elo de ligação entre todos estes personagens é Andrew, personagem que conhecemos do universo Nocturnos. A subtileza com que este livro se faz cruzar com esse universo anterior está muito bem conseguida. Nem sempre compreendi a passividade deste personagem, mas no quadro geral, chegando ao fim, consigo perceber o porquê da opção. 

Acho que o que mais me surpreendeu foi mesmo a ausência de uma história romântica, talvez por estar tão habituada a tal nos outros livros do Rafael. Não vou dizer que é crucial numa obra, mas a verdade é que emocionalmente não foi fácil sentir empatia com nenhum outro personagem que não os dois Tecnal, talvez uma maior compaixão relacionada com um possível romance tivesse ajudado. Certamente esta ausência poderá ser agradável para um público mais masculino, mas pessoalmente achei que faltou um maior elo de ligação empático entre a história e eu. Não obstante, foi um livro fácil de ler, que certamente puxou pela minha curiosidade do início ao fim. É bom ver autores portugueses a arriscarem no ramo das distopias, que tão previsíveis futuros acabam por relatar. Só posso esperar que não cheguemos ao universo que Rafael Loureiro descreve aqui, com confederações a lutarem por supremacias não se importando com o futuro da humanidade. 

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    Olá a todos, sejam muito bem-vindos! O meu nome é Sofia Teixeira e sou a autora do BranMorrighan, o meu blogue pessoal criado a 13 de Dezembro de 2008.

    O nome tem origens no fantástico e na mitologia celta. Bran, o abençoado, e Morrighan, a deusa da guerra, têm sido os símbolos desta aventura com mais de uma década, ambos representados por um corvo.

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