Opinião: Balada para Sophie

Balada para Sophie

Balada para Sophia
Filipe Melo & Juan Cavia

Editora: Companhia das Letras

Opinião: Quem é que decide o que temos ou não direito de fazer? A nós mesmos, ao próximo… Muitas vezes vivemos cada dia como um prolongamento do anterior e em antecipação ao próximo, muitas vezes enfiados nas nossas cabeças, nas nossas ambições, no que achamos urgente atingir, no que achamos que pode ficar para depois. Balada para Sophie é uma espécie de quinta-essência por variadíssimas razões. Muitas delas já foram apontadas noutros textos: Filipe Melo escreveu um argumento sublime, provocando o subconsciente, incandescendo o consciente, tudo envolto numa beleza triste e enternecedora; Juan Cavia na sua arte deu uma vida e um assombro perfeitos a esta dinâmica que flui entre a memória e oblívio.

Honestamente não vou falar sobre os personagens em particular porque já existem vários textos (incluindo a sinopse) que se dobram sobre a análise dos mesmos, e porque o que ainda estou a exorcisar (no bom sentido) é uma sensação de quarto escuro em que nos enfiamos nas nossas lutas interiores e em que a sensação de entitlement e o sentido de obrigação digladiam até nos exaurir, movendo um véu que consegue ser tão ténue.

Confesso, com embaraço, que é a primeira vez que vivo algo composto por Filipe Melo e Juan Cavia. Digo viver em vez de ler porque é uma preciosidade rara encontrar arte e texto conjugados e entrelaçados de forma tão visceral. A experiência tomou de assalto todos os meus sentidos, incluindo os interiores – a dor, a compaixão, a desilusão, o amor, a carência, o arrependimento, a saudade, a esperança e por fim a surpresa, sem ser realmente uma surpresa.

Enquanto estive nos Estados Unidos, antes de a pandemia nos mandar a todos para casa, tive o privilégio de assistir a algumas óperas, incluindo La Traviata (que por alguma razão me veio à cabeça a certa altura). Não sei se vocês já assistiram a alguma ópera, mas para mim é uma experiência incrível. E refiro isto porque quando fechei Balada para Sophie pensei, na minha ignorância sobre a tangibilidade das adaptações, que daria uma das mais belíssimas óperas de sempre. Não um filme, não uma curta, uma ópera com todo o ambiente onírico que esta consegue evocar.

Tendo em conta toda a sua musicalidade e movimento e a composição de Filipe Melo em piano para Balada para Sophie, houve parte de mim que se transportou para uma qualquer sala a projectar a arte gráfica de Juan Cavia animada por figuras de uma performance intensa e hipnotizante. E o fim! O fim deste livro…! A ironia da vida. O universo a manifestar as suas subtilezas mais brutais.

Resumindo e concluindo: sinto que poderia ficar horas a escrever sobre o livro. Sobre os seus pontos de luz e de escuridão, sobre o incrível trabalho gráfico que nos suga e subjuga intensificando as emoções provocadas pela narrativa, sobre a magia que existe à sua volta, incluindo os seus abismos… Existem muitos adjectivos positivos que podem ser atribuídos a Balada para Sophie. No entanto, fundamentalmente considero que este é um livro que coloca a nu o ser humano e a sua complexidade.

Vocês sabem que eu quando gosto mesmo muito de um livro escrevo coisas talvez sem sentido porque ainda sai tudo muito de coração nos dedos. Já passaram duas semanas desde que terminei a leitura de Balada para Sophie, já lhe quis pegar novamente, mas opto por o manter por perto. Não sei se para me recordar, se para me alertar. O que sei é que se junta a A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te e a Nem Todas as Baleias Voam como obras que irei para sempre recomendar.

Dito isto, encontrem Balada para Sophie, comprem/aluguem/o-que-for, percam-se nele. Vale completamente a pena. E, honestamente, vale o dinheiro (comprei o meu, não foi oferecido). Deixo-vos com um vídeo que encontrei de Filipe Melo a tocar o tema que compôs e cujas pautas se encontram no final da obra. Parabéns, Filipe Melo e Juan Cavia, sem dúvida que esta é mais uma obra que vos torna imortais.

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Maria João Covas
Maria João Covas
2 meses atrás

Primeiro que tudo que bom ver-te por aqui outra vez. Já tínhamos saudades.
Em segundo lugar se já queria ler o livro do Filipe Melo agora ainda fiquei mais curiosa. Obrigada por mais uma excelente opinião. Beijinhos

  • Sobre

    Olá a todos, sejam muito bem-vindos! O meu nome é Sofia Teixeira e sou a autora do BranMorrighan, o meu blogue pessoal criado a 13 de Dezembro de 2008.

    O nome tem origens no fantástico e na mitologia celta. Bran, o abençoado, e Morrighan, a deusa da guerra, têm sido os símbolos desta aventura com mais de uma década, ambos representados por um corvo.

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