[Diário de Bordo] Gratidão

No yoga, a prática de Gratidão é um elemento unificador. Entre a meditação e a prática de Asana, não excluindo os outros elementos que incorporam uma prática de yoga completa, praticar Gratidão é um exercício de enraizamento, mas também de libertação. Nos tempos que correm é tão difícil por vezes concentrarmo-nos nas coisas boas da vida, mas a verdade é que estamos constantemente rodeados de pequenos milagres. E mesmo com toda a podridão que por vezes encontramos, é a prática de gratidão que também nos dá esperança e nos faz continuar querer seguir em frente.

Sorrir e acenar é muitas vezes a estratégia usada. Mesmo quando envolvidos nas maiores tempestades, o mecanismo para lidar com os abismos é por vezes sorrir e acenar para o exterior enquanto que a ansiedade e o pânico tomam conta da mente e do corpo. Eu diria que é preciso abraçar essas escuridões, aceitá-las e perceber que elas farão para sempre parte de nós, para finalmente começarmos a verdadeiramente seguir em frente.

Eu sei, parece contraintuitivo. Ninguém quer viver lado a lado com os seus traumas, sendo triggered constantemente. Mas exactamente por isso é que não podemos deixar que o trauma nos domine, mas antes reconhecermos a sua existência e ganharmos distância suficiente para que seja um eco cada vez mais silencioso em vez de um companheiro de viagem constante.

Neste sentido, a prática de gratidão pode ser chave para começarmos a mudar a nossa cognição para um contexto mais claro, menos oprimido e consequentemente mais receptivo. A verdade é que as nossas emoções alimentam-se umas das outras. Tristeza alimenta-se de tristeza, mas também a sensação de deslumbre e de alegria são reforçados com o mesmo tipo de estimulo positivo. E enquanto que isto parece evidente, a verdade é que quando andamos mais cansados e menos resilientes psicologicamente, oscilamos muito entre a alegria e a tristeza, entre a sensação que corre tudo bem e no momento a seguir parece que corre tudo mal.

Relativizar pode ser uma primeira abordagem, mas eu penso que o foco fundamental aqui é parar, respirar fundo (daquelas inspirações que começam por preencher o espaço abdominal, subindo para o diafragma e chegando ao peito em que os ombros naturalmente se levantam, para depois lentamente deixarmos o ar sair, sentindo por inteiro cada espaço físico da respiração) e reconhecer pelo menos três coisas boas. O termos água canalizada, electricidade, comida, uma casa com boas condições, saúde para perseguirmos os nossos sonhos, termos família e amigos que nos suportam, podermos ajudar alguém, sermos a nossa melhor versão de nós mesmos, são só alguns exemplos.

Acho muito importante celebrar cada conquista, por muito pequena que possam achar que é. O nosso cérebro cria novos caminhos neurológicos quando repetimos qualquer prática. Não é só o dizer-se ser-se positivo só porque sim, só porque fica bem dizer que se é positivo. É necessário praticar e reforçar os caminhos neurológicos que aos poucos criam resiliência quando eventos menos bons acontecem.

Gostava de vos propor o desafio de durante um mês, seja logo mal acordam ou antes de se irem deitar, que mantivessem um pequeno bloco de notas e a cada dia colocassem três coisas pelas quais estão gratos naquele dia. Partilhem comigo que efeito é que este exercício vai tendo em vós à medida que avançam no tempo. Quando eu comecei a minha prática, fiquei surpreendida como às vezes parecia difícil encontrar coisas boas que tivessem acontecido naquele dia e aí, o exercício de parar e realmente tomar consciência da minha qualidade de vida, fez toda a diferença.

Quis escrever-vos este post porque acho, muito honestamente, que esta prática pode fazer a diferença e pode ajudar e complementar práticas relacionadas com a ansiedade e ataques de pânico. Em suma, pode fazer a diferença na nossa saúde mental. Respirar fundo, o número de vezes que conseguirem, tomar consciência e manifestar gratidão. Mesmo que sejam completamente cépticos em relação a este assunto, “bear with me”, e dêem uma oportunidade. Se já o fazem, deixem nos comentários algo sobre a vossa experiência. Adoraria ouvir!

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Joana
Joana
6 meses atrás

Olá! Antes de mais, adorei ler este post 🙂
Em 2017 comecei a escrever um “diário de gratidão” e mudou a minha vida! Reparei que havia muito mais razões para estar feliz do que infeliz e que o mundo é lugar naturalmente abundante- a perceção humana é que nem sempre.
Também percebi que, ao “transportar” a gratidão que sentia ao escrever no meu diário para a minha vida social, tanto era uma fonte de inspiração e alegria para aqueles que me rodeavam, como um acto de resistência face um “programa social” que nos leva a focar mais no lado negativo- ou melhor, a tornar negativo algo que por si não é negativo.
Agora já não tenho um diário, mas a gratidão continua a ser algo que cultivo todos os dias na minha vida quotidiana e nas minhas meditações.
Obrigada pelo texto que escreveste e espero encontrar mais posts deste género no teu blog 😀
Namaste <3

Vânia
Vânia
5 meses atrás

Gostei muito deste post 🙂
A verdade é que desde que adoptei essa postura de ser grata pelo que tenho ao invés de me focar no que não tenho, a vida tem retribuído de forma muito mais positiva.
E isto vem no seguimento de ter mudado bastante a minha postura, nomeadamente a procura de uma forma de pensar mais minimalista mas também desde que me revejo como amante da cultura celta que mudei completamente a forma de estar na vida. Por isso, para mim falar em celtas é encher-me de orgulho e até emoção porque têm-me dado tanto!
Eu sempre gostei muito de escrever, e nos dias menos bons escrever também é uma boa ajuda para relativizar as coisas. É um bom exercício escrevermos as nossas preocupações e ao lado escrever aquilo pelo que somos gratos, vamos acabar por perceber que eventualmente não será tão grave assim :).
Quanto ao respirar, ainda tenho que tornar essa prática um hábito no meu quotidiano 😉

  • Sobre

    Olá a todos, sejam muito bem-vindos! O meu nome é Sofia Teixeira e sou a autora do BranMorrighan, o meu blogue pessoal criado a 13 de Dezembro de 2008.

    O nome tem origens no fantástico e na mitologia celta. Bran, o abençoado, e Morrighan, a deusa da guerra, têm sido os símbolos desta aventura com mais de uma década, ambos representados por um corvo.

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