Nova Entrevista a Tânia Ganho, Escritora/Tradutora Portuguesa

Hoje temos o regresso de uma autora portuguesa de grande talento, Tânia Ganho. O seu último romance foi lançado em 2012,A Mulher-Casa, e recentemente através da sua veia de tradutora, traduziu outra grande obra de Mathias Malzieu,Metamorfose à Beira do Céu.

Gostei muito de elaborar esta entrevista e, na minha opinião, as respostas estão fantásticas. Espero que gostem de conhecer melhor esta autora, que apresentei aqui no blog em 2010 (https://branmorrighan.com/2010/04/tania-ganho-escritora-portuguesa.html). Obrigada, Tânia, pela simpatia 🙂

Tânia, em 2012 lançaste o teu último Romance A Mulher-Casa. Adorei lê-lo e acho que está muito realista. O que é que inspira uma autor a escrever sobre o tema desta obra?

Há vários temas em A Mulher-Casa: a maternidade, a degradação de um casamento, a corrupção política, a venalidade do poder… Inspirei-me nas minhas vivências de Paris, nas minhas caminhadas pelas ruas da cidade, nas histórias das minhas amigas sobre os filhos pequenos e as dificuldades que sentiam em conciliar bebés, maridos, carreiras, nos casos políticos que encheram as páginas dos jornais – como o caso Dominique Strauss-Kahn –, em textos sobre os meandros do poder em França, em todas as exposições e concertos que vi… Tudo me inspira, em especial as pessoas.

As tuas personagens são extremamente humanas. As suas emoções, motivações, podiam ser as de qualquer ser humano dito normal. O que te motivou a criar este tipo de personagens em vez do tradicional ‘quase perfeito apesar das imperfeições’?

Não gosto de personagens perfeitas nem de enredos em que tudo se conjuga de modo a criar o final perfeito, porque a minha escrita é realista e as pessoas, por natureza, têm tanto de bom quanto de mau e as histórias nunca são como gostaríamos. Sempre que leio um romance em que tudo é demasiado “certinho”, sinto que o autor cedeu à tentação do facilitismo comercial.

A trama do livro é toda ela um pouco complexa. Especialmente o fim, penso, pode ser susceptível a opiniões divergentes sobre a opção de Mara. Como é que os teus leitores têm reagido ao fim que deste às personagens?

Os leitores têm reagido às personagens e ao final com uma intensidade que me faz sorrir, porque me escrevem sobre a Mara, o Thomas e o Mathéo como se fossem pessoas de verdade, que é precisamente o meu objectivo: que as pessoas leiam o livro como se fosse a história delas ou de alguém que conhecem. Houve leitores que detestaram a passividade da Mara, outros que não suportaram a indiferença do Thomas. Curiosamente, são as mulheres que mais criticam a Mara – os homens apaixonam-se por ela – e os homens que mais se insurgem contra o Thomas. Pensei que ia acontecer o contrário: as mulheres iam identificar-se com a Mara e compreender as suas falhas, e revoltar-se contra a cegueira do Thomas, mas não, têm-no desculpado sistematicamente, como se as reacções do Thomas fossem uma resposta às alterações de humor da Mara e não o oposto. Tem sido fascinante receber este feedback dos leitores.

Nasceste em Coimbra, mas viveste bastante tempo em França. Como caracterizarias o panorama literário em França quando comparado com o panorama actual português?

França tem uma verdadeira máquina literária em acção, coisa que só agora começa a acontecer em Portugal. Os editores franceses promovem os seus autores com unhas e dentes e existem inúmeros apoios à criação literária, bolsas e prémios que permitem a um autor dedicar-se exclusivamente à escrita, algo que é quase impossível no nosso país. E os livreiros têm um papel verdadeiramente interventivo, sabem o que vendem, aconselham os seus clientes, promovem os livros melhor do que ninguém, enquanto em Portugal, infelizmente, ainda se comercializam livros como se fossem salsichas ou pacotes de leite. Outra diferença gritante é a quantidade de programas e publicações culturais que existem em França; se em Portugal já tínhamos pouco espaço para a cultura, neste momento estamos a criar um vazio cultural escandaloso na imprensa. Quanto mais ignorante for o povo, melhor obedecerá aos déspotas…

Recentemente traduziste a obra ‘Metamorfose à Beira do Céu’ de Mathias Malzieu. Já li este livro e gostei bastante. Qual a tua opinião sobre o mesmo?

Adoro a escrita do Mathias Malzieu, que já conhecia de A Mecânica do Coração. Fiquei fascinada com Metamorfose à Beira do Céu: é um livro que nos transporta para um universo onírico e nos comove profundamente, contando-nos a história de um rapaz que queria ser ave para poder voar e de uma mulher-pássaro que realizou o sonho dele. Além de poético, tem momentos muito divertidos, em especial as descrições das acrobacias do Tom “Hematoma” Cloudman. Como dizem os Franceses, Metamorfose é “un petit bijou”.

Como é conciliar as actividades de escritora e tradutora? As obras que traduzes servem de inspiração para novas histórias ou separas completamente as duas componentes?

Ser escritora e tradutora é viver dentro dos livros de manhã à noite, por isso é muito fácil conciliar as duas actividades, embora me sinta frustrada por dedicar mais tempo no meu dia-a-dia à tradução do que à escrita. Nunca me inspirei directamente num livro de outro autor para escrever os meus romances e nunca me senti tentada a copiar uma imagem ou metáfora. Aprendo muito com a tradução, porque me obriga a analisar, de uma perspectiva interna (e não externa, como um leitor comum), a maneira como outros autores desenvolvem as suas personagens e constroem a trama. Mas separo a tal ponto a tradução da escrita que até uso computadores diferentes para cada actividade.

Já tens algum projecto planeado para um futuro próximo e de que nos possas falar um pouco?

Tenho dois romances na cabeça e estou a construir as personagens e o enredo de cada um, mas ao meu ritmo, ou seja, com muita calma e paciência. Só quando tiver as personagens de “carne e osso” dentro de mim é que passarei à fase da escrita, mas, em princípio, o próximo livro sairá em 2014, o mais tardar. Não gosto de falar dos meus projectos, mas posso adiantar que o protagonista desse romance é um homem e está ligado ao mar; parte da história desenrola-se num farol, numa ilha. Um amigo lançou-me um desafio: escrever sobre um homem subjugado por uma mulher, e estou a criar uma personagem masculina que eu espero que seja extremamente humana e complexa. O outro romance passa-se no mundo da música clássica.

Pergunta da praxe: O que achas do blog Morrighan?

O Blog Morrighan tem tido um papel exemplar na divulgação da literatura portuguesa e está de parabéns. Os blogues têm cada vez mais um lugar crucial na promoção dos livros e todos os esforços que sejam feitos no sentido de aproximar os autores dos leitores são louváveis. A paixão com que falas dos livros que lês é contagiante, Sofia!

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    Olá a todos, sejam muito bem-vindos! O meu nome é Sofia Teixeira e sou a autora do BranMorrighan, o meu blogue pessoal criado a 13 de Dezembro de 2008.

    O nome tem origens no fantástico e na mitologia celta. Bran, o abençoado, e Morrighan, a deusa da guerra, têm sido os símbolos desta aventura com mais de uma década, ambos representados por um corvo.

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